LULA CARDOSO AYRES: PINTURAS
A arte de Lula Cardoso Ayres vem sendo uma aventura no tempo - tôda uma sucessão de experimentos, dos realistas aos abstracionistas, que se exprimem nos arrôjos de síntese da sua pintura atual, depurada tanto de folclore e de anedota como de ismos sub-europeus e apoiada em estudo intenso e honesto dos homens, dos animais e das coisas de sua região - e um constante apego a essa mesma região, da qual nunca se desprendeu nem como pessoa nem como artista. Nessa contradição está uma das mais fortes características da arte de Lula; e só a compreenderá quem acompanhar o desenvolvimento do artista, por um lado, como uma aventura no tempo que o tem levado a formas de vigorosa modernidade, por outro lado, como uma rara fidelidade ao espaço brasileiro que sua arte vem interpretando. Nenhum artista, nenhum poeta, nenhum pensador, ninguém a cuja obra se possa associar a idéia de criação ou de creatividade, é um só, do princípio ao fim de sua vida. Ao contrário: é múltiplo dentro do tempo através do qual se estende sua existência; e com a sua existência sua experiência da qual em grande parte depende a obra que realiza. A experiência de vida no interior agrário de Pernambuco, em velha área de cana de açúcar, onde se encontram algumas das últimas casas-grandes dos melhores dias pernambucanos de esplendor, essa foi valiosíssima para Lula e para sua arte: uma arte a qual já abrira perspectivas novas o contacto do jovem e até então convencional burguês rico do Bemfica com os organizadores do Primeiro Congresso Afro-Brasileiro do Recife - comigo e com Cicero Dias, principalmente. Com a pintura, que muito o impressionou, de Cicero Dias. Mas também com os "xangôs", os "maracatús", os "caboclinhos", a arte popular - sobretudo a de bonecos e vasilhas de barro - que aquele congresso revolucionário procurara valorizar e opor à imitação, pelos artistas brasileiros de temas e técnicas de artistas europeus. A arte de Lula Cardoso Ayres é das que muito se deixam esclarecer pelo que nela tem sido desenvolvimento num espaço e num tempo especìalmente culturais, além de sociais. Êsse espaço e êsse tempo tendo agido sôbre o artista, com uma constância raramente enterrompida, provocaram nêle uma profunda identificação com a gente e a paisagem da sua terra. Também com a sua época de renovação social e de experimentação artística. Mas sem que essa identificação para êle puro folclorismo; ou simples modernismo; ou submissão tal às sugestões vindas da arte popular ou da paisagem regional ou dos ismos europeus que sua arte tenha parado em simples reprodução dessas sugestões ou mera repetição dêsses modelos.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Lula Cardoso Ayres: pinturas. Museu de Arte Moderna da Bahia, 11 de julho de 1961.
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