JOAQUIM NABUCO
Vejo com satisfação que já se esboçam as
comemorações do 1º centenário do nascimento do grande brasileiro que foi o Conselheiro
Ruy Barbosa. Ao ilustre ministro da Educação e Saúde ocorreu a feliz idéia de nomear
uma comissão que deverá organizar, da parte do Ministério que s. exa. dirige,
"condigna comemoração" daquele centenário. E a essa iniciativa não tardará,
estamos todos certos, a juntar-se a desta casa (* Câmara dos Deputados), a do Senado da
República, a do Parlamento Nacional, no sentido de organizar-se comemoração igualmente
condigna, da parte dos representantes da Nação Brasileira, de fato tão significativo,
para a história não só intelectual como política e parlamentar do Brasil.
Outro centenário altamente significativo para as
duas histórias se aproxima de nós, exigindo da nossa parte providências semelhantes
para que as comemorações não venham a limitar-se a improvisos nem sempre felizes por
maior que seja o brilho, de festa oficial que os anime. Refiro-me ao centenário do
igualmente grande cidadão, da América e do mundo, do igualmente grande brasileiro do seu
tempo e de todos os tempos, que foi Joaquim Nabuco, cuja voz está entre as que mais
enobreceram a eloqüência parlamentar no Brasil e que foi pela inteligência, pela
cultura, pelo, espírito público, uma das figuras máximas do nosso país e do continente
americano e até uma das personalidades mais sugestivas do Ocidente no fim do século XIX
e nos começos do XX, tal a fama que alcançou com seus escritos em francês e suas
conferências em inglês, e, principalmente, com a repercussão, que chegou a Londres, a
Paris e a Roma, do seu esfôrço de abolicionista ou de reformador social.
No Parlamento êIe entrou ainda moco, no início
da campanha em que sua bela cabeça haveria de embranquecer-se tão cedo, e tão cedo
cobrir-se de sua melhor glória: a de ter concorrido para extinguir a escravidão africana
na América. Viu-se então êste fato verdadeiramente espantoso: a grande voz do povo
trazida para a tribuna da Câmara de homens então de casaca ou de fraque, não por um
homem ostensiva e convencionalmente do povo, mas pelo mais puro dos fidalgos
pernambucanos; e o sofrimento da gente escrava traduzido em eloqüência da chamada
britânica - uma eloqüência nova ainda que clássica em suas raízes - não por um
brasileiro de origem africana elevado à representação da nação brasileira no
Parlamento nacional como foram alguns no Império e têm sido, felizmente, vários na
República, mas por um Paes Barreto autêntico, por um legitimo senhor-moço de
casa-grande, nascido em sobrado também fidalgo do Recife, por um neto de morgado dos
canaviais do sul de Pernambuco. Um desertor de sua casta, de sua classe, de sua raça,
cujos privilégios combateu com um vigor, um desassombro, uma ousadia que, segundo o
depoimento de Graça Aranha, deixou atônito o Parlamento da época. Mas se desertou de
sua casta, de sua classe e de sua raça foi para se pôr ao serviço não de outra casta,
de outra classe ou de outra raça, mas daquele Brasil, daquela América, daquela
humanidade sem divisões artificiais entre os homens, que seu claro espírito anteviu com
a segurança e o equilíbrio sempre característicos tanto do seu pensamento quanto da sua
ação. Donde já se ter dito, e se poder dizer hoje com maior amplitude, que "o mais
belo milagre da escravidão" no Brasil foi o de haver formado ela própria "o
herói de sua própria redenção". Formou-o pelo leite de escrava que amamentou o
menino branco de Massangana, pelos braços de escravos que primeiro o carregaram, pelos
risos de escravos que Ihe afugentaram os primeiros choros e tédios de criança, pelas
mãos de escravos que Ihe levavam à bôca as primeiras comidas, talvez pelos beijos de
escrava que primeiro Ihe deram sugestões de outro amor de mulher além do de mãe, e,
ainda, pelo gesto daquele escravo adolescente, fugido de outro engenho, que, uma tarde,
surgiu diante de Nabuco menino, sentado no patamar da casa-grande de Massangana, para
abraçar-se a seus pés, suplicando ao sinhozinho que pelo amor de Deus o fizesse comprar
pela madrinha, senhora de engenho.
