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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



NAÇÃO E EXÉRCITO


Conferência proferida na Escola do Estado Maior do Exército, a convite do seu Comandante, General Tristão de Alencar Araripe no dia 30 de novembro de 1948.

É publicada com pequenos acréscimos



Novamente velho estudante de sociologia é chamado a esta escola de altos estudos militares. E na verdade são maiores do que parecem as afinidades entre os dois: sociólogo e soldado.

O que o poeta disse da arte ou disciplina militar poderia ter dito da sociologia como ciência ou disciplina cientifica:

"Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando
Senão vendo, tratando e pelejando".

Contanto que não se dê ao verbo pelejar o sentido apenas de esforço físico, o sociólogo é parente do militar na vida que precisa viver para integrar-se nos deveres de sua disciplina. Precisa de ver, tratar e pelejar e não apenas de estudar nos livros e de imaginar no silencio do seu gabinete, embora nem ao sociólogo nem ao soldado faça mal a imaginação que não desgarre em quixotismo ou o estudo que não degenere em bacharelismo. Ao contrario: sem imaginação e sem estudo, não há nem bom sociólogo nem bom soldado.

O sociólogo tem dentro da própria sociologia perigoso inimigo contra quem precisa pelejar incessantemente: o sociologismo. Por sociologismo entenda-se o sonho ou a mania de grandeza que se apodera às vezes do sociólogo, fazendo-o julgar sua ciencia a rainha das ciencias, capaz de resolver do alto e matematicamente todos os problemas humanos. Talvez da mesma mania de grandeza padeça o militar tão identificado com a sua vocação que julgue tudo ser possível resolver pelas armas: o militar que se torna militarista.

Sociologismo e militarismo se assemelham. Contra eles precisamos de estar vigilantes; e não apenas contra os ismos que vêm de fora dos nossos estudos ou do nosso trabalho ou de nós mesmos.

Lembro-me de que, nos meus dias de estudantes de universidade, ao sair das aulas do grande mestre de Sociologia que era Giddings, supunha-me triunfante aprendiz da ciencia das ciencias. Mas bastava que na aula seguinte outro grande mestre - Franz Boas ou Seligman - opusesse, por assim dizer, a Antropologia ou a Economia á Sociologia para a ciencia das ciencias tornar-se aos meus olhos apenas uma das ciencias do homem; e não a ciencia social; não a rainha ou a imperatriz das ciencias. Creio que foi como me guardei de resvalar no perigo do sociologismo ou do economismo ou do antropologismo: seguindo, ao mesmo tempo, num curso de conjunto, as aulas de três grandes mestres das três ciencias sociais básicas; e mais as de John Bassett Moore e as de Munro, de Direito, as de Zimmern, de Oxford, de Historia da Escravidão na Grécia, as de Hayes, de Historia Social da Europa e as de Dewey, de Psicologia e Filosofia sociais.

O soldado moderno resguarda-se do perigo de extremar-se em militarista pelo contacto que lhe dão hoje os cursos militares com aqueles problemas humanos, outrora preocupação só de civís, que não se resolvem manu militari. Não que o soldado moderno esteja se bacharelando, o que seria decerto um mal, ou, pelo menos, uma inconveniencia, sobretudo num Brasil já tão bacharelizado na sua cultura. Não haveria vantagem em evitar-se o sargentão simplista desenvolvendo-se, em seu lugar, a figura do bacharel de farda, do militar academicamente de pince-nez e de gabinete. Mas evidentemente a formação do militar brasileiro está de tal modo se ampliando que hoje, nas suas escolas especiais, o soldado não corre o antigo risco de deformação no sentido do militarismo ou do sargentismo, sem que pareça ir resvalar, por outro lado, no bacharelismo filosófico ou matemático ou literario.

É preciso que militares e sociólogos não deixem nunca de aprender suas disciplinas, vendo, tratando e pelejando, como aconselhava o poeta, ele proprio meio sociólogo e meio soldado no seu modo de ser português e de ser homem ao mesmo tempo de estudo e de ação. Vendo a realidade crua. Tratando diretamente com os problemas vivos. No nosso caso: vendo principalmente o Brasil sem nos deslembrarmos de que o Brasil é apenas um dos grupos em que hoje se divide o mundo democrático ou para-democrático; ou o sistema americano de nações. Tratando principalmente com os problemas brasileiros sem nos esquecermos, é claro, de que são problemas humanos e não apenas brasileiros. E pelejando contra inimigos do Brasil ou das ciencias do homem. Inimigos que, ás vezes, não são feios e maus estrangeiros, sedentos do nosso sangue e do nosso petroleo e famintos do nosso ouro e das nossas terras, nem partidarios ostensivos do domínio das ciencias ocultas sobre as experimentais mas homens iguais a nós e até nós mesmos que por inconciencia ou inercia, por dominio de interesses privados sobre nosso espírito público e nosso sentido de responsabilidade social ou intelectual, por comodismo, por sectarismo ou por diletantismo, dificultando o desenvolvimento do país ou da ciencia a que mais deveriamos nos considerar obrigados a servir.

Sem senso de responsabilidade e sem culto de disciplina não há exército, nem há nação, nem há ciencia. Não é à toa que se denomina disciplina não só "a ordem que convem ao funcionamento regular de uma organização" - seja essa organização exército, escola, nação, igreja, partido - como "o conjunto organizado de conhecimentos relativos a determinada materia": a disciplina científica. Por falta de disciplina fracassou o exército improvisado no Brasil por Dom Pedro I com mercenários a quem faltava o senso da responsabilidade ou o gosto da ordem e não apenas o sentido brasileiro de vida. Por falta de disciplina tem fracassado como organização nacional mais de um grupo humano, afinal absorvido por vizinho poderoso. Por falta de disciplina, deixam de ser ciencia conhecimentos desordenados e vagos.

