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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



PALAVRAS AOS JOVENS DO CEARÁ


APRESENTAÇÃO
Paulo Peroba

O Seminário Sobre o Nordeste foi uma idealização do Instituto Lusíadas, fruto de pesquisa de opinião entre seus dez mil alunos.

Entre debates e conferências tomaram parte no Seminário: Gilberto Freyre, José Américo de Almeida, Nílson Holanda, José Denizard Macêdo de Alcântara, Pádua Ramos, João Gonçalves de Souza e Paulo de Tarso Lustosa da Costa.

O Seminário, em suas duas etapas, desenvolveu-se em Fortaleza, nos anos de 1977 e 1978, no Teatro José de Alencar e no Auditório Horácio Láfer.

Como resultado do Seminário Sobre o Nordeste, entregamos agora a todos os participantes e pessoas interessadas no assunto o presente trabalho, com palestras do Sociólogo Gilberto Freyre, apresentação do dr. Pádua Ramos e prefácio de Jáder de Carvalho.

Fortaleza, outubro de 1978
Paulo Peroba
Instituto Lusíadas - Diretor

QUASE PREFÁCIO
Jáder de Carvalho

No meu TERRA DE NINGUÉM, livrinho de poemas modernistas, publicado em 1931 e já em segunda edição, aparece, embora intuitiva a timidamente, aquilo que mais tarde seria o tempo tríbio de Gilberto Freyre, sem dúvida das maiores invenções brasileiras, se levarmos em conta o alto e crescente valor da Sociologia. Agora, em TERRA BÁRBARA, onde reúno poesia nordestina, creio que falo com segurança, plenamente apoiado no conceito gilberteano de tempo, aceito com entusiasmo por sociólogos estrangeiros. Aliás, falando-se em tempo tríbio, não se deve esquecer o método próprio com que se delineou CASA GRANDE & SENZALA. Esse método e essa obra transpuseram vitoriosamente as fronteiras do País. Entre sociólogos de além-mar já se lembra a necessidade de repetir-se fora do Brasil aquilo que Gilberto Freyre pensou no Nordeste úmido, ou seja, o Nordeste da cana-de-açúcar.

O tempo tríbio impõe-se tanto na interpretação sociológica, como na história e até na poesia. Na poesia, sim, desde que ela se vincule a uma região natural ou mesmo a um país, onde fatos e casos se cristalizem em características marcadas pelos séculos. Infelizmente, nesta hora de domínio tecnológico, ainda falta a muitos que se dedicam ao trabalho de estudar e interpretar culturas a noção clara da transição entre as épocas em que se divide uma sociedade em desenvolvimento. Não se despreze o valor da historicidade daqueles fatos e daqueles casos numa área geográfica devidamente configurada sob todos os aspectos. É exatamente o que não se dá na sociologia gilberteana, onde o telurismo é largamente visto e sentido em todas as suas tonalidades.

Oliveira Viana, apesar da acuidade revelada em sua obra sociológica, de cor brasileira ou, melhor, de cor sul-brasileira, nas POPULAÇÕES MERIDIONAIS, não teve contudo a ampará-lo a invenção ou descoberta de Gilberto Freyre, hoje conhecida e louvada por mestres estrangeiros. Daí a absurda hipótese de uma possível arianização da população brasileira. A massa imigratória de europeus brancos levou-o, indubitavelmente, a essa presunção já um tanto futurológica. Mas não o preocupou a invasão pacífica de japoneses e chineses. E a presença, nas fazendas cafeeiras de São Paulo, do mestiço nordestino, e, particularmente, do mestiço cearense, ambos descendentes do negro, do índio e do português nem todo ele branco puro. E que significa o nordestino, senão o homem em miscigenação que não pára e que o amorena, no curso do tempo? Seria falso ou arriscado dizer-se que nesse mestiço desponta a morenidade prevista pelo sociólogo de Recife, hoje, com sociologia de âmbito internacional?

No Ceará destes dias - vale o exemplo - já se não misturam a uma população com quase quatro séculos de caldeamento nem o negro, nem o pseudo ariano, nem o português peninsular. Por falar em negro: já rareia. E, ainda mais, novos europeus com intenção de tentar a vida. Os sírio-libaneses (os antigos turcos ou árabes, de pequeno comércio ambulante ou nos mercados), de pele morena, já fugiram à endogamia em que viviam. A endogamia somente vem a desaparecer quando essa gente oriunda de Beirute ou de Damasco, e agora com outro status econômico e social, por força da ascensão pelo dinheiro e do aparecimento de médicos, bacharéis e engenheiros, passa, pelo casamento, a participar da sociedade local. Ora, pelo grande número de sírio-libaneses em Fortaleza, por exemplo, todos eles já destituídos de hábitos ou preconceitos endogâmicos, a sua vinculação ao cabeça-chata não deixa de implicar numa ajuda ao crescimento da morenidade entre nós. Juntam-se, assim, dois tipos étnicos queimados pelo sol: o sol da Ásia e o sol da América - este não apenas para amorenar a pele, mas para abrir o caminho ás secas periódicas, responsáveis, em grande parte, pela dispersão dos sertanejos cearenses. E até de gente da classe-média, da Fortaleza e dos pequenos centros urbanos teimando em viver longe do mar.

Enquanto mais se afasta a hipótese de uma arianização, pelos motivos já expostos, o Nordeste moreno se espalha pelo Brasil. Melhor: espalha a sua morenidade pelo Brasil. Lá está ele, com as suas raízes étnicas já diluídas, no Pará, no Amazonas, no Acre, colhendo o leite da seringueira, fabricando rusticamente a borracha, ao mesmo tempo em que lhe não faltaram luas para a expansão territorial. Lá está ele, "a mão doente de saudade", a apanhar café em fazendas paulistas e paranaenses.

Não se pense, mesmo para somente discutir, que a emigração da morenidade nordestina, com vários rumos e em vários caminhos dentro do Brasil, se limitou apenas a retardar ou impedir um hipotético embranquecimento da população. Se, por acaso, se deixou vencer nalguma parte por hábitos, técnicas, costumes sociais estranhos, quase sempre impostos pela geografia ou maior grau de desenvolvimento, no processo civilizatório, essa migração interna, mais volumosa em tempos de seca, mas sempre visível em tempos metereologicamente normais, não deixou de influir na música e até, ás vezes, no modo de falar. Recordem-se, como exemplo, o Rio de Janeiro de ontem, de pronúncia notoriamente sofisticada, e a metrópole dos nossos dias, de sotaque mais doce, menos exagerado, mais compreensível. E também menos distante do modo de falar nordestino. A que se deve esse fato, senão à presença do Nordeste nas obras de construção civil, na redação dos jornais, no comércio, no trabalhador de fábrica? E também no radialista, nos artistas do canto ou do humorismo, no ator de novela ou de cinema, no homem de televisão, que deixaram o umbigo enterrado no Ceará, no Rio Grande do Norte, na Paraíba, em Pernambuco, em Alagoas? Hoje, pela presença do nordestino e de outros brasileiros sem exagero no sotaque do português falado no Brasil, e através dos meios de comunicação de massa, de grupo, de indivíduos, as pronúncias regionais já perderam, quase todas, características que pareciam irreversíveis, quer no campo, quer nas cidades. Escuta-se, neste presente já com o pé no futuro, através do rádio e da televisão, um sotaque quase brasileiro, sem asperezas e já meio feito de música. Duas pronúncias, no Brasil, me encantaram em dias idos: a do paraense e a dos favelados do Rio de Janeiro. E encantavam pela melodia, jamais ouvida por mim noutras partes do Brasil. E o homem do Pará - proletário, da classe-média ou cúpula rica - também já se muda para o Rio, para São Paulo, Santos, Curitiba, Porto Alegre. E também para Goiânia, Brasília, Campo Grande, Cuiabá. Excesso das águas? Pobreza das águas? Por que o paraense foge dos rios, como o nordestino corre do sol? Nordeste e Amazônia, ambos vizinhos na ardentia equatorial, não se amorenaram? Ambos não espalham morenidade?

Gilberto Freyre, que os estudantes cearenses já ouviram e agora os brasileiros irão reencontrar em livro cearense, não pode emparelhar-se, senão vantajosamente, com outros sociólogos nacionais ou alienígenas. E não pode porque a sua obra, na dimensão brasileira, apresenta tonalidades próprias, conteúdo jamais explorado, como em CASA GRANDE & SENZALA, para não citar também SOBRADOS E MOCAMBOS, REGIÃO E TRADIÇÃO. E essas tonalidades brasileiras são a presença do massapê, o cheiro de toda uma região natural, o perfume antigo do Recife luso-flamengo e, ainda mais, o método singular e gritante que levanta as paredes, as vigas e o telhado da sua SOCIOLOGIA. Noutras palavras: porque se plantam em intenções e interpretações marcadas pela mais autêntica originalidade. Aquele método, em país estrangeiro, está clamando por imediata aplicação em regiões naturais em que, porventura, se divida uma pátria. Se existe, como querem uns e outros negam, uma sociologia rural, uma sociologia urbana, por que não admitir-se, descendo-se a maiores particularidades, dentro do Brasil, uma sociologia do café, uma sociologia do algodão, uma sociologia da borracha, uma sociologia da cana-de-açúcar? Elas, é claro, não se formariam por geração espontânea, mas pelo fundo econômico. E esse fundo econômico não poderia ter vida senão pela presença do homem, da população, da etnia.

Já é tempo de entender-se esta verdade: a economia paulista, pela crescente expansão, dentro e fora do Brasil, e, por isso mesmo, pela necessidade de dar e de receber, representará, um dia, a própria economia brasileira, se outro centro econômico e também tentacular, não surgir com o mesmo poder e as mesmas características, ao menos para desafiá-la e enfrentá-la. Lembremo-nos disto: na vida dos povos, das nações e mesmo das colônias ricas, o futuro sempre escondeu surpresas. Mesmo no curso da história do Brasil, não foi mera coincidência, mas fruto do desenvolvimento comercial da Holanda, a ocupação, ditada pela competição econômica entre flamengos e outros povos, da Bahia e de Pernambuco.

Que é o Nordeste de hoje? O conjunto de uma região e de várias sub-regiões naturais - conjunto de muita história, de muitos sonhos, alguns deles abordados, já no sentido econômico, já no sentido político-revolucionário. Na atual fase do tempo tríbio, que é a passagem do presente e, às vezes, do passado para o futuro, se nos sobra a força da morenidade, estão a faltar-nos planejamentos para a indústria, para a agricultura, para a mineração e talvez para o pastoreio. No Nordeste, para tristeza nossa, ainda não se escreveu, também, a história do boi dos Inhamuns - esse boi responsável, primeiro pelos simples "currais" e, depois, pelas grandes fazendas. Dessas fazendas nasceu o poder econômico, logo seguido do poder político. E, mais tarde, o cangaceiro, saído da plebe rural, tão bem vista e interpretada por Oliveira Viana, na sociologia do latifúndio brasileiro. Esse latifúndio nasceu do trabalho, de rivalidades ainda pacíficas, logo depois acompanhadas das sangrentas lutas entre famílias poderosas, cuja história ainda não se escreveu cientificamente. Como, da mesma forma, ainda não se levou para o livro a autêntica história do boi e das suas clássicas estradas - caminhos lógicos da civilização e que, um dia, serviram para o encontro do sertão com o mar.

A falta de planejamento econômico, devidamente particularizado, dada a existência, na região, da sub-regiões, a indústria, a agricultura e o pastoreio, pelo menos no Ceará, não tiveram sangue novo nas veias e nas artérias. Não me parece óbvio afirmar que a expansão sem freios de um imperialismo interno, ou seja, o imperialismo econômico de São Paulo, responda pelo quase insucesso do recente parque industrial cearense. Sem possibilidade de enfrentar o poder econômico paulista, algumas indústrias desse parque recorreram à aventura do mercado internacional, sem possibilidade de êxito. Essa dramática competição, de resultados logicamente negativos, não deixará de influir noutra corajosa tentativa de industrialização.

