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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



DOUTORAMENTO SOLENE


O eminente sociólogo brasileiro Gilberto de Mello Freyre foi doutorado honoris causa pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 18 de Novembro de 1962. A cerimónia realizou-se na Sala Grande dos Actos da Universidade e o Doutor Gilberto Freyre foi apresentado à colação do grau por S. Ex.ª o Embaixador do Brasil em Portugal.

Pelas três horas da tarde, o cortejo das Faculdades, organizado no edifício joanino da Biblioteca Geral, atravessou o Pátio das Escolas e dirigiu-se à Sala dos Capelos onde a cerimónia de imposição das insígnias doutorais decorreu com o ritual da tradição universitária. Nos arquibancos, repletos de doutores com suas insígnias, sentou-se dentro da sua Faculdade de Letras S. Ex.ª o Ministro da Educação Nacional, junto da Faculdade de Direito S Ex.ª o Ministro do Ultramar e no cadeiral de topo, com outras altas personalidades, o Governador-Geral de Moçambique. Numa tribuna, S. Ex.ª Rer.ma o Senhor Arcebispo-Bispo-Conde. Na teia, além das Autoridades, grande número de ilustres convidados.

Fizeram o elogio do doutoramento e de seu apresentante o Doutor Arnaldo de Miranda e Barbosa e o Doutor Torquato Brochado de Sousa Soares. O Candelário-Reitor Doutor Guilherme Braga da Cruz procedeu à colação do grau, prèviamente solicitado em elegante oração pelo Doutor Gilberto Freyre. O Doutor João da Providência Sousa Costa, Director da Faculdade de Letras, como patrono do novo doutor, fez a imposição das insígnias: o barrete de borla, o livro e o anel de safira. O Doutor Gilberto Freyre percorreu então os doutorais para receber o abraço fraterno de todo o colégio universitário. Sentando-se em seguida entre o Reitor e o Director da Faculdade, depois de fazer o agradecimento na fórmula latina ao claustro conimbricense foi o Doutor Gilberto Freyre conduzido ao seu lugar no cadeiral da Faculdade de Letras.

Finda a cerimónia, reorganizou-se o cortejo em direcção às salas do Paço das Escolas, realizando-se na Sala do Senado a leitura e assinatura da acta.

Antes da cerimónia, o Reitor da Universidade oferecera na sala grande dos banquetes um almoço de gala, em honra do Doutor Gilberto Freyre e do seu ilustre apresentante, a que presidiram o Doutor Lopes de Almeida, Ministro da Educação Nacional, e o Prelado Universitário. O Reitor da Universidade dirigiu nesse almoço uma breve saudação que o Doutor Gilberto Freyre agradeceu. Ao fim da tarde, foi oferecida em casa do orador que fez o elogio do Doutor Gilberto Freyre uma recepção em honra do novo doutor, a que assistiram S. Ex. ª o Embaixador do Brasil, o Cônsul-Geral do Brasil no Porto, autoridades, professores e muitos dos convidados à cerimónia do doutoramento.

Em seguida se publicam alguns dados bio-bibliográficos do Doutor Gilberto de Mello Freyre e os discursos proferidos na cerimónia e no almoço do Paço das Escolas.

DOUTOR GILBERTO DE MELLO FERYRE

1. Notas Biográficas

Filhos de Alfredo Alves da Silva Freyre, magistrado e catedrático da Faculdade de Direito do Recife, e de D. Francisca de Mello Freyre, nasceu na capital de Pernambuco, a 15 de março de 1900. Casou com D. Maria Magdalena Guedes Pereira.

Iniciou os estudos secundários no Colégio Americano Gilreath, do Recife, onde, aos 17 anos, se bacharelou em Ciência e Letras, segundo os padrões do antigo Imperial Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro. Bacharel pela Universidade de Baylor (E.U.A.); Licenciado com tese pela Faculdade de Ciências Políticas (Jurídicas e Sociais) da Universidade de Columbia (E.U.A); Doutor em Letras pela mesma Universidade, com uma dissertação sobre "Sociologia da História da Escravidão". Continuou os seus estudos e investigações em museus antropológicos da Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos (1923, 1926, 1931), sob orientação do famoso antropólogo Franz Boas, professor de Antropologia na Universidade de Columbia, onde teve também como professores Giddings (Sociologia) e Munro (Direito Público), tendo seguido ainda, entre outros, os cursos de Seligman (Economia Política) e John Basset Moore (Direito Internacional).

Fundador da Cadeira de Sociologia na Escola Normal do Estado de Pernambuco (1928); fundador da Cátedra de Antropologia Social e Cultural na Universidade do Rio de Janeiro (1935-1938); foi conferencista ou "professor visitante" nas seguintes universidades: Faculdade de Direito da Universidade do Recife, onde proferiu no Brasil as primeiras conferências sobre Sociologia do Direito (1935); Universidade de Stanford, E.U.A (1935); Universidade de Columbia, E.U.A (1938); Universidade de Michigan e Western Reserve, E.U.A. (1939); Universidade de Indiana, E.U.A (1944); Universidade de San Marcos, Perú (1951); Universidade de Coimbra, onde proferiu uma conferência na Sala dos Capelos (1952) e uma série de lições na Faculdade de Letras (1962); Universidade de Virgínia, E.U.A (1954); Sorbonne, Madrid, Escorial (1956); Universidade Gregoriana (1957); Real Instituto dos Trópicos, Amesterdão (1956); Universidade de Bonn, Colónia e Hamburgo (1960); Princeton (1961).

Supervisor do Centro de Pesquisas Educacionais, para o Nordeste, do Ministério da Educação e Cultura do Brasil, desde 1957.

Membro da Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição do Brasil, onde defendeu a cidadania brasileira para os portugueses. Membro do Parlamento Nacional do Brasil, de 1946 a 1950, como candidato da mocidade universitária. Vice-Presidente e Presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados do Brasil. Um dos oito pensadores e cientistas sociais, de reputação mundial, convocados em 1948 pela UNESCO para opinarem sobre problemas de tensões internacionais, que em conjunto publicaram um livro, editado em inglês, francês, japonês e outras línguas. Delegado do Brasil, com a categoria de Embaixador, à Assembleia Geral das Nações Unidas de 1949, tendo o seu discurso marcado o início da política de auxílio da O.N.U. aos povos em desenvolvimento. Autor do relatório, solicitado pela O.N.U. sobre a situação racial da União Sul-Africana, por ter sido considerado "antropólogo de reputação mundial, conhecido pelo seu saber e respeito pela sua idoneidade" (1954), no qual sugeriu ser a solução portuguesa, desenvolvida no Brasil, a única capaz de resolver satisfatòriamente conflitos em áreas onde se encontrem grupos étnicos e culturais diferentes. Em virtude de projectos de lei de sua autoria, quando membro do Parlamento brasileiro, fundou-se o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, que desenvolve actividades de alto nível, atraindo investigadores post-graduados de universidade europeias, como Heidelberg, e americanas, como Columbia, que ali fazem estágios. No Parlamento preferiu discursos a favor do regime presidencial para o Brasil, contra os "julgamentos de Nuremberg", contra a pena de morte, contra o sistema de concursos para provimento de cátedras universitárias, e promoveu minucioso inquérito parlamentar sobre o problema do livro didáctico no Brasil.

Consultor técnico da Directoria do Património Histórico e Artístico Nacional, do Instituto Nacional de Geografia e do Instituto Nacional de Estatística.

É um dos sete membros honorários perpétuos da Sociedade Americana de Sociologia. Membro honorário da Sociedade Americana de Filosofia, fundada por Benjamin Franklin, membro honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, membro por nomeação ou aclamação da Academia Portuguesa de História e das Academias de História do Equador e da Colômbia. Membro honorário da Sociedade Hispânica da América e do Instituto Hispânico da Universidade de Madrid. Membro por nomeação do Instituto Internacional de Diferentes Civilizações de Bruxelas.

Mestre agregado honorário da Universidade de Buenos Aires, professor e doutor honorário das Universidades da Bahia e do Recife, doutor h.c. da Universidade de Columbia.

