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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



SOCIOLOGIA, PSICOLOGIA E PSIQUIATRIA


Renovando a homenagem que já prestou a Gilberto Freyre, a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro publica a magnífica conferência com que êle honrou a sessão inaugural de sua reunião de Aracajú.

O mestre da sociologia brasileira - que sempre demonstrou interesse pelos problemas da psiquiatria social, aconselhando alguns, orientando outros e animando todos os que se têm dedicado a pesquizas nesse terreno - afrontou, para apoiar a escola neuro-psiquiátrica nordestina, a incompreensão e o espírito faccioso tão fáceis de medrar nesse terreno.

Nenhum preito de admiração teria para nós a significação que tem êste e por isso mesmo a Sociedade o escolheu para retribuir tudo o que deve a Gilberto Freyre.

Sociologia, Psicologia e Psiquiatria *

Sergipe é um recanto do Brasil a que brasileiro nenhum pode ser indiferente, tão viva é a irradiação do gôsto que se especializou no sergipano pelas coisas literárias e de cultura, tão denso é o conteúdo intelectual do seu passado, tão numerosos são os nomes de filhos desta província que, nos seus dias de colônia, se chamou d'el-Rei, na história das letras do nosso país. Letras que Sergipe tem enriquecido de príncipes.

Diziam certos mapas antigos de algumas regiões quasi desconhecidas pelos cartógrafos medievais, apenas imaginadas de longe pela sua pobre mas nobre de ciência de pioneiros, que eram terras onde havia leões. A ignorância se afirmava na generalização, mas juntos com a ignorância não sei que comovido respeito pelo desconhecido. De Sergipe, o brasileiro de outro Estado, por mais ignorante que seja da geografia, da paisagem, da produção agrícola, da atividade econômica deste pequeno mas ilustre pedaço do Brasil, saberá sempre dizer, para caracterizar no mapa brasileiro a província sergipana: aqui há inteligência.

Inteligência e cultura. Cultura e dinamismo intelectual. O Brasil inteiro sabe o que é êsse dinamismo porque em todos os recantos do país se tem feito sentir a inteligência sergipana através dos seus intelectuais jovens, dos seus doutores e bachareis formados na Baía, no Recife, no Rio, dos seus moços cheios de vida e entusiasmo espalhados pela magistratura, pelo magistério, pelo funcionalismo federal e dos Estados, pela imprensa, pela medicina, pela literatura, pelo exército, pela marinha, pelo clero, pela indústria, pelo comércio. Como os cearenses e os baianos, que igualmente se encontram por todo o Brasil e como, até certo ponto, os pernambucanos, cujos Albuquerques Melos, Cavalcantis, Carneiros da Cunha, Sousas Leões, Lins, Vanderleis, Bandeiras, teem desempenhado desde o Império, nos lugares mais remotos e agrestes do país, e não apenas nos mais confortáveis e doces, cargos de magistratura, missões militares, responsabilidades na burocracia federal e dos Estados, os sergipanos teem sido e continuam a ser, com o seu ardor intelectual, com a sua constante mobilidade, com a sua atividade inter-estadual, um valiosos elemento de unidade brasileira.

Venho com Ulysses Pernambucano, meu fraternal amigo, e com seus jovens colaboradores, de uma cidade em que a irradiação de inteligência sergipana tem sido particularmente intensa: o Recife. Cidade de que ninguém sabe hoje separar nomes como o de Tobias Barreto e o de Sílvio Romero; nem, dentre os contemporâneos, figuras como a de Anibal Freire e a de Gilberto Amado. Cidade que, na sua história intelectual, é quasi tão dos sergipanos e dos cearenses, dos paraibanos e dos rio-grandenses-do-norte, dos maranhenses e dos paraenses, dos piauienses e dos alagoanos quanto dos pernambucanos; e tão do Brasil inteiro, e não apenas, de um Estado ou de uma região, como o Rio de Janeiro e a Baía, duas outras velhas metrópoles brasileiras cuja hospitalidade intelectual é uma tradição nunca interrompida. Cidade - o Recife - cujo magistério secundário e das escolas superiores, cujas responsabilidades de governo, cuja imprensa, nunca se fecharam aos talentos brasileiros de outros Estados. Cidade que nunca quís salvar sua vida ou sua economia, perdendo-se na esterilidade tristonha dos burgos que prolongam na paisagem intelectual das Americas o perfil duro e antipático das antigas cidades chinesas, que só se sentiam cidades dentro de muralhas terrivelmente inimigas do resto do mundo.