Reconhecida a necessidade de disciplina, nada de nos exagerarmos no reconhecimento dessa necessidade a ponto de nos desvairarmos naquele culto exclusivo da Ordem com O maiúsculo que enxergue em toda espontaneidade um mal; ou que pretenda considerar perfeito o indivíduo cuja personalidade morra ou desapareça para que domine de modo absoluto sobre esse resto frio de homem o Sistema único, a Raça única, a Cultura única, a Religião única, o Partido único, o Estado totalitario.

A despeito do cada dia maior uso de máquinas pelo homem, estamos no meio de uma revolução psicológica - e a época é de varias e contraditorias revoluções e não de uma só - que, desde os principios do século, vem roendo pelas bases, como observa Giedion num dos livros mais notáveis dos nossos dias, aquelas "concepções mecanicistas do mundo" que tiveram, segundo parece, em sistemas retardatariamente unitarios nos seus ideais de unidade na aparencia absoluta mas na verdade só mecânica, das nações, como o fascismo, o nazismo, o niponismo, o totalitarismo, suas ultimas expressões de vigor. Quando Giedion destaca, em livro publicado neste ano de 1948, como imposição das novas concepções de vida, a necessidade de "um novo tipo de homem capaz de controlar sua existencia pelo processo de equilibrio de forças em geral consideradas inconciliaveis", temos, os brasileiros, o direito de recordar que, em trabalho aqui publicado de 1933, já se reconhecia essa necessidade com relação ao homem do Brasil. Isto por oferecer o brasileiro, como todo povo mais ostensivamente mestiço em seu sangue ou em sua cultura, como todo povo de formação principalmente européia em luta de adaptação ás condições de vida civilizada em meio tropical, o espetáculo de uma maior fluidez e de uma maior plasticidade de espírito e de corpo, - de pessoa, enfim - favoraveis a equilibrios de antagonismos que dificilmente imaginaríamos entre povos relativamente puros ou estaveis na raça e na cultura; ou dentro de condições relativamente fixas - fixas há séculos - de convivência humana e de adaptação do homem ao meio físico.

Como, porem, a situação brasileira - a de povo plural no sangue e na cultura, obrigado a conviver dentro das mesmas condições de espaço físico e, até certo ponto, de espaço social - tende a generalizar-se ou universalizar-se com a crescente desmoralização das fronteiras entre raças e classes, as novas concepções, democraticamente pluralistas, de vida, de cultura e de tipo de homem, tendem a adotar do Brasil normas de convivencia e até ideais de plástica humana baseados em tolerância de contrarios ou em equilibrio de antagonismo, já antigos entre nós; ou a seguir normas de convivencia que coincidem com as já tradicionalmente brasileiras. Neste caso ou naquele, teremos sido, como nação ou como povo, antecipados, em vez de retardados culturais - como chegaram a imaginar sociólogos desalentados com o carater híbrido da nossa população e da nossa cultura - entre os grupos nacionais modernos. Teremos sido, dentro da nossa configuração nacional de cultura - que sendo de origem principalmente lusitana não se vem fechando de todo aos conteúdos ou às substancias das demais culturas européias e extra-européias - um povo pan-humanista em vez de pan-lusista ou pan-hispanista; em vez de pan-latinista ou pan-americanista ou pan-indigenista.

Se recordo esses fatos é para destacar que, dentro da tendencia ao equilibrio de antagonismo, ao meu ver caraterística da formação brasileira como já fora da portuguesa, o Exército se tem, quase sempre, mantido, entre nós, força de coordenação de contrarios. Isto sem confundir esse seu papel de coordenador de tendencias diversas, contanto que nacionais, com esforços ou obrigação de sujeitar pela violencia o que é ainda plasticamente brasileiro a algum estreito interesse, credo ou aspiração de região ou de grupo que, materialmente poderoso no momento, tenha pretendido ou pretenda ser a Raça ou a Nação, o Povo ou o Estado, numa especie de "o Brasil somos nós" que ampliasse a frase célebre do rei de França: "I'Ètat c'est moi". O Exército, por uma espécie de intuição que entre alguns dos seus líderes mais esclarecidos data de dias remotos, de sua responsabilidade antes de coordenador pacífico que de ordenador violento e arbitrario dos contrários da vida nacional, vem principalmente acompanhando, entre as varias tendencias brasileiras, as que parecem mais de acordo com as tradições, aspirações e necessidades gerais do Brasil; e não tentando impor-se ás demais forças nacionais como a Nação; nem antecipando-se sistematicamente a elas como elemento ordenador daqueles contrários.

Essa antecipação ocorreu, é certo, em 1889. Mas sem que se possa considerar a antecipação que se verificou naquele ano, ou o surto militarista de 1911, norma de comportamento das nossas forças armadas. Morto Dom Pedro II, o Brasil capaz de definir-se, isto é, o Brasil representado pela maioria dos seus elementos politicamente concientes e ativos, receoso, ao que parece, de um terceiro Reinado que fosse mais francês que brasileiro, mais europeu que castiço, caminhava, quase inteiro, para a República e para a Federação como para a solução mais sedutora de desajustamentos há anos experimentados em sua economia e em sua organização. O Exército fazendo, como fez, o 15 de Novembro, antecipou-se pela violencia branca àqueles elementos revolucionarios na desejada solução republicana e federalista de problemas de organização política do Brasil. Mas sem que se possa dizer que contrariasse tendencias brasileiras para pretender ser a Nação á inteira revelia do que o Brasil tinha, então, de politicamente conciente e ativo que era, aliás, parte matematicamente insignificante da população, na sua grande maioria gente inerme. Ou inerme ou predisposta como, aliás, ainda hoje, em varias de suas camadas, a governos autoritariamente paternalistas, como foram tantos dos coloniais, como foi o do chamado "Rei velho" ou o de Pedro Segundo. E como seriam, feita a República o do Marechal de Ferro (Floriano), o de Papai Grande (Rodrigues Alves), o de Tito Pita (Epitácio Pessoa), o de Braço Forte (Washington Luis).

