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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



EM TÔRNO DA SITUAÇÃO DO PROFESSOR NO BRASIL


Prefácio para a tradução portuguêsa

Tradução de Laurênio Lima de trabalho escrito em inglês para o Anuário de
Educação da Universidade de Londres e ai publicado (1953). é publicado em
português, com acréscimos e notas do autor, escritas especialmente
para a Revista de Educação e Cultura, do Recife.

O pequeno ensaio que se segue, escrito em inglês Para o Year Book of Education (1953), da Universidade de Londres, a pedido dos diretores da importante publicação britânica, aparece em lingua portuguêsa por iniciativa do Professor Aderbal Jurema, da Universidade do Recife. Foi gentilmente vertido do inglês para o português pelo Dr. Laurênio Lima, também do Recife.

Trata-se de trabalho modesto, embora, dentro dos seus limites, pioneiro: pequena contribuiqdo para um estudo que venha a ser feito, com rigor de pesquisa histórico-sociológica, sôbre a situação do professor no Brasil: no Brasil atual, sob o impacto de sua crescente e às vêzes desordenada industrialização, em contraste com o que foi essa situação no Brasil predominantemente agrário em suas estruturas mas cioso de suas elites, talvez, apenas super-estruturais, de professores padres-mestres, doutores e bacharéis, da éra colonial e do período imperial. Aparece a tradução com o acréscimo de numerosas notas do autor : tantas que tornam o ensaio quase um trabalho novo.

Em lingua inglêsa, desde 1943 que existe o estudo de Alba M. Edwards, Comparative Occupational Statuses for the United States, em que diferenças de status profissional são consideradas à base de seu panorama apenas no espaço social: sem confrontos quanto a épocas dentro do mesmo espaço. Critério também do trabalho de Cecil 0. North e Paul K. Hatt, "Jobs and Occupations: a Popular Evalutation", publicado, em Sociological Analyses, em 1949. Isto sem nos referirmos à obra clássica sôbre o assunto: a do Professor Carr-Saunders Professions: Their Organization and Place in Society (Londres,1928). Tais trabalhos concorreram para que se esclarecesse na sociologia moderna o conceito de prestígio, decorrente de status do inditiduo ou do grupo e da maneira pela qual o ocupante de dado status corresponda pelo papel ou "'role" ou função que desempenhe, às espectativas referentes ao mesmo status. "é evidente que tais critérios de análise podem ser estendidos do espaço social panorâmico, circunscrito à atualidade que se examine, a uma tentativa de estudo sistemático de diferenças de status no tempo,dentro de limites de espaço social que dêem consistência a tal estudo. A figura do professor, no Brasil, se Prestaria magnificamente para uma tentativa de indagação desta natureza: histórico-sociológica.

É uma figura que vem resistindo de modo surpreendente ao impacto da industrialização sôbre o status de profissões no Brasil. De tal modo que até líderes industriais, em nosso País, veem insistindo em apresentar-se como professores. Tal o caso de Roberto Simonsen, continuado nesse afan por modernos líderes industriais.

Apipucos, Recife, 1954.


Aos jovens brasileiros que têm ido aos Estados Unidos como estudantes, uma das surprêsas oferecidas pela vida anglo-americana tem sido o fato de homens de negócios serem os mais importantes líderes de certas comunidades tìpicamente anglo-americanas, com os catedráticos de universidade e professores de liceus ou ginásios - hoje chamados no Brasil colégios" - como elementos secundários, ou mesmo socialmente insignificantes, das mesmas comunidades. A surprêsa origina-se do fato de que, na escala ou hierarquia tradicionalmente brasileira de valores sociais, os professores de universidade ou de colégio, ou ainda os chamados mestres de Latim, terem sido quase sempre considerados, numa comunidade típica, do Brasil-Império e mesmo do da Repfiblica de 89, valores mais altos do que os grandes, prósperos ou dinâmicos homens de negócios; comerciantes ou industriais. E' certamente êste, ainda hoje, o quadro tradicional de valores sociais brasileiro, embora, nos últimos decênios, o prestígio intelectual ou acadêmico venha sofrendo depressão considerável e o dos homens pura ou principalmente de negócios industriais, comerciantes, banqueiros, etc. - esteja crescendo um tanto à maneira anglo-americana ou anglo-saxônia.

Por que aquela situação, durante longo tempo no Brasil e até os primeiros decênios dêste século tão definida ou nítida que se tinha a impressão de ser a vasta comunidade de língua portuguêsa da América uma espécie de índia Oriental americana, com uma casta de Bramanes, reverentemente cortejados sob a forma de Padres-Mestres, Doutores e Professores que fossem os valores sociais mais altos de qualquer comunidade típica do País com exceção das mais rigidamente agrárias? Por que tal situação e o desprêzo ou desdém do brasileiro médio de então pelos negócios, pelo comércio, pela indústria como carreiras para jovens de boa familia? Por que êste culto ou esta talvez exagerada valorização brasileira do Professor, do Doutor, do Letrado? [1].

Numerosas explicações podem ser sugeridas. Até o contacto íntimo de Portugal com a Índia Oriental e com a China - de onde durante anos se importavam becas de sêda, trajos quase de mandarins para bacharéis e doutores brasileiros pode ser invocado como causa remota. Outra explicação talvez possa, ser encontrada, na influência dos judeus sefardins na cultura e na sociedade portuguêsas: influência que teria contribuido para a idealização da figura do Mestre, do Intetectual, do Doutor, do Professor, do Letrado, do Clérigo entre muitos dos portuguêses, colonizadores do Brasil, não devendo ser esquecido o fato de que um dos mais remotos dêsses colonizadores foi certo letrado ou "Bacharel", conhecido como o "Bacharel da Cananeia". 0 Brasil recebeu de Portugal numerosos valores semi-europeus, semi-orientais, e entre os portuguêses da época decisiva de colonização da América era grande a importância atribuida - como aliás entre os povos orientais mais cultos - aos letrados, mestres ou professores.

Parece que o próprio uso de rubis, esmeraldas, safiras, etc, por graduados de escolas superiores do Brasil que por êsse meio se fazem anunciar como doutores ou bacharéis, é brasileirismo em que se reflete influência oriental.

Ao fim do Século XVIII e durante a primeira métade do Século XIX, uma carreira ou profissão acadêmica, no Brasil, representava um dos meios pelos quais o jovem mestiço ou o filho de modesta família urbana, branca, ou recém-chegada da Europa, podia elevar-se socialmente de maneira a competir com os filhos da aristocracia rural e em atividades não só intelectuais como políticas. Como bacharéis, advogados, doutores em medicina, jovens de origem menos aristocrata e até plebéia tiveram então a oportunidade de formar nova aristocracia: uma aristocracia de beca coroada por outra de borla e capelo. E nessa nova aristocracia, era natural que os professores das Faculdades de Direito e de Medicina se tornassem importantissimos principes acadêmicos: êles não sòmente eram formados em escolas superiores mas professores ou mestres das mesmas escolas. Nenhum advogado importante tinha completo o seu prestígio se não era professor de Faculdade de Direito. Nenhum médico era considerado entendido profundo em medicina se não fôsse professor de Escola Médica. Deve ser lembrado que o George Washington brasileiro - o maior líder do movimento da independência do Brasil: José Bonifácio - foi um acadêmico, um sábio e por algum tempo um mestre, até, da sua ciência, em centros europeus de cultura.