Menos que aquelas três cidades velhas do Brasil, mas igual a elas, a São Paulo e a Porto Alegre, na intensidade do seu ardor intelectual, Aracajú é outro lugar franco onde o brasileiro, seja qual for sua origem, é chamado a participar da intimidade dos seus movimentos literários e da cultura científica, com um sincero espírito de confraternização inter-estadual e um sentido exato das vantagens da cooperação entre estudiosos de vários Estados e de várias especialidades para melhor exame de problemas nacionais e humanos. Que sirva de exemplo o relêvo e a importância que o governo de Sergipe e os homens de ciência e de letras de Aracajú e do Estado inteiro souberam dar a êste Congresso, que sendo de ciência é também de estudos sociais. E estudos sociais animados por aqueles "são brasileirismo" de que falou, em página ainda hoje viva, em palavras ainda hoje quentes, o sergipano ilustre que foi Silvio Romero.

O professor Ulysses Pernambucano, a quem tanto devem já o Brasil e a medicina social do nosso país, está decerto contentíssimo. Sergipe deu à sua iniciativa de congressos de neurologia, psiquiatria e higiene mental especalizados no estudo de problemas regionais, a amplitude que ela merecia, reunindo aqui competências em especialidades diversas e de várias procedências, dentro do mais largo espírito de cooperação inter-científica e inter-estadual.

Dentro dêsse espírito, é que procurarei falar-vos hoje. O assunto que escolhi para minha comunicação ao vosso Congresso é dos que subentendem a simpatia por aqueles esforços de cooperação: cooperação entre brasileiros de vários Estados: cooperação entre cientistas de várias especialidades.

* * *

A sociologia passou aquela fase arrogante de furor imperialista ou - digo-o sem malícia - totalitário, que em vez de assegurar-lhe a corôa de rainha das Ciências, ia comprometendo sua dignidade ou condição científica. E é hoje a mais cooperativista das ciências. À pura aventura de incursões como que imperialistas pela psicologia e pelas outras ciências vizinhas, sucedeu, na sociologia, a cooperação tranquilamente metódica do sociólogo com os especialistas das demais áreas de estudos sociais.

Com os sociólogos modernos mais cientificamente orientados do que Comte, do que Spencer e Le Play, a tendência da sociologia é no sentido de tornar-se, cada vez mais, uma das ciê/ncias sociais; e não "a ciência social"; nem a ciência das ciências; nem mesmo a imperatriz das ciências sociais. Apenas uma dessas ciências, dispostas a cooperar com as outras.

Dentro de sua fase atual é que se iniciaram suas melhores relações científicas com a psicologia e, através da psicologia, com a psiquiatria, em torno de problemas comuns de desajustamento da personalidade humana ao meio, à instituição, à cultura dominante. Daí zonas de estudo de fronteiras um tanto vagas e mal definidas e que, talvez permaneçam para sempre flutuantes - a psicologia social, a psiquiatria social, a psicopatologia - nas quais o sociólogo se sente ao mesmo tempo incompleto e necessário, nunca um intruso, por um lado, nem um senhor absoluto do assunto, por outro. Por conseguinte em relações ideais para estudos de cooperação inter-científica - ou da ciência com a arte, pois a terapeutica é mais arte do que ciência - em que o ponto de vista, o método e a técnica sociológica se juntem ao ponto de vista, ao método e às técnicas do psicólogo e do psiquiatra para investigações e, quando possível, reajustamentos de personalidades ao meios. Reajustamentos que só se poderão efetuar pelo esforço em conjunto daquelas técnicas, isto é, sem sacrifício da unidade e da complexidade psiquica e social do problema visado.

Porque a personalidade humana interessa ao sociólogo não só nos seus ajustamentos como nos seus desajustamentos, no estudo dos quais importa distinguir, quanto possível, o fator eugênico, do eutênico, o cacogênico do socialmente patológico. E não preciso salientar de início, mas apenas recordar, a um grupo como êste, na sua maioria de médicos, de psiquiatras e de estudiosos de problemas sociais e de cultura, que o material psiquiátrico favorável àquela obra difícil de discernimento, material diàriamente colhido pelo clínico entre seus psicopatas, é considerável e de grande interesse sociológico. Por aquele material, a psicopatologia vai, em parte, ligar-se à fisiologia; mas outra parte atravessa a psicologia pela zona hoje denominada social para tornar-se social ela própria e aproximar-se da sociologia científica e às vezes também da reformista, conservado embora o seu caráter médico, seu interêsse particular pelo doente, pelo indivíduo, pelo sr. A. ou a Sra. B. e pela sua cura.