É certo que milhares de outros escravos fizeram
o mesmo com centenas de outros meninos brancos, que poderiam ter sido outros tantos
redentores dos africanos no Brasil; é, porém, das Escrituras que a semente precisa de
cair no terreno certo para frutificar plenamente. Joaquim Nabuco foi mais que qualquer
outro, branco ou prêto, o redentor dos cativos no Brasil, porque mais do que ninguém
absorveu dos pretos e dos próprios brancos livres, mas pobres e abandonados, moradores
das grandes propriedades feudais do interior, tôda a dor, todo o sofrimento, todo o
desejo imenso, embora nem sempre claro em todos êles, de liberdade ou de redenção, até
êle próprio, Nabuco, transbordar dessa dor, dêsse sofrimento e dêsse desejo.
Sua ação política foi êsse transbordamento. E
esta casa (*Câmara dos Deputados) a conheceu nos seus maiores dias que foram os primeiros
da grande luta, a princípio tremenda, com Joaquim Nabuco acusado pelos escravocratas
intransigentes de "agitador", de "comunista", de
"petroleiro". Acusado de viajar com dinheiro de escravos, antigos na família e
cruelmente vendidos a estranhos. Acusado de ambicioso. Acusado de falso. Acusado de
mal-agradecido. Acusado de efeminado. Mas principalmente de "petroleiro". Eu
próprio possuo, entre outros papéis antigos, uma velha carta de senhor de engenho mais
arrogante alertando um amigo contra o agitador Joaquim Nabuco. Se êsse Joaquim Nabuco
agitador, temido pelos conservadores e rotineiros da sua terra e do seu tempo, não chegou
a ser perseguido por algum presidente de província ou chefe de polícia mais afoito, é
que viveu numa época - a de Pedro II -diferente das outras. Viveu numa época em que era
mais fácil, no Brasil, desaparecer um chefe de polícia, como o que na verdade
desapareceu um dia de praça central do Rio de Janeiro sem que até hoje se tenha
esclarecido o mistério, do que sofrer um brasileiro ilustre a mais leve agressão
arbitrária da polícia ou do govêrno. A não ser em virtude, ou por fôrça, da lei,
como no caso dos bispos de Olinda e do Pará.
Também seria acusado Nabuco, ainda no inteiro
viço da inteligência, de estar em decadência. Começara bem, dizia-se, mas decaíra
depressa. Começara escrevendo versos sôbre o martírio da Polônia: por que não
continuara a escrever versos sôbre o martírio de outros povos distantes, remotos, sem
tocar no dos brasileiros, sem descer aos negros, às senzalas, aos mucambos da terra?
Aquêle seu "radicalismo", aquêle seu "quixotismo", aquela sua
"falta de senso prático" sussurravam os "realistas", os oportunistas,
os práticos, que era já a decadência do intelectual efêmero - decadência de que se
falaria depois abertamente, quando o Brasil perdeu a questão da Guiana, embora defendidos
nossos direitos magnificamente pelo advogado ilustre. Alegava-se, como prova de sua
decadência, o cabelo precocemente branco. Alegação quase sempre daqueles homens de côr
que êle denunciara tão, àsperamente como traidores dos próprios irmãos africanos. Dos
homens de côr partidários do escravismo e servos do feudalismo. Dos homens de côr que
não perdoavam a Nabuco a condição de branco com todos os seus característicos:
inclusive a brancura precoce do cabelo em contraste com êles, pardos, cujo cabelo só aos
setenta começa a embranquecer.
0 homem do mundo que ficou célebre pela voz
macia de filho de baiano com que falava com as mulheres nas côrtes mais elegantes da
Europa, pelos gestos suaves com que encantava as baronesas e as viscondessas decotadas e
cheias de jóias, nos salões da côrte de Pedro II, pela correção litúrgica com que
sabia curvar-se, dentro da sua casaca inglêsa, diante de um papa todo de branco ou de um
príncipe de Igreja coberto de púrpura, êsse homem macio, êsse homem suave, esse homem
litúrgico, êsse filho de baiano e de pernambucana, foi, na campanha da Abolição, o
mais desassombrado e, às vêzes, o mais agreste dos Joões Batistas, ousando dizer a
palavra dura mas precisa, áspera mas necessária, a homens poderosos, a viscondes, a
barões, a grandes do Império, ao próprio Imperador, a bispos e padres que por algum
tempo o acusaram de inimigo da Igreja, quando êles é que comprometiam a Igreja de
Cristo, fazendo-a serva não dos cativos mais necessitados de amparo cristão porém dos
donos mais ricos de terras e de homens, dos senhores mais opulentos de altares e de
cemitérios particulares.
