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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



MODERNIDADE E MODERNISMO NA ARTE POLÍTICA


Aqui estou hoje, menos como sociólogo - o sociólogo que generosamente me chamam alguns amigos e até alguns inimigos - e menos como escritor - o escritor que pretendo ser desde a adolescência, não desejando desde adolescente outro título, nem acadêmico nem de qualquer espécie, maior que o de escritor - do que como um brasileiro de Pernambuco entre brasileiros de São Paulo; do que como um dos muitos brasileiros de todo o Brasil, hoje convencidos da necessidade de ação ou de atitude política de quantos entre nós tenham responsabilidades intelectuais: desde o catedrático de universidade à professôra primária, desde o estudante de Direito ao diretor de jornal da mais remota povoação do interior. Ação ou atitude política diante dos acontecimentos exepcionais dos nossos dias.

Aqui estou a chamado dos estudantes de Direito de São Paulo. Aos estudantes de São Paulo devo tanto quanto aos da Bahia e do Ceará, de Alagoas e da. Paraíba, uma solidariedade que não esquecerei nunca: a que me chegou nos piores dias da luta contra o estado-fortismo em Pernambuco, de todos os Estados do Brasil aquêle em que êsse regime de caricatura ou essa caricatura de regime chegou às suas maiores audácias contra os homens independentes, contra os intelectuais insubmissos, contra os estudantes inconformados. À mensagem que recebi então dos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo respondi com uma carta que misteriosamente se perdeu na redação do jornal do Rio onde eu ainda colaborava e cujo diretor, intelectual e paulista, estou certo de que foi alheio a êsse mistério de mal escrito romance policial. Deixei de colaborar naquele jornal como deixei na mesma época de colaborar em La Nación de Buenos Aires: no grande jornal argentino meus artigos, evidentemente à revelia de seu diretor e dos seus redatores, começaram a aparecer alterados; e essas alterações no sentido de se tornarem elogios ao "Estado Forte" do Brasil as críticas que eu ousava fazer ao mesmo regime. Governada a policia ditatorial naqueles dias por mãos ostensivamente arianas, não posso atribuir a mãos negras êsse mistério; mas o certo é que o policialismo do "Estado Forte" tudo fêz, de todos os meios se serviu, de tôdas as manhas, de tôdas as traças, de todos os abusos de poder, para isolar do resto do país e dos amigos e correspondentes estrangeiros um simples escritor tanto quanto possível independente. Diante dos abusos da censura policial nos correios, deixei de escrever para revistas e jornais do Brasil e do estrangeiro. Deixei também de responder cartas: tantas eram as que se extraviavam. Deixei de assinar revistas essenciais aos meus estudos: tantas eram as que se perdiam, confundido, por ignorância ou de má-fé, tudo que fôsse "sociólogico" ou "social" com "socialismo", que para os policiais de um regime por algum tempo afeiçoado ao nazismo só podia ser o marxista ou o bolchevista, então detestado e perseguido por êles. Deixei de comprar livros: também êstes eram objeto de estranhos carinhos policiais.. 0 que não deixamos, minha familia e eu, foi de resistir às provocações, às ameaças, às intrusões em que vivemos longos meses em nossa casa de subúrbio, cercada de dia e de noite por agentes ditatoriais, os muros da chácara pixados uma madrugada por êles, os portões emporcalhados freqüentemente por êles, os amigos que se atreviam a nos visitar, seguidos por êles, insultados por êles, ameaçados por êles, agredidos por êles, inquiridos por êles, presos por êles, tudo a mando de chefes decididos a vencer tôdas as resistências brasileiras ao estado-fortissimo. Um dêsses amigos era estudante de Direito e se chamava Demócrito de Sousa Filho.

Quase tudo isso se passou depois do então chefe nacional ter garantido a mim e a amigos meus, pela palavra de um dos seus secretários de confiança - já que um lamentável desastre de automóvel quase lhe tirara a fala -- que eu seria respeitado de modo absoluto em Pernambuco, onde minha prisão, em junho de 1942, se dera à sua revelia e contra o seu gôsto. É verdade que o mesmo secretário deixara transparecer o terno desejo do seu chefe de ver-me residindo confortável e quietamente no Rio como se fora do Rio já não se sentisse senhor absoluto do Brasil. E estou hoje convencido - e digo-o aqui aos paulistas como quem presta um depoimento de possível interêsse histórico e concorre com êsse depoimento para a própria reabilitação, se esta é possível, do sr. Getúlio Vargas - de que o aparente chefe absoluto do chamado "Estado Forte" no Brasil já não era em 1942 senão um resto frio de chefe, um simples e lastimável pedaço de chefe, quando muito um semi-chefe: a outra metade de poder irresponsável exerciam-na já indivíduos inteiramente sem escrúpulos, empenhados em alastrar pela traição, pela intriga, pela intimidação, pela mistificação, peia adulação amolecedora e deprimente, as zonas de impotência política do ditador avelhantado e cansado, consumido pelo próprio abuso físico do poder. Esta a justiça que, estou certo, se fará um dia a um ditador vítima êle próprio da ditadura, tantas vêzes semelhante ao feitiço que cai sôbre o feiticeiro. De modo que não fomos apenas nós, homens da resistência aos abusos do estado-fortismo, as vítimas dêsse sistema de devastação da saúde, da mocidade, da cultura, da economia, da inteligêneia dos brasileiros.

Nós fomos as menores vítimas. As vítimas principais foram os próprios devastadores, corrompidos por aquilo que Lord Acton chamou a corrupção que vern do exercício do poder absoluto: uma corrupção que marca ou assinala de tal modo suas vítimas que de longe elas, são reconhecidas; de longe sua presença é adivinhada. E parecendo estar ainda vivas são na verdade mortos insepultos. Tudo que no Brasil é ainda sobrevivência do estado-fortismo é indivíduo ou coisa moralmente morta que pode empestar o ar das cidades e infectar o dos campos. É arcaísmo que fora dos museus repugna ao senso mais elementar de modernidade que possua um homem.

Entre os brasileiros de São Paulo e os brasileiros de Pernambuco sempre foram muitas as afinidades. Martius quando aqui estêve no comêco do século passado destacou o fato de se encontrar entre paulistas e pernambucanos o maior número de brasileiros instruídos. Mas não vem dessa inconstante superioridade de instrução dos paulistas e dos pernambucanos sôbre os demais brasileiros - pois todos reconhecemos a supremacia em saber acadêmico mais de uma vez assumida no Brasil pelos baianos, pelos mineiros ou pelos maranhenses - a principal afinidade da gente da velha província do Sul com a da antiga província do Norte. Vem antes daquele ânimo ou gôsto de iniciar, de descobrir, de renovar, de antecipar, que sendo um vivo característico dos paulistas, também se encontra entre os pernambucanos. Que fêz dos homens de São Paulo e dos homens de Pernambuco os primeiros brasileiros a substituirem os portugueses no esforço de colonização do Brasil, como notou uma vez o historiador Abreu e Lima. No esfôrço de transformação da colonização do Brasil em auto-colonização, como diríamos hoje.

Paul Adam reparou nos paulistas que conheceu em 1913 um excessivo desprêzo por tudo que fôsse passado, atraso, "en retard" e um amor talvez exagerado por tudo que fôsse "avancé. Surpreendeu assim o arguto francês na gente desta parte do Brasil o pendor modernista que não tem sido senão o excesso de uma virtude: o gôsto, o ânimo, o espírito paulista de modernidade. Pendor e ânimo que se encontram também, embora menos intensos, entre os pernambucanos.

No Brasil, quase tudo que é manifestação de modernidade ou explosão de modernismo em política, em literatura, em indústria, em pintura, até em religião e em ética, tem partido de São Paulo ou do Recife. Ou de paulistas ou pernambucanos. Nos dias de Nassau, o Recife foi um centro tão escandaloso não só de modernidade como de modernismo que os burgueses da Holanda não conseguiram acomodar-se a tanta inovação perigosa. Um dia Nassau quase surrealistamente anunciou aos recifenses que ia fazer um boi voar. E no fim de oito anos de arrojos experimentais do conde - um europeu do Norte enamorado do trópico - desembaraçam-se aquêles burgueses rotineiros de um dos maiores voluptuosos do modernismo na arte política e na arte da administração que já floresceram na América. Desde então parece ter ficado no pernambucano o gôsto de modernidade às vêzes extremado em furor modernista.