Tal chegou a ser a idealização da profissão do ensino embora a maioria dos advogados e doutores que ensinavam em escolas superiores apenas fizeram nas suas escolas algumas conferências brilhantes ou discursos eloquentes e em alguns casos até bombásticos, sem se darem intensa ou sistemàticamente às atividades pedagógicas - que do homem que por meio século foi imperador do Brasil - Dom Pedro II - se diz ter sonhado tôda a sua vida ser professor de colégio ou mestre-escola. Dom Pedro teria alegremente trocado sua coroa e o manto real - êle que era um Bourbon, um Hapsburg e um Bragança - pela borla e o capelo. Por uma beca quase de mandarim vinda do Oriente. Homem letrado, humanista que conhecia algum Hebreu e um pouco de Grego, além do Latim, e um tanto de Astronomia além da História Antiga e da Literatura francesa - sentia especial prazer em assistir aos exames finais nas escolas, em comparecer às reuniões acadêmicas, em desempenhar o papel de professor ou de mestre-escola, tanto quanto Ihe permitiam os seus deveres de Imperador Constitucional. Assim fazendo contribuiu, notávelmente, para o aumento do prestígio dos professores e dos mestres no Brasil. Contribuiu para o alto conceito social dos professores de escolas superiores e mesmo dos professores secundários e primários no Brasil. Dom Pedro II sentia-se feliz quando os membros do seu gabinete ou os líderes políticos do Parlamento Nacional eram professores ou mestres de escolas superiores como João Alfredo ou Zacarias de Goes. Era mesmo particularmente tolerante para com Republicanos que, como Benjamin Constant Botelho de Magalhães - oficial do Exército brasileiro - ensinavam matemática aos jovens na Escola Militar do Rio de Janeiro e eram conhecidos por seu talento de professores. [2].

Tendo a profissão de professor no Brasil tais antecedentes é fácil compreender por que, ainda hoje, os homens de negócios buscam tanto as honras acadêmicas: Roberto Simonsen, que faleceu há poucos anos líder da Federação das Indústrias Brasileiras, achava especial deleite em pronunciar conferências como professor de Economia; e sentiu-se imensamente feliz quando o seu nome foi escolhido para uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras [3]. Alguns dos mais importantes líderes políticos do Brasil republicano tornaram-se conhecidos como professores de escolas superiores ou secundárias. Assim também grande número de membros do Congresso Nacional. Só recentemente puros homens de negócios vêm se orgulhando do fato de serem "homens práticos" e nada terem a ver com instituições ou atividades acadêmicas. êste fenômeno é americanismo ou anglo-saxonismo recentíssimo na vida brasileira e vem se desenvolvendo sob a pressão de crescente e até exagerada industrialização, às vêzes fictícia, de algumas das principais áreas do País, outrora quase tão pre-capitalistas quanto as hoje consideradas arcaicas.

Com o grande aumento no número das escolas primárias no Brasil, durante os últimos trinta ou quarenta anos, os professores primários -outrora raros e quase majestosos não possuem hoje o mesmo prestígio dos velhos tempos. Nem mesmo os professores secundários ou universitários pertencem agora a uma quase casta asiática, como aconteceu até o princípio dêste século, embora sua posição social permaneça de considerável prestígio intelectual e social e muitos ainda sintam particularíssimo prazer em ostentar títulos de "Professor" ou de "Doutor", mesmo em atividades extra-acadêmicas.

No que se refere à situação econômica dos professores universitários e secundários, devemos lembrar que não são êles em sua quase totalidade, professores com tempo integral - são raros no Brasil, os professores de tempo integral mas têm a liberdade de dedicar-se a outras atividades, tais como a prática da Medicina, da Advocacia, da Engenharia, do Jornalismo, da Política. A maioria dos advogados, dos médicos ou engenheiros que são professores acha neste fato indiscutível vantagem econômica. E o prestígio social decorrente do título ou da condição de professor continua a significar para grande número dêles vantagem econômica, além de satisfação de natureza psicológica. Deve ser também destacado que a maioria de tais professores foi no Império e na Primeira República constituida de homens e não de mulheres e ainda assim permanece, embora o número de mulheres que ensinam nas escolas secundárias, normais e mesmo superiores, - e não apenas nas primárias - venha aumentando nos últimos decênios.

Significativo é também o fato de serem as Escolas Normais, atualmente, no Brasil, escolas onde estudam, principalmente moças; e não rapazes. A maioria dos professores das escolas primárias no Brasil é na época atual constituida de mulheres e não de homens: tendência que aumentou durante o último quartel dêste século. Houve tempo em que os próprios professores primários eram todos homens.

Até o fim do século XIX raras foram as mulheres neste como em outros ramos do magistério. Agora ao contrário, raro é encontrar um homem que seja professor regular de escola primária nas regiões mais avançadas ou progressistas do Brasil. Homens como professores de primeiras letras podem ser encontrados, em número considerável, apenas em escolas primárias de áreas atrasadas ou arcaicas; ou como inspetores de escolas primárias - muito raramente como professores - em áreas progressistas ou semi-progressistas.

Em sua preparação, um professor de escola primária no Brasil tem que estudar 5 anos no curso primário, 4 no curso secundário e 3 no chamado curso pedagógico. 0 rapaz ou a moça deve ter onze anos - o mínimo - para entrar no curso secundário. 0 rapaz ou a moça termina comumente o curso pedagógico aos dezoito anos, quando Ihe é permitido entrar imediatamente no magistério como professor primário.

Deve ser dito que foi sòmente com a fundação das Escolas ou Faculdades de Filosofia, em São Paulo e no Rio, que se tornou, realmente, sistemática a preparação de professores e professoras para as escolas secundárias. Até então (1934) essa preparaçãoo era uma espécie de aventura individual: não havia, a rigor, oportunidade para o candidato a êsse tipo de professorado preparar-se metódica ou sistemáticamente.

Os professores secundários eram escolhidos entre advogados, médicos, padres, engenheiros, com pouco ou nenhum treino específico na atividade do magistério em que ingressava de improviso. A essa falta de preparação sistemática é fácil associar a ausência de qualidade realmente pedagógica na maior parte dos professores de ensino secundário no Brasil durante o império (1822-1889) e na chamada "Primeira República" (1889-1930), embora não se deva esquecer que, no meio de professores secundários dêsse velho tipo houve, no Brasil considerável número de homens notáveis, não sòmente pelas suas qualidades de letrados como pelas suas virtudes pedagógicas. Alguns dêles destacaram-se como autores de livros didáIticos que permanecem exemplos admiráveis de tais virtudes e expressões de espirito ou cultura para-universitária. Compêndios para o estudo do Latim, do Português, de História, da Geografia, da Literatura, das Matemáticas escritos ou organizados de modo verdadeiramente magistral [4].

Todavia, é verdade que numerosos professores secundários daquêle tempo foram extremamente retóricos no seu ensino. Não faziam outra coisa senão discursar para adolescentes que se deixavam influênciar de maneira lamentável por êsse culto da oratória ou da eloquência em que se extremavam seus mestres. Mesmo estudantes de Química e de Física ou de História Natural deixaram-se contagiar pelo virus oratório dos lentes verbosos. Os museus ou laboratórios, raros e deficientes, quase não corrigiam os execessos de ensino abstrato. E a tendência dominante tornou-se, de certa altura em diante, imitar o Brasil a França, burocratizando-se e centralizando-se nas capitais o ensino superior e não apenas o dos liceus ou ginásios: tendência de que parecem ter escapadc entre nós apenas seminários Católicos como o de Olinda sucessor, aliás, do velho Colégio dos Jesuitas - e uma ou outra escola como, a de Minas de Ouro, Preto. Destaque-se, a propósito, que sob a direção do Bispo Azevedo Coutinho -figura ilustre de educador brasileiro dos fins do século XVIII e principios do XIX -o Seminário de Olinda tornou-se um centro de novos métodos de ensino secundário e para-universitário [5].

As modernas Escolas de Filosofia no Brasil vêm desenvolvendo métodos objetivos, e em alguns casos até experimentais, na preparação de jovens - rapazes e moças - para professores secundários. A Escola ou Faculdade de Filosofia de São Paulo, assim como as Faculdades de Filosofia, Economia e Direito e Ciências da Universidade do Rio de Janeiro (Distrito Federal), ao tempo em que essa Universidade foi orientada ou dirigida por homens como os Professores Anísio Teixeira - seu fundador - Miguel Osório de Almeida, Afonso Pena Júnior e Afrânio Peixoto, realizaram corajoso trabalho de reorganização dos métodos de ensino para os cursos secundário e universitário no Brasil. Não sòmente atrairam para os seus corpos docentes brasileiros com tirocínio universitário sistemático na Europa ou nos Estados Unidos, mas tiveram a coragem de fazer vir de centros europeus para a fundação de cátedras consideradas básicas, professores estrangeiros de rigorosa formação universitária e cientistas de alto conceito em seus países. êsses professores de alta formação universitária e êsses cientistas de categoria, e não apenas esnobemente europeus - homens como Tapié, Levi-Strauss, Deffontines, Radcliffe-Brown, os dois Bastide, em São Paulo e, no Rio, Brehier, Leduc, Garric, para só mencionar alguns foram instrumentos de verdadeira revolução na metodologia do ensino superior no Brasil e sua permanência, entre nós, altamente benéfica para o início sério e honesto de um moderno sistema universitário em nosso país. Foi decerto grande fortuna para o Brasil ter tido na Universidade do Rio de Janeiro um centro de experimentação avançada de métodos. Ao Professor Aníbal Teixeira - seu organizador - foi dada pelo Govêrno de então plena liberdade de fazer o que quisesse. Inclusive - repitia-se - procurar os melhores talentos brasileiros e contratar alguns dos melhores cientistas e professores do País e do estrangeiro para servirem por algum tempo, como professores ou fundadores de cátedras na jovem Universidade.