Sem pretender que o Parlamento - reunião antes de simples e ás vezes maus "representantes" que de "Pais" materialmente poderosos do povo - tenha sido jamais, no Brasil, perfeito ou ideal em sua composição ou em sua atuação, sou dos que pensam que, contra ele, vem sendo excessivamente facil levantar-se, em sucessivas ondas, a indignação das ruas e dos cafés, favorecendo-se, assim como o concurso da própria imprensa liberal, o culto dos "governos fortes". Fortes e desembaraçados de discursos e de discussões consideradas estereis, quando não ridículas, entre senadores ou entre deputados.

Dessa constancia ou recorrencia de ânimo antiparlamentar entre parte consideravel da população do nosso país (constancia ou recorrencia que é uma expressão, nem sempre conciente, de ânimo politicamente antidemocrático), bem poderia vir-se aproveitando desde os primeiros dias da República o Exército brasileiro, uma vez decididos os seus líderes a desempenharem sucessiva ou frequentemente os papéis de "País", de "Protetores", de "Marechais de Ferro" - ou de "Aço" - sob os aplausos, ou de acordo com os desejos, de grande número de brasileiros, ainda dominados pelas sobrevivencias, no seu espírito, da formação familial patriarcalista que foi a de quase todos nós. Os líderes militares mais esclarecidos é que, a esses papéis, têm, quase sempre, preferido o de coordenadores das forças nacionais no sentido de uma organização menos paternalista e mais democrática das instituições políticas e econômicas entre nós, juntando-se, às vezes, aos civís que mais se têm antecipado nessa atividade ou esforço democraticamente. O caso do chamado "tenentismo". E tambem o de Benjamin Constant e dos seus discípulos.

Os críticos que, seguindo os reparos nem sempre juntos, embora sempre brilhantes, de Eduardo Prado, se extremam em destacar o que houve de "militarismo" ou "caudilhismo militar" no 15 de Novembro, se esquecem de outra manifestação do Exército na vida nacional, mais característica, talvez, que o "pronunciamento" a favor da República, da maneira dos militares mais lúcidos virem compreendendo, entre nós, as responsabilidades antes sociais que apenas políticas do Exército; e orientando, dentro dessa compreensão, suas relações com os demais elementos da comunidade nacional. Refiro-me á atitude de oficiais do nosso Exército recusando-se, em manifestação de solidariedade a um dos seus camaradas, a perseguir e capturar escravos fugidos, uma vez evidente, aos seus olhos e aos olhos de quase todos os brasileiros, que a caça a tiro a facão a esses negros já tão brasileiros quanto seus senhores brancos, não interessava senão a pequeno grupo, materialmente poderoso, de particulares; e não á comunidade nacional. Dentro de rígido criterio disciplinar ou legalista, é discultivel a atitude que assumiram aqueles oficiais; moral e socialmente eles se anteciparam á solução do problema servil, desejada não só pela maior parte da população brasileira, como pela gente civil mais lúcida e mais culta. Ao mesmo tempo, resguardaram o Exército de arcaicamente colocar-se ao serviço como que privado daqueles particulares que, inconformados com a evidente desintegração do sistema escravocrata, desejavam conservá-lo manu militari contra a vontade e contra os interesses mais nacionalmente brasileiros. Desejavam os proprietarios de negros que oficiais do Exército fizessem as vezes dos já impotentes capitães-do-mato do seu serviço particular. Desejavam o Exército reduzido a isto: a capitão-do-mato. Recusando-se a tal serviço, o Exército recusou-se a ser um sub-exército para melhor continuar a ser normal e dignamente exército: Exército da Nação. E fazendo-o, se não agiu dentro da estrita normalidade do seu papel de coordenador de contrarios nacionais e de fiel cumpridor de ordens do governo estabelecido, não agiu contra o conjunto de forças que constituiam então a Nação: apenas deixou de agir de uma só - a grande Propriedade, dominadora ainda do Governo, ou de parte do Governo, e insistente na conservação de privilegios moral e socialmente já repelidos pela vontade do Brasil mais esclarecido e não apenas mais numeroso.