Temos água prisioneira em numerosos açudes - grandes e médios. Água mais destinada à ação dos ventos, num trabalho negativo de evaporação, do que a esses canais de irrigação, por onde poderia correr o sangue branco, exigida em gritos até hoje inúteis por uma economia agrícola, secularmente anêmica.

Sem um campo sem planos para realizações a longo e a curto prazo, e, por isso mesmo sem a possibilidade de se comprar aquilo que produzem as indústrias do litoral e também as dos médios centros urbanos do sertão, os nordestinos jamais passaremos de pobres e desgraçados dependentes do imperialismo paulista, tão ambicioso e tão predatório como qualquer imperialismo estrangeiro.

Apesar de tudo, mesmo sem a proteção da santidade de São Francisco das Chagas e do Padre Cícero, o Nordeste, por vários motivos, felizmente há de sobreviver. Não morrerá: eu digo. E, nas duas últimas fases da sua vida regional e sub-regional - presente e futuro - vai apoiar-se, entre outras forças que poderão surgir, na força não reversível, além de nômade e ecológica, de amorenar o Brasil, longe, absolutamente longe de uma arianização, apesar do forte volume dos brancos nos Estados meridionais e da poderosa presença dos negros na Bahia. Principalmente dos brancos do Sul. Do Sul, ou seja da maior zona de irradiação econômica no Brasil.

Até agora, não saímos do passado e do presente quanto à presença nordestina na quase uniformidade do atual falar brasileiro. E também na crescente morenização das populações com que misturamos o nosso sangue, sangue ainda sem uniformidade, mas onde as raças branca, preta e vermelha perderam a cor, e mesmo a alma, construindo um tipo à parte, nascido à feição da geografia, da ecologia e das maneiras históricas de sobreviver. Ao lado desse tipo em marcha para uma definição étnica talvez ainda remota e já dotado de hábitos característicos, alguns deles sem qualquer perigo de morte ou desaparecimento. Ainda ao lado desse sertanejo esculpido em letras geniais to Nepomuceno, Capistrano, Farias Brito, Djacir Menezes, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo. Sem a iniciativa e a participação de nordestinos, não existiriam, no Brasil, o romance, o jornal para o povo, a filosofia, o folclore, a nossa história da filosofia, o direito, a sociologia, a antropologia cultural, a oratória, esta definitivamente consolidada por um Rui Barbosa. O gênio, a alma, a criatividade do Nordeste estão presentes em toda a cultura nacional, com traços e retrato próprios.

Nas águas destas duas conferências agora reunidas e publicadas em livro - conferências que representam a origem, o método e a dimensão brasileira da sociologia de Gilberto Freyre - deve-se acreditar em modificações, mudanças na população do Brasil, em face destes três tipos de migrações nordestinas: a do rurícola expulso em massa pelas secas periódicas; a desse mesmo sertanejo, individual ou em família, nos tempos normais; e a da classe-média, de modo constante e devido à atração dos grandes centros urbanos, principalmente Rio, Brasília e São Paulo, de gente da classe-média: para o jornal, o comércio, o rádio, a televisão, o meio intelectual. E por que olvidar-se a permuta do Nordeste pelo Sul por parte dos homens de dinheiro, de empresa, que inteligentemente trocam um mercado que consome por um mercado que produz e oferece? Não falemos aqui em inferioridade do homem tropical. Segundo Silva Melo, não existe essa inferioridade. Pelo contrário: segundo o grande polígrafo há superioridade no homem dos trópicos: no homem, na sociedade e na civilização equatoriais. Gilberto mesmo não nega a influência benéfica do tropicalismo no processo civilizatório. Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, para não citar outros centros urbanos em acelerado crescimento, falam bem alto da superioridade que, durante séculos, se procurou negar, numa sociologia ou numa antropologia cultural de pés enterrados na neve e no frio da Europa e dos Estados Unidos. Mais uma pergunta: na metarraça gilberteana, quem mais visível: o branco, o negro, o índio ou o mestiço de três raças confluentes na população brasileira?

O Brasil não perde em esperar, mesmo ainda com a presença em massa de imigrantes de pele branca e dos seus descendentes em Estados do Sul, pela continuidade da influência do Nordeste na nova configuração nacional, já na cor, já na fala, já nas letras, no direito, na história da filosofia, na própria filosofia, no folclore. Essa influência não correrá perigo de vida, mesmo depois de uma possível estabilidade econômica da região - estabilidade que poderia parecer grave obstáculo para migrações individuais, em família, em grupo.

As notas que ora reúno neste quase prefácio parecem não ter nascido de duas conferências apenas. É que, no breve contacto de Gilberto Freyre com os cearenses (e não somente com estudantes), ele nos trouxe o seu método sociológico, a própria história de sua sociologia em dimensão brasileira. Dimensão - é bem se esclareça - antes de tudo tropical.

Escrevi muito: é certo. Muito - é claro - em quantidade. Agora, faço a pergunta final: mesmo tratando-se de uma simples carta de Gilberto Freyre, este quase prefácio poderia perder em tamanho?

Jáder de Carvalho

DE NOVO EM FORTALEZA
Gilberto Freyre

Voltarei, breve, a Fortaleza, com novo convite de sua mocidade intelectual para proferir conferência no Teatro José de Alencar. Um Teatro já tão meu - tão da minha vida de escritor por vezes de todo oral: conferencista - quanto a Santa Isabel. Ou quanto o Santa Rosa. Ou quanto aquele, para mim inesquecível, Teatro Municipal de São Paulo, onde, também a convite de jovens proferi, quando eu próprio ainda quase jovem, a conferência Modernismos e Modernidade na Arte Política. Conferência que mereceu de Osvald de Andrade - de sua alta e ágil inteligência - a melhor das solidariedades. Até então, desavindos, tornamo-nos para sempre amigos fraternos.

Sem me sentir com vocação didática, sinto-me um tanto à vontade como conferencista. Sobretudo conferencista para públicos jovens. Universitários. Para estudantes. Públicos que têm querido ouvir-me tanto no Brasil como no estrangeiro. Na Alemanha, na França, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, na Espanha, em Portugal, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, no Peru. Ultimamente na Venezuela. Tanto em Harvard como em Columbia. Tanto em Princeton como na Sorbonne. Tanto em Salamanca como em Heidelberg.

Esses contactos com jovens e com estudantes, desejados por eles e não promovidos por mim, estão entre minhas melhores experiências de homem fiel à sua vocação intelectual. Desinteressado de honrarias acadêmicas e de ministérios tanto quanto de embaixadas. Fidelidade que tem me permitido uma independência que, desde adolescente, foi um dos meus maiores desejos. Sempre me repugnou a figura do bajulador. Ou a do cortejador de qualquer poder: do econômico ou político. Do Acadêmico ou do jovem: o chamado poder jovem.

Vou breve voltar a Fortaleza atendendo a um apelo de jovens cearenses com os quais vêm-se acentuando minhas afinidades de pensar e de sentir. São jovens, os do Ceará, que têm hoje um líder - Paulo Peroba - de um tipo que é para não existir, em maior número, no Brasil de hoje. Um líder jovem que sabe atuar entre os mais jovens que ele sem resvalar em demagogices. Sempre como um líder para quem os valores da inteligência existem. E existindo, devem ser promovidos.

Bela a sua recente iniciativa de trazer a Fortaleza intelectuais e artistas cearenses, já há anos expatriados, para contactos com novas gerações cearenses. Exemplo a ser imitado por outros Estados.

Como exemplo a ser imitado é o afã de Paulo Peroba em vir promovendo encontros da mocidade cearense com alguns dos maiores brasileiros pela inteligência, pelo talento, pelo saber. Com Jorge Amado. Com Vinicius de Morais. Com Magalhães Júnior. No que não lhe tem faltado o apoio dos seus conterrâneos: um deles o lúcido Nílson Holanda.

(Do Diário de Pernambuco - Abril/78).

N.B: "Regressando de novo contacto com Fortaleza. Duas palestras: uma no Auditório Horácio Láfer, presente José Américo de Almeida, com uma saudação da Pádua Ramos sem nada de convencional das saudações dessa espécie: aguda análise e não ôca retórica. Outra, no Teatro José de Alencar, numeroso público jovem, reafirmação da liderança entre a mocidade cearense do jovem professor Paulo Peroba. Contactos para mim interessantíssimos, com Nílson Holanda, Jáder de Carvalho, Cid Carvalho, Manoel Lima Soares, Hélio Melo, Denizard Macedo de Alcântara, Barros Pinho e Luís Maia. Entrevistado por Roberto Aurélio: brilhante inteligência jovem (. . .)"

GILBERTO FREYRE/Diário de Pernambuco
7 de maio de 1978

SAUDAÇÃO A GILBERTO FREYRE
Pádua Ramos

- O Homem e o Estilo
- O sociólogo e as Tensões Inter-Regionais
- O Pensador e os Problemas Universais

O espírito irrequieto e a inteligência enriquecida de sensibilidade do Professor Paulo Peroba, a serviço da Secretaria de Cultura do Estado, dirigida, esta, pelo eminente e destacadamente culto Professor Denizard Macedo de Alcântara, estão produzindo esta noite ímpar na história da Inteligência em terras cearense, quando nos encontramos diante de duas notáveis figuras da vida pública brasileira: Gilberto Freyre e José Américo de Almeida. Esta noite, pois, estaremos a cuidar das coisas do Espírito, nesta caminhada sofrida do Homem no seu retorno às preocupações com o transcendental, repetindo de volta o roteiro de suas próprias pegadas, após a decepção de ter eleito a produtividade como valor supremo, conforme veremos adiante, em denúncia de Mestre Gilberto Freyre.

I - O HOMEN E O ESTILO

Entre os diferentes ângulos de observação a partir dos quais podemos contemplar o Sr. Gilberto Freyre - como por exemplo o Gilberto Freyre pintor - elegemos para nossa saudação, esta noite, apenas dois: o Escritor, pois estamos no Ano da Redação, segundo o calendário do Instituto Lusíadas; e, obviamente, o Pensador. Em verdade, o Sr. Gilberto Freyre é mais conhecido o Brasil, onde se lê pouco, como o Sociólogo; inadvertidos que estamos, quase todos, de que, a essa altura, já nos encontramos diante de um mais que cientista social: um filósofo.

Ora, acontece que o próprio escritor, enquanto escritor, é ele próprio mesmo conhecido do que deveria ser, aqui no Brasil, onde a atoarda áudio-visual dos meios de comunicação vem roubando os mais jovens do silêncio das bibliotecas, que é de fato onde se aprende a comunicação escrita. Daí vir-se tornando para nós outros cada vez mais incompreensível a conversa entre adolescentes, tecida mais de gíria que de linguagem corrente, mais de interjeições que de verbos, mais de expressões lacônicas que de estruturas providas de sujeito, verbo e complemento. Daí, portanto, certas expressões que, de tanto ouvi-las, até nós outros passamos a dizê-las: "jóia!"; "é isso ai!"; "ciao"; "entrou bem!". (Curiosamente, "entrou bem" significa "entrou mal". . .).

É uma pena, volto a dizer, que o Gilberto Freyre escritor seja menos analisado do que deveria, em terras brasileiras, porque - parafraseando Alceu Amoroso Lima sobre Clarice Lispector - "ninguém escreve como ele. Ele não escreve como ninguém".