1710 foi um movimento modernista, senão de sentido republicano, de tendência violentamente anti-lusitana. 1817 foi outro. 1824, ainda outro. A "revolta praieira" também: anti-lusista e ao mesmo tempo antifeudalista. 0 pernambucano Abreu e Lima - tão cheio do espirito de aventura que se fêz soldado de Bolívar - foi um modernista em suas idéias e atitudes. Ao morrer no Recife em 1856 teve que ser sepultado no Cemitério dos Inglêses: a Igreja Católica, pelo seu bispo em Pernambuco, considerou-o hereje. A chamada "Escola do Recife" foi modernismo do mais puro. 0 germanismo no direito, na literatura, na filosofia - modernismo do mais cru. A "poesia cientifica" de Martins Júnior, modernismo do mais louco com. aparência de lógico. 0 abolicionismo de Joaquim. Nabuco, não: êste foi uma das manifestações mais saudáveis de modernidade em arte política que já houve entre nós. Tanto que não se extremou sequer em republicanismo: o modernismo político em que tantos paulistas e pernambucanos do fim do século passado se exageraram, com o positivismo como um quase-cubismo que deixou na própria bandeira nacional sua marca.

Dos paulistas seria. supérfluo recordar que sempre estiveram a frente, no Brasil, de movimentos de antecipação, de inquietação, de sofreguidão pelo novo, pelo diferente, pelo moderno. Nos mais remotos dias da colônia, já eram tidos pelos mais terríveis rebeldes desta parte da América. Ainda no século dezoito, um padre paulista quis voar. Outro padre paulista, Diogo Antônio Feijó, foi quase escandalosamente modernista em suas idéias de católico e de padre. 0 republicanismo foi em São Paulo que primeiro se sistematizou como modernismo político. Em 1922, o modernismo brasileiro nas artes e nas letras seria um movimento principalmente paulista.

Paulistas e pernambucanos se confundem em vir sendo no Brasil os brasileiros de espírito mais constantemente moderno e às vêzes mais exageradamente modernista. Mais de uma vez têm sido corrigidos em excessos de aventura intelectual ou política, industrial ou estética, pelo espirito de conservação, de prudência, de rotina, de tradição, de equilíbrio, de doçura na conciliação de extremos, dos baianos e dos mineiros. Êstes são os maiores mestres de arte política em nosso país justamente por ser a arte política, entre tôdas as artes, aquela que mais se aprimora pela doçura na conciliação dos extremos: doçura tão do temperamento dos baianos quanto da índole dos mineiros. Êles, baianos e mineiros, são os maiores e os mais antigos mestres dessa arte no Brasil; nós, paulistas e pernambucanos, somos com os homens do Rio Grande do Sul e de outras áreas, eternos aprendizes dessa arte. E por sermos eternos aprendizes, nosso pendor é maior do que o dos mestres para as aventuras de inovação, de experimentação, de renovação e até de revolução, sem as quais não se compreende modernismo nem mesmo modernidade.

Admiramos os mestres; mas isto não quer dizer que nos conformemos em que a arte política deva ser exercida apenas, ou quase exclusivamente, por êles. Deve ser exercida também por aprendizes ou discípulos de modo a serem os mestres influenciados pelos aprendizes, os excessivamente prudentes pelos excessivamente inovadores, os exageradamente tradicionalistas pelos exageradamente experimentalistas, mesmo quando êstes sejam mais modernistas do que modernos em seu espírito ou em sua ténica de inovação ou experimentação. Feito isto, teremos caminhado para a mais saudável das compensações: aquela que se obtém pela interpenetração de antagonismos ou pela reciprocidade de influências, sempre tão útil na parte política. É a lição dos inglêses, maiores mestres nessa arte do que os próprios baianos ou os próprios mineiros. Donde se poder concluir que feliz é o povo que, como o brasileiro, tem baianos e mineiros por mestres e paulistas e pernambucanos por aprendizes de arte política.

De São Paulo, por ter sido e por ser ainda a província brasileira por excelêneia da aventura, das Bandeiras, da inovação, da experimentação, da renovação, e, por conseguinte, do modernismo nas artes, inclusive na política - zona em que êsse modernismo já chegou em teoria até a essa espécie de autonomismo desvairado ou de estadualismo enlouquecido que é o separatismo; de São Paulo não se diga, numa generalização rígida, que só tem dado à política brasileira aprendizes, uns de gênio, outros sem gênio. Pois brasileiro nenhum pode esquecer ser esta a província materna dos Gusmões, dos Andradas e dos Prados, vários dos quais têm sido em política antes mestres que aprendizes; dois dos quais foram talvez os mais altos e completos homens públicos que a América portuguesa já produziu: Alexandre de Gusmão e José Bonifácio.

Não precisei procurar seus nomes para com êles fortalecer uma tese porque não são nomes que alguém precise de procurar quando fale de arte política no Brasil: foram êles os maiores mestres que a difícil arte teve entre nós e são ainda os mais visíveis porque verdadeiramente monumentais. Note-se, entretanto, em ambos, o seguinte: nenhum dos dois foi mestre rígido que pela soberania do gênio ou pela majestade do saber renunciasse, depois de consagrado ou velho, o direito ou a alegria de continuar aprendiz, experimentador, homem de aventuras intelectuais, (José Bonifácio, homem também de aventuras sentimentais, homem moderno embora nenhum dos dois estritamente modernista.

Pois o modernismo implica em considerar-se perfeito um momento que é ou foi moderno; em parar um homem ou um grupo na adoração dêsse momento considerado todo ou quase todo insuperável; em sistematizar-se e até cientifizar-se essa adoração como fêz ingênuarnente Martins Júnior com a poesia que chamou cientifica. São Paulo teve entre seus homens públicos um modernista típico que foi o sábio Pereira Barreto, corrigido e retificado com tanto brilho em alguns dos seus excessos por Eduardo Prado, o anti-modernista extremo. E quem fala em São Paulo e em modernismo, em geral, tem de referir-se mais demoradamente ao "modernismo" na literatura e nas belas-artes que aqui se tornou escandalosa e revolucionàriamente em tôrno de Mário de Andrade, de Anita Malfatti, de Guilherme de Almeida, de Tarsila e de Oswald de Andrade: movimento considerável de renovação das letras e das artes que, entretanto, envelheceu depressa pelo fato de se ter contraído e sistematizado numa quase seita de adoração do que fôra apenas um momento ou um instante - instante didático, libertador, revolucionário, violentamente anti-acadêmico - na vida do brasileiro criado com muita gramática ou com excessivo respeito pelas academias.

Tôda adoração dessa espécie se torna, quando passa de um instante, a própria negação daquele critério de modernidade, presente e vivo na obra inteira de José Bonifácio e de todos que, sendo modernos, não são nunca modernistas de seita. Adoração de que vigorosamente se desembaraçou Mário de Andrade no fim da vida e de que cedo se libertaram Tarsila, Di Cavalcanti e o admirável mestre de modernidade que é Oswald de Andrade, com o seu incessante ardor experimental e a sua também incessante vigilância, não só crítica como auto-crítica. Essa vigilância não permitiu que êle sistematizasse eu modo de escrever num modo de escrever sectàriamente anti-gramatical e calculadamente modernista. Desde 1922 que Oswald de Andrade escreve de um modo novo mas não fanàticamente novo: sem aquêles sinais maçônicos que só os iniciados compreendem e admiram noutros "modernistas" hoje arcaicos. Sem abusos de " gostosura", de sentenças começando com "me", de diminutivos exageradamente açucarados. 0 mesmo estou certo que teria acontecido a Antônio de Alcântara Machado se êle tivesse amadurecido, como amadureceu Oswald de Andrade, no escritor moderno, e não simplesmente modernista, que prometia ser. E não nos esqueçamos de Ronald de Carvalho, de Manuel Bandeira, de Carlos Drumond de Andrade, de Sérgio Buarque, de Prudente de Morais Neto, de Tristão de Ataide, de Menotti del Pichia, de Cassiano Ricardo, de Rodrigo M. F. de Andrade, de Afonso Arinos de Melo Franco, de Emílio Moura, de Tasso da Silveira, de Flávio de Carvalho, de Aníbal Machado, para só citar êsses. Para êsses, ou para alguns dêsses, o modernismo, apenas na aparência é que foi um simples jogo de inteligêneia. Na verdade foi uma áspera mas fecunda aventura, não apenas da inteligência ou da sensibilidade, mas da personalidade inteira. Aventura necessária para o desenvolvimento de tantos inquietos em modernos: os modernos saudáveis que são ainda hoje. Ninguém, entretanto, mais incessantemente moderno no Brasil dos últimos trinta anos que o ex-modernista, o ex-antropofagista e creio que o ex-marxista de seita, Oswald de Andrade, que proclamou êle próprio, numa das melhores páginas do seu Ponta de Lança - a pagina 122 - ter sido dos que salvaram o sentido do "modernismo" com a "antropofagia", isto é, com um movimento post-modernista de superação do modernismo já meio oficial de Mário de Andrade; ter sido dos que caminharam sempre, e decididamente, "para o futuro".