Do seu modo de combater ou de repelir os assaltos
de inimigos à sua pessoa ou às suas idéias, diz-nos um contemporâneo que não era
"o salto da onça, tão das nossas selvas"; e tão da nossa política às vêzes
sangrenta ou traiçoeiramente felina - poderia ter acrescentado. Nêle não havia nem
onça traiçoeira nem mesmo tigre ávido do sangue do próximo. Combatia desprezando o
mais possível os ataques, as agressões, as injúrias. Mas nem ataques nem agressões nem
injúrias o assombravam; ou Ihe enfraqueciam o ânimo de combate; ou Ihe diminuíam a
franqueza quando era preciso chamar assassinos aos assassinos, ladrões aos ladrões,
contrabandistas aos contrabandistas.
Numa época de políticos fascinados pelas
soluções simplesmente políticas ou jurídicas, dos problemas brasileiros, viu com
nitidez latina - uma nitidez que nenhum outro homem público do Brasil do seu tempo
excedeu ou sequer igualou - a importância, a necessidade, a urgência, de procurarmos
resolver os mesmos problemas indo às suas raízes mais profundas que são as sociais,
inclusive as econômicas. Quando erguia a voz contra "a política colonial de três
séculos de senzala", era sempre para a caracterizar sociològicamente como
"perseguição doméstica e social de uma raça a que o Brasil deve a maioria dos
seus habitantes e cujos filhos de hoje são os nossos cidadãos de amanhã". Raça de
que disse também, com um vigor que hoje Ihe valeria a antipatia de certos arianistas
nacionais e a acusação de negrófilo que estivesse lançado os negros contra os brancos:
"Suprimase mentalmente essa raça e o seu trabalho e o Brasil não será na sua maior
parte senão um território deserto, quando muito um segundo Paraguai, guarani e
jesuítico..." E mais de uma vez teve que lamentar que dos próprios homens de côr
muitos se encontrassem não entre os abolicionistas, mas por um como mazoquismo (como se
veio a explicar depois), do lado contrário, entre os que queriam a continuação do
regime de chicote e de tronco e o Brasil inteiro reduzido a vasta fazenda paternalista;
mais de uma vez teve que lamentar que dos moradores dos campos, espalhados pelo interior
do Brasil - "homens livres que trabalham em terras alheias" - poucos dessem
sinal de compreender que os abolicionistas, combatendo o feudalismo dominante, lutavam
também por êles - moradores livres, porém pobres, de fazendas e de engenhos feudais:
"para dar-lhes uma independência honesta, algumas braças de terra que êles possam
cultivar como próprias, protegidos por leis executadas por uma magistratura independente
e dentro das quais tenham um reduto tão inexpugnável para a honra das suas filhas e a
dignidade do seu caráter, como qualquer senhor de engenho".
É que para Nabuco o abolicionismo não era
apenas a libertação dos escravos negros do jugo dos senhores brancos, ou oficialmente
brancos. Era também a libertação econômica e social, de moradores aparentemente livres
de domínios essencialmente feudais. Êle se antecipou à luta em que ainda nos
encontramos todos os que dentro de programas políticos diversos, e até de partidos
antagônicos, combatemos o que continua a haver na economia brasileira - hoje nas grandes
indústrias artificiais mais do que nos restos já meio frios dos grandes domínios
agrários - de arcaica ou de renovadamente feudal; de exploração do homem pelo homem; de
sujeição dos que trabalham aos que simplesmente jogam e dançam. Aos que jogam jogos e
dançam danças que não são os do povo mas os dos exploradores do povo.
Quando Joaquim Nabuco disse num dos seus
discursos de campanha abolicionista - "nenhuma reforma política produzirá o efeito
desejado enquanto não tivermos extinguido de todo a escravidão, isto é, a escravidão e
as instituições auxiliares", depois de ter salientado ser o Brasil um país ainda
de senhores e de escravos, a todos os quais o trabalho repugnava como a pior das
humilhações, e de ter destacado que a abolição da escravidão, no Brasil, era o
primeiro passo para a organização do "trabaIho nacional e por conseguinte da
civilização brasileira", dirigiu-se aos nossos avós em palavras que chegam aos
nossos ouvidos com o vigor, a mocidade, a frescura de uma mensagem de um homem de hoje:
dos que hoje se batem pela organização do trabalho no Brasil como condição básica do
desenvolvimento não só da democracia como da civilização brasileira; dos que hoje
situam, acima das reformas simplesmente políticas ou mecânicamente econômicas, as larga
e compreensivamente sociais, convencidos de que se a escravidão se extinguiu no Brasil
com a lei chamada retòricamente áurea", influências verdadeiramente áureas fazem
sobreviver entre nós as "instituições auxiliares da escravidão", a que se
referia o grande pernambucano; dos que hoje ainda não vêem no interior do Brasil senão
num ou noutro trecho uma população de pequenos lavradores e criadores que sequer se
aproximem da condição dos homens livres.