Assim, como ia dizendo, reuni algumas considerações sobre o Escritor, antes de trazer, como farei adiante, reflexões sobre o Pensador. Em primeiro lugar, note-se o característico que de logo salta à vista no estilo gilberteano e que tem sido mencionado inclusive pelo próprio: a sensualidade das palavras. O que não é de admirar em escritor que melhor compreendeu, amando-a, a civilização afro-luso-tropical. Daí o vigor expressional da sua linguagem. Pois, como assinala Nélida Piñon:

"Um país que tem árvores imensas pode ter uma língua econômica? Temos que aceitar a nossa língua e para isso temos que conviver com a nossa mitologia, abraçar a voluptuosidade da nossa língua com grande paixão". (entrevista ao "Jornal do Brasil" - 4.4.1978).

Mas, diga-se claramente, nem sempre é fácil ler Gilberto Freyre. Seus escritos têm uma anatomia, obedecem a uma construção gestáltica, formam estrutura. Sim; porque esse pintor que faz pintura mediante a instrumentação óbvia de tela, pincel e tinta, todavia realiza arquitetura através da linguagem. Suas vírgulas, seus pontos-e-vírgulas, seus pontos, sobretudo seus travessões separam massas arquitetônicas que se conjugam em harmonias de formas tridimensionais, exprimindo pela palavra o que, digamos, um Le Corbusier tropical expressaria por via do cimento e do aço. Filho de latinista, ele próprio com seu tanto de latinista, é de se imaginá-lo, criança, brincando de esconder sujeitos, de intercalar apostos, de rearrumar verbos, de recolocar predicados - hábito lúdico que ainda hoje conserva, agora como pedagogia, em geral, e como didática, em particular.

Apesar dessa pedagogia e dessa didática, foi dito paradoxalmente que nem sempre é fácil ler Gilberto Freyre, mas, esclareça-se: neste sentido - o mesmo de que, para ouvir música erudita, é preciso ter a pré-condição ao menos do costume de ouvi-la.

Iria longe a enumeração dos recursos de linguagem que só Gilberto usa e ninguém mais usa, o que seria um despropósito em simples saudação por parte de um tecnocrata que se aventura em campo de saber que não é o seu. Sem embargo, seja-nos permitido mencionar de passagem alguns desses recursos de linguagem que nos tem sido possível perceber, em anos de convivência com seus escritos, ora mais estreitamente, em nesgas de tempo, ora de raro em raro, mas sempre reencontrando o mesmo homem e o mesmo estilo, porquanto, segundo Buffon, um se confunde com o outro: "o estilo é o homem".

Citemos, inicialmente, um característico de Mestre Freyre: palavras habitualmente encontradas no singular ele as emprega no plural: "saberes" ("Além do Apenas Moderno", p. 71); "futuros" ("O Brasileiro entre os Outros Hispanos", subtítulo): "presentes" ("O Brasileiro entre os outros Hispanos", p. xxxix).

Os títulos de seus livros são geralmente extremamente mais curtos que os subtítulos, estes valendo como indicação para o leitor sobre a substância a ser versada. Por exemplo: Título - "O Brasileiro entre os Outros Hispanos"; subtítulo - "Afinidades, contrastes e possíveis futuros nas suas inter-relações". Título - "Além do Apenas Moderno"; subtítulo - "Sugestões em torno de possíveis futuros do homem, em geral, e do homem brasileiro, em particular". Título - "Aventura e Rotina"; subtítulo - "Sugestões de uma viagem a procura das constantes portuguesas de caráter e ação".

Existem, na sua linguagem, certos complementos adverbiais que, uma vez lidos, transmitem ao leitor a sensação de que se trata de complementos indispensáveis, e de tal maneira indispensáveis que melhor seria talvez classificá-los como complementos terminativos. Tais recursos de linguagem suspendem o texto a elevado nível de beleza. Por exemplo, em "Aventura e Rotina", diz que o sol, no norte da Europa,

"é tão cortês com as pessoas e as coisas que às vezes parece efeminar-se em lua"(p. 13).

Ou então quanto menciona, em "O Brasileiro entre os Outros Hispanos", "antropólogos alongados em poetas" (p.xlii).

Mestre Gilberto Freyre tem flagrante predileção pela conjugação do verbo no modo subjuntivo. Ora, o modo subjuntivo, como confirma o "Dicionário de Fatos Gramaticais" do Professor Joaquim Mattoso Câmara Júnior, é aquele "destinado, desde o hindu-europeu, a assinalar que o processo é apenas admitido em nosso espírito, e, portanto, passível de dúvida" (. . .). De modo que a mencionada predileção não nos parece acidental, senão que revela o escrúpulo de quem lida com pressupostos nem sempre consensualmente pacíficos, como é o caso das premissas pertencentes ao mundo das ciências sociais. Os exemplos são abundantes em qualquer de seus livros e não será o caso de reproduzi-los aqui.

Um registro quase final, a respeito do Gilberto Freyre escritor diz respeito à sua autonomia (consciente) em relação às regras gramaticais ortodoxas. Pelo menos a uma delas, a que diz que os conectivos subordinativos e os pronomes relativos atraem o pronome oblíquo. Essa liberdade do estilo gilbertiano é constante em todas as épocas e já em "Casa Grande & Senzala" encontramos a expressão "dentro da qual formou-se", em vez de dentro da qual se formou. No ano de 1924, ele já protestava:

"Haverá povo que tenha mais que o brasileiro a obsessão da Gramática? Duvido. A Ordem Gramatical nos inquieta muito mais que a Ordem Constitucional (. . .). E qualquer dia desses (. . .) veremos o problema da colocação dos pronomes discutida nas Câmaras com o maior ardor deste mundo."(Retalhos de Jornais Velhos, p. 41).

Saúdo, pois, nesse estilista rebelde, antes de falar sobre o Pensador,

O escritor brasileiro;
O escritor luso-brasileiro;
O escritor afro-luso-brasileiro;
O escritor.

II - O SOCIÓLOGO E AS TENSÕES INTER-REGIONAIS

É preciso dizer com todas as letras que não é possível conhecer o Brasil sem ler Gilberto Freyre. Foi ele quem nos ensinou no dizer do Ministro Velloso, no seu "Brasil: A Solução Positiva" (p.40), "que a 'vergonha nacional' da mestiçagem era, em verdade, motivo de orgulho e singularizava a aventura brasileira, no mundo".

O livro "Casa Grande & Senzala", acrescentamos nós, é o nosso maior trabalho de introspecção. Foi quando o Brasil mergulhou em si mesmo com maior profundidade.

Ora, acontece que ninguém está mais autorizado a interpretar o presente do que quem mais se tenha debruçado sobre o passado; ninguém mais autorizado a indagar sobre o futuro do que quem mais se tenha debruçado sobre o passado e mais interpretado o presente. Deste ponto de vista, Mestre Gilberto Freyre encontra-se entre aqueles credenciados perante a Ciência Social, em sentido lato, para opinar sobre o Brasil, sobre as nações hispânicas e - na sua maneira singular de exprimir-se - sobre seus "possíveis futuros"; como ainda agora na qualidade de cientista social "alongado em filósofo", também na sua maneira original de dizer as coisas - sobre os possíveis futuros" das sociedades humanas, diante do dilema, para ele cada vez mais inexistente, entre "capitalismo ianque" e "comunismo russo soviético" ("O Brasileiro entre os outros Hispanos", p.xxxix).

Tomemos, pois, algumas de suas contribuições recentes para o diagnóstico do presente brasileiro e para a prospecção do futuro humano.

Quanto ao primeiro aspecto, citemo-lo textualmente:

"As tensões inter-regionais no Brasil de hoje se sobrepõem não só às de "raça" - pouco intensas ou extensas no Brasil - como às de classes, como tensões sociais que prejudiquem o desenvolvimento harmônico, entre nós, de uma sociedade que, para ser plural, ao mesmo tempo que singular, não precisa de ser social e economicamente desconexa quanto ao conjunto de suas regiões ou uniforme quanto à sua política de desenvolvimento econômico, com várias regiões sacrificadas ao progresso material de uma só. Precisamos de considerar as tensões inter-regionais entre nós como problema econômico e problema social. Precisamos nos convencer de que devemos dar prioridade ao estudo científico-social dessas tensões para que sobre esse estudo se apoiem de modo mais firma decisões que tenham que ser tomadas por homem de ação política e de ação econômica."("Além do Apenas Moderno", p. 73).

Que inspirações poderiam ser provocadas por tão lúcidas palavras? Cada um há de reagir ao seu modo: estas idéias são como o raio de luz atravessando o prisma e sofrendo as refrações próprias do corpo que atravessa. De mim, confesso: o a que temos assistido é o centralismo econômico, em São Paulo, e o centralismo político, em Brasília, ao mesmo tempo em que, por isso mesmo, são abandonadas aquelas diretrizes de desenvolvimento das regiões periféricas. Como se o Brasil fosse constituído de pátrias diferentes dentro da mesma Pátria. Sob o império de forças centrípetas não neutralizadas por forças centrífugas. É certo que Mestre Gilberto Freyre falou do Brasil múltiplo: mas ele nunca mencionou a Pátria plural.

No Campo político, o Planalto Central manifesta a tendência de ser cada vez mais planalto e cada vez mais central, segundo uma espécie de força de inércia transplantada da Física para o mundo das relações sociais, à revelia do controle dos homens, bem como dos interesses da integração e da própria segurança nacional.

Dentro desse quadro, e desde logo no tocante ao aspecto político, - que seria de esperar-se de São Paulo, o mais economicamente vigoroso Estado da Federação? Que exercitasse aquela vocação apontada há 24 anos atrás pelo Sr. Alceu Amoroso Lima, quando disse que, desde o século XVI,

"revelaram os paulistas um sentido de hombridade, de autonomia, de resistência ao centralismo metropolitano de Portugal"(. . .). ("A missão de São Paulo" p. 19).

Quer dizer, seria de esperar-se que São Paulo se constituísse em fator de reequilíbrio do Estado Federativo, ameaçado pelo Estado Unitário que um dia foi necessário, transitoriamente, para restaurar a organização nacional, porém que agora como que estaria inclinado a sufocar os Brasis que no Brasil existem, conforme a pluralidade indicada pela lição de Mestre Gilberto Freyre.

Todavia, para tanto se faz mister corrigir a própria distorção econômica que só aparentemente beneficia São Paulo, pois o que vemos é o avassalador gigantismo urbano de capital bandeirante, onde a deterioração da qualidade da vida é uma tragédia. A missão de São Paulo, pois, no tocante ao aspecto econômico, seria a de colaborar para a criação de centros dinâmicos em todo o Brasil, o que aliás consulta o interesse da criação de mercados para ele próprio, como já vem acontecendo timidamente com o Rio Grande do Sul com o Paraná, com Minas, com a Bahia, com Pernambuco. A revisão das normas referentes ao ICM, por exemplo, e, sobretudo, a restauração das diretrizes de desenvolvimento do Nordeste sem dúvida alguma seriam medidas capazes de produzir aqui a retenção preventiva do fluxo migratório de trabalhadores em busca de empregos quiçá ainda ofertados em quantidade suficiente pela economia paulista.

Quando recuperarmos o equilíbrio perdido, voltaremos a ter expressão econômica - estamos defasados - e voz política - estamos afônicos - como convém aos superiores interesses da integração nacional. Pois não podemos ser solidários apenas com o passivo do Balanço da nossa economia, sofrendo uma inflação que - no dizer do Dr. José Flávio Costa Lima, Presidente da Federação das Indústrias do Ceará - "por dependentes, não provocamos, e, por economia reflexa que somos, importamos" (Discurso de posse, 23.9.1977). Pois tem sido acentuado que o Brasil não é feito apenas por alguns, porém que é realizado por todos nós.