Não fosse o receio de parecer insinuar que a psiquiatria é uma atividade menos poderosa que outras atividades científicas ou práticas do nosso tempo e eu diria que ela é como uma Suissa entre os estudos antropológicos e sociais. Uma Suissa com seus lagos azues e profundos, seu hotéis, seus sanatórios, suas fábricas de relógios e suas oficinas de concertá-los, seu leite, seu queijo, suas vistas repousantes, umas, outras perturbadoras, de abismos contemplados do ato de montanhas grandiosas, seu alpinismo arriscado mas sedutor, toda sua vida baseada no desejo de paz, de ordem, de asseio de higiene, de tolerância mútua, de gôso, de beleza natural, de equilíbrio - principalmente de equilíbrio; mas precisando sempre de estar atenta ao perigo de ser absorvida pela influência de um dos eixos totalitários em ação entre as ciências, a filosofia e as artes modernas. Um desses eixos, ansioso para reduzir tudo que é arte - a arte médica inclusive - a ciência fisiológica ou física e química que seria a única; outro, ao contrário desdenhando de toda espécie de ciência e exaltando só a arte ou a técnica - médica ou política; ou querendo tudo absorvido pela filosofia ou pela ética.

Ora, à psiquiatria não parece convir a submissão a nenhum dêsses como que totalitarismos, mas sim a continuação do seu estado atual de arte prolongada em ciências; e ciência que se mantém em relações amigas e termos cordiais com a fisiologia e com a psicologia e não hesita em procurar a cooperação da sociologia e da etnologia nem em oferecer-lhes seus serviços. Serviços que estende também à filosofia; à ética, à jurisprudência, à estética, à administração pública e das indústrias.

O totalitarismo cientificista - cientificista, note-se bem, pois convém não confundir ciência com cientificismo - que reduziria a psiquiatria a vassalo da fisiologia, e esta à física e à química, representa a sobrevivência, em nossa época, daquele materialismo exagerado do século passado (do qual o nosso hoje sorrí) para o qual não havia ciência baseada no estudo de processos denominados epifenomenais. Estariam, portanto, condenadas, todas as relações do psiquiatra com a psiquiatria com a psicologia que transbordasse da fisiologia ou com a sociologia que transbordasse da antropologia física.

Desde Karl Pearson, porém, e do seu livro, hoje clássico, The Grammar of Science, que se acha esclarecido magnificamente o ponto, antes dele entrevisto por outros investigadores científicos e filósofos da ciência: que a ciência se caracteriza, não pela natureza dos fatos com que lida, mas pelo método por que os estuda, esse método consistindo na reunião de fatos, na classificação dos fatos reunidos e, por fim, na construção de concepções que sirvam para explicar tais fatos. Por esse esclarecimento, tornou-se evidente em filosofia das ciências a atividade, ou, pelo menos, a possibilidade, da atividade científica da psicologia ao lado da fisiologia; da atividade científica da sociologia, ao lado da antropologia física. A interpretação de dado fenômeno em termos de interação de componentes químicos, pela química, não seria mais científica - salienta Hart - do que a sua interpretação em termos de ação reflexa pela fisiologia, desde que ambas resultassem do emprego do método científico e sem que se desfizesse a possibilidade, entrevista por vários pesquizadores, dos conceitos fisiológicos de energia nervosa e ação reflexa reduzirem-se um dia a conceitos químicos e físicos. Que se reduzam. Mas que não nos deixemos levar, na psicologia e nas ciências sociais, pela macaqueação da conceituação dos fatos e da terminologia da química e da física, como si fossem a conceituação e a expressão científicas a que tôda a ciência se devesse submeter.