Infelizmente tão bons exemplos - os oferecidos pelos organizadores da Universidade de São Paulo, da Escola de Sociologia e Política, também de São Paulo - que tem tido, entre seus professores bons especialistas no ensino de Ciências Sociais como o Dr. Donald Pierson e da Universidade do Rio de Janeiro (Distrito Federal) - não foram seguidos por outras Universidades ou Faculdades de Filosofia no Brasil. Algumas delas se veem organizando com uns poucos professores brasileiros competentes e grande número de imaturos ou mesmo - sejamos francos - incompetentes. À política -ou antes, à politicagem - permitiu-se que interferisse com indicações que deveriam ser feitas sob critério apolítico e não ao sabor de conveniências de poderosos do dia. Aos organizadores das novas escolas de Filosofia - são elas agora tão numerosas que alguns críticos as consideram verdadeira praga - vem faltando quase sempre a coragem de fazer vir do estrangeiro, por dois ou três anos, para certas cadeiras fundamentais, competentes professores europeus e norte-americanos dos quais os jovens assistentes brasileiros seriam, findo aquêle prazo, os naturais sucessores e donos das cátedras assim estabelecidas. Como consequência dêsse fato há, no Brasil de hoje, "faculdades de filosofia" e "universidades" que os críticos mais severos consideram simples e feias caricaturas de autênticas faculdades de Filosofia e de verdadeiras universidades. As consequências de tal política de nacionalismo pedagógico se fazem sentir no rebaixamento dos padrões de cultura universitária no Brasil estabelecidos pelo Professor Anísio Teixeira, no Rio - e seja dito de passagem que a êsse ilustre renovador do ensino no Brasil se deve o início de moderno ensino universitário de Sociologia no Brasil, acompanhado de pesquisa, e o estabelecimento entre nós da primeira cátedra regular de Antropologia Social e Cultura e em São Paulo pelo Governador Sales de Oliveira, com o concurso do Professor Fernando de Azevedo e de outros pedagogos notáveis, e também no relaxamento dos padrões do onsino secundário nos liceus ou ginásios brasileiros, agora chamados "colégios".

0 que deve ser lamentado. Porque se o exemplo da Universidade do Rio de Janeiro (Distrito Federal) e da de São Paulo tivesse sido seguido, o ensino universitário e secundário no Brasil estaria hoje em pleno desenvolvimento, com as cátedras dos professores universitários ocupadas em regra e não por exceção - por homens - ou mulheres - realmente bern preparados. Sistemáticamente bem preparados e não improvisados.

Da maneira como as coisas se vêm desenvolvendo, há necessidade, no Brasil de hoje, de forte reação contra o mau "nacionalismo" pedagógico, dominante entre nós - si "nacionalismo" é a palavra exata para designar o fenômeno de certos brasileiros sentirem que não há no seu e nosso País necessidade de auxílio técnico europeu ou estadunidense na preparação de catedráticos universitários ou de professores para os cursos secundários. Necessidade que tão claramente se manifesta em relação com algumas das ciências modernas e da própria filosofia, ensinadas na maioria dos colégios e universidades do Brasil de modo deficiente ou arcaico por professores imaturos, quase sempre nomeados segundo perigoso critério de seleção após triunfos nos chamados concursos, em que quase sempre são consagrados não os mais senhores da matéria e mais capazes de ensiná-la, porém os mais brilhantes na improvisação, na polêmica, na ostentação de um saber maior que o possuido e nas artes ou manhas da advocacia ciceroniamente acadêmica, servida pela memória chamada de " anjo" [6]. Mesmo assim, tais concursos talvez devam ser preferidos em alguns casos às nomeações graciosas de professores de universidades e colégios, com que homens de govêrno, segundo denúncias de críticos bem informados, vêm pagando suas dívidas de gratidão a semi-intelectuais ou a simples bons - ou mesmo maus - moços, por préstimos ou serviços claros ou dissimulados e nem sempre de natureza intelectual, aos mesmos homens de govêrno. Ou pagando tais dívidas ou atalhando possíveis oposições ou agressões às suas obras de supostos benfeitores da cultura nacional. Tais nomeações graciosas vem sendo feitas a despeito da Constituição do Brasil de 1946 enfàticamente proibí-las, consagrando - a nosso ver, erradamente - o concurso, como único meio de acesso às cátedras universitárias. Quando membro do Parlamento Nacional e Vice-Presidente e e por vêzes Presidente, na Câmara dos Deputados, da Comissão de Educação e Cultura, colocamo-nos quase sòzinho contra "a mística do concurso", consagrada pela maioria parlamentar como princípio constitucional. E ao fazê- lo mais de uma vez nos recordamos de ter Savigny, o insigne mestre de Direito romano e criador da jurisprudência histórica e um dos primeiros professores do mundo, se destacado como adversário, no seu tempo, do sistema de concursos, chegando a dizer - recordou-o há dezenas de anos em nossa língua Ramalho Ortigão, crítico inteligente do lamentável sistema - que "o concurso oral é a porta aberta às mediocridades". 0 sistema de concursos foi recentemente criticado em Portugal como arcaismo que deve ser substituido, por homens do saber e da autoridade do Professor Celestino da Costa. Também pelo eminente crítico e estudioso de assuntos pedagógicos, Antônio Sérgio, que vê na apologia do concurso por pedagogos atuais e no fato de ser ainda preciso combater tal sistema entre portuguêses, evidência de "retrocesso intelectual".

Outro, interessante aspecto da situação dos professores no Brasil é o econômico: o salário dos catedráticos das universidades e dos professores de colégios e escolas primárias. Em tôdas as escolas de nível universitário o salário de um professor é sempre de 8.400 cruzeiros mensais. Ao professor é permitido por lei ensinar matérias correlatas em duas instituições. Também pode o professor dedicar-se a investigações remuneradas (sôbre assunto relacionado com a sua cadeira) em alguma instituição de pesquisas. E' esta uma sábia lei, em contraste com o decreto posto em vigor, com fôrga de lei, pelo Govêrno Nacional, em 1937, quando o Brasil tornou-se "Estado forte", assim permanecendo até 1945. Decreto que proibindo ao professor ter mais de uma cadeira ou empregar-se em atividades de pesquisas em instituições como o Instituto Biológico de Manguinhos, esteve longe de ser benefício à cultura brasileira. Prejudicando-a consideravelmente. Foi um dos erros do govêrno Getúlio Vargas neste particular mal aconselhado por um professor ilustre porém desorientado: o Professor Francisco Campos.

Em relacdo aos salários dos professores de escolas secundárias do Estado ou oficiais, no Brasil, não há uniformidade nacional a respeito. Em algumas áreas, como o Estado de São Paulo e o Distrito Federal, um professor secundário recebe quase tanto quanto um professor universitário: 8 mil cruzeiros mensais. Nos Estados menos adiantados, o professor secundário é quase sempre mal pago: há casos de um professor secundário receber apenas 900 cruzeiros mensais. Isto aplica-se às escolas secundárias mantidas pelos diferentes Estados da União brasileira: uma União federal semelhante à dos Estados Unidos da América.

Nas escolas secundárias particulares, a situação do professor é aIgumas vêzes crítica, porque, em alguns Estados, ou regiões, é êle miseràvelmente pago, embora possa ensinar em duas, três e mesmo mais escolas. 0 professor é pago por preleção ou aula; e êste pagamento varia de vinte a quarenta cruzeiros por aula, de acôrdo com o que paga prèviamente o estudante a cada escola particular. Assim, um professor secundário, em algumas áreas, tem de dar tanto quanto dez aulas ou preleções diàriamente, para fazer um salário de 8.000 cruzeiros mensais.

