Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



MUCAMBOS DO NORDESTE
Algumas notas sobre o typo de casa popular mais primitivo do nordeste do brasil


O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional inicia as suas publicações com um ensaio do professor Gilberto Freyre sobre assunto de architectura popular.

Esta tem sido considerada entre nós com tão immerecido descaso, que só isso justifica a escolha de um trabalho sobre mucambos do nordeste para preceder a tantos outros versando materia de maior interesse artistico. Dir-se-ia de facto, tendo-se em vista a bibliographia relacionada com a finalidade deste Serviço (aliás muito escassa e lamentavelmente dispersa), que a historia da architectura brasileira se processou apenas sob a influencia dos estylos eruditos importados da Europa. Ao parentesco que tenham acaso os nossos monumentos considerados artisticos com os typos de habitação criados no Brasil pelo engenho popular não se prestou ainda quasi nenhuma attenção. E, mesmo entre aquellas influencias européias que contribuiram para formar a nossa tradição architectonica, têm sido desprezados ou desconhecidos os traços da arte popular iberica, que, no entanto, se transmittiram ás nossas edificações com muito mais frequencia e resultados certamente mais felizes que quaesquer outros Escrevendo há pouco para a Revista do Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional, o Snr. Lucio Costa dizia, com o seu profundo e preciso conhecimento do assumpto, o seguinte: " A architectura popular apresenta em Portugal, a nosso ver, interesse maior que a erudita... Sem o ar affectado ás vezes pedante de quando se apura, ella se desenvolve naturalmente, adivinhando-se na justeza das proporções e na ausencia do make-up, uma saude plastica perfeita - se é que podemos dizer assim. Taes caracteristicas, transferidas - na pessoa dos antigos mestres e pedreiros incultos -- para a nossa terra, longe de significarem um mau começo, conferiram desde logo, pelo contrario, á architectura portuguesa na colonia, esse ar despretencioso e puro que ella soube, manter, apesar das vicissitudes por que passou, até meados do seculo XIX."

" Sem duvida", - acrescenta o notavel especialista " neste particular tambem se observa o amollecimento notado por Gilberto Freyre, perdendo-se nos compromissos de adaptação ao meio, um pouco daquella carrure typicamente portuguêsa; mas, em compensação, certos maneirismos preciosos e um tanto, arrebitados, que lá se encontram jámais se viram aqui. Para tanto contribuiram, e muito, difficuldades materiaes de toda ordem, entre as quaes a da mão de obra a principio bisonha dos nativos e negros".

E adeante, alludindo mais detidamente á contribuição do indio e do negro para a nossa architectura, o Snr. Lucio Costa observa: " Em ambos o mesmo jeito de quem está descobrindo coisa nova e não acabou de comprehender direito sem vislumbre de maîtrise; mas cheio de intenção plastica e ainda com aquelle sentido de revelação que num e noutro depois, com o apuro da technica, desapparece."

Transcrevi longamente, por não saber dizer tão bem sobre o assumpto quanto aquelle herdeiro legitimo da melhor tradição da architectura brasileira e seu insigne renovador. Bastará a leitura da ultima annotação reproduzida do trabalho do Snr. Lucio Costa, para se ajuizar do interesse não apenas technico ou historico, mas tambem plastico que apresenta o estudo dos typos de habitação popular, ainda os mais primitivos, existentes entre nós.

Em verdade, reconhecida como já foi a importancia consideravel que as feições proprias da casa popular brasileira assumem quando se considera a sua influencia sobre a nossa formação historico-social, deve ter-se em vista egualmente o seu valor artistico. Porque os nossos typos de habitação popular não têm sómente interesse documentario, do ponto de vista do historiador e do sociologo, senão ainda interesse como obras de arte, possuindo, como possuem muitas vezes, os traços essenciaes que distinguem os exemplares authenticos de boa architectura.

No caso particular dos mucambos do Nordeste, é certo que o seu valor plastico não se impõe como dos mais notaveis entre os typos de edificação criados no Brasil. Sua feição extremamente primitiva faz com que predominem nos elementos que os constituem os requisitos utilitarios sobre as intenções plasticas. Mas, por isso mesmo que a necessidade economica condiciona de modo absoluto o caracter das construcções desse genero, assegura, ás suas linhas uma concisão incompativel com desvios da tradição architectonica mais pura. O criterio de economia, obstando a que os architectos dos mucambos se deixem influir por intenções decorativas, dá a esse typos de habitação aquella " saude plastica" a que alludia o Snr. Lucio Costa. E, por vezes, as mesmas contigencias economicas impellem o engenho popular a invenções que apparentam algumas dessas construcções rudimentares ás lidimas expressões da melhor architectura.