Situação semelhante parece ter ocorrido a 29 de Outubro de 1945. Moral e Socialmente a Ditadura de 37 era em 45 - já esgotada toda a sua capacidade de contribuir a seu modo, e à sombra protetora de chefes militares, para o bem público - um sistema tão repelido pela vontade do Brasil politicamente mais esclarecido e ativo como, em 1887, o sistema escravocrata; e como, em 1888, o sistema monárquico, a favor do qual se quis organizar inutilmente o movimento chamado da "Guarda negra": tentativa de glorificação tal da figura da Princesa Isabel como Redentora dos brasileiros que, ao seu lado, não ganhasse cor, mas perdesse o brilho, a imagem ainda pálida, mas já inquietante, da República. Figura ideal pela qual vinham ardentemente apaixonando-se adolescentes como Euclides da Cunha e Raul Pompéia, enquanto os Joaquim Nabuco e os José do Patrocínio faziam um tanto romanticamente de Isabel a sua Princesa perfeita. Tentativa psicologicamente interessante fio aquela - idéia, talvez, de João Alfredo - de opor-se uma figura simbólica de mulher-mãe, de mulher protetora dos fracos, de mulher redentora dos servos, a outra, - á da República messiânica, tambem representada por figura de mulher - como tentativa psicologicamente habil de se apagarem traços duramente ditatoriais do chefe nacional de 1937 sob traços atraentemente paternalistas de "Pai dos Pobres", foi a obra de persuasão de massa que desde 1942 começou-se a fazer sistematicamente no Brasil com relação á figura, sob alguns aspectos, estimavel e até simpática, do então ditador. Não nos alonguemos, porem, em comentario a fato tão recente, aqui considerado apenas sob o critério sociológico ou psicológico.

Quanto aos erros que o Exército cometeu em Canudos, na luta célebre em que se empenhou contra uma população de retardados na sua economia ou na sua cultura, como se fossem inimigos da Nação ou do Estado ou do Regime, foram antes erros das elites brasileiras de então, prejudicadas pelo bovarismo ou pelo bacharelismo da época no seu modo de procurar resolver desajustamentos de cultura entre populações de sertão e do litoral, que erros propriamente do Exército - ele proprio contaminado pelo bacharelismo ou pelo bovarismo então generalizado. Foram erros nos quais se manifestou um pendor ainda hoje de quase todos nós, brasileiros, especialmente quanto homens de governo ou legisladores: o de pretendermos resolver tudo que é problema nacional - o de organização de trabalho, o de mudança de regime político, o de defesa contra o Comunismo, o de má literatura infanto-juvenil, o do petroleo - militar ou politicamente Pela força ou pela censura prévia.

Que todos esses problemas possam tornar-se questões militares ou de policia, compreende-se. Seria resvalar para o extremo oposto considerar-se fora das responsabilidades do Exército o desenvolvimento que possa ter qualquer questão que, sendo social ou econômica ou intelectual nas suas bases, interesse tambem à defesa nacional, à segurança do Estado, à ordem pública. O erro está em só se enxergar nesses problemas um aspecto - o que os torna de inicio questões de segurança nacional ou de ordem pública - pretendendo-se resolver o todo, solucionar-se o complexo, lidar-se com inteiras constelações sociais com aspectos econômicos, psicológicos, educativos, políticos, jurídicos, morais, éticos, religiosos, estéticos, literarios, cuja importancia seria perigoso desprezar-se, como se fosse exclusivamente questões de segurança nacional ou simplesmente de ordem pública. Tudo por comodismo. Tudo por uma renuncia a responsabilidades, a deveres, a obrigações morais, intelectuais, educativas, cívicas que está se acentuando alarmantemente no Brasil entre homens de governo, entre legisladores, entre pais, entre mestres, entre educadores, entre sacerdotes, entre diretores de jornais, de empresas industriais e comerciais e de escolas.

De modo que, quando um problema se manifesta mais escandalosamente entre nós - seja o do pif-paf ou o das favelas ou a da propaganda ou da infiltração comunista no funcionalismo público, nas escolas e na imprensa - o que logo ocorre a muitos é resolver-se de inicio o irritante problema pela violencia militar ou mesmo pela violencia policial. Por que o Exército que é forte e tem armas não acaba com as favelas, expulsando do alto dos morros as multidões que hoje vivem, nos barracos, vida de bichos imundos? Por que o Exército que tem tanks e metralhadoras não acaba com o Comunismo? Por que o exército não acaba com o jogo de pif-paf? Por que o exército não resolve o problema da falta de carne? Ou o da falta de leite? Ou o da exploração do peixe e dos legumes? Ou o dos muitos suicidios? Ou o dos muitos assassinatos? Ou o do tráfego do Rio de Janeiro?

Breve se perguntará: por que o Exército não torna mais concorridas as missas nas nossas igrejas? Por que não anima a devoção religiosa entre os homens? Por que não aumenta a cortesia entre os funcionarios públicos? Por que não diminue o decote das mulheres? Por que não se encarrega da censura à imprensa, da censura às artes, da censura à literatura, da censura às modas, da censura aos anúncios de radio, moralizando tudo, elevado o gosto, defendendo a religião? A continuar essa tendencia, breve os padres, no Brasil, cruzarão os braços para que os militares ensinem os meninos a fazer o sinal-da-cruz. Os professores cruzarão os braços para que os militares ensinem aos meninos geografia do Brasil, historia do Brasil, corografia do Brasil; para que os militares se encarreguem da instrução moral e cívica dos pequenos. As mães cruzarão os braços para que os militares ensinem os filhos a escovar os dentes, a limpar os ouvidos, a lavar o rosto, a pentear o cabelo, a ser atenciosos com os mais velhos, a ser carinhosos com os aleijados, a ser bons com os passarinhos. Os juizes cruzarão os braços para que os militares distribuam a justiça. Os médicos, os sanitaristas, os higienistas cruzarão os braços para que os militares nos defendam da febre amarela, da peste bubônica, do tifo. Os técnicos encarregados de dirigir os serviços de colonização e de assimilação de imigrantes cruzarão os braços para que o exército realize sózinho, e pela violencia, o trabalho de abrasileirar estrangeiros. Ninguem mais fará cousa alguma porque tudo se deixará ao Exército que é forte, que é poderoso, que é paternal.