De acôrdo com alguns críticos dêsse sistema, trata-se de arranjo lamentavelmente anti-pedagógico. Tem o pobre do professor de deslocar-se de uma a outra escola e juntar considerável mobilidade física ao esfôrço intelectual de repetir oito ou dez aulas por dia. êste tipo de professor secundário é vividamente caracterizado pelo Professor Aderbal Jurema, da Universidade do Recife, como "professor taxi".

As férias dos professores bem como dos estudantes-universitários, secundários e primários no Brasil são duas por ano: do princípio ao meio de dezembro até o fim de fevereiro ou fins de março, e no meio do ano, cêrca de um mês, durante as chamadas festas de São João, ou logo depois delas. São ainda numerosos os feriados e dias santos.

Os professores primários e secundários têm o direito à proteção social que oferece o Instituto de Aposentadoria e Previdência dos Comerciários. Espera-se que seja organizado em breve um instituto ou departamento, especial para a assistência ou seguro social dos professores no Brasil.

Quando inválido ou quando atinge a idade limite, o professor primário ou secundário, no Brasil, que é membro, do Instituto dos Comerciários, tem direito a receber dois terços de 2.000 cruzeiros: os dois mil cruzeiros que êle tem de pagar gradualmente ao mesmo instituto. No caso de morte sua espôsa receberá 1.200 cruzeiros. Quanto ao professor universitário de universidade federal, está habilitado à mesma assistência a que têm direito os outros empregados federais da mesma categoria. Isto é se atinge a idade limite (70 anos) ou se torna inválido por acidente profissional e se tem mais de trinta anos de serviço como professor recebe o salário integral. Se tiver menos de trinta anos de serviço, recebe mensalidade proporcional a seu período de atividade. Deve-se ainda notar que a Constituição Brasileira de 1946 isenta os professores, assim como escritores e jornalistas, de impostos que atingem outros cidadões, consagrando assim a situação especial dos chamados "intelectuais" no Brasil.

Continua o título de professor de nível universitário ou mesmo colegial, a ser, no Brasil, marca de prestígio. Não tanto porém como outrora. Por outro lado, repita-se, é crescente o prestígio dos indivíduos dedicados à indústria e ao comércio. Recente lista ou rol de honra de "pioneiros do progresso" nacional é o que põe em evidência: o crescente prestígio dos líderes dessas atividades, alguns dos quais já desdenham a ostentação de qualquer título acadêmico [7]. é uma lista em que não aparecem entre "pioneiros de progresso" nomes como, os de Manuel Bandeira, H. Vila-Lobos, Cícero Dias, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rêgo, Raquel de Queiroz A. Silva Melo, Gastão Cruls, Gilberto Amado, Lucia Miguel Pereira, Otávio Tarquínio, Lúcio Costa, Raul Fernandes, Tristão de Athayde, Álvaro Lins, - aos quais se devem, como a vários outros, arrojos de renovação da cultura, do pensamento, e da paisagem brasileira. Evidentemente são êsses renovadores considerados pelos organizadores da lista de "pioneiros do progresso nacional" segundo novo crítico, produtores de simples artigos de sobremesa cultural ao lado, dos outros - técnicos, industriais, etc. - que seriam exclusivamente os criadores de valores essenciais ao Brasil. Atitude sociológicamente muito significativa e um tanto em desacordo com a dos Constituintes de 1946, ainda entusiastas dos valores intelectuais. Diga se de passagem que na mesma Constituinte manifestou-se da parte de alguns dos seus membros lamentável espirito de nativismo, contra os brasileiros naturalizados, espirito que, se tivesse prevalecido, teria tornado quase impossível o exercício de profissões intelectuais inclusive o magistério - pelos mesmos naturalizados. Membro da Constituinte de 46, insurgimo-nos, em discurso, alí proferido, contra semelhante nativismo; e julgamos ter com êsse discurso, contribuido para dar à atual Constituição brasileira sabor mais liberal e mais democrático, no que se refere aos direitos dos naturalizados com relação a atividades intelectuais.


Estas notas embora incompletas, dão idéia geral da situação do professor no Brasil: o professor universitário, o secundário e o primário. Devo ao Professor Aderbal Jurema, da Universidade do Recife, e durante algum tempo diretor de um dos mais conhecidos e prestigiosos colégios da cidade do Recife, valiosas informações a respeito das condições econômicas sob as quais trabalham os professores no Brasil de hoje. 0 Professor Aderbal Jurema versou alguns aspectos do assunto em Iúcida, conferência - "0 Ensino Secundário no Brasil" pronunciada na Faculdade de Filosofia do Recife e publicada, em "Nordeste" (Recife), de Janeiro de 1948. Outros aspectos da questão têm sido versados em recentes publicações por outros especialistas brasileiros em assuntos pedagógicos e qualquer estudante estrangeiro interessado nos mesmos, assuntos achará informações idôneas na recente "Encyclopedia de Legislação do Ensino" (Rio de Janeiro 1952), organizada pelo Professor Vandick Londres da Nóbrega. Outras interessantes publicações relacionadas com o assunto dêste trabalho são: "0 Ensino Superior, e Médio no Brasil" (Rio de Janeiro, 1951), publicação oficial do Ministério de Educaqção e Saúde e "Oportunidades de Preparação no Ensino Superior" (Rio de Janeiro, 1950), livro também publicado pelo mesmo Ministério. Em São Paulo publica-se uma revista "Atualidades Pedagógicas", onde são por vêzes considerados, em expressivos artigos aspectos da situação, dos professores. Repita-se que em São Paulo vem sendo reconhecido, talvez mais que noutros centros brasileiros de cultura, o valor da contribuição de professores estrangeiros para o desenvolvimento do ensino universitário no Brasil: atitude que se reflete em suas publicações sôbre atualidades pedagógicas.

N O T A S

1 - Como procuramos explicar em ensaios já antigos sôbre a formação social brasileira, especialmente em Casa-Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mocambos (1936), essa afirmação iniciou-se patriarcalmente à sombra de casas de senhores rurais e desenvolveu-se semi-patriarcalmente, em tôrno de sobrados urbanos. Nessa segunda, fase de formação brasileira é que começou a tomar corpo a figura do bacharel, do doutor, do letrado, como rival, na direção das coisas nacionais, do senhor rústico de casa-grande de fazenda ou engenho, que tinha no capelão particular seu Frei José ou sua eminência parda" para assuntos intelectuais. Aquêle letrado ou bacharel ou doutor foi, em geral, expressão do complexo psicosociológico que, em trabalho escrito em inglês e publicado em 1946 Brazil: an Interpretation - chamámos de gentleman's complex. Veja-se também, a êsse respeito, ensaio anterior nosso, escrito igualmente em língua inglêsa para o Anuário de Educação da Universidade de Londres, (1948) a pedido, como êste, de seus diretores e onde se apresentam aspectos das relações entre classes e raças no Brasil, em suas projeções sôbre as técnicas e idéias de ensino superior que, por sua vez, exerceram influência ocnsideravel sôbre aquelas relações.

Numa de suas conferências proferidas há dois anos na Sorbonne, e recentemente publicadas sob o título Panorame Sociologique du Brésil (Paris, 1953), diz à página 49 o Professor A. Carneiro Leão, depois de referir-se ao fato de que na América Espanhola concedia-se o título de conde em Direito a quem tivesse alí ensinado durante vinte anos matéria jurídica em universidade, que no Brasil le même éclat de gentilhommerie et um même prestigie étaint conférés para Ie diplome universitaire. E acrescenta que la possession de ces titles était doce la grande affaire. 0 que confirma nossa sugestão de 1944 sôbre o gentlemn's complex no Brasil.