Como no tempo de Nabuco, ainda há brasileiros
que parecendo livres, não votam senão como servos. Constituem os feudos eleitorais das
áreas estagnadas do interior. Como no tempo de Nabuco, a consciência da Nação
brasileira "está ainda com muito poucos". Como nos dias de Nabuco, são hoje
quase inúteis as reformas puramente políticas, inclusive as eleitorais, num Brasil ainda
em grande parte dominado, nas suas áreas rurais, que são imensas, por aquela
instituição auxiliar da escravidão que êle denominou "monopólio
territorial".
Porque "o monopólio territorial"
significa o feudo eleitoral. E o feudo eleitoral significa a vontade, o interêsse, as
aspirações populares atraiçoadas pela vontade, pelo interêsse, pelas aspirações dos
que sendo donos de terras, de fazendas, de indústrias, de fábricas, de barracões
absorventes, são ainda, por meio de um terrorismo que sobrepuja, em muitos casos, o
próprio terrorismo policial das célebres "volantes" ou "capturas",
donos de eleitores tristemente passivos, inermes, impotentes.
Em 1884 Nabuco proferia palavras que ainda hoje
se aplicam à situação do Brasil - um Brasil cujas áreas mais atrasadas são ainda
tantas e tão consideráveis pelo número de votos inconscientes que a quantidade e o
pêso bruto dêsses votos reduzem a expressão dos conscientes e independentes: os das
cidades mais cultas e os daquelas áreas rurais já livres do antigo "monopólio
territorial". Exprimindo seu ceticismo diante dos resultados da reforma eleitoral
então recente, Nabuco dizia: "... as reformas de que imediatamente necessitamos são
reformas sociais que levantem o nível do nosso povo, que o forcem ao trabalho e dêem em
resultado o bem-estar e a independência que absolutamente não existem e de que nenhum
govêrno ainda cogitou para a nac5o brasileira". E continuava: "Eis a razão
pela qual abandonei no Parlamento a atitude pròpriamente política para tomar a atitude
do reformador social. Foi porque também eu me desenganei das reformas políticas".
A verdade é que nos últimos anos de parlamentar
de Nabuco, sua grande preocupação já não era sequer a abolição da escravidão mas
"a democratização do solo"; não era a ocupação do território - a
imigração - mas a redenção da população nativa. "Acabar com a escravidão não
basta" - disse êle num dos seus discursos memoráveis -: "é preciso destruir a
obra da escravidão". E para destruir "a obra da escravidão", no Brasil,
era preciso, ao seu ver, antes de tudo, democratizar-se o solo, quebrar-se o
"monopólio territorial", destruírem-se os feudos que hoje, aliás, não são
principalmente os agrários mas os financeiros e industriais.
"Sei" - dizia êle - "que nos
chamam anarquistas, demolidores, petroleiros, não sei mais, como chamam aos homens de
trabalho e de salário os que nada têm que perder". Para tais críticos, os
homens de fortuna é, que deviam governar sòzinhos o país por terem o que perder. Êle,
Nabuco, porém, não tinha "receio de destruir a propriedade fazendo com que ela não
seja um monopólio e generalizando-a porque onde há grande número de pequenos
proprietários a propriedade está mais firme e sòlidamente fundada do que por leis
injustas onde ela é o privilégio de muito poucos".
0 que Ihe parecia era que, extinguindo-se a
escravidão dos pretos mas continuando de pé "o monopólio territorial",
artistas e operários se tornariam simples "substitutos dos escravos", e os
aparentes homens livres que eram os pequenos lavradores sem terra do interior continuariam
só na aparência homens livres mas, na verdade, ao sabor da vontade e dos interêsses dos
donos dos feudos por êles habitados de favor ou por caridade ou pelo amor de Deus. 0 que
lhe parecia era que "o trabalho sem a instrução técnica e sem a educação moral
do operário" não podia "abrir horizontes à Nação Brasileira". Insistiu
sempre na necessidade de educar-se o trabalhador, certo de que sem essa educação as
melhores leis a favor do operário não seriam compreendidas pela gente de trabalho, ainda
tão necessitada, no Brasil, dessa educação e tão à mercê dos mistificadores: dos que
só falam nos direitos, sem acentuarem a responsabilidade social do trabalhador.
"Comunista, por quê?" perguntou Nabuco
um dia aos que acusavam de "comunista" o projeto Dantas ou o próprio Nabuco.
"Ora, se alguma coisa se assemelha ao comunismo não vos parece que é a escravidão
- comunismo da pior espécie porque é comunismo em proveito de uma só classe?"
Comunista, entretanto, seria êle chamado hoje,
pela pior espécie de "reacionarismo", que é aquele que se disfarça em amigo
da gente de trabalho para melhor conservar-se no govêrno, quando é govêrno, ou
alcançar o poder, quando é oposição.