Ainda caminha. E poderia ter sido mais exato e ter dito que concorreu para salvar o sentido moderno do "modernismo" brasileiro. Oswald de Andrade foi, na verdade, dos que salvararn o sentido moderno do modernismo no Brasil; dos que cedo se dispuseram a salvar o movimento iniciado em São Paulo em 1922 de permanecer apenas seita modernista; dos que cedo se empenharam em salvá-lo de permanecer apenas literário ou estético; dos que cedo procuraram não só pela palavra como pela ação acrescentar-lhe sentido social e, dentro do sentido social, sentido político. E êsse sentido político, o democrático.

Por tudo isso êle é como ninguém dentre os sobreviventes do modernismo paulista de 22 um moderno ao lado do qual nenhum post-modernista sente êsse não sei quê de desconfortável que nos comunica a presença de um indivíduo intransigente ou ostensivo no seu modernismo de mocidade ou de seita, no seu modernismo já superado por outros modernismos de que êle, entretanto, modernista parado, não toma sequer conhecimento, conservando todos os cacoetes, todos os modismos, todos os característicos de sua seita antiga e escrevendo pelos sinais maçônicos dessa seita. Oswald de Andrade conserva do "modernismo" de 1922 o que havia de revolucionàriamente e permanentemente rnoderno no movimento, do mesmo modo que um grupo de homens, hoje já de meia-idade e alguns até de idade avançada, chamados "tenentes", conserva na política brasileira o sentido revolucionàriamente e permanentemente moderno do tenentismo de 22, de 24, de 30, seu sentido ético e político de ação renovadora. É o que se salva dos ismos quando os ismos encontram Oswalds de Andrade e Juracis Magalhães que os salvem: seu sentido de modernidade que é também um sentido de continuidade criadora.

Através dessas aproximações ao assunto creio ter, em parte, sugerido o necessário sôbre a distinção a têrmos em vista entre modernidade e modernismo. 0 problema me parece que é psicológica e sociològicamente o mesmo em qualquer arte. 0 mesmo, psicológica e sociològicamente, na arte política que nas artes plásticas, por exemplo. Em tôdas as artes os modernistas passam e os modernos ficam. Donde me ter aventurado uma vez a comparar um conhecido sistema de arte política com um conhecido sistema de arte plástica, para ilustração do que seja modernismo em oposição a modernidade em qualquer arte. Nessa comparação é que insistirei hoje, dentro, aliás, do critério sociológico de análise das artes plásticas como manifestação da mesma cultura que produz a arte política ou a arte industrial ou a arte da bruxaria, já adotado, em curioso trabalho, por um dos mais notáveis críticos paulistas dos nossos dias: Professor Sérgio Milliet, no seu ensaio Marginalidade da pintura moderna. Marginais as artes plásticas porque, para o Professor Sérgio Milliet, as artes plásticas e a música avançando, nas épocas de transição como a nossa, mais que a economia ou a política, "na ânsia" de encontrarem "a expressão certa do mundo novo", ultrapassariam "o estágio do público, mesmo da elite", perderiam pé, destoariam da "cultura em formação". E ficariam em estado de marginalidade: rejeitada pela civilização superada e incompreendidas pela civilização nova ou em formação. Enquanto a arte política -- depreende-se, creio eu, das palavras do critico paulista - não seria assim, não conheceria êsse conflito, não experimentaria êsse drama, pois, segundo, o Professor Sérgio Milliet, "políticos, economistas, administradores, mesmo os mais avançados, vivem de conluios e de concessões".

Será certo que as artes plásticas e a música se afastem tanto, pela sua intransigência, da arte política, da arte industrial e da arte de administração? Será que estas artes podem ser caracterizadas pelo excesso de concessões em que vivem os políticos, os economistas, os administradores? Ou não sofrerão tôdas as artes - a música, as artes plásticas, a arte política, a industrial, a de administração (tôdas elas, para o sociólogo, manifestações de cultura diversas apenas na qualidade, e, por conseguinte, sujeitas, nas épocas de transição, às mesmas aventuras de marginalidade) os efeitos do mesmo processo de modernização? Modernização nos seus primeiros avanços quase sempre exagerada em modernismo; depois aquietada, porém não estagnada, em sã e criadora modernidade, obtida, parece que invariàvelmente, à custa de concessões ou conluios entre o novo e o velho, entre o ímpeto revolucionário e a inércia invencível ou a tradição irredutível, seja esta a que se encontra na política ou na economia, nas artes plásticas ou na música, na dança ou na própria arte da modista. Pois não nos esqueçamos de que há uma parenta pobre das artes, mais ilustres muito amada dos ricos e chamada "moda"; e como lembra um ensaísta dos nossos dias, Júlio Payrá, é a moda que particularmente se antecipa em anunciar o que as outras artes exprimem menos visivelmente ou menos escandalosamente: o fim de uma época, de uma civilização.

Creio que é antes isto do que a intransigência absoluta de umas artes e a transigência excessiva de outras que se passa mais ou menos com tôdas as artes em face do processo de modernização. Nas fases de transição de cultura, esse processo parece alcançar a umas artes mais rápida ou violentamente do que a outras, sem deixar, porém, de afetar, a tôdas, de tornar a quase tôdas instáveis, de a tôdas alterar em suas formas que, entretanto, nunca se estabilizam em formas inteiramente novas: terminam sempre retendo ou guardando alguma coisa das antigas, por algum tempo consideradas pelos fanáticos do modernismo renovador, abomináveis, nefandas, intragáveis, intoleráveis. Um dêsses fanáticos foi comparado, e muito bem comparado, a Savanarola.

É claro que nem de longe pretendo dar hoje ao assunto o desenvolvimento que êle merece; nem serei eu o mais competente para fazê-lo. 0 que trago aos meus amigos de São Paulo é uma simples "nota prévia" que talvez venha a desenvolver um dia em ensaio ou estudo. Pois o paralelismo de desenvolvimento entre as artes ou as várias manifestações ou exteriorizações artísticas ou quase-artísticas de cultura, sendo assunto, já enfrentado magnìficamente por um mestre da altura do Professor Sorokin, tem ainda aspectos virgens a ser explorados ou considerados. E um dêles talvez seja êsse da arte política ser menos diversa do que parece, em seu processo de modernização - sempre contrariado pelo de regressão ou de conservação - da arte da dança ou da arte da pintura ou da arte da arquitetura. Aliás Havelock Ellis consideraria tôdas essas artes manifestações de uma só: a dança da vida. E o certo é que em tôdas elas deparamos com períodos de modernismo que são também períodos de fanatismo. Ou de revolucionarismo "heróico", puro, ortodoxo.

O cubismo foi decerto, nas artes plásticas, um dêsses períodos de fanatismo ou de revolucionarismo "heróico" que na arte política é ainda atravessado pelo marxismo-comunista. Pois êste tendo deixado de ser "heróico" na Rússia, ou para os russos, continua a sê-lo para aqueles que, fora da Rússia, ainda a supõem em fase heróica de intransigência marxista, de ortodoxia revolucionária, de purismo fanático.

Parece que na arte política tais períodos de fanatismo tendem a prolongar-se mais do que nas artes plásticas, sem que deixe de haver semelhança nos seus modos de formação, nos seus métodos de desenvolvimento e nos seus efeitos de ação. Os historiadores do cubismo destacam o fato de revelar êle pontos de contacto com a arte sem figura humana de Islam, atribuindo alguns essa afinidade à circunstância de terern sido dois dos seus principais criadores, Picasso e Gris, "filhos da Espanha" que alguém já chamou "inquisitorial e moura". Mas não se esquecem de recordar que o movimento foi étnica e culturalmente heterogêneo nas suas origens, embora principalmente espanhol (elemento representado por Picasso), francês (elemento representado por Braque) e eslavo (elemento representado por Apollinaire). Ora, quase o mesmo se tem dito do marxismo: também êle revela pontos de contacto com uma cultura antiga: a hebréia; com um sistema severamente religioso: o dos profetas do Velho Testamento. Ao mesmo tempo agiram sôbre sua formação e sôbre seu primeiro desenvolvimento elementos nacionais diversos: o alemão, o francês, o inglês, o eslavo. Entretanto, um e outro foram, ou continuam a ser, revoluções internacionais: duas das maiores revoluções internacionais de todos os tempos.