Em sugestivo livro publicado em italiano (Milão, 1949) é recentemente aparecido em português com o título Apresentação do Brasil (São Paulo, 1952), o Professor Tullio Ascarelli, confirmando igualmente o que se diz desde 1934 em nosso Sobrados e Mocambos -liivro a que faz referências gentis, como aliás à Casa-Grande & Senzala - escreve à página 37 da edição brasileira que, no Brasil, a classe dirigente foi, com, a proclamação da República, substituida por filhos de proprietirlos de terras polidos e diplomados em leis. Mais adiante - à página 139 - observa o ilustre jurista italiano ter sido, sempre a República brasileira definida como uma república de bacharéis, como se diz no Brasil com referência aos diplomados, acentuando que a tradição legal tem sido, entre nós, brasileiros, uma tradição humanística e oratória no sentido ciceroniano, o diploma em leis tendo constitutdo, ainda até pouco tempo, o complemento indispensável da educação dos jovens da classe média, independentemente de qualquer objetivo de exercício profissional e o caminho - fato por nós já salientado em Sobrados e Mocambos e noutros dos nossos ensaios, inclusive Inglêses no Brasil - de acesso - isto é, de ascenção social dos filhos de pequena burguezia, em parte composta de gente rnestiça. Conclui o Professor Ascarelli, sempre de acôrdo corn nossas já antigas sugestões sôbre o assunto: 0 título de doutor constitui uma espécie de apelativo genericamente usado no tratamento dos funcionários plúblicos ou por pessoas do povo quando se dirigem a pessoas da classe média e superior... A tradição cultural - acrescenta o Professor Ascarelli, ainda de acôrdo com aquelas sugestões - foi até pouco tempo, por isso, predominantemente literária com certo desdém pelo trabalho manual um acentuado amor pelas idéias gerais, um certo desprêzo pelo esperimentalismo, de onde a tendência, muito frequente, a uma consideração um pouco retórica dos vários problemas, Deve-se notar que nos últimos decênios o título de doutor vem sendo superado, como marca de ostentação de prestígio social e cultural, pelo de "Professor", equivalente hoje ao de sumo sacerdote dentro da hierarquia acadêmica quando outrora tanto designava o catedrático quanto o mestre-escola de Prirneiras Letras.

Para o Professor Ascarelli a própria tradição literária e o desprêso colonial pelo trabalho manual, talvez uma certa tradição de probabilismo moral jesuítico criara (no Brasil) uma atmosfera de admiração pela esperteza intelectual à qual se perdoa de bom grado um certo relaxamento moral... Contra essa tendência acrescente-se ao observador italiano que reagiu no Segundo Reinado o Imperador Dom Pedro ll com seu celebre Iápis, inimigo dos homens púbIicos moralmente relaxados, mesmo que fôssem letrados, literatos e professores: gente da particular estima do imperador, êle próprio erudito e doutoral. Incapaz porém de esperteza intelectual inspirada ou não pelo probabilismo moral jesuítico. Sôbre a influência dos Jesuitas dos séculos XVI e XVII na educação da mocidade brasileira da época colonial, no sentido de uma instrução antes retórica e bacharelesca que experimental - e corn evidente desprêso pelo trabalho manual - veja-se nosso Casa-Grande & Senzala. Somos, entretanto, admirador de outros aspectos da ação desenvolvida pelos doutos Jesuitas no Brasil. [voltar]

2 - Os leitores de Eça de Queiroz hão de recordar-se de que em última carta de Fradique Mendes, o grande escritor deixou-nos brilhantes páginas de sátira e de crítica social nas quais pôs ern relêvo o excesso de bacharelice que, a seu ver dominava o Brasil nos fins do século XIX, com bacharéis e doutores não só dirigindo bancos como a polícia, Indústrias, fazendas, etc. Era a época dos majores-doutores, dos capitões-doutores, dos generais-doutores, que Eça particularmente punha em relêvo, acentuando excessos que lhe pareceram ridículos.[voltar]

3 - 0 sucessor de Roberto Simonsen, na presidência da Federação Brasileira das indústrias, o industrial Euvaldo Lodi, conseguiu recentemente acrescentar ao, seu nome o título de Professor de Dinâmica Econômica e Social de uma universidade livre de Roma.[voltar]

4 - Dentre êsses mestres - autênticas figuras não só de humanistas como de pedagogos - recordaremos alguns: Carneiro Ribeiro, Barão de Ramiz Galvão, Visconde do Uruguai, Barão de Macaubas, Barão Homem de Melo, João Ribeiro, Conde Carlos de Laet, Tobias Barreto, Conde de Afonso Celso, Francisco de Castro, Leal de Barros, Nina Rodrigues, José Higino. Vários, como se vê, foram enobrecidos com títulos imperiais e pontifícios de nobreza, que consagraram principal ou exclusivamente nêles, virtudes de preceptores da mocidade e de autores de livros didáticos. Dêles talvez se possa dizer que foram fíguras glorificadas pelo govêrno e pela opinião pública nurna época que sendo de economia estática tinha por pacífica, a superioridade dos humanistas e homens de ciência sôbre os homens práticos e apenas técnicos.[voltar]

5 - Em Impressões, da América Espanhola, trabalho escrito no começo dêste século e só agora - 1953 publicado no Rio, Oliveira Lima lamenta à página 89 que em Olinda sede de Seminário que classificamos de para-universitário - e por algum tempo da Escola de Direito que foi, no Brasil, com a Escola de Direito de São Paulo outro centro de estudos para-universitários pela extensão filosófica e até sociológica e antropológica dada às vêzes aos estudos jurídicos - não se tivesse conservado êsse núcleo universitário - a Escola de Diretto teatro de uma atividade literária não só considerável como sugestiva. Destaca o historiador na Escola de Direito fundada, em 1827 em Olinda uma faculdade prestigiada, a partir da fundação, por gerações de lentes reputados pelo saber e pela austeridade, e de estudantes que foram deixando nomes fulgurantes nas letras e na política e que chegou a tornar-se notável no segundo quartel do século XIX pelos hábitos e peculiaridades que nela já se estavam enraizando. Pena que tais hábitos e peculiaridades não tivessem se mantido com a continuação da Escola numa cidade como Olinda, ideal para centro de cultura e vida universitárias.

Deve-se atribuir a tendência para transferir nossos velhos centros de estudos para-universitários para cidades grandes - tendência de que escaparam até hoje, além de seminários corno o de Olinda, escolas como a de Minas, Ouro Preto -à crescente atração, entre nós dos lentes de escolas superiores, para o exercício da advocacia, da medicina, da engenharia, etc, à sombra do seu prestígio acadêmico de professores: mais do que simples doutores.. Atração que deve ser considerada consequência da substituição de uma economia estática -isto é, agrária e burocrática -- por outras, dinâmicas. Explica-se assim que para sede de um Curso Jurídico que nos seus grandes dias chegou a ser no Recife capital então do acúcar, feudalmente produzido - mais do que jurídico tenha se preferido a um pacato burgo, pitoresco e histórico, eclesiático e até monacal como Olinda, o mesmo Recife, isto é, o porto comercial em que os holandeses ~ recorda o historiador Oliveira Lima no livro citado - mais inclinados às vantagens positivas do que às bel.ezas naturais, estabeleceram o seu empério mercantil. A página 91 do mesmo livro, encarece o historiador as vantagens para as relações entre professores e alunos de cursos superiores das escolas situadas fora das capitais dispersivas: maior camaradagem entre os estudantes e maior intimidade entre lentes e alunos.

Aliás, sôbre o Seminário de Olinda e a ação que tem desempenhado na formação não só de padres como de brasileiros notáveis nas letras, na política, na magistratura, etc. que ali fizeram seus estudos secundários supondo que sua vocação fôsse a sacerdotal, prepara interessante estudo, por sugestão nossa, o snr. Haroldo Carneiro Leão, êle próprio ex-aluno do tradicional seminário.