Nabuco foi amigo leal da gente de trabalho no
Brasil da qual o aproximou um socialismo esclarecidamente personalista, com muitas
afinidades com o trabalhismo mais avançado de hoje que é o britânico da ala Cripps ou o
que se inspira no britânico da ala Cripps. Êle que vinha de família privilegiada e
poderia ter fàcilmente subido aos postos mais altos do Império, servindo com pés de
Iã, mãos de sêda e voz de veludo os interêsses da grande lavoura e do alto clero, do
alto comércio e das novas indústrias, procurou seu melhor apoio nos artistas e
operários de sua querida cidade do Recife, sabendo, embora, que no Brasil do seu tempo,
como uma vez salientou, "mesmo nas capitais...", "não havia recomendação
igual à de candidato dessa aristocracia do comércio e da lavoura" que êle, fiel à
sua consciência, às suas idéias, à sua visão de futuro brasileiro, preferira desde
moço desafiar desassombradamente. Pois seu desejo, como claramente confessou, era
identificar-se principalmente "com os operários que vivem do seu trabalho de cada
dia".
Num dos seus discursos de abolicionista, Nabuco
repetiu esta frase que êle próprio chamou revolucionária: "0 que é o operário?
Nada. 0 que virá êle a ser? Tudo". Repetiu-a salientando que na gente de trabalho
estava "o futuro, a expansão, o crescimento do Brasil", o "germe do futuro
da nossa pátria, porque o trabalho manual... dá fôrça, vida, dignidade a um povo e a
escravidão inspirou ao nosso um horror invencível por tôda e qualquer espécie de
trabalho em que ela algum dia empregou escravos".
Não esquecia, porém, a abandonada gente média,
principalmente a do interior: "os moradores livres" - aparentemente livres - do
"interior". E era pensando em tôda essa população brasileira desamparada e
não apenas numa classe, ou num grupo mais ostensivamente sofredor, que investia contra
tôda espécie de monopólio ou de privilégio de ordem material. Inclusive o
protecionismo: a proteção ao que denominava "indústria de falsificação". A
respeito do que exclamou num dos seus melhores discursos do Recife durante a campanha
abolicionista, em 84: "Essa espécie de proteção é o roubo do pobre e num país
agrícola é um contra-senso. Não, senhores, não será elevando o preço de todos os
produtos, tornando a vida mais cara, obrigando a população a pagar impostos exagerados,
que eu me hei de prestar a proteger as artes. " Ao seu ver o rumo a ser tomado pela
organização da economia devia ser outro: "...aberta a terra ao pequeno cultivador,
começando-se a destruir o estigma sôbre o trabalho, o progresso das artes acompanhará a
transformação do país"... "Se eu entrar para a Câmara tratarei de mostrar
que os sacrifícios que temos feito para formar bacharéis e doutores devem agora cessar
um pouco enquanto formamos artistas de todos os ofícios".
Em 1884 não hesitava Nabuco, candidato à
Câmara, em prometer à gente de trabalho do nosso país nada menos do que justiça ou
proteção social - aquela justiça ou proteção consagrada pela Constituição de 46:
"leis sociais que modifiquem as condições do trabalho como êle se manifesta sob a
escravidão. . . " Para o que estimulava os trabalhadores do Brasil a se associarem:
"... ligados um ao outro pelo espírito de classe e pelo orgulho de serdes os homens
de trabalho, num país onde o trabalho ainda é mal visto... sereis mais fortes do que
classes numerosas que não tiverem o mesmo sentimento da sua dignidade". E ainda:
"Fora da associação não tendes que ter esperança". Terminava Nabuco o seu
discurso trabalhista - trabalhista sem aspas que o particularizassem, trabalhista no
sentido em que somos hoje trabalhistas, homens de partidos diversos e até sem partido
nenhum - definindo o voto dos que sufragassem o seu nome para deputado por Pernambuco,
como "ao mesmo tempo uma petição e uma ordem ao Parlamento convocado para que
liberte, levante e proteja o trabalho em tôda a extensão do país, sem diferença de
raças nem de ofícios". Palavras de pioneiro que precisam de ser definitivamente
situadas na história do trabalho no Brasil como a antecipação mais clara do movimento
em que hoje se empenham, no nosso país, parlamentares, intelectuais, líderes operários
e líderes cristãos no sentido de um trabalhismo ou de um socialismo de sentido ético e
não apenas econômico; de alcance social e cultural e não apenas político.