Membro do Conselho Diretor de Diogéne, revista de Ciências do Homem (Paris), dos Cahiers Internationaux de Sociologie (Paris) e do Journal of Inter-American Studies (Universidade de Florida, E.U.A.). Membro por aclamação da Academia Francesa de Ciências (do Ultramar); membro-director por aclamação da Sociedade Marc Block para Estudo Comparado das Civilizações, de Paris; presidente do Conselho Director do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais; fundador e director honorário do Instituto de Antropologia Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade do Recife, onde, em 1957, ministrou um curso de Sociologia da Medicina aplicada a situações tropicais.

Criador da sistemática tropicológica para o estudo especificamente antropo-sócio-ecológico do Homem situado no trópico, especialmente do Hispano (Hispanotropicologia) e do Português e do descendente e continuador do Português (Lusotropicologia).

Prémio Felipe de Oliveira, de Literatura (1934); Prémio Internacional Ansfield-Wolf (Princeton) pelo melhor trabalho sobre relações entre raças (1957); Prémio da Academia Paulista de Letras por excelência no ensaio literário (1961).

Objecto, em 1956, de um seminário promovido pelo Prof. Henri Gouhier e outros professores da Sorbonne para estudos das suas ideias e métodos, realizado no Castelo de Cerisy, em França, na mesma série em que foram estudadas as obras de Heidegger e Toynbee. Objecto de cursos universitários nas Universidades de Columbia e Harvard e na Sorbonne. Convidado para reger cátedras da sua especialidade (Antropologia, Sociologia, Filosofia Social) nas Universidades de Harvard e Columbia (E.U.A.), Colónia e Hamburgo (Alemanha), Utrecht (Holanda), Viena (Áustria), Santiago (Chile), Pontifícia de Washington (E.U.A.) e de Estado de Israel; para Fellow da Universidade de Câmbridge (Inglaterra) e professor da Universidade de Lovaina (Bélgica).

Tem sempre recusado cátedras permanentes em universidades, tanto brasileiras como estrangeiras, e, quando consultado, condecorações e outras distinções honoríficas.

2. Notas Bibliográficas

I - Livros:

Casa-Grande & Senzala - Rio, 1933, 1936, 1938, 1943, 1946, 1950, 1952, 1954, 1958, 1961; Lisboa, 1957.

Casa-Grande & Senzala (Tradução espanhola) - Buenos Aires, 1942, 1943.

The Masters and the Slaves (Tradução inglesa de Casa-Grande & Senzala) - Nova Iorque, 1946; Londres; 2ª ed., Nova Iorque-Londres, 1956, premiada como "o melhor livro sobre relações entre raças".

Maîtres et Esclaves (Tradução francesa de Casa-Grande & Senzala) - Paris, 1953 (oito edições).

Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife - Recife, 1934; Rio, 1942, 1961.

Artigos de jornal - Recife, 1935 (esgotado). (Incluído como parte do livro Retalhos de Papéis Velhos, no prelo.)

Sobrados e Mucambos - São Paulo, 1936; Rio, 1951, 1961.

Nordeste - Rio, 1937, 1951, 1961.

Nordeste (Tradução espanhola) - Buenos Aires, 1943; Barcelona, 1943.

Terres du Sucre (Tradução francesa de Nordeste) - Paris, 1956.

Mucambos do Nordeste - Rio, 1937 (esgotado). (Será incluído em volumes que terá por título, nas "Obras Reunidas", Homem, Cultura e Região.)

Conferências na Europa - Rio, 1938 (esgotado).

Açúcar - Rio, 1939 (esgotado).

Olinda - 2º Guia Prático, Histórico e Sentimental de Cidade Brasileira - Recife, 1939; Rio, 1944, 1960.

Um Engenheiro Francês no Brasil - Rio, 1940, 1960 (2ª edição, nas "Obras Reunidas", com o mesmo título, expandido em dois tomos.)

Diário Intimo do Engenheiro Vauthier (Prefácio e notas) - Rio, 1940, 1960. (Incluído na 2ª edição em dois tomos de Um Engenheiro Francês no Brasil).

Memórias de um Cavalcanti (Introdução) - São Paulo, 1940; Rio, 1959 (sob o novo título de O Velho Félix e suas "Memórias de um Cavalcanti".)

O Mundo que o Português Criou - Rio, 1940; Lisboa (s.d.).

Região e Tradição - Rio, 1941 (esgotado).

Ingleses - Rio, 1942. (Será incluído em volume, nas "Obras Reunidas", que terá por título Ainda Ingleses no Brasil.)

Problemas Brasileiros de Antropologia - Rio, 1943, 1959, 1962.

Perfil de Euclydes e outros Perfis - Rio, 1944.

Na Bahia, em 1943 - Rio, 1944 (esgotado).

Sociologia - 1º vol. (2 tomos) - Rio, 1945, 1957, 1962.

Brazil: An Interpretation - Nova Iorque, 1945, 1947.

Interpretación del Brazil - México, 1945.

Interpretação do Brasil (Traduzido do original inglês por Olívio Montenegro) - Rio, 1947; Lisboa (s.d.).

Interpretazione del Brazile (Tradução italiana do português, de Interpretação do Brasil, Bilb. Mondiale Bocca) - 1954.

Ingleses no Brasil - Rio, 1948.

Quase Política - Rio, 1950.

Um Brasileiro em Terras Portuguesas - Rio, 1953; Lisboa (s.d.).

Aventura e Rotina - Rio, 1953; Lisboa, 1962.

Ordem e Progresso - Rio, 1959, 1962.

Em torno de alguns túmulos afro-cristãos de uma área africana contagiada pela cultura brasileira: Moçâmedes - Bahia, 1959.

Vida, Forma e Cor rio, 1962.

Talvez Poesia - Rio, 1962.

II - Opúsculos:

Social life in Brazil in the middle of the 19th century - Baltimore, 1922 (esgotado). Será publicado em português, com vários outros trabalhos escritos e publicados em inglês, francês e espanhol em volume que terá o título de, nas "Obras Reunidas", Palavras repatriadas.

Apologia pro generatione sua - Paraíba, 1924 (esgotado). (Incluído em Região e tradição.)

A propósito de Dom Pedro II - Recife, 1925 (esgotado). (Incluído em Perfil de Euclydes e outros perfis.)

Bahia de todos os Santos e de quase todos os pecados - Recife, 1926 (esgotado). (Publicado, com outros poemas, em Talvez poesia.)

O estudo das ciências sociais nas Universidades Americanas Recife, 1934 (esgotado). (Será publicado, com outros trabalhos, em volume, nas "Obras Reunidas", que terá o título de Antecipações.)

Uma cultura ameaçada - Recife, 1940; Rio, 1942 (esgotado). (Incluído como apêndice, em O mundo que o português criou.)

Uma cultura amenazada - Buenos Aires, 1943.

Atualidade de Euclydes da Cunha - Rio, 1941. (A ser incluído em Perfil de Euclydes e de outros perfis.)

Euclydes da Cunha - Buenos Aires, 1941.

Continente e Ilha - (Conferência lida em Porto Alegre em 1940) - Rio, 1943 (esgotado). (Incluído em Problemas Brasileiros de Antropologia.)

Ulisses (Conferência) - Recife, 1945 (esgotado). (Incluído em Quase política.)

Modernidade e modernismo na arte política - São Paulo, 1946. (Incluído em 6 Conferências em busca de um leitor.)

Ordem, Liberdade, Mineiridade - Rio, 1946. (Incluído em 6 Conferências em busca de um leitor.)

Joaquim Nabuco - Rio, 1948. (Incluído em Quase política.)

O Camarada Whitman - Rio, 1948. (Incluído em 6 Conferências em busca de um leitor.)

Guerra, Paz e Ciência - Rio, 1948. (Incluído em 6 Conferências em busca de um leitor.)

Nação e Exército - Rio, 1949. (incluído em 6 Conferências em busca de um leitor.)

Manifesto regionalista de 1926 - Recife, 1952; Rio, 1954. (Será publicado, com outros trabalhos, em volume, nas Obras Reunidas, que terá por título Homem, Cultura e Região.)

José de Alencar - Rio, 1952. (Será publicado, com outros trabalhos, nas "Obras Reunidas", em volume que terá por título Homem, Cultura e Região.)

Em torno da situação do professor no Brasil (Trad. de trabalho escrito e publicado em inglês no Year Book of Education, da Universidade de Londres, 1951.) - Recife, 1956. (Será incluído, nas "Obras Reunidas", em volume que terá por título Palavras repartidas.)