Semelhante atitude aqui apresentada em traços exagerados de caricatura - e a caricatura é apenas e verdade mais ou menos desembestada, correndo, como o cavalo de Mr. Jones, contra a vontade de Mr. Jones - não deixa de importar em homenagem ao Exército que é hoje, no Brasil, força organizada no meio da muita desorganização que nos perturba e aflige. Quase todo brasileiro sente essa realidade. Mas como somos gente comodista, em vez de procurarmos nos organizar, vamos facilmente nos resignando com a nossa pobreza humilhante de organização civil, religiosa, cultural; e contra essa desorganização vamos nos apoiando passiva e perigosamente na organização do Exército, embora nos queixando sempre de um "militarismo" ou de um "caudilhismo militar" criado menos por militares sequiosos de poder político que por nossa propria inercia e por nossa propria renuncia a deveres, responsabilidades e obrigações nitidamente civís.

A verdade, porem, é que o país onde o Exército seja a única, ou case a única força organizada, necessita de urgente organização ou reorganização do conjunto de suas atividades sociais e de cultura para ser verdadeiramente nação. Nação desorganizada não é Nação: é apenas paisagem. Paisagem ou cenario de nação. E mesmo que o exército seja moral e tecnicamente primoroso, se é a única força organizada da nação, esta nação corre o perigo de transformar-se em simples cenario de paradas ou simples campo de manobras. É uma nação socialmente doente, por mais atlética que pareça.

Um amigo meu, pessoa viajadíssima, chegou certa vez à capital de pequena república onde a catedral que lhe mostraram era uma pobre igreja e ruinas, a universidade, outra ruina triste, o palacio do governo, um resto de convento abandonado, o quartel, as escolas, as casas de comercio, os hoteis, pardieiros tristonhos ou simples barracões de cigano. De grandioso, de belo, de sólido a cidade só tinha a farmacia. Que esta era quase monumental. Digna de ser vista, contemplada e admirada por turistas do mundo inteiro. Sinal evidente, essa farmacia monumental em contraste com tanto edificio público em ruina, de um povo física e mentalmente doente. Doente e subnutrido que se compensava da falta ou da escassez de pão, de leite, de sapato, de higiene, de instrução, de ânimo para a vida, suprindo-se dos melhores remedios da Suiça, da Alemanha, dos Estados-Unidos. Quando tinha fome ingeria remedio. Quando estava fraco do peito se fortalecia com remedio. Quando o atacava pelos pés a imundície da terra, tomava remedio. Quando o desânimo ou a tristeza o invadia, bebia remedio. Remedio e sempre remedio. Remedios prosaicos e remedios heróicos. Remedios inocuos e remedios perigosos. A farmacia era a Mãe da pobre e desorganizada república sem lavoura, sem vaca de leite, sem agua, sem recreação, sem escola. Vivia sua gente principalmente de remedio e por isto se orgulhava de uma farmacia grandiosa como não a possuia igual Londres ou Paris.

Sinal evidente de povo socialmente enfermo é o fato do seu exército ser a sua única força organizada a ponto das outras forças nacionais renunciarem algumas de suas responsabilidades mais nitidamente civís, abdicando-se nas mãos dos chefes militares. Uma nação que vivia parasitariamente das iniciativas e das realizações do seu exército e dos remedios heróicos que o exército lhe forneça para as suas deficiencias de organização civil, será antes uma sub-nação dominada por um super-exército que uma nação normal e saudavelmente completada por um exército necessario, essencial, indispensavel.

Diante de uma situação como a que se vem definindo no Brasil - a de um exército organizado ao lado de atividades civís que continuam, quase todas, desorganizadas - a solução é claro que não deve ser a de desorganizarmos tambem o Exército para que tudo se iguale ou se democratize na desorganização. Ao contrario: a solução que se impõe é a de procurarmos imitar o exemplo do Exército nas zonas de atividade civil, organizando tão bem quanto ele as demais forças nacionais. Forças de que ele possa continuar a ser o coordenador em épocas de desajustamento mais agudo entre regiões ou entre sub-grupos nacionais.

Esses conflitos e desajustamentos saliente-se, de passagem, que são naturais na vida de um povo da composição étnica e da configuração social e de cultura do Brasil e num país da extensão territorial do nosso. Nada de nos impressionarmos com sua frequencia, lamentando não sermos uma outra Suecia de configuração étnica e social tal que a convivencia humana fosse aquí superficie raramente arrepiada por ondas mesmo pequenas de inquietação ou de conflito. Nossa situação é bem diversa: somos um povo cuja formação foi até quase nossos dias a sociologicamente feudal, com antagonismos entre grupos ou sob-grupos só atenuados pela miscigenação; com regiões quase isoladas umas das outras; com diferentes culturas a atuarem sobre o nosso ethos predominantemente cristão e lusitano mas não castiça ou exclusivamente cristão ou lusitano. Dessa diversidade resultam vantagens imensas para a cultura de um povo, mas resultam, tambem, problemas dificeis de organização nacional. Problemas que são um desafio constante ao melhor senso de coordenação de contrarios que possa o mesmo povo desenvolver. E é esse senso de coordenação de contrarios que, felizmente, não tem faltado aos nossos homens públicos de maior responsabilidade na direção ou na organização da vida nacional. Nem aos líderes civís nem aos líderes militares. Nem ao proprio povo animado de intuição política.