Estranhei uma vez que os políticos brasileiros
do tempo de Nabuco tivessem sido alheios à questão social do Brasil, que nenhum, dos
grandes, lhe tivesse continuado o esfôrço magnífico, depois que a fundação da
República lhe cortou de repente a carreira política de homem extremamente escrupuloso em
seus melindres de lealdade e em sua noção de fidelidade a princípios. Responderam-me
apologistas dêsses outros homens públicos que, na realidade, não havia. questão social
no Brasil daqueles dias. Eu, porém, cada dia mais me convenço de que vendo no Brasil do
seu tempo madrugar a questão social em seus aspectos mais modernos, enxergando questões
sociais, além da dos escravos, sentindo a necessidade de proteção social ao trabalho e
aos trabalhadores e, principalmente, à gente média do interior, estimulando as
associações operárias - Nabuco não se assombrava nem se distraía com fantasmas:
enxergava com olhar claro e certo a realidade. E tivesse essa realidade desde então sido
considerada por outros parlamentares e homens de Estado brasileiros, pelos intelectuais e
pelo clero, o Brasil seria hoje uma sociedade mais cristãmente organizada; e livre das
sobrevivências ou revivescências feudais que Ihe comprometem a saúde moral tanto quanto
a econômica e o tornam, sob vários aspectos, o paraíso daqueles sociólogos quase
sinistros que se especializam em assuntos de patologia social e daqueles demagogos quase
satânicos que silo como certos curandeiros e até médicos mais simplistas: gente que se
delicia em curar ou fingir curar doenças terríveis, mas não se preocupa com os doentes.
Os doentes que morram.
A Nabuco o que sempre preocupou mais
profundamente no Brasil do seu tempo foi o prprio Brasil doente; e ndão apenas a doença
mais alarmante que marcava a face do Brasil daqueles dias e que era a escravidão. Fechada
essa ferida enorme êle sabia que o doente não estaria curado. Sabia que era preciso
tratá-lo nas suas fontes corrompidas de vida e não apenas nas suas feridas mais
terrivelmente abertas, por mais alarmantes. Dai aquêle seu agrarismo, aquêle seu
socialismo, aquêle seu trabalhismo, - todos mais construtivos, mais tonificantes e mais
profiláticos que cirúrgicos; aquela sua preocupação de dar fôrças, dar energia, dar
resistência ao Brasil, animando-lhe as verdadeiras fontes de vida, fortalecendo-o contra
os abusos dos poderosos e dos exploradores, dos aventureiros, e dos demagogos. Tão longe
andou sempre dos donos do poder que numa época em que se nomeavam para as presidências
de província rapazes mal-saídos das academias, êle chegou à idade madura sem ter
presidido qualquer província. Nunca adulou. Nunca cortejou. Nunca se ofereceu aos
poderosos.
Em discurso na Academia Brasileira de Letras
disse Nabuco que "a política, ou tomando-a em sua forma mais pura, o espírito
público, é inseparável de tôdas as grandes obras". E sua vida inteira foi a de um
homem de espirito público empenhado em grandes obras ou grandes ações - o
abolicionismo, o federalismo, o americanismo, o anticaudilhismo, o antimilitarismo -
parecendo certo que também o chamado Estado forte teria repugnado à sua sensibilidade
política. A vida de um homem de bem que não temeu nunca o nome ou o rótulo de político
nem fugiu aos deveres de oposicionista ou de crítico dos governos. Seguiu o exemplo do
pai: outro homem de bem que foi também político e homem de partido, sem nunca ter sido
cortesão. Contribuiu Joaquim Nabuco para fazer da própria família o que já eram,
então, os Andradas: uma família de homens públicos a serviço do Brasil e da América.
Ou pelo menos, uma família de homens particulares animados de espírito público.
Pois nem todos temos a vocação para a vida
pública, para a atividade ou para a especialização política com que parecem nascer
quase todos os Andradas. Muitos somos homens particulares que só o excepcional das
circunstâncias arrasta à ação política. Mas é preciso que existam homens assim:
homens particulares animados de espírito público. Pelo menos para servirem de
compensação aos homens públicos com espírito particular.
Em Nabuco a vocação para a vida pública
uniu-se ao espirito público que desde cedo o animou. Teria sido talvez o mais completo
dos homens públicos do Brasil do seu tempo se a proclamação da República,
surpreendendo-o aos quarenta anos, não tivesse partido ao meio sua carreira de político,
separando de algum modo do Nabuco da Abolição e da Câmara, o Nabuco do Pan-Americanismo
e do Itamarati; e fazendo de um só homem quase dois, cada qual incompleto em suas
realizações e em suas aspirações.