Sugestões para uma nova política no Brasil: A rurbana - Recife, 1956. (Incluído em Quase política.)

New world in the thropics - Knopf, New York, 1959.

Integração portuguesa nos trópicos - Lisboa, 1959.

Sugestões em torno de uma orientação para as relações internacionais no Brasil - São Paulo, 1958.

A propósito de frades - Bahia, 1959.

Uma política transnacional de cultura para o Brasil de hoje - Belo Horizonte, 1960.

Brasis, Brasil, Brasília - Lisboa, 1960.

O Luso e o Trópico - Lisboa, 1961.

Les Portugais et les Tropiques - Lisboa, 1961.

Sugestões de um novo contato com Universidades Europeias - Recife, 1961

ALOCUÇÃO DO DOUTOR GILBERTO DE MELLO FREYRE

Aqui estou, Magnífico Reitor, para solicitar de vossa magnificência a investidura do grau de doutor que sábia mas, neste caso, generosa congregação resolveu conferir-me, ligando-me para sempre, dentro do velho rito coimbrão, a esta Universidade: ao seu passado, ao seu presente e ao seu futuro, três tempos em Coimbra são verdadeiramente um só.

Quem mais se espantaria de ver-me hoje receber, em cerimónia quase de sagração religiosa e como simples particular, as insígnias doutorais da Universidade de Coimbra seria, se ainda vivesse, minha avó materna, que Deus haja. Filha de português - português agraciado em 1859 pelo então imperador do Brasil com título expressivamente brasileiro, do qual o recebido agora de Portugal pelo bisneto seria generosíssima retribuição, se não fosse uma graça sem igual; filha de português, para a boa da minha avó, Coimbra constituía nada menos que o centro intelectual do mundo; e maior, aos seus olhos, do que um doutor de Coimbra só um santo da Igreja, dentre os da sua particular devoção de católica, apostólica, romana.

Sucedeu, porém, que ao falecer a virtuosa senhora eu, seu décimo terceiro neto, apresentava, já menino de oito anos, características tais de retardado mental, incapaz de aprender a ler, a escrever e a contar, que a toda a família afligia e envergonhava o meu atraso. Principalmente àquela matriarca avó. Só mais tarde, já ela infelizmente morta, surgiria no neto, menino sempre difícil, o desejo de saber.

Desejo de saber. Dos oito anos até hoje só tenho feito procurar recuperar o tempo a princípio tão perdido. Continuo estudante. Estudante nômade. Estudante itinerante de um tipo, aliás, comum na Idade Média. Cigano de toga. Clérigo andante, dos que inquietaram naquela época alguns bispos, sem deixarem de ser, por vezes, úteis à cristandade, pelo saberes novos e até exóticos que, com suas peregrinações, acrescentavam aos antigos e clássicos.

Posso talvez dizer-me discípulo remoto, neste particular, não direi do mítico Frei Gil, escolar até de bruxarias, mas daquele Pedro, duque de Coimbra, cuja divisa de português por algum tempo nómade - e, no seu caso, ínclito - foi "désir". Desejo menos de ensinar do que de aprender. Menos de enriquecer do que de instruir-me. Menos de trazer do estrangeiro para a sua gente tesouros de ouro e preciosidades de prata do que saberes aliciantemente novos.

Fui durante largos anos no estrangeiro um estudante que à pele do que Rousseau chamava "homem natural" acrescentou tantas outras, adquiridas em Universidades, que hoje não conseguiria, se o quisesse, desprender-me delas. Apenas não me liguei nunca, depois de formado, só e particularmente, como mestre universitário, a um Universidade única.

De tal modo que há quem me suponha, além de autodidacta, antiacadémico. Nem uma coisa nem outra. Nenhum brasileiro da minha geração terá tido uma tão sistemática formação universitária; nem o convivio, antes e depois de formado, em Universidades várias, com mestres universitários tão insignes.

Faltava-me entretanto, convivio mais demorado - que acabo felizmente de ter - com a mais nobre das Universidades do mundo de língua portuguesa. Com a mais antiga. Com a mais gloriosa. Com a muitas vezes secular Coimbra, cujos doutores agora, generosamente, me convocam para o seu colégio.

Solicitando do magnífico Reitor, como os estatutos da Universidade mandam e a praxe exige, a investidura do grau que me foi concedido, cumpro velho rito com aquela humildade que não deve faltar nunca a nenhum de nós, quando é diante da tradição que nos encontramos; e quando é à tradição que somos chamados a nos curvar. No caso, à mais bela tradição intelectual do mundo de expressão portuguesa. Uma das mais belas da Europa inteira e não apenas da latina.

DISCURSO DO
DOUTOR ARNALDO DE MIRANDA E BARBOSA

SENHOR REITOR DA UNIVERSIDADE
SAPIENTISSIMOS DOUTORES
SENHORES ESTUDANTES
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES:

Os homens não são feitos de uma só peça, como os anjos e os brutos - disse na Baía o nosso Padre Vieira para mostrar a escravos pretos de um engenho a liberdade do espírito.

Lembro estas palavras, velhas de três séculos, quando me inclino sobre a extensa obra de Gilberto Freyre, para entender a sua alma. Porque esse espírito vivificador de uma obra admirável, que paradoxalmente associa o rigor científico à leveza do ensaio, a graça e frescura do estilo à textura compacta do volumoso tratado, o impressionismo das sensações fortuitas à desenvolução lógica de uma ideia germinal, é verdadeiramente o espelho vivo de um universo transfinitamente variado e complexo, nas origens, nas formas, na teia das suas inextricáveis relações. Esse é o mundo dos horizontes que, através de uma vida existencialmente realizada, para além das ancestrais raízes biológicas e do ambiente onde se criou, lhe conformaram a personalidade, pelo ensino dos mestres, pelo estudo dos livros, pela observação atenta das coisas, pelo trato dos homens.

É certo que esses horizontes culturais só em parte nos explicam o homem e a obra, pois esta, nas suas antecipações ou intuições teúrgicas, aparece tocada de uma originalidade criadora que é dom ingénito ou graça inexplicável. Porém, se não explicam totalmente, ajudam a compreender e amar obra, onde nem todos podem aceitar tudo, mostrando que é feitura de um autor em evolução e revisão constante: imagem de uma personalidade que não é feita de uma só peça, como o anjo, embora através dessa criação continuada se descubra sempre a unidade do espírito e o percurso da ideia geratriz.

Senhores. Não vou esmiuçar aqui uma carreira científica conhecida e julgada nas mais célebres Universidades do mundo, em muitas das quais Gilberto Freyre já professou, apresentando a estranhos as raízes e os frutos da nossa própria cultura. Nem seria possível, pois sobre o sociólogo, o historiador, o escritor, o artista, já se imprimiram em muitas línguas milhares de páginas. Para entender a vastidão do tema, bastaria considerar o grosso volume agora publicado, a comemorar o quarto de século da sua obra de renome trans-nacional - Casa Grande & Senzala - onde mais de sessenta intelectuais brasileiros dissertaram sobre Gilberto Freyre: sua Ciência, sua Filosofia, sua Arte, analisando o seu estilo; investigando os métodos, as fontes da obra, os fundamentos filosóficos da doutrina; discutindo no autor o seu tradicionalismo, o seu regionalismo, as suas posições superadoras em face do movimento modernista; esclarecendo aspectos do seu contributo para a criação de um novo domínio científico - a Luso-Tropicologia - e para a integração das sociologias regionais na Sociologia Geral, de unificação progressiva e lenta; lembrando o que lhe devem os estudos de Antropologia e Geografia Humana, a estimação dos elementos integrantes da sociedade brasileira e dos valores rurais; indicando as suas influências na Literatura e na Arte, na formação sociológica dos métodos e dos juristas brasileiros, nas novas gerações e até na vida do povo e nos destinos do Brasil.

Nem tão-pouco vou desfibrar miudamente uma vasta obra que ultrapassa meio de livros e opúsculos de tomo, fora os escritos dispersos e os artigos em revistas e jornais. Analisá-la toda seria impossível, mesmo integrados nesse alongado, vagaroso tempo, revelado por Gilberto Freyre como elemento importante na formação das sociedades íbero-tropicais - tempo para o qual nunca há pressa de acabar. E, se não foi ainda realizado o estudo objectivo e construtivo da crítica portuguesa que esta obra reclama, apreciando alguns juízos ou pontos de vista muito discutíveis, sobretudo derivado de fontes historiográficas portuguesas que de preferência utilizou, não é, por certo, este o momento e o lugar de o fazer.