E quanto à psiquiatria naquela sua zona de transição de arte para ciência, que fale um psiquiatra ilustre dos nossos dias, o já citado professor Bernard Hart; o qual preocupando-se pelo desenvolvimento ciêntífico, quando possível, de sua especialidade, recomenda aos seus colegas mais novos, com igual preocupação, não se esquecerem do fato de ser o psiquiatra, médico e de ter deveres imediatos para com os pacientes: "...si falarmos de um desequilíbrio como psicogênico, não queremos dizer que uma explicação fisiológica, química ou física do mesmo, não venha a ser possível, mas apenas que dentro dos nossos conhecimentos atuais a explicação psicológica, é mais útil. Em outras palavras, a concepção psicológica de um desequilíbrio pode habilitar-nos a compreender e tratar nossos pacientes, e si o faz é boa ciência ("sound science") e boa medicina ("sound medicine"): muito melhor do que a construção de uma hipótese quasi fisiológica levantada nos ares, sem relação com fatos observados; hipótese com a qual nada se pode realizar". E, comentando o fato de serem atualmente muitos os fenômenos para os quais as concepções psicológicas oferecem a única explicação, acrescenta aquele psiquiatra, talvez demasiado pragmático para os puristas da ciência, que alguns desses fenômenos são de patologia, devendo o psicopatologista aproveitar-se do auxílio da psicologia desde que resulte da "rígida aplicação do método científico".

O mesmo estou certo de que se poderá dizer das relações do psiquiatra com a sociologia científica e até com a reformista, à qual tantas vezes deve a científica a colheita de informações e esclarecimentos valiosos e o desbravamento de zonas de observação, de estudo e de pesquisa que sem a atividade dos reformistas se tornariam inacessíveis ao experimentador ou ao pesquisador rigorosamente sociológico. Este, em zonas sociais patologicamente mais ricas de meios como o nosso, é sempre um indivíduo suspeito de mil e uma intenções extra-científicas nos seus contactos com áreas e grupos salientes pelos seus desajustamentos; e dessas suspeitas se vê livre o sociólogo reformista pelo seu caráter oficial, oficioso ou, às vezes, religioso.

É claro que sôbre os fatos obtidos, de um lado pelo sociólogo reformista e, de outro, pelo psiquiatra, nas extensões sociais e nos prolongamentos psicológicos de seus estudos clínicos de personalidades desajustadas, o sociólogo se limitará a levantar concepções científicas como que provisórias, necessitadas de confirmação. Essa necessidade de confirmação do individual pelo social, do "anormal" pelo "normal", experimenta-a também, decerto, o psiquiatra, ao levantar hipóteses para a explicação e possível solução de casos individuais de sua clinica, suscetíveis de serem confirmadas pelo estudo do geral e do "normal", de que o particular e patológico seriam expressões exageradas. Afinal - e empregando a terminologia tipográfica familiar a todos que já se entregaram à revisão de provas de livro ou de jornal - o objeto de estudo do psiquiatra não é sinão o do sociólogo e o do psicólogo composto em itálico ou em negrita.

De tais relações entre psiquiatras e sociólogos, entre psicopatologistas e etnólogos, entre psicoanalistas e psicólogos, desenvolveu-se na etnologia, na sociologia e na psicologia social moderna, por influência da psicanálise, novo e vigoroso estudo de mitos e de material folclórico correlato. Estudo em que mais de um psiquiatra vê a exemplificação à grande, em criações humanas, sociais e macissas, de progressos observados no indivíduo pela psicanálise, não faltando para prestigiar essa busca ou procura de confirmação do individual pelo social, estudos de antropologistas como W. H. R. Rivers: o seu Dreams and Primitive Culture, por exemplo. Ou como o professor Bronislaw Malinowski, que na moderna antropologia social representa com ampla autoridade o ponto de vista chamado "funcionalista".

Procurando ampliar o critério psicoanalítico ao exame de relações de família entre primitivos, pôde Malinowski, como resultado de exaustiva pesquisa regional, levantar objeção tão forte à universidade de teoria de repressões de Freud, que esta se encontra hoje sem a integral confirmação sociológica desejada pelos seus adeptos. É que o antropologista da Universidade de Londres chegou à conclusão, depois de estudo pachorrento entre os primitivos de uma comunidade matrilinear de Trobriand, que ali o sentimento contra o pai se tornaria complexo avuncular, isto é, contra o tio materno e não contra o pai. Donde o comentário de outro etnólogo moderno, Robert Lowie, de ter Malinowski aberto o caminho para o estudo de possível correlação entre o tipo de instituição e seus concomitantes psiquiátricos. Correlação que, estabelecida, viria em apoio dos que desejam a intensificação das pesquisas de campo, regionais, ecológicas, antes das generalizações sociológicas, antropológicas, etnológicas, psicológicas.