No Brasil, excetuado um ou outro periodo, povo e instituições democráticas, povo e instituições nacionais, desde os dias remotos da Independencia tendem, dentro das imperfeições humanas, a completar-se e a aperfeiçoar-se pacificamente. Pacificamente se fez a Independencia, se fez a Abolição, se fez a República. Pacificamente se vêm processando reformas sociais a favor do operario desde 1919 e não apenas de 1930, embora de 30 date a sistematização e ampliação das leis de proteção ao trabalhador urbano entre nós: esforço de que será sempre uma injustiça separar-se o nome de Lindolfo Color.

O proprio primeiro Imperador, que não foi nenhum santo nem como homem nem como político, disse um dia: "Tudo farei para o povo, nada porem pelo povo".

Era o pavor à demagogia a comprometer-lhe a coerencia democrática. Hoje o brasileiro de responsabilidade pública, empenhando em verdadeiramente servir a sua gente, "dirá: "tudo farei para o povo, e até pelo povo; nada porem contra a nação".

É que num mundo como o de agora, dividido ainda em nações, embora nações cada dia mais interdependentes como as Américas, o ideólogo que se volta contra a sua nação se volta tambem, quando a nação é um começo já avançado de democracia como o Brasil, contra o seu proprio povo. Em paises da tradição democrática do Brasil, povo e nação, povo e raça, povo e gente de trabalho, povo e Exército, se confundem de tal modo que não é possível separar um do outro senão fazendo sangrar o todo.

A verdade é que os motivos de incompreensão entre o Exército e os civís no Brasil, inteligentemente analisados por Pandiá Calógeras na sua memoravel conferencia de 1928 em São Paulo, vêm sendo superados. Só os explora hoje a baixa política.

Não nos devemos esquecer do fato de que se há paises onde os homens de cor se sentem mais uma raça à parte para da dominante do que homens da mesma nacionalidade, o Brasil fraternalmente mestiço e onde o mestiço tem subido à propria Presidência da Republica, não é um desses paises. O escuro da pele não tem impedido brasileiros ilustres de chegarem a postos de comando ou de direção civil ou militar.

Se há paises onde os homens que trabalham de macacão sentem inimigos natos dos que trabalham de colarinho e gravata, o Brasil, socialmente plástico, e onde meninos rústicos ou de morro, ou filhos de imigrantes pobres, têm chegado a ser ministros de Estado, altos funcionarios, generais, arcebispos, diplomatas, líderes do comercio ou das industrias, professores de escolas superiores, não é um desses paises.

Se há paises onde o Exército, a Marinha, a Aeronáutica são castas tradicionalmente inimigas da reforma social e das instituições democráticas, o Brasil de 22, de 88, de 89, de 30, não está entre esses paises. Abolição e República fizeram-se entre nós com as Forças Armadas ao lado dos reformadores e não contra eles. A separação da Igreja do Estado, a secularização dos cemiterios, a grande naturalização realizou-as o Governo Provisorio de 89. E o Governo Provisorio de 89 não foi apenas a ditadura intelectual de um grande jurista: foi tambem a curta ditadura moral de um honesto soldado.

Força antidemocrática ou antipopular, o Exército nunca foi sistemática ou conciente entre nós. Ao proprio Deodoro faltou apoio para prolongar-se no poder. Ao proprio Floriano. E ainda há três anos, 29 de Outubro reafirmou 15 de Novembro. Reafirmou uma tradição raramente interrompida. Impediu um ditador já cansado de administrar, de eternizar-se no poder absoluto sem, entretanto, impedi-lo de tornar-se, como qualquer cidadão de sua idade, senador da República e de volta à sua antiga vida de político dependente de eleições e de votos.

A responsabilidade das Forças Armadas é, no Brasil de hoje, imensa porque no Brasil de hoje - repita-se - pouco é o que se acha organizado e muita a desorganização. O Exército, desde a Reforma Hermes, e, principalmente, desde o Ministerio Calógeras, vem se tornando um exemplo expressivo do que pode, no Brasil, a técnica de organização. Diante de exemplos como o do Exército, o da Marinha e o da Aeronáutica é que, nitidamente, se vê quanto o brasileiro é caluniado pelos arianistas.

Ele não é sub-raça incapaz lamentada por sociólogos nem sempre justos em suas interpretações do Brasil. Ao contrario: disciplinado, bem alimentado e cuidado, como, ultimamente, nas Forças Armadas, em algumas policias militares - na de Pernambuco, quando reorganizada e dirigida pelo então Capitão do Exército Jurandir Mamede - e em algumas industrias, com o interesse com que outrora só se cuidava entre nós da valorização do café ou da defesa da borracha, o brasileiro se revela tão vigoroso de inteligencia e de corpo quanto os individuos das chamadas raças superiores.

País nenhum pode elevar-se, social ou mesmo economicamente, valorizando apenas os produtos e desprezando os produtores de sua riqueza. Ou cuidando apenas do que considere sua elite. Negligenciando sua massa. A melhor lição que as Forças Armadas vêm dando às demais organizações brasileiras é esta: a da valorização do homem e não apenas das máquinas ou das cousas; a da valorização do todo e não apenas de parte do seu elemento humano; do soldado e não apenas do oficial.

Sendo elas hoje um conjunto organizado no meio de tantas forças desorganizadas esse fato só faz aumentar sua responsabilidade em face dos problemas nacionais. Não se trata de substituirem o Exército, a Marinha e a Aeronáutica as forças desorganizadas, fazendo as vezes - a não ser em dias excepcionais - de administração civís ou industriais.

Trata-se de cooperarem com todas as outras energias construtivamente nacionais e sinceramente democráticas para que o Brasil inteiro se desenvolva numa organização sã. Pois organização é saude. Saude física. Saude moral. Saude social. Saude econômica. Saude capaz de resistir às doenças sem acalafetar-se de tal modo a nação contra os perigos que o excesso de prevenção passe a mania de perseguição: outra doença.