III - O PENSADOR E OS PROBLEMAS UNIVERSAIS

Sobre o Gilberto Freyre pensador, cabe mencionar antes de mais nada que ele atingiu tamanho grau de maturidade, direi mesmo de sabedoria, que se põe - de cima do seu saber ou, à sua maneira, de "seus saberes" - contemplando eqüidistante as escaramuças cada vez mais falsas e inautênticas entre os dois grandes sistemas econômicos do mundo. Em suas próprias palavras:

"Do atual conflito entre o chamado capitalismo ianque e o chamado comunismo russo-soviético parece que nenhum dos dois sairá vencedor: as semelhanças entre os dois cada dia se acentuam mais, deixando os seus ideólogos a ver navios. O triunfo caberá à automação que está sendo desenvolvida tanto pelos russos-soviéticos como pelos americanos dos Estados Unidos. Ela é que criará condições tecnológicas para novos tipos de economia e de convivência humana, num tempo que será antes o ibérico que o anglo-saxônico - este, nos últimos anos, adotado pelos russos por motivos de competição econômica: a competição em que estão empenhados alguns dos seus líderes mais ortodoxos, com os Estados Unidos, no campo da produtividade."("O Brasileiro entre os Outros Hispanos", p.xxxix).

Como se vê, o Sr. Gilberto Freyre não é mais, há já bastante tempo, o político militante, pois dele se pode dizer, como disse Murilo Mendes sobre Jorge de Lima: "o humano separa o político" (Apud Luiz Santa Cruz - Jorge de Lima - Coleção "Nossos Clássicos" - p. 102 - Agir). Enganam-se, pois, os que pretendem julgá-lo através de seus pronunciamentos de natureza eventualmente ideológica, dos quais pronunciamentos, por vezes, é lícito discordarmos e realmente temos, por vezes, discordado. Mas o Sr. Gilberto Freyre não é ideólogo e a Ideologia não é o seu campo. O que ele é, quando não é cientista social, é filósofo: não se trata de acaso ser ele membro convidado da Academia de Filosofia de Filadélfia.

Propomos que o ideólogo esteja para o filósofo assim como o tecnólogo está para o cientista. E a ideologia seria a tentativa, que cada ideólogo realizaria a seu modo, de decodificar pensamentos filosóficos diante de uma geografia humana dada e conforme um tempo histórico definido. Homenageemos, portanto, no Mestre Gilberto Freyre o que nele é substantivo, sem nos perdermos na conjuntura daquilo que em cada homem é adverbial. Ele pertence à estirpe dos Huxley - Adous Huxley e Julian Huxley - e dos Arnold Tonynbee, cavalheiros com os quais conviveu o que com ele conviveram segundo intercâmbio mutuamente enriquecedor de inteligências privilegiadas. Se estacarmos diante dos momentos acidentalmente ideológicos do Sr. Gilberto Freyre, estaremos sacrificando a alternativa maior de aprendermos, com o Mestre dos nossos sociólogos e Mestre de todos nós, as nunca desnecessárias lições de Brasil e de Mundo.

Quando eu organizava minhas idéias para concluir esta tentativa de saudação, li o depoimento de respeitado cientista brasileiro. Por partir de quem partiu, o por ser, o depoimento, o depoimento que é, senti-me na obrigação de substituir as minhas pelas palavras desse Cientista - o Sr. Darcy Ribeiro. Diz ele (Prólogo de "Casa Grande & Senzala" editado na Venezuela, cf. Jornal do brasil, 8 out. 1977):

"Casa Grande & Senzala nos ensinou muitas coisas que precisamos começar a enumerar. Ensinou-nos principalmente a nos reconciliarmos com a nossa ascendência lusitana e negra, de que todos nos envergonhávamos um pouco" (. . . ).

"Creio que poderíamos prescindir - diz ele ainda - de qualquer de nossos ensaios e romances, mesmo que fosse o melhor que tivéssemos escrito. Mas não passaríamos sem Casa Grande & Senzala sem sermos diferentes. Em certa medida, Gilberto Freyre fundou o Brasil no plano cultural tal como Cervantes o fez com a Espanha, Camões com Portugal, Tolstoi com a Rússia, Sartre com a França" (. . .).

Ainda Darcy Ribeiro:

"Gilberto Freyre escreveu, sem dúvida, a obra mais importante da cultura brasileira. Efetivamente, Casa Grande & Senzala é o maior dos livros brasileiro e o mais brasileiro dos livros que já foram escritos" (. . .).

Mestre Gilberto Freyre: o Ceará recebe Vossa Excelência de braços abertos.



PALAVRAS AOS JOVENS DO CEARÁ
Gilberto Freyre

O Nordeste visto através do tempo tríbio

Não cortejo jovens. Não adulo estudantes. Mas me alegro, e muito, quando afinidades de pensar e de sentir espontânea e desinteressadamente nos aproximam, como neste, para mim, inesquecível momento.

Recebi a intimação, para hoje estar aqui, de dez mil estudantes cearenses. Dez mil assinaturas em cadernos que recebi, feliz e comovido, das mãos amigas de Paulo Peroba, meu jovem, e tão cearense, colega. Apoiando-os, o então Secretário de Cultura do Estado do Ceará, o Professor Ernando Uchoa Lima, ao convocar-me para o Simpósio sobre o Nordeste que ora se realiza em Fortaleza. A uns e outros, meus agradecimentos. A eles devo a alegria desta volta ao Ceará.

Quem vem ao Ceará vem a uma espécie de Alencarlândia. Verdes mares bravios e doces verdes de cajueiros. Aqui é a terra do velho Alencar. Do sempre jovem Alencar. Do já clássico Alencar. Do sempre romântico Alencar. De um Alencar tão bacharel de Olinda-Recife e, ao mesmo tempo, tão próximo da gente mais antibacharelescamente brasileira; sobretudo, tão povo; tão telúrico; tão sensível ao encanto das Iracemas de pés-no-chão quanto das Sinhazinhas. Sobretudo porque, de que vale a um homem ser bacharel, ser doutor, ser acadêmico, ser letrado, sem ser povo, sem ser da sua gente, sem ser da sua terra, sem ouvidos para a língua falada por essa gente, adoçada por ela, recriada por ela antes de se tornar, primeiro com Alencar, depois com outros Alencares, língua literária. Uma língua literária, e assim alencarizada, que vindo do meado do século passado, seria reavivada meio século depois por Euclydes da Cunha e um século depois por escritores atuais, entre eles, José Lins do Rego e Guimarães Rosa.

Não devo, nem ouso, considerar, a meu modo, as perspectivas sócio-econômicas do Nordeste de hoje - o tema que me foi dado -, senão dentro daquela concepção de tempo - o tríbio - que é, nas Ciências do Homem, um brasileirismo, aplicável tanto ao estudo das artes quanto ao da economia ou ao da política. Concepção segundo a qual o tempo é, não só simultaneamente - como já pensava Santo Agostinho - ou coexistentemente, paralelamente, passado, presente e futuro, mas interpenetrativamente - outra dinâmica a esta recíproca, além de simultânea - desses três tempos.

O Nordeste, tendo sido uma antecipação, no tempo, do Brasil mais arrojadamente, mais criativamente, mais germinalmente brasileiro, a certa altura, deixou-se ultrapassar de tal modo, em ritmos de progresso sócio-econômico, por outros Brasis, que passou de pioneiramente ativo - com o pau-brasil, com o açúcar, com o cacau - se não a passivo, a lento, no seu desenvolver-se. Daí seus arcaismos - nem todos eles, aliás, culturalmente desprezíveis, alguns até valiosos, segundo aquela perspectiva de pensadores modernos, conforme a qual o bem-estar humano não é todo constituído por progressos rápidos e avassaladores: também por resistências a tais progressos de uma quase inércia. Inércia que resguardaria, aperfeiçoaria, subutilizaria, ate, valores mantidos quase em estado sociologicamente de graça por uma sociedade ou por um grupo humano.

Chegado o homem civilizado, como já começou a chegar, a um tal adiantamento de automação, pelo progresso tecnológico, que essa automação lhe estaria aumentando sensacionalmente, crescentemente, o tempo-lazer e lhe diminuindo, em igual ritmo, o tempo-trabalho, e, com ele, o tempo-dinheiro, teria principiado a verificar-se paradoxalmente, nas áreas mais automatizadas, mais tecnologicamente adiantadas, mais sócio-economicamente avançadas, do mundo moderno, ao lado de crescente insatisfação, da parte de não pouca gente, com seus progressos dessa espécie, crescente busca de valores de outra qualidade. Valores antes permanentes que de todo condicionados por ritmos de progresso. Daí a atual revalorização de tradições, de ócios, de lentidões, de artes criativamente manuais de preferência a primores mecânicos, com as Novas Iorques refugiando-se em Havaís, com São Paulo - no Brasil - buscando compensações nos Nordestes: na admiração pelas igrejas barrocas, tão belas nesta parte do nosso País que o inglês Sachaverel Sitwel, autoridade máxima no assunto, situa-as entre as mais preciosas de todo o mundo barroco meridional; na apreciação não só de uma culinária, que os Brasis mais progressistas não possuem tão sofisticada, como de artes como a da renda, a da rede, a da cerâmica, a da talha, a dos cantadores, a da música popular, a da palha, orgulhos de cultura regional tão exaltados por ianques como John Dos Passos, através de um enlevo, tão dele, por perícias, bravuras, ternuras de gentes nordestinas, como os jangadeiros de verdes mares bravios, os sertanejos, os matutos, as caboclas, as morenas de vários graus de morenidade; e também no reconhecimento por outros observadores, de vir o Nordeste dando ao Brasil, mais do que retendo, algumas das maiores inteligências, dos mais criadores talentos, dos ânimos mais dinâmicos, dentre os que vêm concorrendo para a grandeza do todo nacional em artes, letras, saberes, indústrias, ciências.

Essa evidente imagem do Nordeste dos nossos dias, com sobrevivências características resistindo a progressos descaracterizadores, que envolvam interpenetração de tempos, permite-nos ir até uma tentativa ou uma aventura futurológica: a de procurarmos ver um Nordeste ainda por definir-se como nova realidade sócio-econômica através de sua transição daqueles seus valores como que romanticamente ainda pré-industriais para os, em algumas de suas subáreas mais precipitadamente progressistas, já urbano-industriais.

Será que o Nordeste deve - aqui o problema que se propõe é ético e não apenas sociológico ou somente sócio-econômico - renunciar a todos seus valores básicos, em face de outros Brasis, valores já arcaicos, em face de progressos a todo pano, para substituí-los maciçamente, pelos modernizantes? Será que, admitida tal opção, ela por si só seria um equilíbrio entre extremos: a conservação de valores já característicos da região e a adoção de outros, permanecendo o Nordeste numa decisiva fidelidade á sua ecologia, à sua formação étnico-cultural, às suas constantes psico-culturais? Por conseguinte, um Brasil diferente, em seus característicos regionais sem prejuízo do que nele é vocação nacional, de outros Brasis, talvez menos marcados por uma madrugadora, germinal e constante identificação, com uma ecologia teluricamente tropical? Um Nordeste que pode paulistanizar-se numas cousas sem deixar de noutras ser Nordeste, como vem fazendo a Espanha ao juntar suas Barcelonas a suas quase intocáveis Sevilhas e Granadas.

A conciliação é possível. Que o digam, além das Espanhas, as Inglaterras, as Escócias, as próprias Suíças, com suas Lucernas, as Itálias com suas Sicílias, as Grécias com suas ilhas no meio de mares azuis e de ilhéus que bebem os mesmos vinhos, comem o mesmo pão e as mesmas azeitonas dos dias clássicos, as Bélgicas com suas Bruses, fazendo as mesmas rendas de sempre. Curioso é que para a preservação de tais valores, turistas inteligentes vindos de Nova Iorque e enjoados de ianquices - colaborem com nativos telúricos igualmente inteligentes: são sensíveis, uns e outros às mesmas sugestões.