Dessa correlação vamos encontrar um esbôço interessantíssimo, do ponto de vista talvez mais compreensivo que o de Malinowski, no estudo - baseado igualmente em pesquisas de campo - da professora Ruth Benedict, da Universidade de Columbia - universidade que se tornou, com Franz Boas, um dos centros mais vivos de pesquisa antropológica nos nossos dias - sôbre tipos psicológicos de culturas primitivas. Estudo incluido no livro Patterns of Culture (n. Y. 1935). Nele Ruth Benedict, segundo os críticos mais autorizados em questões de etnologia, transcende quando se tem feito no sentido de estudar antropologica ou sociologicamente culturas na sua totalidade e de fixar-lhes as peculiaridades estilísticas em termos psicológicos. Esses termos psicológicos - os gerais - Benedict foi buscá-los não na psicologia convencional, mas de um franco-atirador, êle próprio um caso psicopatológico: Nietzsche. São bem expressivos os termos que, nos trabalhos de Ruth Benedict, vêm dar moderno significado científico à velha e conhecida antítese do escritor alemão: apolineo e dionisíaco. O primeiro aplicado à caracterização psico-social de povos como os Pueblos, os quais, segundo a antropologista da Universidade de Columbia, institucionalizam - o neologismo se impõe - a sobriedade e a continência no comportamento, enquanto os dionisíacos, ao contrário, favorecem o abandono e os excessos emotivos nas dansas, nos ritos, nos discursos, nos cantos, no comportamento em geral. Dentro de configurações psicológicas tão diversas de culturas, vê-se que mesmo de um grupo para outro, dos chamados primitivos (e, portanto, menos complexos que os civilizados), varia consideravelmente o critério de normalidade; e, dentro desse critério, o ajustamento da personalidade ao meio, de que ela é, ao mesmo tempo, fator e produto mais ou menos perfeito, e mais ou menos dependendo - ou parecendo depender - do equipamento biológico do indivíduo. Excluidos, é claro, contactos com meios exóticos perturbadores da integração do mesmo indivíduo no meio nativo e ancestral.

Seligman já destacou o fato de nas sociedades chamadas primitivas serem investidas de prestígio, pessôas que nas nossas sociedades seriam internadas em hospícios. E a propósito dos antecedentes ameríndios da nossa cultura, tive ocasião de salientar, em trabalho publicado já há vários anos, antes de divulgado ou realizado o estudo de Ruth Benedict sôbre apolíneos e dionisíacos, que, entre algumas das sociedades indígenas da América - inclusive do Brasil - eram cercadas de respeito personalidades de introvertidos, que por desajustamento às funções consideradas normais de sexo e idade - a caça e a guerra para os homens jovens, por exemplo - seriam, noutras sociedades, punidas ou ridicularizadas. E no mesmo trabalho, procurei pôr em relevo contrastes de comportamento entre populações do Brasil luso-áfrico-ameríndio: umas de composição mais colorida pelo sangue e pelas culturas ameríndias; outras de composição mais acentuadamente africana ou européia.

Contrastes que hoje poderiamos classificar, com Ruth Benedict, como sendo do tipo psicológico, apolíneo de cultura com o tipo dionisíaco. Neste se afastaria da normalidade desejada, aprovada, consagrada, aplaudida, precisamente o indivíduo que na sociedade de tipo apolíneo seria considerado o gentleman perfeito, sem um gesto demais nem uma palavra supérflua.

Destaque-se um exemplo ilustre e brasileiro. Com ou sem Os Sertões, Euclides da Cunha, calado, retraido, desconfiado, introvertido, ascético em várias de suas tendências, inimigo dos bons pratos, das boas sobremesas, dos jantares alegres, facilmente se teria tornado um alto valor entre paulistas velhos ou entre missioneiros do Rio Grande do Sul. Mas na Baía - aliás a terra de seu pai - duvido muito que, sem ter produzido Os Sertões - ou o seu equivalente - Euclides viesse a impor-se à admiração entusiastica e à estima verdadeiramente cordial de uma sociedade das disposições dionisíacas dos baianos, mais inclinados a se reverem na "normalidade"; expansiva, cordial, alegre de um Castro Alves, de um Cotegipe, de um Leão Veloso, de um José Marcelino, de um dr. J. J. Seabra,do que na "anormalidade" de um homem calado e fechado consigo mesmo. Outro exemplo ilustre: o professor Oliveira Salazar - sisudo, virgem, retraido, a negação do "portuguezinho valente" no amor, na devoção pela bacalhoada, pelo foguete, pelo discurso inflamado, é hoje respeitado, mas não amado nem mesmo estimado em Portugal, cujo povo é antes dionisíaco que apolíneo. Apolíneo será o castelhano de "Castella la vieja", mas não o hispano em geral. Não o andaluz, nem o galeg4o, nem o português.