Vou, portanto, deter-me em alguns aspectos relevantes que nos permitam reflectir sobre o sentido geral e o alcance da obra, de modo a compreendermos a razão profunda de havermos sido convocados a claustro nesta sala venerável para abraçar Gilberto de Mello Freyre como doutor da Universidade que foi madre e mestra da cultura luso-tropical.

Para quem conheça a vida e, atento, leia a obra de Gilberto Freyre, as primeiras impressões são dominadas por um misto de sedução e de estranheza.

Sedução pelo encanto do prosador, cujo estilo desafectado é também, como certos mares dos trópicos que parecem coalhados de flores, um rio fluente, não de imagens literárias, no sentido retórico da expressão, mas de evocações do real concreto, das quais se desprende para os sentidos e para o entendimento o clima recriador de situações vividas e tipos sociológicos. A originalidade do processo literário no domínio científico está sobretudo em evitar a exposição teórica ou abstracta, em partida da figuração quase pictural dos quadros sociais para daí chegar à compreensão geral dos princípios e das leias. Por isso é que neste método empírico, servido pela arte de um vigoroso prosador, tem grande importância a utilização de símbolos, quase sempre contrários mas complementares, alguns dos quais como que resumem os elementos genesíacos da sociedade brasileira. Com os sentidos sempre despertos para observar o que o rodeia, apreciador dos bons quitutes como o nosso Poeta de Oaristos, ao exprimir-se nessa prosa quase falada temos a sensação de que o escritor como que saboreia os temas que descreve. Foi essa arte de apreender saboreando, de descrever pintando, de construir sugerindo, que tem levado a afirmar ser a obra de Gilberto Freyre, mais do que extracto científico, um novo e fecundo método, servido por um original estilo de pensar e de expressar o pensamento.

Sedução ainda, provocada por antecipações daquilo que, depois de revelado, a todos parece simples; por valorizações, já vitoriosas, de elementos esquecidos ou sub-estimados; por intuições que iluminaram a compreensão histórica e sociológica do mundo que o Português criou.

Mas, além de sedução, estranheza. Estranheza pelos contrastes entre momentos de uma evolução espiritual longamente arrastada por via sinuosa. Estranheza ainda, por não estar a obra isenta de preconceitos. De sectarismo, sim. Mas de preconceitos, o próprio autor afirma, na Introdução ao 1º volume da Sociologia, que as suas páginas não estão livres deles, nem de sentimentos e personalismos. Daí, alguns contrastes e até aparentes contradições. E como poderia deixar de apresentar contrastes uma obra em que os mesmos temas se repetem sob diversos ângulos de visão e cujo objecto por excelência - a sociedade brasileira e, por extensão, as sociedades luso-tropicais - é um objecto em si mesmo complexo, um fusão de contrastes, uma coincidência de oposições?

Precisamente a nota dominante do espírito de Gilberto Freyre é o poder de associar, de fundir, de integrar, superando. Há espíritos geométricos para os quais as ideias se encadeiam em sistemas rígidos e fechados. Outros, porém, sem quebra de coerência e de originalidade criadora, recolhem e congraçam oposições. São estes, por certo, os mais fecundos, porque o progresso do saber vai-se gerando quase sempre por integrações superadoras. Gilberto Freyre é da linhagem destes espíritos : ninguém, como ele, soube entender tão justas e equilibradamente a sociedade brasileira como síntese superadora de elementos contrastantes - regiões diferentes, raças e línguas diversas, culturas distintas, tudo caldeado numa promissora civilização.

Caminheiro insaciável das grandes rotas do mundo, a casa onde descança e trabalha, a sua velha casa de Santo António de Apipucos é, ela mesma, um símbolo desse espírito. Casa-grande de engenho, o nome evoca o mais universal dos portugueses, e fica situada no Recife, em Apipucos, topónimo que na origem ameríndia quer dizer: onde os caminhos se encontram. Pois a sua obra é precisamente a encruzilhada onde se encontram os caminhos culturais que Gilberto Freyre percorreu.

Descendente de antigas famílias de senhores de engenho, de origem portuguesa, com uma avó de ascendência britânica, neste brasileiro nordestino, pernambucano do Recife, pode descobrir-se remoto toque de sangue ameríndio, mas não de sangue negro. Assim, no paladino da democracia étnica e da miscigenação, a valorização do negro e do mestiço tropical não pode atribuir-se a um apelo do sangue: é resultado de uma formação cultural voltada com realismo para a tradição da sociedade brasileira. Pois já no século XVII o Padre António Vieira - esse, sim, neto de preta - não dissera ao ver o Brasil invadido pelos holandeses, povo mais branco e loiro do que o nosso: - "não seremos tão pretos a respeito deles como os índios em respeito de nós?". E não acrescentara: - "haverá maior inconsideração do entendimento nem maior erro do juízo entre os homens, que cuidar eu que hei-de ser vosso senhor porque nasci mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, porque nascestes mais preto?".

Filho de um humanista, magistrado e catedrático da Faculdade de Direito do Recife, Gilberto Freyre fez os estudos secundários num colégio americano da cidade natal. Aí, na adolescência, travou os primeiros contactos com a cultura anglo-saxónica e, através dela, com a mística de pureza da raça, de superioridade do nórdico sobre os demais povos, e o desdém pelas terras quentes e gentes mestiças. Foi, então, para uma Universidade norte-americana, situada num dos centros mais vivos da mística etnocêntrica anglo-saxónica. Aí permaneceu dois anos, em ambiente cordial, onde se desenvolveram alguns preconceitos lavados do meio em que nascera e se criara. Mas aí também, nesse meio, começou a reacção, menos sentimental do que científica, aos preconceitos dominantes que, sem o atingirem como indivíduo, o faziam pensar no futuro de um povo em grande parte mestiço - o seu povo, o povo brasileiro. E é curioso o que ele nos confessa: nessa fase de crise e transição quase não teve contacto com escritores e cientistas brasileiros empenhados já na reabilitação de valores tropicais. Dessa Universidade de Baylor, onde obteve o grau de bacharel, passou à Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Ciências Jurídicas e Sociais e onde, mais tarde, veio a ser doutor em Letras. Aí entrou em contacto com grandes antropólogos, sociólogos, historiadores, seus mestres, que verdadeiramente formaram o seu espírito científico. Foi esse o período em que alargou os horizontes culturais, pelas mais variadas e opostas leituras. Foi também nesse período que se inclinou para o estudo das coisas hispânicas, gosto desenvolvido em Oxónia, onde continuou a sua formação, depois completada na França e na Alemanha. Da Inglaterra passou a Portugal, através da França e Espanha, e regressou finalmente ao Brasil, para mais tarde se transformar num peregrino dos centros universitários americanos e europeus: um "cigano de beca", na sua familiar expressão.

O contacto com grandes Universidades no período de formação foi decisivo. Elas lhe abriram horizontes para a realidade brasileira, não só com objectividade científica, mas também com amplitude universal. E esse logo convívio com a cultura anglo-saxónica, que lhe permitiu utilizar a língua inglesa como sua própria, impediu salutarmente que neste apaixonado dos trópicos as criações literárias se transformassem em verbalismo retórico. Talvez por isso este brasileiro eloquente insista em negar-se qualidades de orador.

Foi no período dos seus estudos na Universidade norte-americana de Columbia que Gilberto Freyre encontrou o grande tema da sua obra, pois a sua dissertação de licenciatura tratou da "vida social do Brasil nos meados do século XIX".

Regressado ao Nordeste pernambucano, após quase seis anos de ausência, como que redescobre o Brasil, essa terra a que o Padre Nóbrega chamara "a melhor terra do mundo". Mas esse novo achamento, se tem o mesmo alvoroço da carta de Pero Vaz, é também encarado, com espírito crítico, a uma nova luz. É esse o período em que, intervindo no movimento tradicionalista e regionalista do Recife, prepara a primeira obra de renome transnacional - Casa-Grande & Senzala - o mais erudito e literáriamente talvez o mais sugestivo dos seus livros, onde estuda a formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal, considerando as características gerais da colonização portuguesa, os antecedentes e predisposições do colonizador, o indígena ameríndio e o escravo negro na vida da família brasileira. Aí explica a gestação histórica e sociológica do Brasil, usando símbolos de polaridade que traduzem o equilíbrio de contrários, predominando sobre todos o mais geral e mais profundo: o senhor e o escravo.