E é interessante, do ponto de vista sociológico, assinalarmos coincidências entre os dois movimentos, isto é, entre suas formas, seus métodos, seus processos de agressão à ordem estabelecida quer nas artes plásticas, quer na plástica social, esta, até certo ponto, obra de arte política. São métodos diversos tanto dos do expressionismo como dos do anarquismo, duas outras coincidências que toleram e até pedem estudo sociológico. Ambos - cubismo e marxismo - surgiram violentos em sua agressão à ordem estabelecida e aos valores dominantes. 0 cubismo querendo tudo nas artes plásticas reduzido a formas geométricas simples, a formas apenas associadas entre si por um processo mental, a volumes puros, a linha justas, a exemplos como que didáticos de uma nova gramática da pintura, da escultura, da arquitetura. 0 marxismo, também: seu primeiro ímpeto foi substituir uma gramática de arte política por outra violenta e inteiramente nova. Cubismo e marxismo apresentaram-se como "científicos", como matemáticos", como "anti-românticos", quando na verdade seus criadores ou sistematizadores foram como Apollinaire ou como Marx, como Picasso e como o próprio Engels, homens antes românticos que matemáticos, antes poéticos que científicos em sua formação, em seu temperamento, em suas concepções da vida e dos outros homens. 0 estudo de Marx como poeta está feito magistralmente por um dos maiores críticos do nosso tempo, Edmund Wilson, num ensaio, Finland Station, que recomendo à melhor atenção dos estudantes paulistas; o estudo de Picasso como outro grande poeta do nosso tempo está igualmente feito, em páginas sugestivas, por Joan Merli - "Picasso es um filósofo pero también es un lírico" - e por outro espanhol, Ramón Gomez de la Serna, para quem dentro de Picasso há quatro homens lutando e estimulando-se: "o mudejar, o mourisco, o universal romano, o espanhol". Êsses conflitos de culturas, mais do que de homens, dentro de um indivíduo só, tendem sempre a produzir antes poetas do que lógicos, antes profetas que cientistas puros. Marx, segundo outro dos seus intérpretes mais Iùcidamente críticos, o Professor Lewis Mumford, procurou esconder sua "visão apocalíptica de profeta judeu" sob a aparência de pesquisa severamente erudita dos fatos; e denominou seu esquema antes filosófico, que cientifico, de sociologia ou de economia política, de "ciência", para "esconder até de si próprio suas profundas solicitações emocionais e sua atitude essencialmente religiosa diante do destino humano". Duas qualidades que dariam àquele esquema semi-científico "o poder de atrair o apoio dos deprimidos e dos desesperados dentre os homens da massa".

Não terá Picasso sido semelhante a Marx neste ponto? Não terá sido um homem para quem o cubismo foi, por um lado, uma herança de cultura islâmica - reatada, atualizada e exagerada por êle no seu aspecto experimentalmente estético - e por outro lado, um meio de conter-se, e ao seu espanholismo, ao seu fanatismo, ao seu intensismo ibérico, ao seu anarquismo peninsular dentro de cubos disciplinadores, aos quais acabou, entretanto, corrompendo com sua fôrça poética, como um adolescente que corrompesse sua governanta alemã com a fôrça do sexo? Cubos dos quais acabou libertando-se para novas aventuras de personalidade lírica. E tanto em Marx, comunista "científico", como em Picasso, cubista anti-sentimental, encontramos exemplos de revolucionários que se esquivariam a permanecer fanáticamente dentro dos seus próprios sistemas modernistas. É que um e outro eram grandes demais para serem modernistas. Transbordaram do modernismo. Permanecem modernos. Continuam modernos. Enquanto os sistemas modernistas para cuja criação concorreram mais com seu gênio poético do que com sua inconstante meticulosidade científica são, cada dia mais, sistemas superados, ultrapassados, excedidos por outros sistemas, embora de modo nenhum destruídos ou aniquilados, nem o cubismo por quanto anti-cubismo se tem levantado furiosamente contra êle, nem o marxismo por quanto anti-marxismo se tem inventado para reduzi-lo a pó.

Do sistema sociológico e, ao mesmo tempo, econômico e político, ligado ao nome de Marx e de Engels, parte considerável se acha incorporada, ou em processo de incorporação, às ciências sociais e à engenharia social ou à arte política. Nessas ciências e nessa arte, ninguém hoje pode dizer-se moderno, nem pensar ou agir modernamente, sem ter passado não digo como um adepto - embora não haja mal nenhum na fase de experiência, prática ou iniciação marxista por que passe um adolescente mais sôfrego ou inquieto dos nossos dias - mas como um estudante do marxismo. Pelo estudo do marxismo é que melhor se chega àquela conclusão de Mumford de que nesse sistema o fundamentalmente errado está na rigidez de suas categorias. Uma rigidez de categorias que lembra, seja dito de passagem, o esquemático da concepção cubista da natureza. São categorias segundo as quais, como observa Mumford, as "relações materiais" seriam sempre a causa, e não uma das bases, de tôdas as relações humanas, fazendo-se confusão constante de "causa" com "base" e exclusão sistemática - exclusão a que não nos autoriza o estudo sociológico das sociedades e das culturas, - da base ideal, ou não-material, daquelas mesmas relações. Pois o que se sabe hoje é que em qualquer sociedade ou cultura humana os aspectos políticos, artísticos, religiosos de sua vida ou organização nem precedem os técnicos ou os econômicos nem tampouco decorrem passivamente dêles. São, como dizem os sociólogos mais modernos, "orgânicamente relacionados".

Outro ponto em que o marxismo foi tão simplistamente modernista em arte política quanto o cubismo nas artes plásticas foi em esperar que, abolida nas slociedades ou, pelo menos, reduzida, a hierarquia que se exprime em classes - espécie de equivalente, na plástica social, da perspectiva na pintura - e aclamado o proletariado "classe única" - "classe única" bem alimentada, bem vestida, bem abrigada - cessariam todos os motivos de luta entre os homens, como se das novas condições de vida não surgissem novos motivos de insatisfação, de inquietação, de luta. Pelo que críticos como o já citado Professor Munford acusam o marxismo de ter caído na mística vitoriana de "happy end".

A verdade é que os desenvolvimentos sociais excitados ou estimulados pelo largo emprêgo da eletricidade nas sociedades mais adiantadas só tem feito, como salienta outro crítico atual do marxismo, o Professor Lancelot Hogben, diminuir, nas sociedades que fazem maior uso de eletricidade, a tendência para a proletarização da classe média. Tendência entrevista por Marx como geral e irresistivel. 0 Professor Hogben vem demonstrando, em estudos objetivos e inteligentes, que não: o emprêgo cada dia maior da eletricidade vem exigindo número cada dia maior de peritos, de técnicos, de especialistas nas sociedades britânicas e, por conseguinte, reduzindo, entre elas, a tendência para a proletarização - no sentido de pauperização - da classe média. Esta é que vem se expandido numa espécie de classe única com várias sub-classes.

Nos Estados Unidos é também o que se tem verificado: e ali de forma ainda mais acentuada. É o que mostra Alfred Bingham no seu Insurgent America: outro trabalho sociológico que sendo de orientação pós-marxista não é, de modo algum, anti-marxista. Recomendo-o também aos estudantes de São Paulo que porventura ainda ndo o conheçam. Como lhes recomendo os estudos do Professor Myrdal sôbre a Suécia e o admirável ensaio em que um pensador britânico, o Professor John Macmurray, sobrepõe ao marxismo sistemático ou sectário o que denomina "democracia constrativa" ou "democracia positiva" diversa da negativa, que seria a liberal ou liberalona.

A democracia "construtiva" ou "positiva" do Professor Macmurray baseia-se no reconhecimento do fato de que os problemas humanos são hoje principal ou primàriamente econômicos: um fato pôsto violentamente em relêvo pela revolução marxista em sociologia, em econômia e em política. Daí ser impossível uma democracia econômica, sem que se faça obra de planificação social, tècnicamente centralizada mas politicamente descentralizada: com o máximo de participação, nesse esfôrço, do homem comum através do seu município ou da sua comuna. Na revivescência da democracia local ou municipal que, felizmente, é hoje uma das preocupações mais vivas entre os brasileiros empenhados na renovação da nossa vida política e na organização democrática das relações entre os grupos rurais e os urbanos da nossa população, estaria o meio mais simples de se fazer coincidir a democracia política com a econômica, a rural com a urbana. Pois nada nos autoriza a acreditar com Marx que a vida rural seja o que êle considerou, num excesso de modernismo ou de cubismo político, uma "vida idiota" que deva ser sistemàticamente substituída pela generalização da estrutura urbana ou metropolitana a tôdas as áreas de atividade humana. Nesse afã de subjugar de todo ao complexo urbano a natureza - que teria reduzidas suas curvas rurais às retas, aos ângulos, aos cubos urbanos - o modernismo marxista como que se antecipou ao cubismo picassista, também empenhado no que um critico alemão, Wilhelm Hansenstein, chamou muito germânicamente de "desnaturalização da natureza pela forma". Desnaturalização atingida, no cubismo, por uma nova ordem dada à representação plástica das coisas e do corpo humano, quase reduzidos a pretextos para criações geométricas. Por isto André Salmon chamou ao cubismo de "pintura equação" do mesmo modo que se poderia chamar ao marxismo de "política-equação". Pretendendo servir-se só do cubo, do paralelepípedo, das formas piramidais e da esfera, o cubismo foi, nas artes plásticas, um equivalente do marxismo. Pois êste na arte política ou na engenharia social, procurou ser absolutamente, fanàticamente, rìgidamente linear, esquemático, cúbico.

