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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



O RECIFE E A REVOLUÇÃO DE 1964


Brasil Não Admite Noite Terrível Em que Só Brilham Estrêlas Sinistramente Vermelhas

Discurso de Gilberto Freyre na grande demonstração cívica de mais de duzentas mil pessoas, organizada no Recife, no dia 9 de abril de 1964, pela Cruzada Democrática Feminina, presidida por D. Maria Clara de Mello Motta e que marcou o regosijo de Pernambuco e do Nordeste com a vitória do movimento revolucionário iniciado à 31 de março pelas Fôrças Militares do Brasil, em harmônia com as aspirações cívicas dos brasileiros.

Esta Praça da Independência, que brasileiro, especialmente que brasileiro do Nordeste, que brasileiro de Pernambuco, que brasileiro do Recife a desconhece? Ela é nossa: vibrantemente nossa. Nossa nos dias comuns e nossa nos dias festivos e nos dias históricos.

Aqui nós, recifenses, brincamos os nossos melhores carnavais de rua que são aquêles sem separação de rico, de pobre, ou moreno, de louro, ou de branco, de preto ou de dominó de veludo, de fantasia de papel. Aqui, com o mesmo ânimo fraterno, temos nos reunido velhos e moços, estudantes e gente de trabalho, homens e mulheres, brasileiros de várias côres e de várias religiões, na defesa daquelas liberdades e que brasileiro nenhum digno dêsse nome renuncia, mesmo que em troca dessa renúncia nos fôsse dado de novo o próprio paraíso perdido.

Brasileiro nenhum, verdadeiramente brasileiro, pernambucano nenhum, verdadeiramente pernambucano, admite que sôbre sua pátria desça aquela noite terrível em que só brilham, num céu tornado inferno, estrêlas sinistramente vermelhas. Nós desejamos continuar independentes de qualquer imperialismo, econômico, político ou ideológico; e se sabemos ser hospitaleiros com os estranhos que vêm de suas terras para trabalhar conosco e conviver conosco, sabemos também repelir os intrusos e seus agentes que, com dólares falsos e com sorriso ainda mais falso, pretendam nos corromper, nos enganar e nos impor suas ideologias tirânicas, tão antibrasileiras quanto desumanas. Melhor seria que salvassem êles dessas tiranias suas desgraçadas pátrias, famintas tanto do pão que lhes falta como da liberdade que lhes é negada; e deixassem a nós, brasileiros, fazermos nós próprios, com tôda urgência, nossas reformas - a agrária, a universitária, a administrativa; e fazermos nós próprios nossos expurgos, isto é, expurgos de ladrões de dinheiros públicos, até há pouco instalados em cargos públicos e semi-públicos; expurgos de gatunos disfarçados, alguns dêles, em campeões de bem-estar dos pobres ou do progresso industrial do País, mas, na verdade, tão exploradores quanto os agentes comunistas da nossa excessiva boa fé e da nossa excessiva caridade.

Sei que digo palavras duras. Mas não estamos. os brasileiros que procuramos ser dignos do Brasil, empenhados em vão no grande movimento saneador e renovador iniciado a 31 de março.

Movimento que há de tornar histórico o ano de 1964 e reafirmar, na história do nosso país, a aliança profunda, nos momentos mais agudos de crises nacionais, das Fôrças Cívicas e das Fôrças Armadas. São fôrças que, nesses difíceis momentos, se completam para esforços em conjunto de salvação pública. Não estamos empenhados, nestes dias decisivos, num movimento brasileiríssimo, de renovação, como o atual, com as Fôrças Armadas, unidas às Cívicas e lideradas por soldados do valor de um Humberto Castelo Branco e de um Costa e Silva, do brio de um Justino Alves e de um Mourão, da fibra de um Dutra e de um Dennys, da firmeza de um Kruel e de Mamede, da constância de um Cordeiro e de um Nelson, da bravura de um Muricy e de um Ivan Rui; não estamos empenhados num tal movimento, turìsticamente. E escondendo verdades ásperas que precisam de ser enfrentadas em benefício do presente e do futuro do Brasil e na defesa da sua melhor tradição.