Este é o primeiro painel de um tríptico. O segundo - Sobrados e Mucambos - estuda a decadência do patriarcado rural do Brasil, mostrando como se modificou a paisagem social durante o século XVIII e primeira metade do seguinte.

Nestas duas obras, "o centro de interesse para o estudo dos antagonismos e das acomodações que lhes atenuaram a dureza foi a casa - a casa maior, em relação com a menor, as duas em relação com a rua, com a praça, com a terra, como o solo, com o mato, com o próprio mar". Na primeira, mostra como o sistema casa-grande-senzala chegara a ser "uma quase maravilha de acomodação: do escravo ao senhor, do preto ao branco, do filho ao pai, da mulher ao marido. Também uma quase maravilha de adaptação do homem, através da casa, ao meio físico". No segundo, mostra a necessidade que houve de procurar novas relações de subordinação, "quando a antiga acomodação se quebrou, quando as casas-grandes se urbanizaram em sobrados e as senzalas quase se reduziram a quartos de creado, crescendo ao lado dos sobrados as aldeias de mucambos".

Ordem e Progresso é o terceiro painel desse tríptico, em que nos explica a formação do Brasil contemporâneo. Mas, entre o primeiro e o último desses quadros, que variados e sugestivos estudos publicou sobre a terra, a vida, a sociedade, a cultura, os costumes do Brasil! No Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife e no de Olinda, faz-nos percorrer a paisagem e a história das duas capitais pernambucanas; em Nordeste, mostra-nos aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem nordestina; em Açucar, com visão sociológica colige receitas de velhos e gostosos quitutes dos engenhos; no volume de ensaios A Propósito de Frades, ocupa-se do esforço franciscano em terras de Santa Cruz; e tantas outras obras aqui inumeráveis, de natureza histórica, biográfica, antropológica, sociológica, entre as quais sobressaiem Brasil, Brasis e Brasília e Interpretação do Brasil, dois livros em que desenvolve a ideia da unidade e pluralidade brasileira e condensa as linhas mestras do seu pensamento sobre as raízes, as formas e os destinos dessa grande nação e da sua cultura.

Estas obras, na sua multifária dispersão e na sua unidade intencional, só por si justificariam esta colação de Gilberto de Mello Freyre como doutor conimbricense. Porém, outra é a razão mais funda de termos sido convocados a claustro, pois não estamos reunidos nesta Sala Grande, que simboliza quase sete séculos de cultura portuguesa, só para aumentar com mais uma pedra branca o pedestal dessa estátua que se está erguendo em vida de Gilberto Freyre e que é a longa teoria de homenagens que tem recebido, tanto dentro como fora da Pátria; porque Gilberto Freyre representa para nós, universitários de Coimbra, alguma coisa mais do que um sábio investigador e um grande artista: como criador da Luso-Tropicologia é um dos intérpretes mais qualificados e, por certo, o mais original e sugestivo, da complexa realidade cultural a que pertencemos.

A visão trans-nacional da capacidade portuguesa para criar uma civilização luso-tropical foi para Gilberto Freyre o resultado de um processo científico. Partindo do estudo da sua região - o Nordeste - para atingir a interpretação do Brasil na sua unidade e pluralidade regional, esta interpretação integrou-se numa visão mais larga - o luso-tropicalismo -, abrangendo o mundo que o Português criou, como forma específica e bem caracterizada de outra forma genérica, a hispano ou íbero-tropical. Para essa integração compreensiva e relacionadora contribuíu decisivamente o conhecimento que veio a adquirir de quase todo o mundo português, do Minho a Goa, que amorosamente descreve nessas aguarelas de sabor garrettino, coligidas em Aventura e Rotina, diário de viagem depois completado pelo volume que intitulou Um Brasileiro em Terras Portuguesas.

Conferências na Europa, O Mundo que o Português Criou, Integração Portuguesa nos Trópicos, O Luso e o Trópico, eis alguns dos padrões com que assinalou o seu descobrimento do nosso mundo, com rigor de análise, pendor compreensivo, amplitude de interpretação. Porque essa interpretação não se confinou a simples análise fenomenológica, constituiu-se num sistema explicativo, numa especialização regional da Sociologia, com seus fundamentos filosóficos, seus processos científicos, suas consequências metodológicas na acção.

Em síntese, qual a lição que poderemos colher do pensamento de Gilberto Freyre?

A primeira constante do seu pensamento é a de o Povo Português, como o Brasileiro, não ser uma raça. Com efeito, nunca o foi, mas sim mescla de raças, desde as suas origens peninsulares, pois a Península Ibérica foi um cadinho de miscigénese biológica e integração cultural.

A segunda constante é a de que o Português, pela ausência de preconceitos racistas, mais do que qualquer outro europeu e sobretudo mais do que o nórdico, criou e continua a poder criar nos trópicos uma civilização com características novas e estáveis. Assim, o segredo da obra colonizadora dos portugueses, facilitada pela maleabilidade da missionação católica, diversa do cristianismo bíblico e rígido de outros colonizadores, está radicada nas suas possibilidades bio-psíquicas de fixação e integração nos trópicos. Esta integração funda-se na mistura das raças e na funsão das culturas, quer dizer, no aproveitamento dos vários aspectos sócio-culturais, que formam o todo, e não no simples aniquilamento por uma forma cultural superior de todas as outras formas mais ou menos primitivas de civilização: no domínio das normas de convivência, dos costumes, da evolução da língua, da arte, da habitação, até da culinária e das modas de trajar. O que não significa que nesse caldeamento a evolução não obedeça a ideais regulativos de aperfeiçoamento e realização de uma escala de valores, pois de contrário a síntese integradora ficaria reduzida a um tradicionalismo sincrético estagnante, não atingindo a forma de autêntica aculturação viva, em movimento catártico de progresso e ascenção. Para nós, o exemplo do Brasil é preciso, pois a grande nação brasileira tem como nós, ainda hoje, os mesmos problemas de assimilação e aculturação de povos silvícolas, os mesmos problemas de auto-colonização de um território imenso do interior ainda inexplorado, os mesmo problemas de equilíbrio entre desenvolvimento agrícola e de desenvolvimento industrial, adaptados às exigências de uma comunidade que se estende, na sua maior parte, em regiões quentes dos trópicos.

A terceira constante é a de que, numa autêntica integração, não há incompatibilidade entre a unidade do todo e a diversidade regional das partes. Ora, se o Brasil é um continente composto de diversas regiões naturais, ecològicamente diferenciadas, e uma autêntica civilização brasileira foi e deve ser costeira e bandeirante, talássica e telúrica, sem que uma região imponha às outras a sua própria caracterização, também nós temos os mesmos problemas. Porque também nós temos regiões as mais diversas, desde a faixa europeia da Península às praias de Timor. Também nós temos continentes, não no Portugal da Europa, como por anacrónica perspectiva se continua a dizer, mas no interior de Portugal em África. E, por isso, também nós temos de persistir na construção de uma civilização moderna, a um tempo talássica e telúrica, portuguesa, sem dúvida, mas transcontinental por excelência.

MAGNÍFICO REITOR:

A saudade e a esperança são dois sentimentos polares dos portugueses. Se a primeira nos faz desenterrar as fundas raízes do passado para nos temperar a fortaleza, a segunda nos incita à realização do terceiro milagre português. Pois, se o primeiro foi a descoberta das novas terras e dos novos mares, a que fomos arrastados pelo génio do Infante e pelo sonho da Índia, e o segundo foi a gestação grandiosa do Brasil, o terceiro será a construção de uma grande nação moderna, na pluralidade e dispersão dos nossos territórios, na unidade de uma Pátria, na comunhão fraterna das raças que constituem o Povo Português, na integração promissora de uma nova e esperançosa cultura.

Se de Coimbra partiram, desde Nóbrega e Anchieta, tantos daqueles que conformaram a alma brasileira, o Brasil nos paga generosamente com a lição do mestre que hoje se abeira deste doutorais.