Le Fauconnier, em experiências de pintura cubista do corpo humano, acabou descobrindo um novo ritmo de composição baseado em esquema cúbico-trigonométrico. 0 mesmo conseguiu Braque. Donde o cubismo ter se tornado o "fanatismo sectário" a que se referem Hansenstein e outros críticos. Hansenstein, porém, vai mais longe em sua análise quase sociológica do fato e comenta que com êsse fanatismo "estreitou-se o horizonte" para os pintores que se tornaram fanàticamente cubistas. Mas nunca - adianta êle -"movimento artístico nenhum deixou de ser isso", querendo referir-se a movimentos artísticos revolucionários ou reformadores. E tendo sido o cubismo "uma reação dialética aos neo-impressionistas", como o marxismo fôra uma reação dialética aos hegelianistas, não encontrou outro meio de afirmação senão a violência. Ambos foram movimentos fanáticos e sectários violentíssimos. Mas sem êsse fanatismo, sem êsse sectarismo, sem essa violência, sua revolução teria se limitado a tempestades em copos d'água parlamentares ou em vasilhas de lavar pincéis. Pela violência modernista, marxistas e cubistas abriram caminhos para a modernidade em que começamos a viver hoje, tanto nas artes plásticas como na engenharia social ou na arte política. Sem o cubismo, talvez ainda estivéssemos na fase de arranba-céus em estilo gótico ou em estilo mourisco, como os da fase paleotécnica de Nova York; ou na pintura puramente anedótica, costumista, literária, sentimental ou naturalista do século XIX. Sem o marxismo o talvez continuássemos a pretender resolver os problemas de engenharia social com a democracia liberal ou com o parlamentarismo do século XIX; os problemas da miséria, com a filantropia apenas sentimental.

Com a continuação da violência, porém, e do fanatismo, do sectarismo, do modernismo revolucionário, remédios e médicos teriam destruído o doente antes de Ihe curar as feridas. Nas artes plásticas, como na arte política - aquelas revolucionadas pelo cubismo, esta pelo marxismo - às violências renovadoras sucederam-se acordos, transigências, acomodações, concessões, entendimentos entre o violentamente novo e o imperecível, o permanente, o eterno em tôdas as artes. Derain, por exemplo, não tardou a afastar-se do cubismo, que o salvara do academicismo decrépito, para aproximar-se do relativo naturalismo ou classicismo em que conseguiu fazer obra já de sabor moderno mas sem nenhum ranço modernista. Em arte política, já haviam começado a fazer o mesmo, políticos de formação marxista. Políticos que vêm conseguindo, desde os fins do século XIX, conciliar métodos e princípios de sua formação didáticamente marxista com a técnica post-marxista. Uma combinação de passos de dança livre com movimentos de exercício de ginástica aprendida em colégio. E através dessa conciliação, abandonaram êles a rigidez ou a disciplina modernista e tornaram-se criadoramente modernos, uns sob o nome de "fabianos" ou "trabalhistas", outros sob a denominação de "socialistas reformistas", alguns até sob a de "socialistas cristãos" ou "solidaristas"; ou mesmo de neo-marxistas. Os continuadores dêsses homens transigentes é que são hoje, não apenas modernos, mas moderníssimos, na arte política de contemporização, enquanto os que se conservam intransigentemente marxistas ou fanáticamente anti-marxistas são "modernistas" ou "anti-modernistas" superados já por várias gerações de pós-modernistas.

Escreve William Orpen em The Outline of Art, referindo-se principalmente aos cubistas, que seria um êrro afirmar-se que, em pintura, as experiências dos extremistas foram experiências sem valor. Técnicamente êles abriram o caminho para um novo realismo: o realismo moderno que é todo diverso do pré-cubista.

E nesse novo realismo, o sisudo crítico de arte britânico pensa que a "estrutura firme" e o "desenho rígido" dos cubistas se combina com uma verdade e uma beleza de côr que se derivam de inimigos por êles duramente combatidos: os impressionistas ou os neo-impressionistas. 0 que, sendo exato, como parece ser, indica que, ao contrário da suposição do ilustre crítico paulista de pintura, sr. Sérgio Milliet, a modernidade nas artes plásticas, como a modernidade na arte política, se mantém ou se desenvolve, através de transigências, contemporizações, acordos, concessões, entendimentos entre vários ou sucessivos modernismos e o que é indestrutível na tradição clássica.

0 que Orpen diz dos cubistas, em relação com a pintura moderna, pode-se talvez dizer dos marxistas, em relação com a política moderna. Êles nos enriqueceram a arte política e a arte da administração com "a estrutura firme" e o "desenho rígido" do seu sistema, sôbre o qual se desenvolveu a moderna técnica de planificação. Ora, sem a técnica de planificação não se concebe mais engenharia social. Mas não é só: como cubistas políticos, os marxistas puseram para sempre em relevo a antes dêles quase esquecida democracia econômica, sem a qual não se concebe mais organização democrática. Ainda mais: êles tornaram dramàticamente claro o fato -- como destaca mais de um sociólogo moderno - de que os métodos e princípios capitalistas em vez de leis da natureza, são produtos de arte ou de cultura humana, podendo ser; assim, substituídos por outros métodos ou princípios que correspondam melhor que aquêles à natureza humana, em vários de seus aspectos condicionada, embora de modo algum rigidamente determinada, pelas condições técnicas ou econômicas de vida.

Superado o marxismo pelas teorias e experiências de democracia post-marxista, ultrapassado por elas, excedido por elas, essa superação não nos deve fazer esquecer o fato de que sem a teoria e a experiência marxistas não haveria a atual democracia social: nem a cooperativista nem a experimentalmente socialista nem a planificista. São tôdas tipos post-marxistas de democracia que, em países como a Grã-Bretanha, a Suécia, a Nova Zelândia, a Austrália, a Dinamarca, o Uruguai, os Estados Unidos, já se apresentam com resultados capazes de nos fazer acreditar no inteiro êxito de avanços verdadeiramente revolucionários no sentido de uma nova e complexa organização das relações entre os homens. Por muito tempo, entretanto, essa nova organização conservará traços marxistas visíveis ou pronunciados, embora unidos a outros traços - inclusive os cristãos - em combinações que Marx não previu. Nem previu nem desejou. Combinações impostas, umas pelos desenvolvimentos sociais de novas condições técnicas que o grande e arguto judeu - tão grande que não caberia hoje em nenhum partido marxista, tão arguto que provavelmente não seria hoje nem leninista nem trostkista - não chegou a entrever ou a considerar, como o largo emprêgo da eletricidade nas indústrias e na vida das comunidades modernas; outras, conseguidas pela arte de conciliação de antagonismos ou de extremismos em que são mestres, ainda mais que os pintores capazes de combinar cubismo com impressionismo, os políticos capazes de combinar materialismo econômico - que, aliás, não deve nunca ser confundido com o materialismo vulgar - com idealismo cristão, parlamentarismo britânico com tecnicismo vebleniano.

E é o que se vem verificando nos últimos decênios e continua a se verificar nos nossos dias, inclusive, como é do conhecimento de todos, dentro da própria Rússia: a superação dos modernismos políticos do século passado e dos começos do atual. A superação do modernismo revolucionário pela modernidade criadora.

Entre os modernismos superados, aquêle que venho, considerando o equivalente político do cubismo e que, pela sua ação violentamente revolucionária das teorias e dos métodos capitalistas de ocupação e representação do espaço social, foi, ao meu ver, o maior de todos: o marxismo. Superação - acentue-se bem - e não destruição. Superação. Conciliação de critérios: principalmente do critério de tradição com o de experimentação. Tal tem sido essa conciliação que desde a vitória do Partido Trabalhista na Grã-Bretanha já nos podemos considerar, em assuntos de engenharia social, no inicio de uma dessas fases de modernidade criadora que quase sempre se sucedem aos períodos simplistamente radicais e violentamente revolucionários.