O tempo concebido como tríbio - concepção brasileira - nos faz ver nos brasileiros de hoje mais tipicamente nordestino na sua morenidade - uma morenidade por vezes com fortes salpicos nórdicos e louros a essa predominância de pigmentação, mas no sorrir, no falar, no andar tão da região, esses albinos, quanto os morenos - a constância de um tipo já matarracial de homem - e sobretudo de mulher - a projetar-se, com atributos estéticos, além de eugênicos, sobre o futuro, numa afirmação plurissecular de não ser o trópico devastador nem de eugenia nem da estética da figura humana. Desse homem muito se disse, ou se supôs, a certa altura da vida brasileira, que, crescentemente miscigenado ou cruzado, nos seus sangues e degradado pela permanência no trópico, além de precário no seu presente e de origem mais para ser antes lamentada que reconhecida como honrosa, era inferior ao de todo branco ou ao de todo caucásico. Biologicamente inferior e de um passado social que muitos contrastavam com o dos predominantemente ruivos e alvos puritanos, fundadores da República dos Estados Unidos. O consolo estaria - foi tese defendida pelo aliás insigne Oliveira Viana, autor de As Populações Meridionais do Brasil - numa crescente arianização da gente brasileira. Arianização que custaria a envolver um Nordeste quase colônia, dentro dessa profecia arianista, de Centro-Sul então ainda a receber, junto com o Sul do País, constantes levas de italianos, de alemães, de poloneses, de húngaros. Enquanto o Nordeste permanecia, para os arianistas, quase que só caboclo, só negróide, só mestiço, com seus muito menos numerosos arianos definhando sob um sol supostamente inimigo não só de europeus como de suas igresias, isto é, daqueles modernismos tecnológicos associados então de modo quase absoluto a nórdicos ou a anglo-saxões.

Engano de tais profetas. Ao contrário do que previa Oliveira Viana, o Brasil não vem se definindo como crescentemente "ariano" ou "branco" e sim, nas predominâncias do seu tipo nacional, como crescentemente moreno em vários graus de morenidade. O próprio nordestino, estancada a imigração européia para o Centro-Sul do País, vem comunicando às populações meridionais sua morenidade abrasileirante. Inclusive a que se exprime em belezas de mulher.

Já não vigora entre nós um Progresso concebido apenas em termos econômicos e tecnológicos, e estes, os desenvolvidos principalmente por nórdicos da Europa e dos Estados Unidos, que arianistas e descrentes da ecologia tropical como susceptível de receber tal Progresso com P maiúsculo, consideravam, no Brasil, possível somente no Sul e no Centro-Sul do País. E isto - segundo tais descrentes com relação quer a mestiços quer a trópicos, graças à presença nesses Brasis, de neo-europeus de outras origens que não as ibéricas, e estes sem sangues dos considerados inferiores e aos microclimas, quase não-tropicais, do País.

Sobre essa época brasileira de descrença em valores dentre os mais nossos, acaba de pronunciar-se o ex-Ministro Severo Gomes, ao recolher, no seu Tempo de mudar, conferências e discursos proferidos no começo da década atual, conferências e discursos de homem público. Que disse ele em conferência pronunciada no Centro XI de Agosto da Faculdade de Direito de São Paulo em outubro de 1976? Que o Brasil republicano sofreu por largo tempo, de um "entorpecente fatalismo" que classifica como "colonial, tropical, racial e subdesenvolvimentista" que "permeabilizava amplas camadas da sociedade brasileira". E como exemplo dessa atitude mórbida destaca este pronunciamento do economista Joaquim Murtinho, famoso Ministro da Fazenda do Presidente da República, o paulista Campos Sales: "não podemos tomar os Estados Unidos da América como tipo por não termos as aptidões superiores de sua raça, força que representa o papel principal no seu progresso industrial".

Note-se a expressão "fatalismo. . .racial", além de "tropical". Era o brasileiro a sentir-se incapaz de progresso tecnológico, industrial, econômico, do tipo do ianque, pelo fato - pode-se sociologicamente caracterizar - de estar situado em espaço tropical e de ser de raça inferior à dos anglo-saxões. O trópico e a raça considerados vilões.

Entretanto, quem recuasse nos séculos - a concepção de tempo tríbio que nos facilite tal mobilidade - se depararia com o Nordeste do Brasil desmentindo já esses dois mitos. Primeiro, pelo fato de vir, desde o século XVI, construindo, além de uma economia, uma civilização, que despertaria, no mesmo século e no seguinte, cobiças de europeus nórdicos que tentariam incorporá-las a seus impérios. Segundo, por ter a gente ela própria, já quando biologicamente tríbia do Nordeste - a branca, ameríndia, negra - demonstrado ser gente, além de vigorosa, consciente de sua pré-brasileiridade, pela maneira por que, repeliu franceses e holandeses. Pelo modo por que escreveu a sangue, nas batalhas dos Montes Guararapes, o endereço certo do Brasil: uma nação só e não duas ou três. Uma nação e não outra e imensa Java com uma minoria de nórdicos cominando do alto, explorando do alto, maltratando do alto, multidões de gentes tropicalmente morenas. Colonialismo do pior em vez de colonização logo seguida - no Brasil - de autocolonização da melhor: a realizada pelos próprios nativos, como de certa altura em diante a brasileira.

Que tem sido o brasileiro do Nordeste, visto sob a perspectiva do tempo tríbio, senão, tanto quanto o Bandeirante paulista e, na verdade, mais continuamente que o Bandeirante, um autocolonizador do Brasil e, desenvolvendo ao máximo, nesta parte americana do mundo, uma vocação ibérica, particularmente portuguesa, criadora, principalmente no Brasil, de uma metarraça? E com essas metarraças - uma além - raça à revelia de origens e identidades raciais - criaram-se bases de uma civilização que aqui, talvez mais do que noutras regiões do brasil, vem adquirindo característicos teluricamente, ecologicamente, inovadoramente, além de eurotropicais, nacionalmente brasileiros. Dentro dessa civilização, artes, letras, usos, técnicas, ciências, relações de gentes com paisagens, com águas, matas, vegetais, animais, com iguais característicos: igual criatividade e igual originalidade. Igual ecologicidade. Iniciativas várias encontrando-se, diversamente animadas do mesmo ânimo panbrasileiro de criar, de construir, de desenvolver economias, formas de convivência, expressões de cultura, sem passiva dependência daquele panestatismo - o termo é de ilustre mestre paulista - tão perigosamente vizinho do extremo totalitário, quando se dispõe a dirigir o que numa cultura intelectual ou artística é criação, pesquisa, experimentação. Dirigismo tão repelido pelo atual e esclarecido ministro da Cultura: Senador Ney Braga.

Nordestino típico, o cearense tornou-se célebre como o brasileiro por excelência transregional. Muito da sua região e, ao mesmo tempo, dinamicamente presente noutras regiões como autocolonizador do Brasil. Presente na Amazônia. Presente no Acre. Presente na construção de Brasília. Transmissor a Brasis ainda rústicos ou a neobrasileiros ainda adventícios, de costumes, tradições, lendas, linguajar e, também, de sangue, quase sempre miscigenado, por ele levado a extremos do País. Levado a esses extremos do que o Brasil, como Nordeste, tem de mais brasileiro: de mais castiçamente brasileiro. De mais constantemente brasileiro. De mais tribiamente brasileiro como conjuntos de tempos vividos, sofridos, experimentados, abrasileirados por brasileiros de ânimo criador. São aspectos esses, positivos da formação social brasileira.

Sem um cearense assim dinamicamente transregional, assim transregionalmente abrasileirante, não se compreende a formação brasileira como um complexo ao mesmo tempo que inter-regional, panacional. Panbrasileiro. Não se compreende o Brasil todo ele, hoje, aqui mais, ali menos, da rede, da mandioca, do charque algumas vezes chamado carne do Ceará. Do caju. O Brasil daquele cristianismo lírico, daquele Catolicismo festivo, daquela religião de gentes confraternizando com seus santos, de promessas, de procissões, de santas missões que se afirma hoje - com a crise da Igreja Católica - religião brasileiramente Católica quase sem precisar nem de arcebispos nem de bispos, nem de padres nem de frades: pela pura identificação dos apenas crentes, ou simplesmente da gente-povo, com Cristo, com Virgem Maria, com os Santos como Antônio, Pedro, João: com esses seus como que compadres ou como que padrinhos à moda brasileiramente nordestina.

Como compreender-se o Brasil, desde a sua madrugada como pré-nação, sem a presença, nesses mais de quatrocentos anos de formação brasileira, não só do cearense como do baiano, do pernambucano, do maranhense, do alagoano, do paraibano, do sergipano, do rio-grandense-do-norte, do piauiense?

Que o diga o folclore ao lado da história escrita. O folclore brasileiro cheio de nordestinidades: desde o "Bahia é boa terra" até o "meu boi morreu lá no Piauí".

Enquanto a história do Brasil ficaria pobre se lhe faltassem as próprias revoluções fracassadas no Nordeste como a de 17 e a Confederação do Equador: as revoluções fracassadas - o caso da própria Inconfidência Mineira apenas mineira - valendo às vezes mais, para o tempo tríbio de um povo, que as triunfantes. Ficaria pobre o Brasil se lhe faltassem, além de uma gente do povo como vem sendo a sua, seus grandes homens. Se lhe faltassem elites pela inteligência e pelo saber.

Elites dessa espécie vindas de todas as origens étnicas e sociais. Homens assim superiores pela inteligência ou pelo saber, de várias épocas. De vários tempos. De vários talentos. Criações, as suas, em vários setores. Mas, através do tempo tríbio, o que se sente em tão várias criações e em tantas outras de origem nordestina - políticas, econômicas, filosóficas, sociológicas, literárias, artísticas - é a constância, até agora, da criatividade nordestina dando-se entregando-se, abandonando-se ao Brasil. Deixando nordestinos o Nordeste, não para se desnortizarem mas, por vezes, para continuarem mais intensamente nordestinos em atividades mais amplamente brasileiras ou abrasileirantes em outras regiões.

É certo que, visto através do tempo tríbio, o Nordeste tem tido épocas de maior ou menor esplendor no conjunto brasileiro sem que, nas de menor esplendor, lhe tenha faltado criatividade, e nas de esplendor, nuns setores, colapsos. O tempo histórico se processa através de compensações de fracassos com triunfos. O tempo tríbio reúne contrastes para nos apresentar, através deles, constantes ou predominâncias características. São essas constantes que nos permitem senão afirmar, sugerir, do Nordeste, que sua presença no conjunto brasileiro tende a se fazer sentir num futuro a que não faltará nem o que é, convencionalmente, presente, nem o que foi, convencionalmente, passado. Passado marcado pela sua criatividade já projetada nos dias seguintes. Criatividade em vários setores de sua vida e de sua cultura: nuns mais do que noutros. Criatividade que poderá ser mais a intelectualmente literária, por exemplo, do que no setor da economia pós-industrial. Mas quem sabe se não está para surgir, num dos Nordestes, novo e mais arrojado Delmiro Gouveia: pan-nordestino nascido no Ceará, formado em Pernambuco, realizado em Alagoas?

Não devo nem pretendo tornar-me, a respeito do Nordeste, retoricamente apologético. Mas é tempo de, a propósito de uma região de ecologia tropicalíssima e de gente - um terço da população brasileira - miscigenadíssima, da Bahia ao Maranhão, confrontar-se objetivamente o que nesta região - na sua ecologia e na sua condição, além de humana, cultural - é negativo, difícil de ser vencido por esforço construtivo, hostil e empreendimentos de valorização de gentes e terras, com o que nela já é positivo; já é harmonia de vida de gente predominantemente civilizada com natureza tropical; e já constitui vitória de gente assim predominantemente civilizada, de população, além de grandemente miscigenada e metarracial - tanto que, no Brasil, o Governo já não pergunta ao brasileiro, para fins estatísticos, qual a sua raça - criativamente eurotropical. E não anti-europeamente tropical. Nem isto nem passivamente subeuropéia.