Esta Praça da Independência não tolera nem mistificações nem meias-verdades. Aqui, ao sol que ilumina êste centro cívico do Recife, é preciso que se diga dos ladrões de dinheiros públicos que são ladrões; dos agentes comunistas a serviço de estrangeiros, dentro das próprias universidades e de organizações federais como a Sudene, que são antibrasileiros repulsivos; de sub-brasileiros que gritam e até choram de horror contra os ibades mas não contra os dólares falsificados com que atrevidos comunistas chineses julgam poder corromper, subornar, desarticular a democracia brasileira, que são sub-brasileiros ainda mais repulsivos que aquêles antibrasileiros.

Praça da Independência: tu és a praça da dignidade pernambucana. Tu és a praça da defesa ao ar livre das liberdades pernambucanas, dos brios brasileiros, dos direitos humanos. Tu guardas a memória dos Demócritos e dos Elias. Tu guardas a recordação dos Aníbal Fernandes: a recordação dos clamores de jornalistas incorrutíveis. A favor de um Brasil fiel a si mesmo.

Tu vibras hoje, Praça eterna da Independência, com a multidão aqui reunida pelas admiráveis mulheres de Pernambuco, desde dias remotos tão bravas quanto os homens na defesa do que é valor brasileiro contra intrusão estrangeira. Elas estão aqui, essas mulheres de tôdas as camadas da população de Pernambuco, irmãs no civismo e iguais na dignidade, para proclamarem tanto quanto as mulheres mineiras, tanto quanto as mulheres paulistas, tanto quanto as cariocas, tanto quanto as gaúchas, tanto quantos as alagoanas, tanto quanto as cearenses, tanto quanto as paranaenses, tanto quanto as paraenses, que estão prontas para defender a independência brasileira dos seus piores inimigos de agora, armados de dólares, mas de dólares falsificados nas guitarras comunistas. Elas estão aqui prontas para defender a dignidade nacional, dos mistificadores que a vinham maculando em postos de govêrno, em institutos como o do café e em organizações como a Petrobrás; e arrancando dêsses institutos e dessas organizações dinheiro que pertence aos brasileiros, vítimas também da mais desembestada das inflações: outro ladrão, êste imenso, que nos rouba sem que a polícia nenhuma viesse se esforçando para detê-lo.

Aqui nos unimos nesta tarde inesquecível homens e mulheres, católicos e evangélicos, espiritistas e israelitas, teosofistas e ubandista, jovens e velhos, para dizermos alto e claro que temos fé em Deus e confiança no Brasil; e que guardamos aquela caridade cristã que não é senão amor em ação, para todos os brasileiros mistificados, enganados, explorados que necessitem do nosso fraterno afeto.

O Brasil dá agora ao mundo inteiro o exemplo de um singular movimento cívico em que as Fôrças militares se unem às Fôrças cívicas, com o chamado sexo frágil, o chamado belo sexo, dando ao movimento renovador conduzido por essas duas grandes fôrças, uma terceira fôrça, ainda maior que elas e que é a do espírito, completada, na mulher brasileira, pela sua ternura de mãe, de espôsa, de filha, e irmã.

Com essas três fôrças reunidas é que êste movimento de 1964, continuando a ser ação e a ser vida, já é história: todo um capítulo novo de história brasileira e, ao mesmo tempo, tôda uma vigorosa projeção cívica das gerações de hoje sôbre o futuro nacional. Os brasileiros de amanhã dirão dos hoje: êles salvaram para nós o Brasil quando mais ameaçado de deixas de ser Brasil para tornar-se nova Hungria, nova Cuba, nova e abjeta colônia de império totalitário. Aqui estamos, unidos, para dizer basta ao comunismo colonizador; ao imperialismo comunista; a todos os imperialismos; a todos os ladrões - os de liberdades brasileiras e os de dinheiros públicos; a todos os ricos, exploradores dos pobres; a todos os poderosos opressores dos fracos; a todos os mistificadores da mocidade; a todos os corrutores as cultura universitária; a todos os traidores do Brasil; a todos os traidores das religiões de amor a Deus e de amor ao próximo; a todos os sub-brasileiros indignos da caridade brasileira; a todos os antibrasileiros indignos do perdão brasileiro - uma caridade, um perdão, que, entretanto, não lhes faltará para as suas almas e para as suas vidas, embora não - isto não, mil vêzes não! - para que continuem a agir livremente contra a sua pátria e contra seus compatriotas.



Fonte: FREYRE, Gilberto. O Recife e a Revolução de 1964. Recife: [s.ed.], 1964. 11p.

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