Alguns característicos da fase post-marxista de teoria e metodologia democrática em arte política e em engenharia social já podem ser reconhecidos. Um dêles - a "acumulação sistemática de fatos sociais" em que a Sra. Helen Merrell Lynd vê, com inteira razão, em livro recente, um dos desenvolvimentos mais significativos na política de transição britânica do liberalismo econômico para o socialismo democrático de hoje - é de especial interêsse para os que se preocupam com o estudo sociológico dos problemas a serem enfrentados e, se possível, resolvidos, pela arte política e pela engenharia social dos nossos dias, depois de situados e esclarecidos pela sociologia e pelas demais ciências do homem. Pois sem êsse estudo - e sem outros estudos de caráter científico dos mesmos problemas - não se faz obra sólida de organização ou reorganização em sociedades complexas como as modernas, rebeldes a quanto cubismo político, sociológico ou econômico parta do princípio de que sua doutrina linear ou absoluta já é a síntese das sínteses e dispensa novos esforços de análise: a não ser os destinados a confirmações agradáveis do que está escrito em livros como que sagrados, obras de grandes profetas ou de grandes revolucionários necessários mas insuficientes: indestrutíveis mas ultrapassados.

Há dez anos, falando aos estudantes de São Paulo, foi êste o meu tema. Procurei então alertar a inteligência da gente mais nova desta parte do Brasil contra a suficiência doutrinaria dos simplistas de qualquer espécie. Continua a ser esta uma das minhas maiores preocupações.

Fique bem claro, entretanto, que não se trata de opor à arte política a ciência política ou à engenharia social a ciência social como se nessa oposição estivesse outra solução messiânica para os problemas da nossa época. Sou dos que de modo nenhum acreditam em política científica; dos que de modo nenhum desejam a substituição do político, que deve ser principalmente um artista ou um engenheiro social, pelo cientista. Êsse cientificismo foi um dos característicos do marxismo nos seus dias mais enfáticos na Europa, hoje revividos na América do Sul pelos representantes retardados de uma doutrina já superada em tantos pontos por outras doutrinas. Consideram-se êles os donos de uma "ciência certa" ou da "única ciência verdadeira" com a qual fácil Ihes seria concertar todo o mundo e seu Pai.

Fora dos marxistas retardatários creio poder afirmar-se que não existe hoje, entre políticos, mística cientificista: aquela mística cientificista que, no Brasil, teve, nos últimos anos do século passado, tão grandes entusiastas: o já lembrado Pereira Barreto aqui em São Paulo, por exemplo; em Pernambuco, o também já recordado Martins Júnior, modernista de fim de século que foi um verdadeiro lírico na sua crença na "política científica" ao mesmo tempo que na "poesia científica". Fracassou estrondosamente em ambas, para ser recordado hoje pelas boas páginas que escreveu sôbre história do direito e pelos bons exemplos que nos deixou de altivez e de honestidade. Mas não é de admirar. Na própria Europa e nos Estados Unidos, houve quem supusesse que depois de Comte ou de Darwin, de Spencer ou de Marx, tudo se resolveria em política e em ciêneia social através da aplicação aos problemas humanos de conceitos ou métodos de ciência mecanista. Através do quantitativismo, denunciado vigorosamente por Ritchie e hoje repelido pela melhor ciência social.

Do que parecem estar convencidas as inteligências mais lúcidas que se preocupam com os problemas de organização ou reorganização social é de que tais problemas exigem soluções sociais - soluções sociais quanto possível cientìficamente sociais; mas através de meios políticos que não são, nem podem ser, principalmente científicos, mas principalmente artísticos. Pois o dia do político, que é essencialmente um artista, não passou e talvez não passe nunca. Nem o cubismo matou o artista nas artes plásticas substituindo-o pelo geômetra nem o positivismo ou o marxismo destruiu na política a figura do artista político, substituindo-o pelo técnico ou pelo cientista da administração. Como artista, o político é hoje uma figura tão viva, tão necessária, tão moderna, como nos melhores dias da Grécia ou da polis. Como cientista, é que êle foi um modernista necessário mas superado. Necessário para trazer à arte política o contacto com a ciência, admitido, como está hoje, que sem êsse contacto a arte política pode degenerar em bruxaria sociológica. 0 ideal é que o político, o artista político, seja hoje um homem de formação não apenas jurídica ou legalista, mas principalmente cientifica ou técnica - como é o caso de Stafford Cripps, quimico, o de Henry Wallace, agrônomo, o de Bevin, operário, o de Benes, sociólogo - mas sem que sua formação científica ou técnica seja sua única recomendação para o serviço público e para a atividade política. Sua principal recomendação para a atividade política deve ser sua capacidade para exercê-la como artista. Ou como político. Pois política é arte, é dança, é ritmo e quem fôr incapaz de arte, de dança, de ritmo pode passar pela política como um grande modernista revolucionário - violento, duro, hirto; nunca com o vigor e, ao mesmo tempo, a graça de um moderno de todos os tempos que pratique a sabedoria da contemporização sem sacrificar o essencial das harmonizações ao simplesmente formal.

 

     

Saudação a Gilberto Freyre

Vicente Marotta Rangel ( 1º Orador do "Centro Acadêmico XI de Agôsto")

Quando, ao aceno mágico do vosso nome, houve por bem o Centro Acadêgmico "XI de Agosto" convocar o desvêlo, a cultura e a inteligência de São Paulo, dúvidas jamais desmereceram da nobre repercussão do convite. Que, de feito, os acadêmicos de Direito de há muito se vêm fazendo conhecer como os paladinos das boas causas; e que a vossa presença teria o efeito singular de suscitar na alma paulistana a grata perspectiva de abrasar-se na flama das preocupações sadias pelo destino de nossa civilização ameaçada.

A prova, é manifesta. 0 povo, de São Paulo aqui acorreu, prof. Gilberto Freyre, em representação sugestiva e prestigiosa. Vêde-o nesta sala, a maior da cidade, que se tornou pequena para contê-lo! Vêde-o, reivindicando o dever de escutar-vos e o direito de aplaudir-vos !

Viestes falar em modernismo, em modernidade, em arte, em política - palavras que parecem seduzir pelo encanto druídico do mistério, que as envolve; não o fôssem pela sugestão expressiva que convosco adquirem, sê-lo-iam pela ressonância especial que ganham nesta sala, cujas paredes já as ouviram com estrépito e ardor e cujo teto parece ter-se arqueado como, para poder conter o ardor e o desempeno daqueles moços que há quase cinco lustros, sob inspiração do futurismo nascente, idealizaram a Semana de Arte Moderna - de que tomou em Pernambuco curso semelhante o movimento que então encetáveis, promovendo a realização do Congresso Regional do Recife, em prol de um novo regionalismo, de um novo brasileirismo, de um novo humanismo. Movimentos que se não tiveram a mesma orientação e a mesma identidade de princípios, como vós o acentuastes, porque vos preocupava, e ao grupo que em vosso derredor se agremiou, o regionalismo, o tradicionalismo, o particular, o concreto, a prevenção natural contra os apriorismos fáceis e as generalizações simplistas, o afã de beber na fonte do pretérito as lições imperecíveis - tiveram, contudo, o mesmo sentido de "reação de caráter meio primitivista e meio romântico, contra os abafos do classicismo acadêmico", e, principalmente, animando-os, o espirito louvável de independência, de destemor, de zêlo pelos problemas nacionais, cujo conhecimento direto e integral é quase sempre penoso aos que embotam a sensibilidade sob as sugestões da rotina, e com o difícil comodismo dos que se refestelam na curul maciamente burguesa da existência. Dir-se-ia, destarte, que a vossa presença no Teatro Municipal de São Paulo, quando vos propondes a discorrer sôbre Modernismo e Modernidade, faz sugerir a comemoração de um ciclo de renovação de nossa cultura, dinâmico e tempestuoso, ciclo que já deve ter transcendido o paralelismo dos movimentos iniciais e, dêsse modo, ter-se completado e articulado, como energias que se recompõem e se restabelecem para impulsionar, quem sabe, convulsões de maior porte, como águas que se confundem e tumultuam no mesmo rio, e rios que se adunam e se interdependem na mesma pátria, fervilhando, estrugindo, acachoando.