Metarracial porque o brasileiro já se define em tipo nacional à revelia de origens ou característicos raciais. E sim pelo seu modo de ser nacionalmente brasileiro. Pelo seu andar, pelo seu sorrir, pelo seu modo de amar, pelo seu estilo de comer, pelo uso do seu lazer - esse lazer que é agora problema tão pungente para o homem civilizado. A propósito do que diga-se que aos construtores de Brasília faltou o sentido da importância do tempo desocupado para seus futuros moradores. Tanto que quase não lhe destinaram espaços: espaços para concertos, comícios, reuniões cívicas ou religiosas, recreações.

O Brasil todo é um desmentido ao mito da incompatibilidade de formas superiores de civilização com trópico ou com os trópicos, desde que o trópico é sempre plural: pode ser úmido, seco, anfíbio. Um desmentido também ao mito de as gentes miscigenadas serem incapazes dessas formas superiores de vivência. Mas em nenhuma região brasileira esse desmentido se vem processando há mais tempo, mas em profundidade e mais abrangentemente, quanto às várias espécies de trópico, do que no Nordeste. O próprio e já referido tipo antropológico mais expressivo, de brasileiro do Nordeste que o diga, pelo que nele é eurotropical.

Agora que emerge do Brasil uma Tropicologia, ao mesmo tempo que científica nas suas bases, humanística, assinale-se do Nordeste que é, não só com relação ao todo nacional brasileiro, mas com relação ao mundo tropical inteiro, um laboratório ideal para observações tropicológicas. Aliás dá-me especial prazer o fato de que um dos mais lúcios e jovens intérpretes dessa ciência em formação, mais no Brasil que em qualquer outro país, é um binordestino, filho de mãe cearense e pai pernambucano: o jovem sociólogo Professor da Universidade Federal de Pernambuco, Roberto Mota.

Observa ele, em ensaio recentemente aparecido sobre "Tropicologia, História, Desenvolvimento", que essa ciência em processo de formação, com tão forte e criativa presença brasileira nesse processo, "logo de início significa rompimento. . . com todos os esquemas pseudo-históricos ou historicistas. . ."Isto porque seria a primeira rejeição sistemática, de ordem científico-humanística, à conexão entre historicismo e racismo. Mais: a primeira implicação antropológica "a libertar o homem do confinamento em apenas um dos modos de sua realização no tempo e no espaço: que seria a estritamente européia ou paraeuropéia".

Salienta-se que, baseado na concepção brasileira de tropicologia, é que o Professor Roger Bastide, da Sorbonne, teria, segundo o Professor Roberto Mota, reconhecido a identificação do eurotropical - sobretudo a do lusotropical no Brasil - com animais, plantas, ervas e raízes tropicais: vestindo-se com algodão em lugar de lã, dormindo em redes, iniciando-se no amor por mulher de cor e absorvendo da gente tropical aquela "alma politeísta" que se fez advinhar no que Catolicismo, entre nós, vem tendo de menos hieraticamente ortodoxo e de mais poético, mais lírico, mais brasileiro, mais nordestino, nos cultos de santos multiplamente protetores de homens: nos amores; contra as doenças; contra as tempestades; nos negócios; nas lavouras; na própria política; a favor de uma boa saúde e até de uma boa morte. Também a favor de bons sucessos naquelas emigrações ou evasões que têm levado o brasileiro do Nordeste, por vezes sob o aspecto do chamado "pau-de-arara", a tão diversos outros Brasis.

Como anota o estatístico Fernando Gonçalves - por algum tempo do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e agora da Universidade Federal de Pernambuco - o Nordeste tem visto a evasão de alguns dos seus melhores elementos - pela idade, pela iniciativa, pelo espírito de empresa e como mão-de-obra qualificada - para esses outros Brasis, através dessas migrações, nordestinados, com sacrifício biossocial da região exportadora de homens tão válidos, não só como força de trabalho, como sob o aspecto de brasileiros em profundidade, do ponto de vista psicocultural. Exportador também, o Nordeste tem sido, para as duas sucessivas capitais do Brasil, desde a Independência, daqueles grandes homens, daquelas altas competências daquelas superiores bravuras que, emigrando, se têm empobrecido a região, por outro lado, têm enriquecido a nação. Dos governos centrais, das capitais do País, pode-se sugerir que o Nordeste lhes tem dado mais do que recebido.

Daí não faltar fundamento para os clamores do recém-fundado, no Recife, Centro de Estudos do Nordeste, a favor de maior apoio federal a instituições e indivíduos empenhados em esforços culturais em uma região tão criativamente presente na cultura nacional; tão cheia de arrojos quixotescos - um deles o de Delmiro Gouveia na Paulo Afonso - no campo de um neocapitalismo mais empreendedor e de empesários mais solidários com seus sócios, os trabalhadores; tão repleta de valores históricos que interessam, à memória nacional; tão rica de artes coloniais, de artes eruditas, de artes populares e de artistas modernos, todos dignos da atenção e dos auxílios e estímulos de Brasília; tão cheia de meninos de famílias numerosas e de baixa renda - alguns deles provavelmente supradotados - mais do que merecedores de amparos governamentais de Brasília. Pois ao Nordeste do Brasil, não tendo faltado nunca inteligências superiores, é de presumir que estejam várias delas, além das já evidentes, a espera de ser descobertas, estimuladas, valorizadas, atualizadas, aproveitadas por uma nação que não consta padecer do excesso de tais nobres recursos humanos. Precisa deles. Precisa de buscá-los. De resgatá-los de suas pobrezas. De retirá-los de sombras para proveito do todo brasileiro e do seu desenvolvimento integral.

Acabo de estar em Cuiabá em contacto, que não esquecerei, com a mocidade e com a inteligência de Mato Grosso: o mato Grosso do grande Rondon, campeão de uma política de lenta assimilação de indígenas à comunhão brasileira. Extraordinário Brasil este, bem nosso, nossíssimo, cada dia mais nosso, que sendo tão plural e tão uno. Ainda com selvagens e já com Academias de Letras requintadas e ilustres. Um Brasil tão de ontem, tão de hoje e tão de amanhã, também eles, tempos, a formarem, sendo três, um tempo só e uno para corresponderem à constante formação brasileira. Tão brasileiro no Nordeste como no Centro e nos extremos Norte e Sul. Tempos e espaços unindo-se para que a unidade brasileira continue a se juntar à sua diversidade e ambas a concorrerem para ser esta nossa nação - para ser cada vez mais - magnificamente criativa, além de autêntica. Ela mesma - como a potência emergente da caracterização de Henry Kissinger - e não cópia de qualquer outra nação. Nem na sua economia, nem nas suas artes nem nas suas letras, nem nos seus modos de estudar-se a si mesma nem dos de planejar seus próprios futuros, nem na sua política. Dentro de sua política: nos modos de desenvolver-se na sua maior democratização: matéria em que o Brasil não precisa, com sua tradição democrática vinda da sua brasileiríssima "democracia coroada", de conselhos nem de Le Monde nem do New York Times.

Contemporaneidade de "Casa-grande & senzala"

O tema sobre o qual vou procurar discorrer hoje, neste tão oportuno 2º. Seminário do Nordeste - "Contemporaneidade de Casa Grande & Senzala" - não o escolhi: é proposto ao autor do livro pela lúcida e generosa inteligência cearense. É um tema que me leva a considerar, mais uma vez, sob novo aspecto, um livro de minha autoria, escrito quando ainda jovem. Livro do qual já sugeri que vem fazendo do autor uma espécie de marido de professora: do tipo daquelas professoras clássicas, de uma das quais, tão mais conhecidas que os maridos, o insigne Monteiro Lobato, fez inesquecível retrato. O retrato de um marido que vivia à sombra da figura da mulher importante, prestigiosa, atuante: ele insignificante e inexpressivo. Desconhecido e ignorado.

Têm chegado ao meu conhecimento casos de pessoas de todo desconhecedores do meu nome. Mas quando se esclarece "o autor de Casa-Grande & Senzala" passam a identificar-me: "Ah, sim!" O livro conhecido: conhecidíssimo, até. O autor só reconhecido por causa do livro

Que é ser autor de um livro de muito maior renome que o indivíduo que o escreveu? Não resultará desse fato algum ciúme do criador com relação à criatura? Certo ressentimento? Certo complexo de inferioridade merecedor de análise psicológica e, talvez, psicoanalítica? A coisa escrita maior que o escritor que a escreveu suando, sofrendo, esforçando-se?

Ou será motivo de alegria para um criador tornar-se de tal modo parte de sua criação, dissolver-se de tal maneira nessa criatura amada, que ela adquira aspecto materno e ele o de filho filialmente agarrado à saia da mãe como que necessitado dessa proteção para ser notado e até para sobreviver e, de certo modo, feliz de ser assim protegido?

A psicologia da interrelação autor/livro é subtilmente interessante: merece que sobre ela se escreva todo um livro germanicamente erudito e britanicamente tocado de senso de humor. Pois é possível acontecer de livros bem acolhidos pela crítica e bem recebidos pelo público influirem, de certa altura em diante, sobre os autores e até os reformarem à sua imagem? se não tanto: concorrerem para, em livros posteriores, conservarem-se os autores fiéis à imagem criada ou refletida sobre eles, pelo primeiro livro, quando com ele se identifique, contente da solidariedade de públicos prestigiosos com essa tão sua criação?

Sucede, em tais casos, autor e livro, criador e criatura, caminharem juntos pelo tempo a fora, a imagem do livro a projetar-se sobre o autor, depois do ânimo criativo do autor ter-se projetado sobre o livro. Sucessiva reciprocidade de influências. Reciprocidade de projeções e imagens, a do autor sobre o livro, a do livro sobre o autor.

Pode, entretanto, ocorrer desvio dessa reciprocidade. Pode um autor, com o tempo, sentir-se atual, moderno, cada vez mais vivo, e o livro, arcaico ou obsoleto ou superado. Verifica-se, então, um drama: morto o livro, sobrevivente o autor. O autor capaz de novas criações. O livro, peça de museu. Curiosidade, Relíquia.

Graça Aranha, ao tornar-se modernista um tanto sectário, talvez tenha se sentido atual ao lado de um Canaan - o livro que lhe deu renome - para ele, arcaico, incomodamente arcaico. O mesmo terá ocorrido com Jorge de Lima, ao tornar-se, também ele, modernista, ao lado do seu livro de sonetos: um dos quais "O Acendedor de Lampeões", que lhe dera fama e criara para ele, perante o público, uma imagem de triunfador, por ele, modernista repudiada.

Casos dessa ordem ocorrem e têm ocorrido. São dramáticos. O divórcio entre um autor e um livro consagrador é o que é: dramático. O autor sobrevivendo a um livro que o notabilizou. Que o consagrou. Que pode até o ter enriquecido.

Daí serem autores bemaventurados os que caminham pelo tempo identificados com os livros de mocidade que os consagraram; que criaram dele imagens marcantes; e que persistem livros atuais: de uma persistente contemporaneidade. De uma constante atualidade. Por vezes, mais vivos que os autores.

Há quase meio século e com sucessivas edições noutras línguas além da portuguesa, o livro intitulado Casa-Grande & Senzala é um livro que subsiste. Se essas edições vêm se sucedendo e se críticos, dentro e fora do Brasil, as vêm acolhendo e comentando, como ainda há pouco um crítico de Le Monde, de Paris, e outro, perspicaz e erudito, de língua espanhola, o uruguaio Angel Rama, a propósito de nova edição nessa língua, com uma notável introdução do marxista brasileiro Darcy Ribeiro, é que, segundo parece, ao livro Casa Grande & Senzala, não falta contemporaneidade. Ou atualidade. Mais: talvez não lhe tenham audácias de antecipação confirmadas por estudos posteriores, quer brasileiros, quer outros estudos do próprio autor, quer de autores mais jovens e até de outros países, como Roger Bastide, na França, e Eugene Genovese, nos Estados Unidos. Ou como, na Suíça, o Professor Richers, em recém-aparecido estudo, eminentemente situacional - critério tão de Casa-Grande de Senzala: estudo esse publicado na Suíça, cuja perspectiva sociológica de situações econômicas brasileiras nada difere da do livro brasileiro.