Ninguem haveria mais indicado para se incumbir de um trabalho serio sobre mucambos do Nordeste que o professor Gilberto Freyre, para quem a casa, a habitação, tem constituido o centro de interesse para o estudo dos antagonismos e das accommodações cujo processo presidiu á formação de nosso meio social. Foi realmente o autor de Casa Grande & Senzala e de Sobrados e Mucambos que, depois de relembrar textos de Gustavo Schmoller e de Spengler no mesmo sentido, escreveu: " A casa é, na verdade, o centro mais importante de adaptação do homem ao meio... O brasileiro, pela sua profunda formação patriarchal e semi-patriarchal, que ainda continua a actuar sobre elle em varas regiões menos aphaltadas, é um typo social em quem a influencia da casa se accusa em traços da maior significação."

A parte mais importante da obra realizada pelo já illustre sociologo brasileiro se desenvolve effectivamente em torno dos systemas caracteristicos das habitações criadas ou adoptadas no Brasil, no decurso de sua evolução historico-social. Estudando primeiro, em Casa Grande & Senzala, o processo de adaptação do homem ao meio physico, através da casa, assim como as relações, tambem condicionadas pelo typo da habitação, dos senhores com os escravos, dos pretos com os brancos, dos filhos com os paes e das mulheres com os maridos, na phase inicial do nosso desenvolvimento, o Snr. Gilberto Freyre não desvia da casa o centro de interesse de suas observações quando passa a considerar o periodo em que " a paisagem social começou a se alterar entre nós" e quando " novas relações de subordinação, novas distancias sociaes começaram a desenvolver-se entre o rico e o pobre, entre o branco e a gente de cor entre a casa-grande e casa pequena". Em Sobrados e Mucambos os elementos de que elle se utiliza para o seu trabalho de sociologo continuam de facto a ser principalmente os novos typos de habitação introduzidos no Brasil na Segunda etapa de nosso desenvolvimento, com os systemas de vida que lhes foram ou lhes são ainda inherentes.

Emprehendendo, pois, um ensaio especial sobre os mucambos do Nordeste, o Snr. Gilberto Freyre tratou assumpto que lhe é, de há muito, familiar. No entanto, como trabalhou desta feita tendo em vista a finalidade do Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional, ao qual se destinava o seu estudo, elle se occupou daquellas edificações nordestinas não apenas considerando o interesse que apresentam do ponto de vista sociologico, mas tambem a sua importancia e as suas peculiaridades como typo de architectura popular. E realizou a tarefa não só com sua admiravel intelligencia que possue, mas tambem com aquelles attributos que conferem a tudo o que elle escreve um vigor e uma qualidade literaria excepcionaes.

As illustrações, devidas aos Snr. Dimitri Ismalovitch e M. Bandeira, correspondem ao valor do texto do Snr. Gilberto Freyre. Completam-no do ponto de vista documentario e accrescem-lhe a força de suggestão do ponto de vista artistico.

A' presente publicação deverão seguir-se muitas outras, versando sobre os assumptos que constituem objecto deste Serviço. Se não lograrem apparecer com regularidade, em consequencia da escassez dos recursos disponiveis para attender á sua despesa, todavia não deixarão de ser editadas á medida e ao tempo em que o permittirem os meios pecuniarios ao alcance de uma repartição, que, criada recentemente, não pôde contar com dotações orçamentarias no correntes exercicio. Foi exclusivamente graças ao interesse que o actual Presidente da Republica tem manifestado pelas questões relacionadas com o nosso patrimonio de arte e de historia e graças á iniciativa pessoal de seu valoroso Ministro da Educação, que este Serviço foi habilitado a principiar a desobrigar-se das dilatadas attribuições a elle conferidas. Entre estas se destaca a de propagar o conhecimento das obras e monumentos nacionaes de valor historico e artistico. Mas, se não fôra sob o patrocinio do Chefe da Nação e ao impulso do notavel espirito publico que inspira o Ministro Gustavo Capanema, sem duvida teria sido impossivel iniciar-se esta serie de publicações.

Tendo por objecto questões geraes ou aspectos particulares da formação e do desenvolvimento das artes plasticas no Brasil, assim como estudos sobre materias de nossa archelogia, de nossa ethnographia, de nossa arte popular, de nossas artes applicadas e dos monumentos vinculados á nossa historia, os trabalhos que serão dados, á publicidade em seguida ao presente ensaio do professor Gilberto Freyre visarão a informar e a instruir com seriedade os interessados sobre aquelles assumptos. O Serviço do Patrimonio Historio e Artistico Nacional se empenhará no sentido de impedir que a literatura emphatica ou sentimental, peculiar a certo genero de amadores, se insinue nestas publicações. Por este meio, não interessa divulgar paginas literarias, ainda que brilhantes. O que interessa é divulgar pesquisas seguras, estudos serios e trabalhos honestos e bem documentados acêrca do patrimonio historico e artistico do Brasil. Estas publicações não têm outra finalidade.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Mucambos do Nordeste: algumas notas sobre o typo de cada mais primitivo do Brasil. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1937. 34p.

Topo
Voltar Página inicial