A nobre figura de diplomata que é o Embaixador Negrão de Lima aqui nos trouxe, em nome da maior criação do génio português, um brasileiro dos mais universais e, ao mesmo tempo, dos que melhor têm sentido e amado a nossa paisagem, a nossa vida, a nossa História, as nossas energias criadoras, não só confinadas à pequena casa lusitana, mas por todos os continentes repartidas. Tais presenças nesta Universidade, tão estreitamente ligada à História do Brasil - à aculturação do povo, à formação do escol, à própria unidade da Nação Brasileira - têm força de um apelo e alcance de um símbolo.

Quando os sinos da torre daqui a instantes repicarem, ouçamo-los como quem ouve a voz do próprio tempo em que nos alongámos por esses vastos espaços tropicais que descobrimos, como quem sente a voz que chama, acorda, incita a prosseguir, contra todos os ventos, a empresa de criar uma nova e grande civilização luso-tropical: de formar com os pedaços do nosso corpo, divididos por quatro partes do mundo, mìsticamente ligados por uma só alma nacional - um grande, um novo, um segundo Brasil.

DISCURSO DO DOUTOR TORQUATO DE SOUSA SOARES

MAGNÍFICO REITOR

PRECLAROS DOUTORES, MESTRES E ESCOLARES
DA NOSSA ALMA MATER
SENHORAS E SENHORES:

De longada, arribava um dia à Pátria de sua Pátria um dos mais expressivos espíritos brasileiros de nossos dias - o Prof. Erneto de Morais Leme, mestre insigne de Direito e então reitor magnífico da grande Universidade de São Paulo.

Vinha com a devoção do romeiro que anseia por saciar a sua alma na contemplação da terra santa de seus maiores. Por isso, ao jornalista que, ao procurar colher as primeiras impressões, indagava, pressuroso, há quanto tempo não vinha a Portugal, respondeu sem hesitar:

-

Há quatrocentos anos!

-

Fora, efectivamente, ainda no século XVI, que tanto os Morais como os Leme, de boa cepa portuguesa, se tinham fixado - e para sempre - no Brasil.

Mas, nem por ter sido tão longa a ausência, a chama de portuguesismo se extinguira no lar desses lusíadas generosos, heróis obscuros de uma obra sem par, qual foi a da expansão da própria pátria, que conseguiu, sem se desvirtuar, estender à terra novamente achada as suas raízes robustas, e nela as fixar para sempre.

Realmente, quatro séculos não tinham bastado para aniquilar, nem sequer mermar o espírito de fidelidade à mãe-patría desses ignorados obreiros da grandeza do Brasil. Pelo contrário: acrisolaram-no.

E tanto assim, que um seu descendente, singularmente qualificado, pôde voltar quatro séculos depois, animado pelos mesmos sentimentos - pela mesma alma - a receber aqui, com a láurea doutoral, a consagração da sua fidelidade.

O acto, em todo o seu explendor litúrgico, tem-se repetido algumas vezes; mas nem por se repetir se abastarda e fenece a sua profunda expressão simbólica. E hoje, uma circunstância feliz, que a ninguém passará despercebida, faz até com que avulte singularmente.

Quero referir-me ao facto de o novo caminheiro de longes terras, que a nossa alma Mater recebe com desusado júbilo, ser mestre de Portugalidade e, como tal, duplamente lusíada - porque o é por sentimento atávico e, simultâneamente, por inteligência criadora - sentimento e inteligência que se casam no seu espírito tão harmoniosamente, que bem poderíamos dizer que, se Gilberto Freyre sente como lusíada quando pensa, é também como lusíada que pensa, quando sente. Como lusíada que teve um dia a coragem de escrever - e nunca se arrependeu de o ter feito - "que, depois de Cristo, ninguém contribuíu tanto como o Português para desenvolver o amor fraternal entre os homens".

Não foi, por isso, apenas por um imperativo de inteligência que o seu espírito tão fecundamente criador se tornou um espírito ecuménico na mais ampla, na mais profunda e significativa expressão da palavra; foi também - ouso afirmá-lo - por um imperativo de sentimento bem português, que não exclui, evidentemente, a mais rigorosa objectividade científica.

Pois, se é certo que foi por dura imposição de vida que o Português se lançou ao mar, certo é também que foi o desejo incontido de se realizar plenamente e, portanto, também espiritualmente, como quem tem a consciência muito nítida da missão que, por mandato divino, é a sua missão, que, logo em seguida, se tornou, na expressão tão camoneana, lusíada, ou seja o Português, cuja medida, sem deixar de ser a da pequena Casa Lusitana, se passa a aferir pela grandeza do Universo.

E foi assim, Senhoras e Senhores, que, para o presente e para o futuro da Humanidade, surgiu, como um dos seus valores mais significativos e de mais larga e vigorosa projecção, o Mundo que os Portugueses criaram, na expressão impressionantemente viva do grande sociológico que nos honra com a sua presença. Esse mundo que - como tão bem acentua ainda Gilberto Freyre - não se alicerça nem na força bruta, nem no poder militar, nem mesmo na superioridade técnica ou na astúcia económica, mas no amor, apenas no amor fraternal, que daria aos portugueses a sua incomparável capacidade para conquistar almas e consquistá-las para sempre.

Razão tinha, pois, o organismo que tem a seu cargo a defesa do nosso património artístico, para proclamar, ao deferir uma petição do eminente brasileiro:

-

Onde está Gilberto Freyre, está Portugal!

-

Está, realmente, e não apenas na sua deliciosa mansão de Santo António de Apipucos, não apenas em algum outro lugar do Brasil onde se demore o eminente lusíada; mas em qualquer parte do Mundo onde o seu espírito floresça - porque o espírito de Gilberto Freyre, justamente porque se alimenta da seiva fecunda das suas raízes ascestrais, é inconversível.

E foi, afinal, esta circunstância - diria, certamente com mais propriedade, este facto - que a sua obra e a sua própria vida testemunham tão eloquentemente, que, impondo-se à nossa inteligência e à nossa consciência de portugueses, trouxe até aqui o insigne brasileiro que, com o seu labor mental, tão alto conseguiu erguer o crédito da grei.

Até aqui, Senhoras e Senhores, até este autêntico santuário lusíada, talvez o mais expressivo de quantos se implantaram em terra portuguesa através da sua história tantas vezes secular, porque pôde acompanhar com impressionante fidelidade o seu curso, mesmo quando a tormenta o agitava, vibrando com a Pátria desde os seus alvores, e vinculando-se-lhe tão completamente, que para sempre ficou a ser símbolo vivo da sua grandeza e da sua perenidade.

Realmente, teria sido nesta casa, sentinela vigilante e intemerata contra a ameaça sempre do mouro agressivo, que, muito provàvelmente, nasceu o nosso primeiro rei - o grande Afonso, "principe subido". Foi nela que se reuniram algumas das cortes gerais que deram à Nação a consciência da sua unidade, rasgando novos caminhos aos seus destinos. E foi ainda nela que, finalmente, se veio fixar, como que por singular predestinação, o velho Estudo Geral dionisiano, remoçado e engrandecido pelo largo e clarividente espírito do nosso rei D. João III, aqui ficando, não só para dar à Nação alguns dos seus valores mais fortemente representativos, mas como que para manter bem viva a chama da Pátria na sua feição tão profundamente, tão largamente ecuménica.

Por isso, ecoam ainda por estas paredes, enriquecidas com a imagem dos nossos reis, os nossos cristãos atrevimentos, aqueles feitos valorosos que, por serem audazmente criadores, não o foram sem que a dor os nimbasse, gerando no seu seio as nossas mais radiosas esperanças.

E louvado seja Deus que, na sua infinita sabedoria e na sua infinita generosidade, permitiu que essas mesmas esperanças se transformassem na mais bela, na mais maravilhosa, na mais promissora de todas as realidades: o Brasil!

Pois não foi aqui que se prepararam para exercer em Terra de Santa Cruz a sua actividade tão heròicamente devotada missionários da estatura moral de Nóbrega e de Anchieta, sábios da envergadura de Brotero e até políticos - e tantos foram! - como a visão de um José Bonifácio de Andrade e Silva?