No Rio Grande do Sul, é considerável - como já tive ocasião de escrever - o contraste no comportamento das populações das áreas diversas: o gaúcho de Uruguaiana, e, ainda mais, o de Livramento, é quasi a negação do da área missioneira, que seria o sociologicamente apolíneo no sentido da classificação de Ruth Benedict. E conhecendo-se aquelas áreas, parece-nos de todo natural que a primeira tenha encontrado seu heroi político no sr. Batista Lusardo, a segunda no sr. Flores da Cunha e a área missioneira no Presidente Getúlio Vargas, expressão do tipo apolíneio da sua acepção moderna psicológica e social, embora com mais de um traço dionisíaco: o do seu sorriso, por exemplo. Sorriso que deve estender-se aos que o supõem ou o proclamam mineiro, quando ninguém é mais do que êle de sua área, pela inteligência concentrada, vigilante e aguda de missioneiro.

Como resultado de observações feitas naquelas áreas, em rápida excursão, no começo deste ano, ao Rio Grande do Sul e a Santa Catarina, sugeri, em artigo publicado no Correio da Manhã, a importância do estudo sociológico das dansas brasileiras de Carnaval - expressões fortes e livres do que a normalidade quotidiana nos deixa apenas entrever - como um dos meios de possível caracterização da geografia psicológico-social do Brasil: da sua divisão em regiões, por sua vez sub-divididas em áreas ou configurações de cultura, que seriam de valor científico e, me atrevo a dizer, de interêsse prático, para orientação não só da psicologia a serviço da educação e da orientação profissional, mas de psiquiatras e administradores, industriais e comerciantes.

Ao psiquiatra moderno - si bem o interpreto - interessa, em primeiro lugar na personalidade desajustada ou exacerbada - além, é claro, do desequilbrio ou deficiência de temperamento ou de constituição - não a relação da personalidade com uma vaga normalidade universal, que seria, de um modo antes acadêmico do que real, a mesma para todos, mas com a normalidade regional e particular em que se formou aquela personalidade que condicionou suas expressões, estabeleceu seus estilos de vida e de comportamento e dentro da qual a mesma personalidade vive e age.

Para o psiquiatra moderno - si bem o compreendo através dos Harts e dos Plants e, entre nós, dos Ulysses Pernambucanos e dos Artur Ramos - o paciente hospitalizado ou não, não é de modo nenhum um ser de quem se possa cuidar na ignorância do seu meio, de seus antecedentes de família e de grupo, de sua situação de cultura e social. Nada mais interessante do que a reunião de dados que ofereçam da personalidade desajustada a história das influências sociais e culturais que teriam agido mais fortemente sôbre sua formação ou deformação, umas de modo geral, outras de modo particular, provocando na mesma personalidade reações que teriam tomada carater mais ou menos intensamente mórbido ou patológico, de acôrdo com a relação da constituição ou o temperamento do indivíduo com a cultura regional.

Talvez um dia o psiquiatra, baseado em caracterizações das áreas de um país, e dentro de um país, das regiões, cidades, bairros, venha a poder fazer com adultos desajustados o que já se faz hoje com crianças das chamadas difíceis, isto é, favorecer a reintegração de suas personalidades à normalidade social, pela sua transferência de uma normalidade social a outra - si se pode assim dizer - de um ambiente a outro, de áreas urbanas a rurais, de orfanatos a casas de família ou de casas de família a comunidades escolares. Conheci no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, perfeitamente integrados em comunidades novas e de vida mais esportiva do que intelectual, nortistas saidos de áreas de estilo de vida por assim dizer burocráticos e intelectuais, numa das quais pelo menos um deles fôra tido por anormal; e outros por "meninos sem futuro" e, por conseguinte, com uma nota patológica ou uma antecipação de desajustamento a acinzentar-lhes a meninice e a adolescência.