Conta Mark Twain que aos quarenta anos se
encontrara um dia com seu companheiro de geração John Hay; e que John Hay Ihe dissera:
"devemos tratar de escrever nossas memórias". Como se a vida para um homem
público acabasse aos quarenta. Quando a verdade, reparou Mark Twain tempos depois daquele
encontro, é que tanto êle na literatura como John Hay na política, só depois dos
quarenta realizaram suas obras principais. Só depois daquele encontro. Nenhum dos dois
poderia ter escrito aos quarenta anos a autobiografia sem furtar escandalosamente a si
próprio.
Foi o que Joaquim Nabuco se sentiu obrigado a
fazer aos quarenta anos: a escrever antes do tempo as memórias, a auto biografia, o
testamento de homem público consagrado ao serviço do Brasil. Surgindo de repente a
República deu-lhe de repente o título de velho, de homem do passado, de "ancien
régime". Não soube aderir ao regime triunfante. Não quis ser um daqueles
monarquistas já curvados, ao serviço do Império e ao p6eso dos crachás, e dos títulos
que da noite para o dia se tornaram estadistas da República. E fêz o esfôrço, para
êle tremendo, de sepultar-se aos quarenta anos na paz, no silêncio, na inação da vida
particular e de estudo. Para um homem integralmente público como o autor de Minha Formação,
um suplício, um martírio, quase uma sentença de morte por êle tristonhamente cumprida
aos poucos. Cumpriu-a com aquela serena bravura que parece ter aprendido principalmente
com os inglêses, seus mestres de "self-help" e de "self-control".
Quando reapareceu na vida pública, ao serviço
do Brasil, no estrangeiro - um serviço acima de partidos e até de regimes - era quase
outro Nabuco. Fêz muito êsse novo Nabuco, não só pelo Brasil como pela América - esta
América de que êle, tanto quanto Rio Branco e Oliveira Lima, não concebia o Brasil
isolado nem separado, ainda hoje chegando até nós sua palavra de americanista
esclarecido, entusiasta da amizade cada dia maior do Brasil com os Estados Unidos e com as
demais repúblicas democráticas do continente. Mas muito deixara de fazer pelo Brasil nos
dias dedicados a uma autobiografia prematura. Vira-se então obrigado a viver
parasitàriamente da contemplação do próprio passado, quando seu entusiasmo, seus
impulsos, seus pendores ainda eram todos no sentido da luta viril e da ação criadora. Da
ação de federalista que continuasse a de abolicionista. Da ação de socialista que
continuasse a de pioneiro do trabalhismo no nosso país. Da ação de renovador de
tradições da Monarquia que tornasse inútil ou supérflua a República dos positivistas
e dos estadualistas. Mas não Ihe foi possível transigir com os vencedores. Dos inglêses
- que tanto Ihe devem ter ensinado da ciência ou da arte da contemporização - não
apreendera o bastante para deixar de repente a Monarquia. pela República.
Os brasileiros de hoje, os moços, os,
adolescentes, os que vão amanhecendo para a vida pública, é êste o Nabuco que precisam
conhecer de perto: o político que foi também homem de bem. 0 político que não separou
nunca a ação da ética. Como o socialismo de Morris na Inglaterra e o de Antero de
Quental, em Portugal, o seu era do que principalmente se animava: de sentido ético. E
esta é uma das grandes sugestões que nos chegam de sua vida no momento em que, no
Brasil, se compromete a causa da valorização social, não só do às vezes
supra-glorificado trabalhador de macação como do pequeno lavrador, do pequeno criador,
do pequeno funcionário público, da numerosa gente média, como nenhuma pauperizada nas
cidades e nos campos e como nenhuma degradada - pois vem descendo de nível e não apenas
conservando-se parada ou estagnada; no momento em que, no Brasil, se compromete a causa da
valorização do homem sob os excessos do que se denomina "realismo, político".
Para êste falso realismo não resvalou
nunca Joaquim Nabuco. Se defendeu os direitos da gente de trabalho contra os abusos da
feudal, foi por acreditar no sentido moral e não apenas no social dessas
reivindicações. Não por se sentir apenas espectador, ou auxiliar quase passivo, de um
jôgo cego e mecânico entre homens, do qual se soubesse desde o princípio o resultado
exato, mas para o qual, mesmo assim, espectadores e auxiliares devessem contribuir com
artes e manobras das chamadas "realistas" com traições, deslealdades,
velhacarias, alianças vergonhosas, que apenas apressassem a vitória fatal, determinada
por "leis" intituladas de científicas, de um grupo sôbre outro.