O que não significa que a prevenção justa deva ser negligenciada. De modo nenhum. Surpresas ou traições como a de 35 podem repetir-se. Como perturbadores da ordem e da paz nas democracias e nas Américas, os inimigos de 35 não diminuiram: cresceram. Diminuiram como elemento messiânico: cresce o número dos que descrêem deles como salvadores dos povos, excetuados, talvez, alguns dos grupos euroasiáticos, predispostos aos governos absorventes da personalidade humana.

A prevenção justa, porem, todos sabemos que deve estender-se alem das medidas policiais com que só os sadistas se satisfazem e das preocupações exclusivamente militares com que só os simplistas se contentam. O ambiente brasileiro precisa de ser de tal modo saneado social e economicamente, no sentido de se sustar entre nós a alarmante degradação da gente media sob os efeitos da inflação e, tambem, no de se ampliar, quanto possivel, a proteção ao trabalhador, tanto intelectual como manual, que às Forças Armadas e às Policias quase não se deixe, neste particular, outra tarefa senão a de agirem militar e policialmente contra os excessos criminosamente demagógicos e contra as infiltrações estrangeiras de carater político nas atividades nacionais. Nunca a incumbencia de resolverem apenas policial ou militarmente problemas que não sendo exclusivamente policiais nem militares pedem soluções complexas.

O Exército, aliás, já vem reconhecendo este fato; e procurando cooperar com atividades civís que interessam à segurança nacional, sem domina-las com seu criterio predominantemente militar de solução dos mesmos problemas. Outro sentido não parece ter a extensão de sua atividade de defesa nacional a obras pacíficas de colonização do Brasil central com brasileiros e de valorização do indígena, como a realizada pelo General Cândido Rondon e iniciada pelo General Couto de Magalhães; como a da organização da siderurgia; como a "solução objetiva" para o problema do petroleo oferecida pelo General Juarez Távora e apoiada em estudos militares; como a de nacionalização e reeducação de filhos de imigrantes, empreendida, através do recrutamento, por chefes militares no Sul do Brasil, onde a Igreja - diga-se de passagem -, pobre de padres brasileiros, nem sempre tem podido agir no sentido do necessario abrasileiramento dos adventicios. Nem a Igreja nem o Ministerio da Educação.

São tarefas, essas de extensão da atividade de defesa nacional - atividade que toca principalmente, mas não exclusivamente, às Forças Armadas - nas quais devemos desejar que se acentue a colaboração de civís com militares. Nada de nos abandonarmos á idéia de que, existindo zonas de atividade em que tal cooperação se impõe, ela é impossível pela incompreensão entre militares e civís.

Essa incompreensão é hoje antes uma lenda do que um fato. Só o bacharel mais estreito vê ainda em todo soldado, homem de barro diferente do seu ou o sargentão das caricaturas. Só o militar mais simplista imagina hoje todo bacharel alma de outro mundo, sempre longe da realidade.

No Brasil, civís e militares têm sabido, mais de uma vez, compreender-se e completar-se. Foi Diogo Feijó - um padre - quem energeticamente acabou com a "demagogia dos quarteis", restaurando no Brasil a disciplina militar. Por outro lado, a Caxias, homem d'armas, é que se deve a pacificação dos espíritos depois da Questão Religiosa. Mais do que ninguem, o civil Calógeras iniciou a modernização do Exército brasileiro continuada pelo General Monteiro.

Aos militares Juarez Távora, Jurací Magalhães, Tasso Tinoco, Dulcidio Cardoso, Delso Fonseca, Augusto Amaral Peixoto, Cordeiro de Faria, Carneiro de Mendonça, Nelson Melo, Macedo Soares, João Alberto, Arí Parreiras, Pinto Aleixo, deve o Brasil obras notaveis de pacificação política e de administração civil para as quais sua moderna formação militar antes os predispôs que os indispôs. E quem ignora o fato de que, nos últimos anos, militares como Hoche Pucherio, Etchgoyen e Humberto Melo é que têm sido, em nosso país, os chefes de policia mais suavemente civis e alguns bacharéis os mais cruamente incivis? Quem ignora o fato de que em Outubro de 1930, quem impediu, na capital de Pernambuco, que continuasse o saque das casas dos vencidos pela canalha fantasiada de povo, foi o soldado Juarez Távora? Que mais de um soldado se revelou naqueles dias turvos tão civil quanto o mais civil dos revolucionarios? Que tanto quanto os mais concienciosos dentre os bachareis então vitoriosos, soldados de vinte e tantos anos se esmeraram em respeitar nos vencidos a sua dignidade?

Quem esqueceu o sentido civil da campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes, em face do caudilhismo paisano? Quem deixa de respeitar a orientação civil do general Eurico Dutra, na Presidencia da República? Quem esquece o exemplo de José Calasans em Sergipe?

Exemplos de que civis e militares se têm, entre nós, mais de uma vez completado. De que há zonas de atividade em que seus esforços se têm interpenetrado em beneficio do Brasil. De que uns têm corrigido os outros nas suas deficiencias. De que uns têm retificado os outros nos seus excessos.

Essa interpenetração de esforços nunca foi mais necessaria do que hoje. É a defesa nacional no seu sentido mais amplo que a reclama. É o Brasil, a América, o mundo democrático ou para-democrático que a exige.