Segundo suas próprias palavras, pretende o autor dêsse ensaio,.ainda .em preparo e que, ainda por sugestão nossa, terá por titulo Padres de Olinda e outros Padres, estudar, nesse trabalho histórico-sociológico, a formação brasileira no que se refere à influência recebida pelo Brasil do padre do padre-mestre é consequentemente, dos Serninários -especialmente do Seminkrio de Olinda. Pelo que 'Uenho estudado" - informa o pesquisador Haroldo Carneiro Leão - e deduzindo do grande número de documentos que venho reunindo de arquivos-e de bibliotecas 'nacionais, o padre do --periodo imperial foi elemento que, dentro da, ,ociedade patriarcal brasileira - a -de senhor e escravo, - e do regimen econômico - o de latifúndio v monocultura - (sociedade. e regimen posto em relevo pelo autor de Casa-Grande & Senzala), difundiu como o sacerdote desdobrado em mestre e professor, Alias, costumes, sentimentoa e inventos comuns à Europa dos séculos XVIII e XIX. Foi às vezes êsse padre-inestre eminentetnente revolucionária pela repercusado social de suas iniciativas, além de liberal no que tange às ´déias politicas. idéias politicas que no Brasil, tiveram, o padre como maior arauto. Fato a estudar com cuidado, à luz das modernas sociologias da cultura e do saber, é o processo porque atuaram aquelas idéias dos padres mais esclarecidos, relativamente à expansão dos produtos Mêcanicos e máquinas européias que as Revoluções Industrial e Comercial estimularam. Compulsando documentos daquelas épocas, encontraram-se numerosos padres que aqui foram mesTres das doutrinas politicas e sociais de Rousseau e Montesauieu, Grande nilmero de padres participaram da preparação e organização de revoluções, como a Revolução de 1792, chamada de Inconfidência Mineira. Ou a Revolução Pernambucana de 1817. E inúmeras outras de menor porte, porém de igual caracteristica.

No que se referes ao aspecto particularmente social daquelas revoluções - continua o pesquisador Haroldo, Carneiro Leão em seu esboço, ainda inédito de plano de livro, ainda em preparo - encontram-se documentos inúmeros que falam da introdução por, intermédio de padres de modalidades de educação nitidamente européia não-portuguêsa, convindo ressaltar Que a paisagem, intelectual do Pais na ocasião era luso-latinista no método e teológica na doutrina, por serem, método e doutrina êstes, ligados ao, colonismo português. Dêsse periodo duas figuras de padres mestres se destacam, pela atualidade européia de seus pensamentos: o fisiocrata Azevedo Coutinho e o * jansenista Dom Rômualdo. Na obra quo espero publicar sôbre o assunto pretendo dedicar particular atenodo ao conflito que se travon no Brasil entre o comonismo português decadente e a Revolução Paleotécnica européa, destacando a parte saliente que nêsse conflito desempenhou o padre, particularmente o padre intelectual, mestre professor. Procurarei também estudar o conteúdo das palavras, a modalidade dos hábitos e das idéias do padre que facilitaram, inconscientemente., a penetração dos produtos manufaturados do Vlho Continente, criando com isso, ambiente propicio, nessa ocasião, na sociedade brasileira em transformação de rural para urbana, a receber não sómente idéias, como também utensilios e técnicas vindas do Velho Mundo não português, o que, de certo modo, equivale a dixer não-oriental, uma vez que vários interesses portuguêses na época estavam ainda ligados ao comércio com o Oriente e de certo modo influenciados pelo Oriente. Pretendo ainda dedicar particular atenção dos relações entre padres e senhores de engenhos e fazendas, bem como entre padres e escravos.

Empenhado no preparo de tão interessante ensaio que representará valiosa contribuição para o estudo da figura do professor - inseparável, por algum tempo da do padre - no Brasil, o pesquisador Haroldo Carneiro Leão já iniciou o trabalho de coleta de documentos referentes a padres e padres-mestres, consultando MSS existentes na Biblioteca do Estado de Pernambuco e simultdneamente, durante unt. ano, no Arquivo Público do mesmo Estado. Em seguida, frequentou, no Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e o Instituto Geogriáfico e Histórico Brastleiro, consultando documentos, MSS e impressos. Ern São Paulo, frequentou simultâneamente a Biblioteca Municipal de São Paulo e a Cúria Metropolitana daquela cidade. Até o momento, já selecionou cêrca de três mil documentos entre oficios de governadores de Provincia, correspondência de bispos, Cartas Pastorals. atestados vários, Devassas de. Revoluções de que padres participaram. e outros documentos.

Para completar as posquisas necessárias à elaboração do seu ensaio. o pesquisador Haroldo Carneiro Leão concorda. conosco em que à necessário conhecer a valiosa docuntentação existe no Arquivo Secreto do Vaticano, que, sepundo, ' pode-se vêr em trabalho de especialista em outros assuntos, à grandiosa. Conforme foi informado a correspondiencia trocada entre a Nunciatura do Rio de Janeiro e a Secretaria de Estado do Vaticano equivale a uma permuta quase que diária. de relatórios e oficios que falm da vida brasileira, particularmente no que se refere a padre e vida de padre, inclusive, é evidente, assuntos relacionados com o ensino, estudos, instrução. Também noutros arquivos europeus como os france ses - cujo material referente ao Brasil acaba de ser em grande parte microfilmado graças ao snr. Roberto Assunção - os portuguêses, espanhóis, holandeses, etc. - deve existir documentação interessante pará, a história social do ensino no nosso Pais.

Outro livro em preparo, de particular interêsse para o estudo da influência e o esclarecimento da figura do professor no Brasil - sua presença na cultura e na vida nacional - é o ensaio que anuncia o médico Caldas Coni sôbre a Faculdade de Medicina da Bahia e a ação no sentido da modernização de métodos do ensino ali ministrado -ensino por algurn tempo talvez extremamente retórico - que teriam desenvolvido estrangeiros como Patterson (inglês), Wucherer (alemão) e Souza Lima (português). Sôbre o assunto o pesquisador baiano já públicou interessante nota pré'via que, a seu pedido, tivemos 0 gosto de prefaciar e na qual destaca o trabalho de renovação realização pela EsolaI de médicos que charna de Tropicalista.

Note-se que semelhante á ação dêsses três médicos tem sido a de outros estrangeiros - médicos, engenheiros, geólogos, pedagogos, geografos, etc., entre êles os engenheiros contratados na Europa no meiado do século XIX para modernizar serviços públicos na Provincia de Pernambuco, pelo Barão da Boa Vista, um dos quais, Vauthier, sem ter sido rigorosamente professor, fêz escola; os contratados no fim do século XIX para dirigir serviços públicos em Pernambuco pelo então Governador Barbosa Lima - alguns dos qui professores; os contratados para a organização e direção do hoje Museu Goeldi, no Pará os que contribuiram com o pesquisadores professores para o desenvolvimento de estudos de mineralogia e de agronomia em Minas Gerais; Mme. Heléne Antipoff, contratada, tambem, para o Estado de Minas Gerais, ande realizou obra notável; os professores mais recenternente contratados por São Paulo para suas escolas de Medicina, Engenharia, Filosofia, Sociologia e Politica, etc. Isto sem falarmos no exemplo clássico: o de mestres francesse contratados por Dom João VI para a Escola de Belas Artes que fundou no Rio de Janeiro. E as Fôrças Armadas têm sido beneficiadas entre nós na sua cultura técnica e militar por missões francesas e anglo-arnericanas, cuja ação pode ser considerada nitidamente didática.

Sôbre deficiências de ensino médico no Brasil observadas por um brasileiro de formação médica alemã, veja-se o sugestivo livro de A. Silva Melo, Ensino Médico no Brasil (Rio, 1939). Sôbre egntrastes entre o ensino de. ciências socials entre nós e nas universidades norte-americanas, veja-se o nosso 0 Ensino das Ciências Sociais norte-americanas (Recife, 1934). Note-se de passagem que as ciências socials, não incluidas nos cursos juridicos brasileiras: Antropologia, Sociologia, Psicologia Social, etc. - têm sido vitimas, particularmente inermes, de professores improvisados, pois são consideradas tão fáceis de ser assaltadas por intelectuais apenas brilhantes como a Lingua e a Literatura Espanholas.

Ainda sôbre figuras de professores brasileiros de ensino secundário, do século XTX e do atual, seus métodos de ensino, suas relações com alunos, aspectos de sua situação social, veja-se o livro que sôbre o Ginasio Pernambucano (hoje Colégio Estadual de Pernambuco), escreveu o Professor Olivio Montenegro. (Recife, 1944).