Que é que sustenta esse contemporaníssimo autor em livro publicado na Europa? Isto: que "não faz sentido que a teoria do desenvolvimento em países menos desenvolvidos como os da América Latina seja uma transposição mecânica de teorias muito bem organizadas, mas cujas premissas deixam de ser testadas quando as condições são diversas daquelas que lhe serviram de base". . . "tornando falsas as premissas que ignoram fatores econômicos". O sociólogo-economista Richers se coloca ao lado daquela perspectiva interdisciplinar inaugurada em qualquer parte do mundo por Casa Grande & Senzala e de que o Brasil vem sendo reconhecido na Europa e nos Estados Unidos como pioneiro. Perspectiva segundo a qual os fatores, quer econômicos, quer sociológicos, psicológicos ou abrangentemente culturais, históricos e ecológicos, que afetam o desenvolvimento nos países menos desenvolvidos, precisam de ser considerados em suas interrelações, sem que se ignorem as atitudes e os valores que prevalecem nas sociedades em processo de modernização. Ou nas suas formações projetadas sobre suas atualidades.

Se é certo que, segundo Richers, "talvez tenha chegado a nossa vez do Brasil, de dar uma contribuição à cultura mundial", essa contribuição possivelmente já está sendo reconhecida por europeus e americanos. Se o Professor Richers se proclama influenciado pelo argentino Gino Germani, recorde-se de Germani ter sido enfático em reconhecer antecipações brasileiras em assuntos de orientação sociológica ou antropossocial. Isto a propósito do livro de autor brasileiro Sociologia no qual se expõe ou se justifica a sistemática inaugurada pelo mesmo autor em Casa-Grande & Senzala.

A perspectiva de um homem situado no trópico, junto com a do homem coexistente em três tempos, vem sendo uma das persistentes inovações lançadas por Casa-Grande & Senzala, Roger Bastide e Georges Balandier não tardaram em considerar entre os "novos caminhos", segundo a Sorbonne, abertos pelo livro brasileiro, uma como "sociologia do tempo" (Bastide), e uma "sociologia do cotidiano" (Balandier). Sociologia do cotidiano também caracterizada pelo empenho, tão de Casa-Grande & Senzala, em penetrar não só no que os Goncourt chamavam "história íntima. . . esse romance verdadeiro" mas, ora objetiva, ora empaticamente, em recorrências nos tempos. Tais recorrências exemplificariam a aplicação em Casa Grande & Senzala - já há mais de 40 anos - do conceito brasileiro de tempo tríbio. E explicariam porque de um Roger Bastide, na Europa, e de um Frank Tannenbaum, nos Estados Unidos, partiu a idéia de ter aquele livro criado uma análise e uma interpretação, no seu aspecto sociológico-histórico, proustianas. Isto é, minossociológicas.

A tendência para se considerarem recorrências cotidianamente sociais num tempo tríbio - recorrência em vez de eventos raros e grandiosos - se encontra em ensaios do autor de Casa-Grande & Senzala, aparecidos no Brasil desde 1925; e precedidos de ensaio em língua inglesa publicado em 1922 nos Estados Unidos, quando o futuro autor de Casa-Grande & Senzala ainda nos seus vinte anos e ainda estudante.

Não só essa tendência geral: também a mais especificamente genética ou histórica, no seu modo de ser situacional ou ecológica. Tendência, depois de Casa-Grande & Senzala visível em não poucos livros brasileiros. Co o que não se pretende sugerir influência de Casa-Grande & Senzala sobre esses livros: somente constatar sua atualidade em face de livros posteriores.

Mas como considerar-se Casa-Grande & Senzala contemporâneo - perguntará um crítico mais indagador - se o assunto do livro é tão inatual? Se o assunto do livro é tão remotamente de outrora? Se não existem nem casas-grandes nem senzalas integradas em tempos sociais que, no Brasil e um tato noutros países - acabo de verificar, em contacto com a Venezuela, que Simón Bolivar nasceu em autêntica casa-grande patriarcal, foi criado por bá negra, que nem, no Brasil, Joaquim Nabuco, cresceu sinhozinho de casa-grande até tornar-se libertador de nações e não apenas de escravos - são tempos desatualizados pela emergência de novas instituições, novos estilos de convivência humana, novos motivos de vida tanto pessoal como coletiva?

A indagação nos põe diante de tema aliciante: o de haver formas de vida que sobrevivem a substância. As substâncias adquirem outras formas sociais. As formas sociais sobrevivem encarnadas noutras substâncias. Se as casas-grandes desapareceram, como expressões de poder patriarcal, da paisagem brasileira, o fato é que, no Brasil, como noutros países, subsistem formas senhoris - não-senhoris de convivência: sublimações do antagonismo senhores e escravos considerados por Aristóteles indestrutível nos homens. Ou próprio da natureza humana. Há, decerto, instituições que não sendo arquitetonicamente casas-grandes patriarcais são semelhantemente expressões de poder e este pospatriarcal: os palácios de governo nacional, estadual, municipal, de onde presidentes, governadores, prefeitos, exercem seus poderes; os palácios de bispos e de arcebispos; os palácios de assembléias e câmaras legislativas que são outros tantos órgãos de poder e de governo. Os palácios de justiça. As sedes de academias e de institutos de saber, de arte, de ciência. Casas-grandes em que se dissolveram e, ao mesmo tempo, se sublimaram, se ampliaram, sem, alguns deles, terem se despatriarcalizado de todo, sedes de poder, outrora patriarcal, isto sem terem deixado de ser nem senhoris nem dominadoras: o domínio através de altas formas de influência. Poderes susceptíveis de cometerem abusos no exercício de suas funções. Guardando, algumas delas, dos predecessores, o toque patriarcal: com suas Majestadas os Presidentes da República - como os chamou, no Brasil, arguto observador inglês, sendo conhecido como "Papás Grandes", "Pais dos Pobres", "Tios Pitas". Mas sem que se deixe de admitir sua capacidade para, no exercício desses poderes sublimados, públicos, serem benéficos ao todo social como, em suas mais restritas áreas de domínio privado, foram, alguns dos patriarcas de engenhos de açúcar, de fazendas de café, de fazendas de criar, de estâncias, de alto dos alpendres de suas casas-grandes.

Observe-se que biotipologicamente os homens se apresentam aptos a governar ou dirigir ou ser senhores, em contraste com os mais felizes sendo governados ou dirigidos ou guiados do que governando, dirigindo ou guiando, à revelia de raça ou de classe a que pertençam: por suas personalidades. Pelo que sabemos ter havido escravos, no Brasil patriarcal, do primeiro tipo e senhores do segundo tipo. Contradição que um discípulo de Aristóteles ajustaria a um conceito aristotélico.

Sabemos que, se, hoje, não há outros Nilos Peçanhas morenos muito escuros, presidentes da República ou ministros do Exterior, não é por não haver brasileiros assim morenos escuros, aptos biotipologicamente ao exercício de altas lideranças no País, mas por a alguns deles, com essas aptidões, terem faltado justas oportunidades de se elevarem tanto cultural como social e economicamente. O que se deve ao fato da Abolição no Brasil ter se realizado deficientemente: sem se preparar o liberto, o ex-escravo, o novo brasileiro livre, para esse seu novo status. Preparação tão desejada pelo lúcido abolicionista que foi Joaquim Nabuco; e da qual não cuidaram após o Treze de Maio nem políticos, nem educadores, nem a Igreja, nem, com todo o seu Positivismo, os Positivistas, militares como Benjamim Constant ou civis, como Teixeira Mendes. Uns e outros, Positivistas abstratos.

É um todo social e do Brasil de hoje que já não contém escravos no extremo oposto a senhores. Mas não deixa de ser constituído por governantes e por governados. Por brasileiros aptos biotipologicamente a dirigir e outros desejosos de ser bem governados. Governados, porém capazes de influir sobre governantes. Capazes de atuar sobre eles. Capazes de contê-los em possíveis tendências para abusos de seus poderes. Capazes de inspirá-los. Isto sem nos esquecermos de que, no Brasil patriarcal - sob vários aspectos diferentes de outras sociedades escravocráticas: notável por uma benignidade nas relações entre senhores e escravos, ausente nessas outras sociedades - não deixou de haver influência de dominados sobre dominadores. De escravos sobre senhores. De bás, ou de mães-pretas, sobre futuros Sylvios Romeros. De malungos sobre futuros Joaquins Nabucos.

Daí uma cultura nacional caracteristicamente brasileira - a que hoje distingue o Brasil - em que música, cozinha, carnaval, futebol, pintura, escultura, outras expressões de arte e de recreação, se apresentam tão coloridas pela presença dos dominados de ontem ou dos governados de hoje. Presença que, por vezes, deixa empalidecida a presença de dominadores ou de governantes, de tal modo vem dando vida e cor, a uma arte e a uma literatura oficiais, acadêmicas, subeuropéias com pretensão e dominantes, absolutas: inclusive puristas exageradamente classicistas no trato da língua portuguesa do Brasil como aqueles contra os quais se insurgiu criativamente José de Alencar. Presenças obscurecidas, as assim oficiais ou acadêmicas, pelos triunfos sobre elas, nos dias coloniais, dos Aleijadinhos: do maior, de Minas Gerais, e dos menores, de várias outras partes do Brasil.

Dos dias nacionais, recordem-se outros e sucessivos triunfos de escritores, de artistas, de historiadores, de sociólogos, de pensadores, com perspectivas inacadêmicas ou antiacadêmicas de coisas, valores, passados, futuros, tempos brasileiros. O já destacado José de Alencar. Tobias. Castro Alves. Teixeira de Freitas. Joaquim Nabuco. Euclydes da Cunha. Oliveira Lima. Capistrano. Vila-Lobos. Portinari. José Lins do Rego. Jorge de Lima. Guimarães Rosa. Manuel Bandeira. Em nossos dias, Nelson Rodrigues: criador genial de um teatro brasileiro. No escrever literário, de modo particularmente significativo, destaque-se de Lima Barreto, de origem tão africana, ter sido tão caracteristicamente brasileiro, quanto o compositor José Maurício, na criação musical. Expressões, as de suas artes, mestiças. Como que morenamente brasileiras. O amorenamento para o qual tanto concorreu o intercurso casa-grande-senzala.

O que recorda para sugerir-se a atualidade, no Brasil, do resultado desse intercurso. O intercurso casa-grande e senzala, senhor e escravo, dominador e dominado. Intercurso que, entretanto, mesmo nos dias patriarcais, já era um antagonismo em equilíbrio. Uma contemporização entre extremos. Com o dominado influindo sobre o dominador. Tronando-se vários dominados, dominadores. Ascendendo de casas-grandes e senzalas. Os extremos interpenetrando-se. Completando-se. Barões do Império como Cotegipe, escritores como Machado de Assis, cientistas como Rebouças, como Teodoro Sampaio, como Juliano Moreira, pensadores como Tobias, netos, bisnetos de africanos. E, entretanto, príncipes. Dominadores. Senhores da Cultura Brasileira.