Aos moços de hoje é, pois, sumamente prazenteiro reverenciar a mocidade dêsses impulsos, sobretudo, quando o podemos fazer na vossa pessoa, prof. Gilberto Freyre, a quem não poderá atingir a incriminação de André Gide aos homens de seu tempo: a de não se terem mantido fiéis à mocidade. Não é outra senão essa a razão pela qual perdura entre vós e a juventude brasileira, compreensão a mais ampla e entusiasta, que se evidencia nas vicissitudes que vos têm assoberbado, e como ainda o demonstrais na naturalidade das atitudes e das fórmulas verbais, na despretensão das lições vivas e sinceras.

Fiel à mocidade, tendes permanecido. A erudição, as pesquisas árduas, o pó dos arquivos, a meditação afatigante e persistente, todo o esfôrço que se adivinha na contextura de vossas obras, não vos alhearam das preocupações com que a primavera da vida vos inquietou. Foram elas, ao revés, o motor das vossas atividades, o segrêdo do vosso êxito. Não vos deixastes isolar nos silêncios das tôrres de marfim, porque a vossa concepção de vida pela vida, o vosso ativismo, o impulso criador dos que atendem à miséria dos que padecem, dos que se torturam com as mazelas de que se afistula a nossa civilização, dos que se premunem contra a instabilidade social, dos que se angustiam com a corrupção, a masorca, o caudilhismo -tudo vos tem mantido em ardente contacto com a mocidade brasileira, cuja pertinácia é a vossa, cujas lutas são as vossas, e cujas inquietações tantas vêzes dolorosas são as vossas próprias inquietações, e cujo desassombro tantas vêzes heróico tendes testemunhado, ao de perto, na hora tenebrosa e lutulenta, em que imperaram, no fastígio degradante de sua irresponsabilidade, o desmando policial, a perversão governamental, o nazismo oficioso, o crime em praça pública, os atentados traiçoeiramente premeditados e pasmosamente impunes contra o idealismo da mocidade indefesa - dessa mocidade que se chamou Jaime da Silva Teles em São Paulo, e se chamou, no vosso Pernambuco, Demócrito de Sousa Filho, de quem lado a lado vos encontrastes no momento fatal, nesses momentos cruciais de nossa civilização, que cumpre sempre recordar para que o fogo da vigilância se mantenha eternamente aceso!

Quando é chegado o inicio das reconstruções definitivas -abluídas as chagas da subserviência política nas águas lustrais da redemocratização nacional - a mocidade que, é certo, não deixa de pervagar ainda ansiosa, tentando perscrutar nos longes claridades reconfortantes, se orienta nas lições recentes que aprendeu e cujo significado não saberá esquecer.

0 momento é o da reconstrução; a solidez da obra, a argamassa resistente, os alicerces inabaláveis, eis os objetivos imediatos. Inquieta-se ela, porém, com a deficiência do material com que se propõe a edificar a nova cidade: o depauperamento das energias morais, a ausêneia, muita vez, dos programas definidos, o vazio das substâncias doutrinárias, o legado sombrio de um govêrno de arbitrio e desatino. Dir-se-ia que se faz mister urqentemente um movimento cívico de ampla envergadura, que se avolumasse irresistivelmente, e ecoasse pelos nossos rincões, levando de quebrada em quebrada a fôrça do seu impulso, conclamando a consciência moral da nacionalidade, acicateando as anseios adormidos e recônditos, levedando a sociedade do fermento cristão, acrisolando inteligências, forjando vontades, para que se conjurasse de imediato esse estado mórbido em que nos encontramos, de ceticismo, de apatia, de dissolução, quando a miséria e a fome constituem uma realidade pungente, quando a degradação econômica do pais não reflete apenas o vulto anômalo das guerras, quando se abate do céu à terra brasileira a penumbra de uma noite que parece avizinhar-se, e onde se acoitam os negativistas a fim de proclamarem que a sistema invertebrado de nossa sociedade não pode sustentar o corpo da fé democrática!

A solução, contudo, vós a tendes entremostrado com méritos indiscutíveis. A solução também são as nossas tradições legítimas, a seiva que delas emana alimentando o cerne da civilização brasileira; é a compreensão do nosso povo, suas características sociológicas, étnicas, culturais, religiosas, folclóricas, lingüísticas, as suas fraquezas e os seus méritos, as suas misérias, os seus anseios, a sua nobreza, a sua complexidade; é a história entrevista não de relance e à superfície, a história social e cultural que não se limita apenas a ser uma espécie de crônica aduladora de dominadores, mas "as expressões de dominados, de recalcados, de oprimidos", através da utilização de técnicas e métodos de pesquisas entre sociedades primitivas. A solução é o regionalismo orgânico cujo desenvolvimento representa a unidade orgânicamente brasileira. A solução é a terra, é o povo, é o sertão, é o passado brasileiro. É o roteiro orográfico que inflete para essas serranias voltadas para o sertão, que o atormentado e agreste Euclides da Cunha se esmerou em transpor. É o estudo científico das bases da experiência pre-histórica brasileira, da formação complexa do nosso povo, sem o que, como vós o acentuais, "a tentativa de aplicação ao nosso caso de fórmulas exóticas baseadas na experiência exclusivamente européia, é mais do que simplista, é ridícula". Essa é a solução que vós abraçastes e a que tendes propiciado o desvêlo dos estudos sociológicos, a análise ponderada e percuciente dos problemas étnicos e sociais, mercê do que adquiristes uma autoridade indiscutível, de inestimável valia, mormente quando se estão estruturando as vigas mestras de nossa Constituição, e de que ainda há dias, destes testemunho expressivo, quando vos batestes pela abolição do preconceito racial e pela franquia e incentivo da imigração portuguêsa.

Com um programa de brasileirismo, tradicionalista e ao mesmo tempo ativista; conservador, e ao mesmo passo criador, poderemos encetar uma jornada construtiva, objetiva e democrática, de que se banam os erros, se argúam as incompetências e se esvurmem as opressões, jornada que seja delineada pelo senso das nossas realidades sociais, colimando a regeneração do elemento humano, exigindo entendimento geral, esfôrço amplo e inadiável, realizador e concreto, de tal sorte e a tal ponto que possamos dizer o que da vossa geração dissestes: "Nós somos a geração dos que não gritam como desesperados, porque temos perigo imediato a enfrentar ".

Professor Gilberto Freyre: A mocidade acadêmica de São Paulo, por intermédio do Centro Acadêmico "XI de Agôsto", tem a elevada honra de, neste momento, saudar-vos como expressão lídima da cultura devotada e do espírito indomável do nosso povo, que bem reflete essa idéia de domínio, de distinção verdadeiramente heráldica, que vislumbrastes nos velhos casarões de engenho da região nordestina, e de que pusestes exemplo no de Megaípe-de-Baixo em Pernambuco, e no de Itapuá na Paraíba, idéia que se transfunde na argamassa e óleo de baleia das casas-fortes, no conjunto dos torreões, na harmonia das arcarias e dos balcões, no encanto que a simetria das suas linhas proporciona, qualidade que o vosso retiro de S. Antônio de Apipucos reteve e aprimorou - distinção heráldica e idéia de domínio que em vós transparece com nitidez e realce, e ante as quais nos curvamos reverentes, na expectativa indissimulável da vossa palavra, jóvem, autorizada e incisiva.

 

Saudação do escritor Oswald de Andrade

Sabiamos que Gilberto Freyre estava sitiado em Apipucos, que a sua defesa diária e pessoal coincidia com a própria defesa da liberdade no Brasil. Mas ignorávamos que ao mesmo tempo seu cérebro de mestre incansável da pesquisa social elaborava uma filosofia mais que oportuna e necessária dentro da crise do presente. E que completando a sua grande estréia, no Parlamento, êle daria a São Paulo uma amostra dos resultados obtidos nesse árduo caminho - o de traçar uma estrada em meio da confusão, o de indicar um roteiro em meio do caos e da intriga. Mais ainda nos importa isso, quando os dois documentos que produziu consolidam também uma atitude política, a atitude que uniu os brasileiros livres e fêz derramar o seu sangue nesse "curto prazo de quinze anos". Gilberto Freyre tornou-se assim, o líder da Resistência nacional. E como essa resistência teve os seus baluartes nas Faculdades de Direito, hoje aqui êle se encontra com os estudantes na vitória como em Recife se encontrou com os estudantes na batalha.

E se encontra também com os intelectuais de São Paulo, que paralelamente vêm com êle lutando por um Brasil autêntico e novo, desde 22. Nessa época, agimos como semáforos, anunciando o levante de Copacabana, a revolução de 24, a Coluna Prestes e afinal o tumulto dos tempos novos.