Sôbre a Academia ou Faculdade de Direito hoje do Recife (e parte da sua Universidade) e outrora de Olinda, vejam-se os estudos de Cívis Bevilaqua - História da Faculdade de Direito do Recife, 1927, Faelante da CiLmara - Memória Histórica da Faculdade do Recife (Recife, 1904) e o que a nosso pedido escreveu o Professor Odilon Nestor, estudando principalmente as figuras de professores representantivos e suas relações corn estudantes: A Faculdade de Direito do Recife: trçgos de sua história. Sôbre a Academia ou Faculdade de Direito de São Paulo, é numerosa a bibliografia. Acêrca da formação da cidade de São Paulo, acaba de anarecer notável trabalho em três volumes, por nós prefaciado, do historlador paulista Ernani Silva Bruno: Formação da Cidade de São Paulo. Consagram-se até excelentes páginas aos professores e estudantes de Direito em. suas relações corn a Cidade. Veja-se também sôbre o assunto a execelente Cultura Brasileira. do Professor Fernando de Azevedo, da Universidade de São Paulo.[voltar]

6 - Sôbre os concursos acadêmicos no Brasil, veja-se o inteligente discurso com que se empossou, em cadeira de literatura do Colégio Pedro 11, do Rio de Janeiro, o Professor Afrânio Coutinho (Rio, 1952). Acêrca de aspectos da formação de professores na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, que interessam ao estudo da situação do professor no Brasil, veja-se o recente trabalho coletivo La formation des maitres en Anglaterre, en France et aux Etats Unis, Paris 1953. Veja-se também o sugestivo capitulo Education, pelo Professor Laurence Filho, no livro Brazil, organizado pelo Professor Lawrence F. Hill, e publicado em 1947 pela Imprensa da Universidade da Califórnia.[voltar]

7 - Como expressão de nova época na vida brasileira marcada por nova idealização ou valorização de atividades, aqui reproduzimos, significativa lista de pioneiros vivos no campo das atividades que são consideradas precursoras do progresso no Brasil. São heróis de um novo tipo aos quais se atribue terem tornado realidades os ideais de sua energia criadora quebrando o circulo vicioso de uma economia estática. A lista foi recentemente publicada em várias revistas e jornais brasileiros. Os nomes nela incluidos são quase todos de lideres nas indústrias, no comércio e em atividades técnicas, embora alguns dos glorificados tenham sido professores no inicio de suas atividades como o jornalista Assis Chateaubriand e o cientista-humanista, Roquette Pinto.

Intitulada Galeria dos Pioneiros foi organizada pelos economista que redigem o boletim financeiro A Marcha dos Negócios e inclue os seguintes nomes:

A. J. Renner - Indústria no Rio Grande do Sul
Adriano José Marchini - Reorganização do I. P. T.
Afrânio Amaral - Pesquisas médico-cientificas
Aldo Mário Azevedo -- IDORT - Difusão da Racional do Trabalho
Amador Aguir - Banco Brasileiro de Descontos
Américo Emilio Romi - Máquinas agricolas
Américo Reni Gianetti - 1ª fábrica de aluminio no Brasil
Antônio José Alves de Souza - Cia. Hidroelétrica do S. Francisco
Antônio de Moura Andrade - Desbravamento, pecuário
Antonio Prado Jr. - Remodelação do R. de Janeiro - Automobilismo
Antônio Prudente - Campanha contra o câncer
Arnando Navarro Sampaio - Eucaliptocultura - Cont. da obra de N. de Andrade
Arthur Lundgren - Indústria Textil em Pernambuco
Arthur Thomas - Colonização do Norte do Paraná.
Cel. Arthur Levy - Oleoduto Santos - São Paulo
Ary Frederico Torres - Material Ferroviário
Assis Chateaubriand Imprensa - Aviação Civil - TV- Prot. à criança - Artes
Brasílio Machado Neto - Organização do SESC
General Cândido Mariano Rondon - Cons. da rêde teleg. Des brav. de sertões
Carmine Sérgio - Indústria Metalúrgica
Charles Miller - Introdução do futebol
Edgard E. de Souza - Engenharia Hidroelétrica
Edgard Roquette Pinto - Fundação da 1ª Emissora Nacional
General Edmundo Macedo Soares - Siderúrgica de Volta Redonda
Edú Chaves - Aviação
Eugênio Leuenroth - Publicidade
Euvaldo Lodi - Serviço Social da Indústria
Francisco Matarazzo Jr. - Desenvolv. do maior Conj, Industria da Am. Latina
Francisco Prestes Maia - Urbanismo
Francisco Salles Gomes Júnior - Leprologia
Francisco de Salles Vicente Azevêdo - CIESP -- Ind. Cerâmica Sanitária
Franco Zampari - Teatro - Cinema
Geremia Lunardelli - Cafeicultura
Glycon de Paiva- Política de Aproveitamento de Minérios
Guilherme da Silveira e Filhos - Reabilitação dos tecidos de algodão
Henri Sannejouand - Indústria Químico Farmacêutica
Iwar Beckman - TricuItura
Jayme Pinheiro de Ulhôa Cintra - Transportes Ferroviários
João Arnstein Arno - Motores elétricos
Prof. Jorge Americano - Fundo Universitário de Pesquisas
Jorge Saraiva - Editora Saraiva
José Ayres Netto - Instituto de Rádium - Maternidade de S. Paulo
José Ermiro de Moraes - Nitroquímica - Alumínio
José Maria Witaker - Finanças - Bancos
José Martins Passos - Maternidade São Paulo
José Olímpio - Editor
José Pessoa de Queiroz - Indústria Açucareira em Pernambuco
José da Silva Gordo - Banco Comércio & Indústria
Júlio de Mesquita Filho - Desenvolvimento d'O Estado de São Paulo
Kurt Well - Orquima
Louis Jacques Ensch - Siderúrgica Belgo Mineira.
Louis La Saigne - Cadeia de magasins
Luiz Dumont Villares Elevadores
Luiz Romero Sanson Aeroporto de Congonhas - Auto Estrada
Luiz de Simões Lopes Fundação Getúlio Vargas - DASP
Manuel de Britto - Indústria de Alimentação
Manoel Carlos Aranha - Recuperação do solo
Mário B. Audrá - Modernização da Indústria de juta
Mário Bittencourt Sampaio - Plano SALTE - Petroleiros.
Mário d' Almeida - Navegação - Finanças - Bancos
Mário Dedini - Maquinário para distilarias e usinas de açúcar
Mário Pereira Lopes- Indústria de refrigerantes
Mariano J. M. Ferraz- Vagões - Material Ferroviário
Miguel Osório de Almeida - Instituto Manguinhos
Milton de Carvalho - Crediário
Moacyr E. Alvaro - IDORT - Difusão da Racional do Trabalho
Nadir Figueiredo, - indústria de vidro
Nagib Jafet - Siderurgia
Nicolau Filizola - Balanças de Precisão
Nilo de Carvalho - Indústria de Vestuário
Numa de Oliveira - Banco Comércio & Indústria
Octavine Guinle - Copacabana Palace Hotel
Octavio Marcondes Ferraz - Cia Hidroéletrica do São Francisco
Orozimbo Roxo Loureiro - Bancos imobiliários
Orton Hoover - Aviação civil
Oscar Cordeiro -- Petróleo na Bahia
Oscar Niemeyer - Arquitetura moderna
Otales Marcordes- Cia. Editora Nacional
Paulo Machado de Carvalho - Radiofusão
Paulo de Oliveira Sampaio - Aviação Comercial Brasileira
Pedro Ometo - Máquinas industriais
Percival Farquhar -- Mineração - Finanças
Raymundo Cruz Martins - Cotonicultura
Eng. Renato Feio - Administração ferroviária
Pe. Roberto Saboia de Medeiros - Faculdade de Engenharia industrial
Sebastião Paes de Almeida - Indústria vidreira.
Sigmar Kaufmann - Renovação de métodos de cafeicultura
Theodureto de Almeida Camargo - Introd. de métedos de mecan. da lavoura
Torazo O Kamoto - Cultura do Chá
Valentim Fernande Bouças - Mecanização dos Serviços Públicos
Victor Kessler - Indústrias no Rio Grande do Sul
Walter Belian - Desenvolvimento da indústria de bebidas e conexos
Washington Luiz Pereira de Souza - Rodovia
Wolf Klabin - Celulose - Papel de Imprensa

É evidente que o Brasil já se encontra em situação semelhante á dos Estados Unidos e a de outras sociedades chamadas dernocráticas, mas na verdade também plutocráticas, caracterizadas pelo Professor P. Sorokin como sociedades em que a sucessful money maker is the great aristocrat... Social Mobility, N. Y., 1927, pg. 178.[voltar]

8 - Ainda recentemente, em artigo sôbre a defesa de tese na Sorbonne pelo Professor Paul Arbousse-Bastide, durante anos encarregado da cadeira de Sociologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo - tese em tôrno de assunto de particular interesse para o Brasil: o Positivismo político e religioso entre nós -salientou na revista Anhembi de São Paulo (n. 30, vol. X, Maio de 1953, pag. 538) e seu colaborador P. E. S. G.: Os professores estrangeiros em missão nas nossas universidades contribuem para que nossos problemas, criações e pensamento se integrem nas grandes correntes de cultura... A eles se deve em boa parte a incorporação ao movimento mundial do conhecimento de nossos negros, nossos índios, nossos problemas agrários, nossas criações políticas e romanescas, nossa história e nossos historiadores e a história de nossas idéias. Este é um aspecto da relação do professor estrangeiro com a cultura e não apenas com o ensino, no Brasil, que não deve ser esquecido.