Parece ter passado, para a psiquiatria, o tempo em que o psiquiatra se preocupava, no dizer de Plant, com a estrutura do indivíduo in vácuo. A tendência do psiquiatria é hoje no sentido de preocupar-se com o meio do doente; por conseguinte com sua estrutura social, e esta, em termos regionais; urbanos ou rurais de área; patriarcais ou particularistas, de tipo de família; religiosos, folclóricos, pedagógicos, econômicos, de formação. E ainda econômicos, de profissão. Econômicos e psicológicos. Como acentua ainda Plant, do ponto de vista do psiquiatra, pouco se conseguirá no sentido terapêutico-social sem se considerar a personalidade a "síntese dramatizada da estrutura social inteira".

Concilia-se êsse ponto de vista que o diretor da Clínica Juvenil de Essex exprime de modo vigoroso no livro Personality and the Cultural Pattern, com o da sociologia; e antes, com o da psicologia social - no caso, ciência pontifical, de ligação da sociologia com a psiquiatria. Para a psicologia social, o tema central de estudo é aquele processo de construção da personalidade a que se refere o Professor Kimball Young. É um estudo, o da psicologia social, baseado, sôbre os dados que ao psicólogo social oferece a psicologia fisiológica quanto aos motivos chamados "originais" de conduta humana, tais como as necessidades de alimento, de companhia, de sobrevivência. À sociologia interessa aquele processo de construção de personalidade, assim como - acrescente-se - o de desintegração da mesma personalidade, que nos seus aspectos mais dramáticos vai interessar de modo especial ao psiquiatra social. Apenas o ponto de vista em que se coloca o sociólogo é menos o da personalidade que o da cultura ou grupo que a integra e na qual, por sua vez, ela se integra com maior ou menor sucesso.

Vê-se claramente, daí que às três - a psiquiatria social, a psicologia social e a sociologia - preocupa no estudo do homem ou da antropologia, a "estrutura social". Estrutura menos ou mais dramatizada pela sintese que é a personalidade. Desta, a correspondência com a "normalidade" resulta, em grande parte, da correspondência de seu equipamento biológico e de sua formação social com as instituições e a cultura dominante na área, na região, e na época de sua atuação. Uma conclusão relativista. Mas com o seu relativismo, uma conclusão que abre perspectivas novas de planificação social; um mundo de relações possivelmente mais harmoniosas e saudáveis entre a pessoa humana e as instituições.

Estamos, ao que parece, no fim de uma civilização cuja deficiência mais trágica foi e, até certo ponto é ainda, esta: que é uma civilização em que "o lugar de cada indivíduo na ordem geral de coisas se baseia no que êle contribue para a ordem econômica". Para reorganizar semelhante civilização há quem deseje uma planificação de vida ainda mais econômica, em novos termos de contribuição e submissão do indivíduo ao Estado que se tornaria o centro do sistema social. Emenda que provavelmente resultaria peor do que o soneto, esquecida, a personalidade humana pela instituição nova que a traumatizaria a seu jeito e com mais intensidade, talvez, que na idade média, a tão caluniada organização européia inspirada pela Igreja. Organização sob vários aspectos tão interessante e criadora, tão rica de gênios, em alguns dos quais explodiram um tanto mòrbitamente energias contidas e às vezes machucadas com violência pelo poder teocrático, estilizador de quasi todos os gestos do indivíduo e de quasi todas as peças do seu vestuário; mas por outro lado - e como já notou Jacques Maritain - organização pluralista, manifestando-se êsse pluralismo na multiplicidade e na diversidade do direito consuetudinário da época.

Para o sociólogo, para o psicólogo social, para o psiquiatra social moderno - todos êles, uma vez por outra, entregues a namoros nem sempre platônicos com a filosofia social e até com a arte política - a planificação de vida se apresenta como desejável mas dentro - é opinião de muitos - do respeito pela personalidade humana; enquanto alguns vão mais longe e desejam ver a personalidade o ponto de referência de nova ordem de coisas. Mas a personalidade, é claro, sociològicamente considerada, isto é, em suas relações vivas, constantes, dinâmicas com a cultura sôbre que ela exerce influência e que é por ela influenciada.