Resultado dessa evolução crivada de revoluções é a Constituição que êle com tanta sabedoria situou, mostrando como os descompensados e os novos-ricos preferem o rococó de confeitaria às varandas acolhedoras da tradição e à higiene dos respiradouros modernos. Nela não quiseram que entrasse o sol do divórcio. Para que no gineceu, donzelas joguem o pif-paf de "maillot" à espera do casamento indissolúvel. E nas suas malhas permaneça o brasileiro de fila até ser levado à policia como comunista porque não quer comer o pão que o diabo amassou.

Em todo caso, graças à Resistência, "legem habemus". Se não temos pão, temos lei. 0 Brasil do anão Vargas tinha que ceder ao Brasil da Semana e ao Brasil dos Tenentes.

Ontem foi a vez de situar Gilberto a era convulsa que se seguiu ao marxismo de combate. Eu não acredito que seja preciso abandonar Marx para com isso concordar. A era que se anuncia é uma era de pacificação e de síntese, onde têm que ficar para trás os esquemas e os sectarismos. É a era anunciada pelo sistema de Teerã, onde cabem tanto o russo Litvinoff como o americano Browder e o católico Maritain.

Ergo meu copo aos pequenos heróis de Apipucos, os filhinhos de Gilberto e a sua grande companheira d. Madalena Freyre.

 

Saudação ao professor Gilberto Freyre

Heraldo Barbuy

     

Professor Doutor Gilberto Freyre,

Sinto-me comovido com a honra que tenho de vos falar em nome dos intelectuais paulistas. Quando o Centro Acadêmico "XI de Agôsto" me convidou a traduzir nesta reunião, a admiração dos intelectuais de São Paulo pela vossa obra, não aceitei essa missão nem como orador, nem como sociólogo - qualidades que me faltam - mas apenas como quem reconhece em vós um poderoso analista da sociedade brasileira, intérprete duma determinada maneira de ver a história, sem confundi-la com a crônica, mas dando-lhe ao contrário um conteúdo filosófico e cultural, que é o único elemento que nos possa fornecer o meio de compreender os caracteres e os estilos peculiares de uma nação.

Quanto mais procuramos definir o alcance de vossa obra, tanto mais nos convencemos de que sem ela haveria um vácuo na história da cultura brasileira. Êsse mérito, professor Gilberto Freyre, ninguém jamais vos poderá negar. Por certo, vossa obra tem sofrido entre nós algumas restrições; mas essas restrições não derivam sendo da seriedade com que vossos livros são lidos, da extensão dos problemas que vos têm preocupado e por vêzes também da originalidade dos pontos de vista em que vos tendes colocado. E se a nossa admiração pôde parecer menos fácil é exatamente por ser mais ponderada e mais profunda.

Não, vos atemorizou abordar em vossos livros o problema das raças no Brasil. Fizestes inquirições pormenorizadas e objetivas e sobretudo o vosso mérito consiste em haver levantado o véu que se estendia sôbre fatos de que, por falso pudor patriótico, era tàcitamente proibido falar. Refiro-me ao problema da mestiçagem em certas regiões do Brasil e cujos efeitos sociais eram relegados ao segundo plano por aquêles intelectuais que faziam da histôria um tema puramente literário. Entretanto vossa obra nos apresenta os fatos sociais que estudou sob uma perspectiva realmente cultural e histórica. E vivemos numa época em que os problemas sociológicos e históricos adquiriram capital importância, porque o passado começou a ser visto, não como um lastro morto e sim como algo de vivo, como um passado atualizado e agindo no presente. E nesta visão histórica que encerra o passado no presente, era preciso evitar o êrro da unilateralidade em que incidem aquêles que pretendem encontrar uma causa única do desenvolvimento histórico como se a história fôsse mecanismo e não vida. Era preciso evitar a interpretação exclusivamente econômica da história, incluindo-lhe o conteúdo social da cultura, não como acidente e sim como elemento substancial, decisivo da história e talvez mesmo como resultado e resumo, como síntese da historia.

A lacuna essencial do materialismo histórico - segundo me parece - consiste em atribuir às formas da produção econômica, o milagre de todo o desenvolvimento histórico, inclusive do complexo dos fenômenos culturais e espirituais, incorrendo assim no paradoxo de fazer o qualitativo derivar do quantitativo por um golpe de mágica do mecanismo dialético. Mas em vossa obra, Professor Gilberto, as circunstâncias econômicas, não ocupam o lugar de causas decisivas senão apenas o lugar que Ihes compete de fenômenos históricos e correlatos a tôdas as outras circunstâncias paralelas. Porque em verdade nunca vos foi possível suportar a prisão de fórmulas proféticas e definitivas, nem ignorar que no processo histórico tudo se realiza como num complexo de causas e de efeitos, que todos se subentendem e se compreendem.

Numa circunferência podemos tomar arbitràriamente qualquer ponto como ponto de partida se quisermos ignorar que todos os outros pontos também poderão, com a mesma facilidade, ser considerados pontos de partida; foi assim que procederam os intérpretes unilaterais dos fatos históricos e sobretudo os materialistas, quando, no complexo das circunstâncias, tomaram as formas da produção econômica como ponto de partida e causa determinante dos demais fatos sociais, ignorando que outras circunstâncias também poderiam com a mesma facilidade ser consideradas arbitràriamente pontos de partida igualmente autênticos. É que, como bem o demonstra vossa obra, os mesmos fatos podem ser perfeitamente explicados por doutrinas diversas.

A estreiteza de visão nunca foi uma qualidade vossa, professor Gilberto Freyre. E se vossa doutrina pôde ser acusada de eclética, não é por outro motivo senão porque a realidade mesma é eclética, e o que procurastes respeitar foi a realidade e não as teorias que procuram explicá-la. E neste sentido, o vosso respeito pela realidade objetiva e o vosso desprêzo pelas teorias infalíveis são qualidades verdadeiramente clássicas. Precisamente o desespêro dos escravos de fórmulas é que os fatos sociais se recusem a fechar-se dentro de esquemas e dentro de postulados de teorias definitivas. Mas o que constitui o desespêro dos escravos de fórmulas é justamente o que vos dá essa liberdade espiritual que vos faz repelir, por um lado os preconceitos dum materialismo transacto e por outro as divagações místicas do sentimentalismo literário.

E essa liberdade é a que se reflete em vossa movimentada existência política. Evidentemente, sois socialista no sentido próprio do têrmo, um socialista particularmente agudo para a visão dos dramas sociais. Sois socialista no sentido superior do têrmo, porque detestais a injustiça e porque repelis tudo quanto na vida não seja poesia e cultura. Mas também repelis com a mesma violência, os Estados Titânicos, os Estados Onipotentes que, governando aparentemente em nome das massas operárias, não governam em verdade senão em nome duma pequena elite de burocratas e funcionários. Não me refiro absolutamente a países mas ùnicamente a fatos. A vossa luta, professor Gilberto Frevre, é a luta por um mundo mais humano e mais justo, por um mundo em que não haja capitalismo opressor mas em que também não haja ditadura burocrática. Porque a ditadura burocrática á a pior, a mais nefasta, a mais nefanda, a mais insuportável de tôdas as ditaduras. A ditadura do Estado Onipotente, a ditadura da burocracia, onde quer que se implante, converte a sociedade em rebanho, o homem em escravo, pondo em atividade os instintos primitivos da espécie e não os atributos espirituais do indivíduo. Entretanto, como bem disse Nietzsche, o indivíduo é a mais acabada e a última das criações históricas.

Se lutamos contra as injustiças do mundo atual é porque queremos dilatar a espiritualidade do homem e não reduzi-lo à condição de peça da máquina que trabalha por conta do supercapitalismo estatal. Procuramos uma solução anticapitalista, mas também, uma solução antiburocrática, anti-estatal, uma solução anticoletivista. Para nós a vida é espírito e não mecanismo, é organização e não organismo.

Professor Gilberto Freyre: No sentido em que estão colocados os problemas atuais, e dada a vossa cultura, dado o alcance de vossa obra já realizada, dada a vossa projeção nacional e internacional, tendes uma responsabilidade enorme em face das gerações inteligentes do Brasil. Sois um guia de quem muitos perguntam para onde se dirige a fim de saber para onde devem dirigir-se.

A nossa homenagem é o tributo de admiração que se presta a um homem, cujo nome ficará profundamente gravado na história das Letras e na história da cultura nacional. É a homenagem que se presta a um espírito inteligente, sincero e amigo, uma afirmação de crença em valores não rotineiros, não submissos, mas independentes, livres e superiores até à sua própria celebridade.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Modernidade e modernismo na arte política. São Paulo, 22 jun. 1946.

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