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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



ISTO É NORDESTE


"Preu cantá na sua casa,
eu patrão, me dê licença!
Se a cantiga não fô boa,
Desculpe Vossa Incelença
Que, às vez, as coisa não sai
Do jeito que a gente pensa".

Da Coordenação Regional, no Nordeste, do Diretório Nacional de Estudantes, é a iniciativa de levar ao público de Curitiba uma pequena amostra de produtos nordestinos em vários setores do que constitui a cultura - não só a chamada material como também a outra, se é que se deve admitir tal divisão em têrmos rígidos - desta velha região brasileira, que vai da Bahia às terras maranhenses. Não só produtos que dêem idéia aos brasileiros de Curitiba do que é o comêço de desenvolvimento industrial do Nordeste e do que já se está conseguindo com alguma modernização da sua agricultura e da própria pesca nas águas do seu litoral, com as novas estradas de rodagem e com as novas utilizações da energia vinda de Paulo Afonso. Também informe sôbre o desenvolvimento do ensino na região - o primário, o secundário, o técnico, o universitário. Sôbre o artesanato. Sôbre artes populares. Sôbre folclore. Sôbre monumentos, festas, pescarias e atos religiosos, capazes de atrair turistas de outras partes do país e do estrangeiro para a celebração do Senhor do Bonfim em Salvador, para o Carnaval no Recife, com maracatus e caboclinhos, com "frevo" e "passo", para a pesca da baleia no litoral da Paraíba, para os festejos de Natal em Maceió, para os desafios à viola em Fortaleza, para as cavalhadas sertanejas - inclusive as do Piauí - para as procissões de São Luís do Maranhão, para as festas de igreja do Ceará-Mirim. E, ainda, para êsse monumento tecnológico - obra dirigida pelo engenheiro nosso patriota Marcondes Ferraz - que é a central de eletrificação das águas da Paulo Afonso em Pedra (Alagoas); para essa maravilha de agricultura moderna no trópico que é a plantação de tomates em Pesqueira (Pernambuco); para a cidade universitária do Recife com os seus institutos de antibióticos e de nutrição, de renome internacional, e o seu Cecine; para os ateliers de pintura dos nordestinos Lula Cardoso Ayres, Francisco Brennand, Ladjane Bandeira, Adão Pinheiro; para o Seminário dos Franciscanos perto de Campina Grande; para a própria Campina Grande - fenômeno nordestino digno de atenção sociológica, além de curiosidade turística; para o Diário de Pernambuco - o jornal mais antigo da América Latina, cuja séde é a mesma dos dias de Gilberto Amado e Assis Chateaubriand, jornalista no Recife; para o Museu de Arte Sacra (Salvador); para o Museu do Açúcar no Recife; para a Igreja de São Pedro dos Clérigos (Recife); para os Conventos Franciscanos de Igaraçu, Salvador, São Cristóvão, Olinda e Recife; para o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, instalado, com seu museu etnográfico e seu jardim ecológico, num edifício que só êle e o seu parque merecem a atenção dos brasileiros do Sul pelo que representam de arquitetura e de paisagem dos sobrados senhoriais do Nordeste patriarcal e fidalgo do século XIX, com mármores italianos, azulejos, vidros franceses, madeiras do Pará, dobradiças de prata nas portas, estatuetas de Sto. Antonio do Pôrto; e onde se realiza admirável obra de pesquisa em tôrno de assuntos nordestinos e nortistas. Que em tudo isso se exprime, no Nordeste, uma brasileiríssima cultura, merecedora da atenção dos brasileiros de outras regiões.

É preciso que se saiba nessas outras regiões que o Nordeste não é só sêca do Ceará nem apenas cerâmica de Caruaru; que a sua culinária não se limita ao vatapá da Bahia; que a sua música popular não é sòmente a que fala de Lampeões e de Marias Bonitas; e também que os seus estudantes de agora, os seus artistas, os seus escritores, os seus sociólogos, os seus teatrólogos, os seus sacerdotes jovens, os seus novos líderes industriais e operários, se preocupam com os problemas da região descobertos pelos próprios olhos. Em vez de repetirem slogans ou copiarem modelos que lhes venham do Uruguai ou dos Estados Unidos, de Paris ou mesmo do Rio, procuram ver a sua região, sentir o seu país, interpretar a sua época, à sua maneira ou a seu modo.

Que sirva de exemplo a iniciativa do grupo de jovens que agora leva a Curitiba um punhado de produtos e de informes do Nordeste, para despertarem naqueles seus compatriotas do sul interêsse pela região nordestina. Não serão êsses jovens, perfeitos no modo de executarem seu atrevido empreendimento. Várias serão suas deficiências e até seus fracassos. Mas alguma coisa se salvará da iniciativa: será um esfôrço dêles e não de especialistas ou de técnicos em exposições.

Acabo de ouví-los falar do seu projeto já em comêço de execução. Dão-me a impressão de mais improvisadores do que planejadores. Tendo dado pouco tempo ao tempo, vai lhes faltar a cooperação preciosa dêste personagem de ordinário desdenhado pelos jovens muito jovens nas suas iniciativas: o tempo. Como, porém, desanimá-los em vez de animá-los? Opor ao seu excesso de entusiasmo o conetivo da excessiva cautela?

Prefiro deixar-me contagiar pelo seu afã de jovens e de estudantes um tanto românticos. João Mendonça de Amorim Filho está a frente da iniciativa como coordenador do Diretório Nacional de Estudantes no Nordeste. Antônio Fraga Rocha Neto é o responsável direito pela mostra. Pedro Frederico de Almeida, jovem pintor de talento, o encarregado da coleta de material: já está em plena atividade. Maria Ângela Campelo de Melo, a secretária do grupo: função delicada e difícil de só uma jovem seria capaz.

Estão recorrendo ao auxílio dos provetos: aqueles provetos que sabem compreender nos jovens os próprios excessos de juventude. Mas a iniciativa é dêles, jovens. Dêles, a responsabilidade. Dêles, o trabalho. Dêles o esfôrço.

Por mais deficiente que venha a ser a mostra que levam a Curitiba, será um empreendimento como êste significado nada insignificante: o de que há no Recife de hoje estudantes capazes de belas iniciativas de interêsse cultural. Êles próprios serão uma vibrante expressão da cultura regional que procurarão revelar através de livros, de discos, de fotos, de objetos de arte. Êles serão, mesmo, o principal da sua mostra de valores nordestinos dignos de atenção de brasileiros de outras regiões.

23 a 26 de julho - 1966 - curitiba - promoção: diretório nacional de estudantes - organizadores: joão mendonça de amorim filho, antonio fraga rocha neto, pedro frederico de almeida, maria angela campelo de melo, cecília bezerra de melo e paulo roberto borges - colaboradores: apresentação sociólogo gilberto freyre - pintura do cartaz francisco brennand - catálogo colecionador abelardo rodrigues.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Isto é Nordeste. Curitiba: [Coordenação Regional no Nordeste do Diretório Nacional de Estudantes], 1966. 3p.

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