Nem vejam os brasileiros moços de hoje, no
Nabuco de quem o tempo vai nos afastando, apenas o homem excessivamente vaidoso que seria
quase outro narciso; o elegante perfumado a sabonete inglês de quem, como do seu
conterrâneo, Dom Vital, Bispo de Olinda (do qual os maliciosos diziam aromatizar com
brilhantina as barbas de capuchinho), demagogos, menos escrupulosos em assuntos de higiene
pessoal, quiseram às vêzes afastar as multidões confiantes, dizendo: "êste homem
não é do povo, mas dos palácios". Ou "êste homem não é da rua, mas dos
salões". Nabuco, porém, se não confraternizou com o povo de sua terra da mesma
maneira pitoresca e boêmia, franciscana e simples que José Mariano, o qual, no Recife de
1880, comia sarapatel e bebericava "vinho ordinário", pelos quiosques, como
qualquer tipógrafo ou revisor de jornal, nunca viveu, como político, longe do povo mais
sofredor. Conheceu-o de perto. Amou-o na realidade e não como figura de retórica.
Trabalhou por ele. Teve como nenhum político brasileiro do seu tempo a visão exata das
necessidades e o sentido justo das possibilidades de gente por tanto tempo abandonada.
Um Brasil que tem entre os homens públicos, os
políticos, os parlamentares do seu passado, um homem, um político, um parlamentar da
grandeza e da atualidade de Joaquim Nabuco, não deve nunca deixar que essa. grandeza seja
esquecida ou que essa atualidade seja ignorada. Principalmente numa época, como esta que
atravessamos, marcada pela desconfiança ou pela suspeita de que todo político brasileiro
seja ou tenha sido um politiqueiro e todo homem público, um mistificador; e de que a
política, os parlamentos, os congressos sejam inutilidades dispendiosas, sendo
palhaçadas ou mascaradas prejudiciais ao povo ingênuo, necessitado apenas de govêrno
paternalescamente forte. Nabuco é uma das maiores negações dessa lenda negra com que se
pretende desprestigiar, entre nós, a vida pública, a figura do político, a ação dos
parlamentos.
Êste o homem atualíssimo, de palavra e de
idéias tão moças que difìcilmente o imaginamos nascido há quase cem anos na capital
de Pernambuco. 0 que aumenta a responsabilidade dos que hoje representam a Nação
Brasileira na Câmara - a Câmara das grandes lutas e das grandes vitórias de Joaquim
Nabuco - no sentido de concorrermos para que o centenário do seu nascimento, em vez de
pretêxto ou motivo de simples atos de liturgia parlamentar ou oficial, seja a ocasião de
comemorações a que desde já se procure associar largamente o povo, a mocidade, o
estudante, o operário, o trabalhador, a gente média do interior, por êle sempre
lembrada. Pois em Joaquim Nabuco precisamos de ver - e não apenas de ver, mas de cultuar
- um pioneiro daquele socialismo ou trabalhismo de sentido ético, para o qual devemos
caminhar cada vez mais resolutamente no Brasil, acima de seitas e de facções, de
doutrinas fechadas e de sistemas rígidos.
Por isto mesmo é que desejaria ver desde já ir
se preparando com esmêro de seleção e de anotação; pelo Ministério da Educação e
Saúde, dirigido hoje por tão ilustre homem público, uma edição popular,
verdadeiramente popular, não à toa e desleixada como em geral as edições populares
entre nós, dos discursos proferidos por Joaquim Nabuco nos seus grandes dias de
reformador social. Edição que fôsse uma das comemorações mais úteis, do 1º
centenário do nascimento do grande brasileiro. Edição que destacasse da personalidade
múltipla de Nabuco o seu aspecto mais sugestivo e talvez mais esquecido: o de reformador
social, o de pioneiro, o de precursor do socialismo ou do trabalhismo no Brasil, aspecto
aos olhos de muitos obscurecido pela figura mais imponente do diplomata, do primeiro
embaixador do Brasil em Washington, do homem do mundo.
Outra sugestão: a de que o mesmo Ministério
institua um prêmio, no mínimo de cinquenta mil cruzeiros, destinado ao ensaio sôbre a
personalidade ou a ação de Joaquim Nabuco, que venha a ser considerado o melhor por
comissão designada pelo ministro da Educação e Saúde.
Deixando com o ministro da Educação e Saúde estas simples sugestões, deixo-as com
um homem público particularmente sensível à importância, para um povo ainda em
formação como o brasileiro, de comemorações de centenários como o de Ruy Barbosa e o
de Joaquim Nabuco. São comemorações para as quais desde já devemos todos ir correndo
com sugestões para que se organizem com o máximo de participação brasileira; para que
participe delas o Brasil inteiro e não apenas o Brasil oficial, acadêmico ou literário.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Joaquim Nabuco. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1948. 47p.
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