Toda nação moderna é o que necessita ser: uma organização em que o exército e as demais atividades nacionais se completem. Nada de exército feudal e prussianamente senhor de um resto apenas de nação; nem de nação que seja apenas pretexto para a existencia de exército ou super-exército. Num mundo como o de hoje, ainda organizado - repita-se - em nações, embora nações constituidas em sistemas transnacionais, cada dia mais fortes, de economia, de cultura, de política e de ação ou defesa militar, não se compreende nem uma nação sem exército - requinte de pacifismo moralmente perigoso para a época - nem um exército que seja ele só a nação, por militarismo ou por falta de organização civil ao lado da militar. Um exército sem nação. Do que o Brasil de hoje parece particularmente precisar é de que o seu Exército, integrado no sistema democrático brasileiro, americano, mundial, sirva, cada vez mais, a nação democrática, sem que a nação democrática se descuide de sua organização civil para depender passiva e exclusivamente da força e da ação do seu Exército.

Se nos faltar, porem, nos dias excepcionalmente dificeis que começamos a atravessar, essa organização civil que saudavelmente complete a militar, só nos resta esperar as Forças Armadas o quase milagre de colocarem suas forças e suas armas a serviço da comunidade desorganizada e da obra de consolidação do Brasil em democracia em torno dos seus mais autênticos líderes civis. Democracia que as ambições dos aventureiros fantasiados de nacionalistas ou disfarçados de democratas não destruam pela força nem pela velhacaria nem pelo caudilhismo nem pela demagogia, antes encontrem sempre vigilante contra elas o Exército de 29 de Outubro. Democracia capaz do sacrifício, como, nos nossos dias, a britânica; e não de tal modo dominada pelo interesse privado contra o geral que busque salvar-se maciamente da inflação - para só faltar da inflação - pela mágica já desacreditada do aumento de subsídios ou de vencimentos e este mesmo particularmente benéfico aos grandes e quase nulo para os pequenos; e sem que se cuide, através do esforço áspero, duro, heroico que o momento reclama mais dos grandes que dos pequenos e tanto de civís como de militares, do aumento de produção, de trabalho e de sacrificio. O sacrificio do interesse individual ao nacional, ao social, ao comum. O sacrificio do confronto pessoal à obra de organização do país em nação e da nação em democracia.

Se a chamada "guerra dos cem anos" representa a revolução ao mesmo tempo técnica e social destacada pelo ilustre ensaista português Antonio Sergio, no sentido de permitir, como nas batalhas de Crécy e de Poitiers, as vitorias dos exércitos a pé e de composição popular sobre os exércitos a cavalo e de composição nobre - vitorias que haveriam de prolongar-se quase aos nossos dias sob a forma dos triunfos alcançados pelos boers sobre o Exército inglês e, entre nós, pelos guerrilheiros de Canudos sobre tropas regulares do Exército, estamos, hoje, dentro de outra revolução, a um tempo técnica e social, que vem estabelecendo outro tipo de relação entre forças armadas e nações. As forças armadas tendem a tornar-se o equivalente da antiga cavalaria medieval, agora, sob a forma de tanks, aviões e armas requintamente científicas e algumas aristocraticamente científicas pelo esmero de preparo que exigem do militar. Compreendeu-o arguto Churchill ao proclamar, referindo-se à RAF: "Nunca tantos dependeram tanto de tão poucos".

Se o desenvolvimento desse tipo de relações se acentuar livremente nos nossos dias numa intensa valorização do técnico militar e não apenas da técnica ou da máquina de guerra, será quase impossivel, a qualquer nação, antecipar-se, por meios violentos, ao seu Exército de tanks e aviões e dominador de industrias e transportes essenciais à ação militar fulminante, em tendencias ou em reformas democráticas. Terão todas as comunidades modernas de cuidar da democratização dos seus exércitos ou das suas forças armadas para poderem ser, ou continuarem a ser, democráticas.

Pois a técnica decisiva nas batalhas já não é a que deu, Portugal do século XIV, a vitoria ao exército popular e improvisado de Num'Alvares contra a cavalaria meio-feudal. É antes a dos poucos servidos por equivalentes de cavalos - e esses equivalentes de cavalos completados por bombas de um poder prodigiosamente novo - que a de muitos a pé.

Sendo assim, é agora imensa a responsabilidade moral e intelectual dos que dirigem exércitos em suas relações com as comunidades nacionais. É agora imensa e necessidade de se compreenderem e de se completarem os líderes civis e os líderes militares. Toca aos lideres militares, como acentuou há pouco o Coronel J.B. Magalhães, "saber pugnar pela solução dos problemas cardiais da nacionalidade". A tanto vai sua responsabilidade de direção da defesa nacional. Mas devem saber conter-se para não se tornarem sózinhos, a Nação ou a defesa nacional.

Nunca foi tão grande o risco do militarismo ou do cesarismo de capote. Dele só se salvarão os militares se à conciencia do novo e enorme poder material que lhes dá a moderna técnica de guerra juntarem a visão não só civil como democrática e, no bom sentido, personalista, dos problemas sociais e de cultura das comunidades, curvando-se como novos Sãos Cristovãos diante do eterno menino, ao mesmo tempo fragil e superior aos poderes materiais, que é o homem inquietantemente à procura, através da ciencia, da arte, da religião, de novas expressões de personalidade ou de espírito; sempre necessitado de que a ciencia, a técnica, a mecânica, a força, o auxiliem a atravessar obstáculos; mas sempre necessitado, tambem, de que ciencia, técnica, força sejam dominadas pelos que reconhecem, como o santo bom gigante, na personalidade ou no espírito humano, o supremo valor da vida.



Fonte: FREYRE. Gilberto. Nação e Exército. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949. 56p.

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