Que admira, pois, que tivesse sido aqui - como uma vez havia de sublinhar o belo espírito de Gustavo Barroso - que se forjou a prodigiosa unidade do Brasil - unidade na variedade, como acentua tão certeiramente Gilberto Freyre?

Unidade do Brasil! Do Brasil em toda a sua grandeza, que, por ser incomensurável, só se pode aferir pelo próprio espírito de fidelidade - espírito que, sendo verdadeiro prodígio de constância, é, consequentemente, milagre de vida estuante e criadora!

Realmente, a nota mais impressionante da fecunda actividade dos Brasileiros de ontem e de hoje não é a criação de valores de significação meramente económica, por muito vultosos que sejam, como realmente são. É a autenticidade dos seus valores morais, imensamente mais expressivos.

Permito-me recordar:

Ao alvorecer o grande século da nossa História - grande não só para Portugal, mas para toda a nossa civilização - a mais bela, a mais majestosa de quantas armas jamais se tinham aprestado em qualquer parte do mundo, largava do nosso Tejo, barra fóra, "erguendo à luz, num abraço infinito, os dois braços da Cruz", como canta Junqueiro. E foi sob o seu signo - guiada por ele - que havia de atingir paragens ainda estão desconhecidas, com a naturalidade e a confiança de quem as não procurava em vão.

Estava descoberto o Brasil - Terra de Vera Cruz! E o ofício divino logo celebrado com a assistência e a comparticipação de elementos nativos, que procuraram imitar os gestos e as atitudes dos portugueses, logo a sagrou para grandes e auspiciosos destinos.

Nem luta, nem competição de qualquer ordem. Pelo contrário: fomos logo alegremente recebidos por esses aborígenes, que abatiam os seus arcos e os ofereciam com as respectivas setas aos recém-chegados, com os quais confiadamente se misturavam, como se pretendessem celebrar o fim de um isolamento que os atormentasse. Mais: beijando a Cruz, que lá deixámos erguida, parecia até quererem manifestar desde logo a sua adesão ao plano do rei de Portugal de os salvar pela Fé, acrescentando-a com novos sequases e obreiros.

Tudo isto é novo; e creio mesmo poder afirmar que nunca mais havia de se repetir em qualquer parte do Mundo. Nem sequer faltou a carta de Pero Vaz de Caminha - "diploma natalício lavrado à beira do berço de uma nacionalidade futura", no dizer tão colorido do grande Capristano de Abreu - que é testemunho vivo, que nenhuma outra nação se pode orgulhar de possuir.

Mas não é ainda tudo: De facto, ao descobrir o Brasil, Cabral ligou a esse acontecimento singularmente fecundo, um outro que então se verificou pela primeira vez na História: o de ter unido com a mesma viagem, as mesmas velas, que desfraldavam ao vento a Cruz de Cristo, os quatro grandes continentes da Terra! Viagem excepcional esta, não só por ter sido a mais longa de quantas até então se tinham realizado à face do Orbe, mas também porque, como justamente acentua Fontoura da Costa, nada lhe faltou; nem "a cuidadosa organização, nem o extremo arrojo, nem a humanitária conduta do chefe e dos seus homens".

Recordá-lo, recordar e venerar a memória do grande almirante que tornou possível um feito assim, é, por isso, iniludível imperativo de consciência para Portugueses e Brasileiros, ainda hoje, e sempre, tão ìntimamente irmanados pelos mesmos ideais, que, quando por incompreensão ou propósito inconfessável involuntàriamente se consente ou deliberadamente se procura amesquinhar o que neles há de mais impressionante grande - a sua vocação civilizadora - logo são ambos igualmente ofendidos, sentindo, na sua carne e na sua alma, o assalto satânico da traição.

Porque, se é certo que o Brasil foi criado por nós, não é menos certo que neles encontrámos sempre o mais forte estímulo de unidade e de vida.

Pois não é verdade que, como convictamente afirma Gilberto Freyre, "todos nós, que falamos a Língua portuguesa, que seguimos a tradição luso-cristã de vida, somos um povo só"?

Não foi, pois, em vão que, lá longe, bem no interior do continente, em princípios da era seiscentista, quando a dominação estrangeira tentava estrangular o Brasil, "ressoavam as estrofes dos Lusíadas", como observa, vibrante de emoção, o espírito gentilíssimo de Afonso de Taunay.

Bem o compreende o Embaixador Dr. Francisco Negrão de Lima, nobre figura, que faz da diplomacia não um mero instrumento de relações corteses, mas a expressão dos mais profundos e mais altos sentimentos de solidariedade humana - sentimentos esses que tão nobremente exorna a alma brasileira.

E é justamente por isso, Senhor Embaixador, que, na sua presença a este acto soleníssimo, todos nós sentimos a própria presença do Brasil, não só na sua projecção geográfica, mas na plenitude da sua História - dessa História que, sendo tão portuguesa, se caracteriza pela singular relevância dos seus valores morais.

Ora, são justamente esses valores que dão caráter à rica personalidade do Embaixador Negrão de Lima. De facto, o que nela avulta é o sentimento humano "no bom e tradicional sentido da palavra". Por isso, dele pôde dizer o Dr. Ruben Leitão, que tem tido o privilégio de o acompanhar, servindo-o devotamente: "É um homem sem maldade, sem ódio, que confia na bondade dos homens, e que, para que nenhum juízo precipitado possa prejudicar quem quer que seja, acredita também na acção do tempo, mesmo sobre aqueles que, embora se mostrem rebeldes, nem por isso são incapazes de melhorar o que no fundo de sua alma permanece esquecido".

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"Um embaixador foi feito para resolver problemas, não para os criar", costuma dizer Negrão de Lima.

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"Em três anos de convívio - testemunha Ruben Leitão - nunca assisti a um momento em que levantasse a voz, fosse ríspido, tivesse qualquer comentário menos agradável para outrem. E o seu cavalheirismo é igual para todos. Desde o Ministro-Conselheiro ao mais humilde servente, a todos dirige um palavra afável, com o melhor espírito de compreensão. E tanto mais, quanto mais baixa é a categoria funcional ou social do que dele dependem.

"Assim, para ele o primeiro dever de um chefe é saber conduzir os seus subordinados sem nunca esquecer que cada ser humano com quem lida é um mundo vivo como o nosso".

Dotado de sentimentos tão nobres e tão delicados, amando entranhamente a sua Pátria, Negrão de Lima não podia deixar de amar também Portugal com o mesmo amor de filho que tributa ao Brasil.

Foi, por isso, em obediência a um irresistível impulso do seu espírito e do seu coração, que logo ao pisar a terra portuguesa - terra de seus maiores, e portanto sua também - se dirigiu, em piedosa romagem, à igreja da Graça, em Santarém, onde, em campa raza, repousam os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, para se recolher em sentida oração, em que - não é difícil adivinhá-lo! - Portugal e o Brasil estiveram igualmente presentes.

E logo na primeira seguinte foi Até Belmonte, para ver e conhecer a terra onde nascera o grande almirante. Depois, correu Portugal de lés a lés, visitando mesmo as regiões mais longínquas, mas nem por isso menos portuguesas, de Angola, a todas levando palavras de carinho, bem demonstrativas do amor sem restrições que tributa à terra lusíada.

Por isso, os seus discursos, os seus brilhantes inprovisos são a voz sentida de um verdadeiro amigo do nosso país, que dilatam a alma de quem os ouve. De facto, é sempre o povo português, o emigrante, o ser humilde que através dos séculos fez o Brasil, que o Embaixador Negrão de Lima exalta nas sua falas. É a crença no vigor da nossa comunidade que verdadeiramente o entusiasma, firmemente convencido como Gilberto Freyre, de que todos os Portugais são um só Portugal, que, unido ao Brasil, pelo coração, pelo espírito, pelo principal da sua cultura, quase constitui com ele uma só comunidade supranacional.

Àquele impressionante depoimento podia juntar o meu próprio testemunho, pois, apesar de raras vezes ter tido a felicidade de gozar o convívio do Dr. Negrão de Lima, a sua personalidade é tão permeável, tão diáfana, que logo se me revelou em todo o esplendor da sua simpilcidade, diria até, da sua humildade cristã.