Pois não nos esqueçamos de que à estruturação da sociedade brasileira por um processo patriarcal autocratizante - criador, tendo as casas-grandes como focos, de maneira, preferências, gostos aristocráticos de inspiração principalmente européia - correspondeu, de dentro para fora, um corretivo poderoso: a miscigenação. A mistura de sangues europeus e não-europeus. A intercomunicação de valores de cultura das duas origens: os das senzalas chegando às casas-grandes, os das casas-grandes comunicando-se às senzalas. Intercomunicação. Interpenetração. Miscigenação. Aspectos de um processo quase todo ele democratizante. Democratizante e abrasileirante. Africanos de senzalas assimilando - eles e indígenas e caboclos - de senhores de casas-grandes as rezas, os ritos, a liturgia, os adornos como insignias aristocráticas, e também os cantos, as devoções Católicas. O Catolicismo - por outro lado - enriquecendo-se de sugestões, inspirações, místicas, sensualmente africanas. Ou ameríndias. Mistura. Interpenetração. Miscigenação. Síntese. Tendências a uma democracia socialmente brasileira ao mesmo tempo que metarracialmente brasileira. Fenômeno em larga escala quase que só, nos dias modernos, ocorrência brasileira. Morenidade. Metarraça. A superação, no brasileiro, de consciências de origens ou de situações raciais pela consciência de sermos todos brasileiros, à revelia dessas origens e, crescentemente, das sociais, de classe. Em Machado de Assis, em Cruz de Souza, em Dom Silvério, em Teodoro Sampaio, em Juliano Moreira, em José Maria dos Santos, não houve o ressentimento de terem vindo ancestralmente de senzalas. A ascenção-social aristocratizou-os.

Lembrando-se o que sugere-se a contemporaneidade, isto é, o que há de permanente, de persistente, de atual, de além tempo, do há quarenta e cinco anos, além de contemporâneo, pósmoderno, tema do livro Casa-Grande & Senzala. Contemporaneidade no próprio fato de ser livro escrito - outro escândalo para a época em que apareceu - num português tão cheio de africanismos como de indigenismos. De tropicalismos. Num português tropicalizado. Preferindo às vezes o autor a palavra de origem africana - vinda de senzala - ou ameríndia - vinda do mato - à de origem européia. Livro inacadêmico. Consagrador de invenções artísticas, vindas de antigos dominados, ao mesmo tempo que reabilitador do colonizador português pelos por outros europeus, mais imperiais do que ele, considerado só nos sem defeitos. Esquecidas suas qualidades. Sua tendência para amar mulher de cor, por exemplo. Para gerar mestiços e reconhecê-los como filhos nos seus testamentos. Para tropicalizar-se. Para adotar na sua alimentação a mandioca e o caju. Para fazer do vinho de jenipapo um vinho de casa-grande. Para adotar a rede. Para adotar do ameríndio o gosto pelo muito banho de rio.

Livro, Casa Grande & Senzala, sem ser de folclorista, sensível ao valor do folclore como meio de interpretação do ethos, do caráter, da personalidade nacional do brasileiro. Livro ao mesmo tempo que de ciência, literário e talvez artístico na sua expressão e filosófico nas suas sugestões. Livro singular na sua pluralidade de perspectivas e por essa singularidade - a singularidade de sua pluralidade de perspectivas - na época em que apareceu, pósmoderno. Singular por não ter sido, ao aparecer, convencional mas por ter despedaçado escandalosamente convenções. Por ter-se antecipado, escandalizando o crítico da The American Sociological Review, em ser hereticamente, para sociólogos ortodoxos, aventurosamente interdisciplinar nas suas abordagens. Por misturar - diziam ortodoxos dos especialismos fechados - alhos e bugalhos: sociologia e antropologia, história e psicologia, literatura e folclore. Mistura de perspectivas. Mistura de abordagens. Mistura de métodos: insista-se neste ponto. "Pluralismo metodológico", saudou em Casa-Grande & Senzala, ao surgir em edição Gallimard, em Paris, um pensador francês, Existencialista, ao comentar seu aparecimento na revista Temps Modernes. Esse pensador, Jean Pouillon. Singular, ao aparecer, Casa-Grande & Senzala, por ter se antecipado em ser contemporâneo de vindouros.

Ao registrar a sua mais recente edição em língua francesa, salientava o crítico de Magazin Litteraire, também de Paris, ter Casa-Grande & Senzala - em francês Maitres et Esclaves - se antecipando em qualquer parte do mundo em atribuir importância ao fator sexo na análise e na interpretação de uma moderna sociedade ou de uma moderna cultura. Para a época em que surgiu, um escândalo. Uma falta de compostura. Tanto que fez dizer um puritano ianque: isto é sexologia e não sociologia.

Ao aparecer, o livro Casa-Grande & Senzala chegou a ser acusado de obsceno, imoral, anti-religioso, anti-Católico, anti-isto, anti-aquilo. Acusado sobretudo pela sua franqueza na abordagem do sexo: da presença do sexo a formação biossocial brasileira. Houve quem quisesse queimá-lo em praça pública, numa ressurreição dos velhos autos-de-fé. Houve quem ameaçasse o autor de quiri ou de pancada. Houve quem o considerasse antibrasileiro. Antipatriota. Antinacional. Corrutor da língua portuguesa. Chulo. Sem dignidade intelectual. Sem dignidade científica. Compreende-se que assim fosse para convencionais de várias espécies. Que a uns ofendesse seu desassombro na crítica social. Ou o fato de não se apresentar, escrito em sociologês, ou em antropologês. Ou em filosofês. E sim num português porventura mais abrasileirado que o de Alencar. Mais cheio de cipós que o Euclydes da Cunha. Cheio de indianismos. Cheio de africanismos. Por vezes franco e até cru acerca de coisas sexuais. Nunca acadêmico. Nunca filho-de-maria. Nunca puritanóide. Nunca, na sua filosofia, cortejador nem de São Tomás nem de Conte nem de Marx. Nunca, na sua reinterpretação da formação etnicossocial do Brasil, repetidor nem de Varnhagen nem de Capistrano nem sequer de Nabuco ou de Oliveira Lima. Recorrendo por vezes, pioneiramente, à história oral: a testemunhos de sobreviventes de casas-grandes e de senzalas já desfeitas em pó. A documentos íntimos. A conversas com antigos escravos já muito velhos mas ainda lúcidos. A conversas com índios velhos. A conversas com babalorixás. A confidências sobre comportamentos sexuais de brasileiros do século XVI recolhidos pela Inquisição. A esquecidas pastorais de bispos. A anúncios de jornais. A testamentos. A inventários. A álbuns de família. A receitas de doces também de família. A receitas de médicos antigos. A figurinos antigos. A livros antigos de civilidade. A antigos livros escolares. Pelo que compreende-se ter Blaise Cendras dito de Casa-Grande & senzala que iniciava dentro e fora do Brasil uma nova maneira de escrever-se história: ouvindo-se gente obscura e incluindo-se gente obscura entre personagens de dramas outrora só representados por generais vencedores de grandes batalhas e doutores de altos saberes. A verdade é que, em Casa-Grande & Senzala, tornaram-se personagens do drama da formação do brasileiro - exemplo para as reconstituições de outras formações - as figuras esquecidas da mulher, do menino, o escravo, o caboclo do mato. Daí o autor ter direito a aceitar como válidos os elogios ao livro: um livro com tantos coautores. Um livro que não pertence a um só autor mas a vários. Um livro saído não só da mão que o escreveu mas da vária gente que, sem saber, o inspirou. Que informou o autor. Que transmitiu ao autor segredos brasileiros guardados por brasileiros humildes. Alguns comunicados a um autor-confessor como se fossem pecados que só a ele devessem ser confessados.

Houve contra ele, ao surgir no Rio de Janeiro em 1933, ranger-de-dentes de raiva, de ira, de furor, tanto da parte de Jesuítas quanto da parte de Comunistas. De ortodoxos tanto de um como de outro desses extremos. Até que, ao aparecer em língua francesa, pouco mais de dez anos depois de ter sido publicado no Brasil, na revista Études, de Paris, o talvez mais sábio dos Jesuítas franceses, o Padre Retif, mais do que o louvaria, lamentando que a França tanto houvesse demorado em traduzí-lo e em publicá-lo. Enquanto Roland Barthes faria outro lamento: o de ainda não ter tido a França livro que analisasse de modo igual as suas origens e as interpretasse. E recentemente, ao aparecer em Caracas numa 3ª. edição em língua espanhola, quem o comentou, em introdução quase de todo solidária, foi o hoje mais lúcido e mais sábio dos marxistas brasileiros: Darcy Ribeiro. Quem vai breve orientar sua dramatização em filme épico é outro marxista brasileiro tão insigne poeta como crítico literário e de idéias: Ferreira Gular.

Uma das evidências do que pode ser considerado a contemporaneidade do livro Casa Grande & Senzala vem daquelas sucessivas edições em várias línguas: inclusive, no Brasil, onde as muitas edições - uma de dois em dois anos - vêm correspondendo a sucessivos interesses, pelo livro, de sucessivas gerações de brasileiros. Cada edição, no Brasil e no estrangeiro, vem despertando solidariedades com suas inovações de pensamento e de métodos, de forma e de linguagem, da parte de críticos jovens, dentre os mais esclarecidos.

De críticos estrangeiros que, cinco, dez, vinte, trinta, quarenta, quase cinqüenta anos após o aparecimento, no Brasil, de livro tão insistente em seus reaparecimentos, em português e noutras línguas, têm destacado o que nele é, para esses críticos, surpreendente pela atualidade. Pela contemporaneidade. Pela modernidade. Por antecipações nos métodos, nas abordagens, nas perspectivas misturadas ou interrelacionadas.

O que, sendo exato, deixa o autor de todo à vontade com esse seu livro de mocidade. Nem o livro se desatualizou - ainda que, desde a sua 4ª edição em língua portuguesa (conta hoje com vinte e uma), seu texto venha sendo o mesmíssimo, com acréscimo apenas de umas poucas notas bibliográficas - nem se sente desatualizado o autor ante o que, nessa audácia de jovem, foi antecipação, foi inovação, foi arrojo, nenhum deles, em qualquer ponto essencial, tornado arcaico em qualquer das ciências em que se apoiou: ou em qualquer dos autores, dentre os solidariamente citados nesta ou naquela especialidade.

Se Franz Boas tem sido contestado em sua antropologia, que grande criador em ciências não tem sofrido contestações, a elas sobrevivendo na essência de suas perspectivas desbravadoras? Além do que, que verdades científicas vêm, como tal, conservando-se exatamente as mesmas? Não será certo de certos livros transcientíficos que sua constante atualidade, quando tornados clássicos, vem do que neles é transcientífico ou metacientífico e não apenas científico? Os erros de geologia que vêm sendo apontados em Os Sertões, de Euclydes da Cunha - uma geologia por ele aprendida de Orville Derby e de Teodoro Sampaio - não invalidam a grandeza de livro tão transcientífico nem o tornam, de modo algum, arcaico. Mesmo porque são erros - os só de ciência - que podem voltar a ser aceitos, conforme interpretações que se dêem das chamadas verdades científicas. Inclusive as do marxismo dito científico. Um marxismo inferior ao por vezes demagógica ou retoricamente político, prático, ativista. Mas ao qual é superior o que em Karl Marx foi, além de espírito científico, gênio poético. O gênio em alemão chamado criativo. Pelo que nele, Marx, é gênio poético, capacidade criativamente crítica, sobrevivência, constante contemporaneidade. Pela sua filosofia política, demasiadamente autoritária e até escravocrática - que é o indivíduo nos Estados totalitários, que se dizem marxistas, senão um escravo? - e filosofia, agora, tão em crise, com a agressão inteligente que sofre dos chamados "novos filósofos" na França, tudo indica que está a tornar-se um arcaico. Arcaico já era, sob esse aspecto, para filosofia ainda em gérmen - posteriormente desenvolvida - que anina Casa-Grande & Senzala; e que se encontra no seu autor sob a forma que considera vir sendo, no Brasil, um equilíbrio de opostos, uma síntese de diferenças, uma harmonização de contrários, através, em grande parte, de uma mistura de raças e de uma interpenetração de culturas, que vem corrigindo extremos de lutas entre classes e de competições entre regiões.



Fonte: FREYRE. Gilberto. Palavras aos jovens do Ceará. Fortaleza: Instituto Lusíadas, 1978. 53 p.

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