Entretanto, convém não exagerar-se a importância, na verdade considerável, da contribuição diretamente franco-paulista ou ianque--paulista para o desenvolvimento do ensino e das atividades universitárias e de pesquisa, ciêntifica no Brasil, a ponto de serem desdenhados outras contribuições e até antecipações brasileiras como faz a mesma e ilustre revista em editorial, à página 435, do já referido número. Ai se diz que e a investigação sociológica no Brasil cientificamente orientada, não esquecendo as tentativas individuais de Oliveira Viana e Gilberto Freyre, nasceu com o Departamento de Cultura de São Paulo na sua primeira fase encerrada com o advento do Estado Novo (1935-1937), inicio a que teria se seguido a atividade da Escola de Sociologia e Política, da Faculdade de Filosofia do Museu Paulista e do Instituto de Administração, tendo se destacado naquele Departamento os Professores Davis, Bruno Rudolfer, Samuel Lowrie, Sérgio Millet e Oscar Egidio de Araújo e na FacuIdade, no Museu e no Instituto citados os Professores Fernando de Azevedo, Levi-Strauss, Paul Arbouse Bastide, Emilio Willems, Roger Bastide, Florestan Fernandes, Antônio Cândido, Donald Pierson, Herbert Baldus, Urgio Buarque de Holanda, Mário Wagner Vieira da Cunha e Alice Canabrava. Não é exata a generalização, que peca pelo excesso de favor apologético de iniciativas e atividades - na verdade admiráveis - dos paulistas: excesso de fervor, talvez, característico daquela revista. A investigação sociológica e histórico-sociológica de problemas brasileiros - inclusive o do negro, o do ameríndio, o do mestiço - teve pioneiros fora de São Paulo e anteriores ao ano que Anhembi parece considerar sagrado, de 1935: Mestre Roquette Pinto e Froes da Fonseca no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, por exemplo; e Ulisses Pernambucano, no Recife. E em época ainda mais remota, Nina Rodrigues e o seu grupo de discípulos, na Bahia: um mestre e um grupo - discípulo de Nina considerava-se Artur Ramos - aos quais dificilmente se pode negar a qualidade de cientificamente orientados e disciplinados em suas investigações sociológicas ou antroposociológicas. Além do que, a primeira cátedra de Sociologia no Brasil, acompanhada de pesquisa de campo, foi a criada pela Reforma Carneiro Leão na Escola Normal (hoje Instituto de Educação) do Estado de Pernambuco, em 1928 e que tivemos a honra de inaugurar e dirigir por dois anos, de modo não de todo anti-científico. A primeira cátedral de Antropologia Social no Brasil foi a que tivemos também a honra de inaugurar na Universidade do Distrito Federal em 1935: cátedral estabelecida por sugestão nossa e por corajosa iniciativa do Professor Anisio Teixeira. Na mesma Universidade, inauguramos e ocupamos de 1935 a 1938 a cátedral de Sociologia - parece que cientificamente orientada - que em 1936 deadobrou-se noutra, de Pesquisa Social. Tentativas, talvez, não de todo individuais, estas, a primeira das quais no remoto ano de 1928.

Sem atinar precisamente com o sentido da expressão tentativas individuais, somos obrigado a recordar que excepcionalmente nos temos empenhado, em esforços didáticos de 1928 a 1930, no Recife, em 1931, na Universidade de Stanford - onde dirigimos urn seminário sôbre sociologia histórica da escravidão no Brasil - em 1935 na Faculdade de Direito do Recife, de 1935 a 1938, na Universidade do Rio de Janeiro (Distrito Federal), em 1936 e em 1937, na Europa, em 1938, nos Estados Unidos, onde dirigimos novo Seminário sôbre Sociologia e História da Escravidão para post-graduados na Universidade de Columbia e em 1939 em cursos sistemáticos sôbre o mesmo assunto na Universidade de Michigan, para não nos referirmos a conferências em várias outras Universidades brasileiras e estrangeiras. Atividades que eram importando na iniciação de não pequeno número de estudantes e intelectuais em técnicas de investigação sociológica e antropológica de estudo histórico-sociológico do Brasil. Entre êsses iniciados, intelectuais hoje eminentes no Brasil e noutros paises.

Somos assim obrigado a opor a revista Anhembi uma retificação que em parte e deselegantemente autobiografada. Não só a essa distinta revista: também a afirmativas não de todo bem fundamentadas do médico psiquiatra Paulo Fraletti, que, em discurso de justo Iouvor ao Professor Roger Bastide, incluido no trabalho do ilustre mestre francês intitulado A Psiquiatria Social (separata dos Arquivos do Departamento de Assistência e Psicopatas do Estado de São Paulo, vol XM Jan. 1954, n. 1-2), não hesita em proclamar ter a Sociologia no Brasil se realizado sómente com a vinda do Prof. Bastide: só se realizou, contudo, com a vinda do Prof. Bastide e a criação das duas primeiras cadeiras de sociologia do Brasil, a de São Paulo, regida pelo Prof. Bastide e a do Distrito Federal. Antes disso não tinhamos sociólogos profissionais uma vez que seus cultores eram mais literatos, educadores, economistas. geograficos, filósofos, antropologistas, etc. Trata-se de uma inexatidão- o Prof. Roger Bastide não foi de modo algum responsável pela realização da moderna sociologia, no Brasil, que à sua chegada da França já era fato e não quimera, datando êsse fato, não da criação das duas cátedras referidas mas fundada. por nós em 1928 e da estabelecida na mesma época pelo Prof. Delgado de Carvalho no Pedro II, no Rio - a fundada no Recife, acompanhada de pesquisa, de campo, De modo que o início do ensino sistemático da Sociologia científica no Brasil data do funcionamento da primeira cadeira de Sociologia, modernas, estabelecida no Brasil acompanhada de pesquisa de campo (Escola Normal do Estado de Pernambuco) e já relacionada a psiquiatria através da íntima aproximação do catedrático da mesma Escola. Normal com o seu colega de Psicologia, o psiquiatra Ulisses Pernambucano. Vê-se assim que fomos nós, brasileiro de formação sistemática em Ciências Políticas e Sociais o antigo aluno de Sociologia de mestres como Giddings, de Antropologia, de Boas, e de Economia Política, de Seligmam o modesto iniciador não só do moderno ensino de Sociologia científica no Brasil acompanhado de pesquisa de campo como o ainda mais modesto pioneiro de esforços de colaboração da Sociologia com a Psiquiatria de que resultariam as primeiras manifestações de Psiquiatria Social no Brasil, voltada principalmente para o estudo de problemas étnico-sociais considerados em seus aspectos culturais e regionais. Não somos nem pretendemos ser professor; mas nem por isso renunciamos ao direito, que nos cabe, de ser incluido entre os que vêm contribuindo para a fundação no Brasil do ensino da Sociologia acompanhado de pesquisa de campo; e como antigo aluno de Franzs Boas, do da Antropologia Social e Cultural.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Em tôrno da situação do professor no Brasil. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, 1956. 28p.

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