Seja, pois, bemvindo a esta casa, a este velho solar da alma lusíada, o nobre representante da grande Nação irmã, que - depois de lhe prestar os mais assinalados serviços na vice-presidência da Comissão de Diplomacia e Tratados, na Comissão de Justiça e no próprio ministério da Justiça, e de os continuar a prestar, com desusado brilho, como embaixador especial na Bolívia, para promover a execução dos tratados referentes ao petróleo desse país, ou como delegado à IX Conferência Inter-Americana celebrada na capital da Venezuela, e ainda como Prefeito do Distrito Federal e como Ministro das Relações Exteriores - veio, finalmente, ao nosso País coroar esse longo rosário de benemerências e de triunfos com uma missão mais alta e porventura mais frutuosa: dar-nos a certeza de que o Brasil está connosco, fiel à sua missão histórica e ás suas responsabilidades civilizadoras que, por serem iguais às nossos, repelem quaisquer intromissões estranhas que tenham impor-se por meio de discriminações raciais e violências que, seja qual for a feição que tomem ou os ouropeis com que as revistam, nem por isso deixam de ser torpíssimas e aberrantes da nossa comum sensibilidade cristã.

Esta é a posição de Portugal, a posição do Brasil - posição impertérrita, de cuja validade Sua Excelência o Embaixador Negrão de Lima constitue neste momento sólida garantia.

Por isso, a sua presença - a sua autoridade - sempre bemvinda, sempre acatada, toma, neste momento excepcional, particular significado. Não para nos garantir a autenticidade do espírito de Gilberto Freyre, o valor ímpar da sua vastíssima obra sociológica; não para nos afirmar, baseado nela, que é entre nós, nas doutorais do velho Estudo Geral Conimbrigense, o seu lugar, pois bem o sabemos nós todos, por longo convívio com os seus trabalhos de mérito excepcional, e bem o sabem aqueles que tiveram a felicidade de poder seguir as suas lições; mas porque a presença do Embaixador Negrão de Lima nos vem confirmar a certeza de que com ele - com o eminente cientista que a nossa alma Mater acolhe jubilosamente no seu seio - está o Brasil, está o povo brasileiro que, como em frase feliz teve ocasião de dizer Gilberto Freyre, não se consegue separar do português, porque ambos constituem, sem retórica, uma só família.

MAGNÍFICO REITOR:

Resisto à tentação de percorrer a obra admirável do grande sociólogo e de citar alguns dos seus passos verdadeiramente lapidares, não só pelo rigor da expressão, mas também pelo profundo sentimento humano que os ilumina, e até pelo mérito literário da sua linguagem a um tempo despretenciosa e colorida - mérito que confere ao seu Autor o direito de poder ser considerado como um dos nossos prosadores didácticos de expressão mais vigorosamente original.

Limito-me, por isso, a cumprir o dever - e faço-o com viva emoção - de solicitar a Vossa Excelência, Senhor Reitor, se digne admitir no nosso colégio doutoral quem é um dos mais estrénuos paladinos da nossa cultura e das nossa virtudes ancestrais - dessas virtudes que, por serem também brasileiras, o nobre Embaixador da grande Nação Irmã tão vivamente encarna, servindo, assim, simultâneamente - e com toda a autoridade - de testemunha e garante dos méritos que fazem do Doutor Gilberto Freyre um grande Lusíada na sua mais ampla e portanto também mais bela significação.

DISCURSO DO REITOR DA UNIVERSIDADE
DOUTOR GUILHERME BRAGA DA CRUZ,
NO BANQUETE DO PAÇO DAS ESCOLAS

SENHOR DOUTOR GILBERTO FREYRE:

A servir de pórtico ao mais recente dos seus livros - Sugestões de um novo contacto com universidades europeias - escreveu Vossa Excelência algumas palavras que merecem ser aqui lembradas, pelo significado transcendente que têm no momento histórico que vivemos, saídas da perna dum homem com a projecção e com as responsabilidades intelectuais de Vossa Excelência: "... a minha mãe-patría intelectual não é apenas na Europa ibérica, nem sequer latina, que a encontro, mas na Europa inteira, de onde há séculos flui, principalmente das universidades, uma cultura ou um saber o qual não se concebe civilização verdadeiramente moderna; e do qual as modernas civilizações que se desenvolvem nos trópicos ainda precisam, no interesse da sua própria originalidade ou creatividade".

Estas palavras, escritas por alguém que no rosto do mesmo livro se intitula, modesta e simplesmente, bacharel pela Universidade de Baylor, licenciado pela Universidade de Columbia e doutor pela mesma Universidade, são a mais expressiva homenagem que Vossa Excelência podia ter prestado à missão civilizadora da velha Europa e ao espírito universitário que, desde o século XII, verdadeiramente a tem inspirado e dirigido.

Vai Vossa Excelência, dentro de momentos, receber o grau de doutor "honoris causa" por uma dessas Universidades da Europa, velha de quase sete séculos e ligada como poucas à difusão da cultura europeia pelos quatro cantos do mundo. E isto quer dizer que a cerimónia que em breve nos vai congregar a todos na Sala dos Capelos se reveste dum significado particularíssimo, na medida em que representa o recebimento de Vossa Excelência, pela vez primeira, como filho espiritual dessa mesma "mãe-pátria intelectual" que considera sua.

Dá-me especial contentamento que tenha partido da Universidade de Coimbra a iniciativa de preencher esta dívida em aberto da intelectualidade europeia e da intelectualidade portuguesa para com o professor itinerante que tão superiormente a tem servido e prestigiado, através duma obra científica que há-de ficar como marco miliário no começo duma nova era na história do pensamento e da cultura; e considero uma alta honra par mim o encargo que me cabe, como seu reitor, de dar ingresso a Vossa Excelência no corpo doutoral desta velha e gloriosa Escola.

DISCURSO DO DOUTOR GILBERTO DE MELLO FREYRE
NO BANQUETE DO PAÇO DAS ESCOLAS

Sei que este ágape é do ritual dos doutoramentos da Universidade de Coimbra e quase do ritual é que o doutorando diga breves palavras de agradecimento ao magnífico reitor. É o dever que venho agora cumprir, sensibilizado com tantas generosidade coimbrã. Sensibilizado com o que esta reunião exprime de fraterno afecto académico. Com as honrosas palavras de saudação do reitor Guilherme Braga da Cruz, jurista tão ilustre. Com a presença de figuras tão representativas da mais alta cultura portuguesa, inclusive dois ministros de Estado, que são dois insignes mestres universitários. Com a presença do eminente governador-geral da província de Moçambique. Com a presença, para mim particularmente desvanecedora, do sr. embaixador do Brasil, que teve a gentileza de vir de Lisboa a Coimbra, a fim de ser generoso paraninfo deste seu compatriota. Que brasileiro pode deixar de sentir-se Coimbra em contacto com as próprias raízes da cultura do Brasil? Daqui saiu Nóbrega para o Brasil, ainda agreste no século XVI. Por aqui passou José Bonifácio. Aqui estudou Gonçalves Dias. Foi aqui que se instruiram as leis e aqui se formaram as letras consagradas e aqui se graduaram em ciências naturais aqueles bachareis, aqueles doutores, aqueles mestres, aqueles às vezes aristocratas da toga, rectos e bons, com os quais o Brasil cristianizou-se, latinizou-se, organizou-se, unificou-se, conheceu-se a si próprio, estabilizou-se, desenvolveu-se, sempre luso-cristão nas suas bases, luso-cristão nas suas constantes. Ao tornar-me hoje doutor desta maternal Coimbra, por tanto tempo guia e mestres do Brasil, vivo um dos dias mais felizes da minha vida. E, dizendo palavras tão banais, digo uma verdade para a qual seria vão procurar expressões mais exactas. Nem sempre fugir ao lugar comum e procurar substituir por palavras incomuns é tornar a emenda menos má que o soneto. Senhores: Ser investido de insígnias doutorais pela Universidade que constitui para todo o brasileiro como para todo o português, sensível à tradição e confiante futuro, a Universidade das Universidades, não é, na vida de um homem de estudo brasileiro ou português, experiência igual às outras do mesmo género. Junta ao puro sentido intelectual um profundo significado sentimental.




Fonte: FREYRE, Gilberto. Doutoramento solene de Gilberto de Mello Freyre pela Faculdade de Letras: discursos proferidos na cerimônia. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1962. 30p.

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