Pelos psiquiatras sociais com preocupações filosóficas de planificação social, que fale ainda uma vez James Plant. É dele o conceito de que para semelhante planificação, (que começaria exercendo-se no sentido de abrandar-se a pressão do ambiente sôbre o indivíduo) seria preciso ver na conduta dos indivíduos, principalmente das crianças, sintomas: os sintomas de pressões traumatizantes. E diante desses sintomas - que em muitos casos seriam, como a febre, sinais de reação do corpo normal contra condições anormais - fazer obra de prevenção. Em outras palavras: de higiene mental. Prevenção de igual interêsse para a sociologia aplicada, para a psicologia social e para a psiquiatria.

Os modernos estudos de culturas chamadas primitivas - estudos científicos de etnólogos, de psicólogos, de sociólogos, de antropologistas, de psiquiatras, em que se prolongam as antigas observações, aliás, em vários casos, interessantes e até profundas, de missionários e viajantes - vão colocando diante do psiquiatra clínico, material fortemente sugestivo. O professor Faris, por exemplo, trouxe do seu recente estudo da cultura Bantu, esta revelação: não ter encontrado entre esses africanos caso nenhum de esquizofrenia e psicose maníaco-depressiva, mas apenas formas esteriotipadas de histeria entre mulheres e de manias em conseqüência de infecções. Concluiu que aqueles casos, mesmo que ocorram, são raríssimos. E não resistiu à tentação de insinuar uma interpretação que, confirmada, nos levaria a vastas possibilidades no sentido da planificação social a que me referi há pouco. A interpretação esboçada - esboçada apenas, porque a verdadeira ciência bem sabeis que é humilde, ficando a ênfase para a meia-ciência - é simplesmente esta: que aquela ausência de casos de esquizofrenia e de psicose maníaco-depressiva entre os Bantu talvez se ligue ao fato psicológico-social e sociológico de serem eles pré-individualistas. Portanto, sem as competições agudas, os sentimentos de inferioridade, os mecanismos de projeção e referência, as ilusões de perseguição da nossa organização social. "O Bantu - informa Faris - tem sempre amigos. Impossível, para êle, conceber um homem a mendigar comida, pela rua, de extranhos". A interpretação sociológica do fato - repita-se - nos leva à possibilidade de estabelecer-se uma correlação tal entre a personalidade e a cultura, que a personalidade não seja um martir da cultura.

Não nos deve inquietar o receio de, adaptando o mais possível as instituições à personalidade humana, perdermos os indivíduos de gênio que seriam quasi sempre uns desajustados e uns anormais. Ainda há pouco, um jornalista brasileiro de talento, o sr. Gondim da Fonseca, recordou-nos, em páginas curiosíssimas sôbre Santos Dumont - que foi um desajustado do meio brasileiro e tornou-se, no outono da vida, um desajustado de sua época, a qual não parou no conjunto especialíssimo de circunstâncias favoráveis ao narcisismo daquele grande inventor nosso compatriota - as palavras, de largo efeito jornalístico, de um psiquiatra norte-americano para quem tudo que é obra notável tem sido criação de neuróticos. Exagero, decerto. Mas nem os psiquiatras, nem os psicólogos, nem os sociólogos, nem mesmo os quasi todo-poderosos endocrinologistas e eugenistas - nenhum deles de per si, nem todos reunidos - parecem ser deuses que possam acabar de todo com os desajustamentos entre as instituições e as personalidades humanas, isto é, aquelas personalidades mais intensas em suas especializações de imaginação, inteligência ou sensibilidade, muitas vezes pouco favorecidas ou mesmo contrariadas pelas cristalizações de interesses de ordem econômica, ética e estética do meio particular em que atuem; ou mesmo do universal.

Tudo indica, porém, que na defesa das personalidades menos intensas em qualquer daquelas especializações - e que são o grande número - a ciência social, ligada à arte política corajosamente reconstrutora, poderá reduzir à insignificância as pressões traumatizantes das instituições ou das culturas dominadas por interesses de minorias - na nossa civilização, pelo menos, predominantemente econômicos, de classes artificialmente desenvolvidas e mantidas à sombra de privilégios de família, de monopólios, de trusts, de mitos de raças superiores. E é possível, ainda, que reduzida a importância, atualmente enorme, das causas sociais de desajustamento de personalidades intensas ao meio, aumente o número dos indivíduos de gênio saudáveis, harmoniosos, equilibrados, do tipo de Goethe e Robert Browning; e diminua o dos Poe, o dos Baudelaire, o dos Raul Pompeia.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Sociologia, psicologia e psiquiatria. Recife: Officinas do Diário da Manhã, 1941. 18p.

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