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Assinatura de Gilberto Freyre
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A PROPÓSITO DE RELAÇÕES ENTRE RAÇAS E CULTURAS NO BRASIL


Agora que a Unesco se volta para o Brasil como país digno de interesse não só cientifico como político, em virtude de relações entre as raças - relações que veem concorrendo para a população e a cultura brasileiras se desenvolverem em ambiente de rara cordialidade - é oportuno salientar que essa cordialidade estendeu-se ao Brasil, de Portugal. É uma herança de luso e não uma invenção pura do brasileiro que entretanto alargou, estendeu, desenvolveu aquela herança.

A presença em Portugal, em número consideravel e durante longo tempo, de mouros que se revelaram, em vários aspectos da sua cultura, superiores aos nordicos ou europeus brancos, tornou difícil o desenvolvimento, entre portugueses, daquele preconceito de raça, tão forte entre outros europeus, e que se baseia na consciencia de sua superioridade de cultura técnica e material, sobre povos de côr. O que os portugueses viram no seu próprio país foi a gente mais escura de pele, isto é, a moura, a africana, a extra-europeia, superior a europeia ou à nordica no saber médico, no matemático, nas artes ou técnicas de irrigação, de agricultura, de arquitetura, de jardinagem, de higiene. E seu ideal de belesa feminina cedo foi influenciado pelo mouro, isto é, sedução da mulher de pele morena e até parda e de olhos é cabelos negros. Tal influencia neutralisou entre os lusos o culto, entre outros povos europeus, quase exclusivo, da mulher loura; a tendancia para considerar-se supremamente bela só a mulher loura, alva e de olhos claros que era tambem a angelica, a superior, isto é, a moralmente superior.

Vindo para o Brasil os portugueses traziam na sua mística sexual a impressão das " princesas mouras ", das mouras não só " encantadas " como encantadoras de cujas figuras de rara belesa ou graça sem igual, estava impregnado seu folclore, seu espírito, sua imaginação. De modo que facil lhes foi se compensarem da relativa escassez de mulheres europeias no Brasil - raras entre alguns dos primeiros grupos portugueses de povoadores ou colonisadores da América - substituindo-as com mulheres indígenas - algumas filhas de caciques ou princesas, tais como as mouras do folclore ou das lendas - ou com africanas importadas não só como escravas destinadas ao serviço doméstico ou agrário, porém tendo-se em consideração sua belesa, sua graça, sua elegancia, a até sua condição de " princesas " ou equivalentes de " princesas " nas tribus ou grupos africanos de que eram arrancadas. Explica-se assim que africanas de notavel belesa se tivessem tornado amantes e até esposas de grandes ou ricos senhores portugueses da Bahia. Costume que seria continuado por alguns senhores já nascidos no Brasil que, entretanto, foram preferindo a negras finas e de superior belesa importadas da Africa, mulatas tambem já nascidas no Brasil.

É claro que a aristocracia que se desenvolveu no Brasil sobre a base da propriedade de terras extensas de cana de açucar e de grande numero de escravos para a exploração dessas terras e serviço domestico dos senhores, foi uma aristocracia predominantemente europeia ou branca em sua cultura, em seus estilos de vida e na sua composição etnica. Nem poderia ser de outro modo, numa parte do mundo como a América do Sul, desde o seculo XVI parte de um sistema técnico, econômico e político imperialmente europeu. Era de esperar que, nessa area colonial, senhores a até os próprios dominados tendessem a imitar a cultura imperial e a parecer-se, no fisico ou na côr, com o povo imperial, que era o europeu.

Dentro, porem, dessa tendencia dominante, verificou-se, desde os primeiros tempos de colonisação do Brasil, tendencia diversa, e que chegou, às vezes, a ser quase tão forte quanto a dominante, no sentido da valorisação das raças de côr e do aproveitamento de elementos de sua cultura. Elementos que a experiencia de colonisação da América tropical foram revelando serem mais adequados a esta parte do mundo que valores intransigentemente europeus.

Saliente-se, a favor da sabedoria e da lucidez da política portuguesa no Brasil, que essa valorisação e êsse aproveitamento foram mais uma vez inteligentemente estimulados, amparados ou prestigiados pelos reis de Portugal e por seus representantes na América. Daí, documentos do século XVII que nos mostra Jesuitas da epoca, repreendidos pelo Rei de Portugal, por não quererem admitir pardos nas suas escolas para meninos ou adolescentes brasileiros.

Dentro desse ambiente e com as predisposições do português para ver em povos de côr, portadores de cultura às vezes superior à sua - como, dentro de Portugal, em fase ainda plastica de sua formação, os mouros - é que se veem desenvolvendo no Brasil uma sociedade e uma cultura caracteristicamente mestiças. Sociedade e cultura das quais descendentes de africanos e não apenas de indigenas - estes às vezes idealisados nos " verdadeiros brasileiros " - cedo se tornaram participantes, com oportunidades de expressão e de ação talvez mais amplas do que em qualquer outra sociedade ou cultura predominantemente europeia.



Fonte: FREYRE, Gilberto. A Propósito de relações entre raças e culturas no Brasil. Dakar: IFAN,1953. p. 127-128.

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