SUGESTÕES PARA O ESTUDO HISTÓRICO-SOCIAL DO SOBRADO NO RIO GRANDE DO SUL
Os sobrados que tive ocasião de ver, no comêço dêste ano, no Rio Grande do Sul, nas cidades mais antigas e mais cheias de traços da colonização açoriana - Rio Pardo, Viamão, Pelotas, Rio Grande, Pôrto Alegre - estão entre aquêles elementos da paisagem cultural brasileira que pouco ou nada variam de Norte a Sul; e que constituem o unitarismo ou unanimismo da mesma paisagem. Unitarismo ou unanimismo que se impõe ao olhar do observador ao lado do pluralismo, êste em conseqüência já das formas diversas de vida e de cultura por que o elemento português adaptou-se às várias regiões da América por êle colonizadas, já das predominâncias, também diversas, de região para região, de outros elementos colonizadores ( ou postos a serviço da colonização do Brasil) e das culturas encarnadas pela sua inércia ou pelo seu dinamismo social: o elemento indígena, o africano, o italiano, o alemão, o polonês, o japonês, para só falar nos de maior importância.
Estou certo de que um estudo mais demorado do assunto, acêrca do qual quase me limito aqui a falar como puro impressionista, revelará, sob a aparência de unitarismo absoluto, variação regional nos tipos de sobrados de origem portuguêsa das várias regiões brasileiras. Revelará, na extremadura brasileira do Sul, predominância de traços de técnica e de sociologia de habitação nobre das cidades - o sobrado - peculiares a esta área ou região. Mas tanto a impressão que guardo dos muitos sobrados vistos no extremo meridional do Brasil, como o exame de fotografias que consegui reunir de casas de um e dois andares, ou simplesmente assombrados, de cidades e vilas do Rio Grande do Sul, indicam que tais peculiaridades são mínimas, sendo mais numerosas e evidentes as semelhanças dos sobrados do Sul com os sobrados do Norte e das demais regiões brasileiras em que êsse tipo de arquitetura floresceu com característicos nítidamente portuguêses.
Não desprezemos, porém, tais peculiaridades. Elas se filiam: umas, a especializações de arquitetura lusitana de casas desenvolvidas na principal região de origem dos colonizadores portuguêses de Rio Grande do Sul - os Açôres, e por êles, colonizadores, trazidos ao Brasil. Outras, a necessidade de adaptação daquele tipos de casa a um clima mais áspero, no inverno, do que os de outras regiões brasileiras e, talvez - quanto aos ventos - do que o dos próprios Açôres. Ainda outras, a possíveis influências - naturais nas extremaduras - da arquitetura e de arte decorativa de povos vizinhos.
Nota-se mais aqui do que nos sobrados mais antigos do Norte do Brasil, o uso da vidraça, da chamada guilhotina e creio que também da clarabóia. Uso também maior em São Paulo, no próprio Rio de Janeiro e em Minas-Gerais do que Norte colonial. Êste podendo, pelos seus recursos nos tempos áureos do açúcar, ter-se dado ao luxo dos vidros nos sobrados, parece ter encontrado nas condições regionais de clima, de fôrça de ventos e de luminosidade, condições favoráveis a um emprêgo maior e mais artístico dos abaleoados, da rótula, da porta e da janela de xadrez. Reminiscências mouriscas da arquitetura portuguêsa que parecem ter tido no Norte sua expressão brasileira de qualidades artísticas mais acentuadas.
Por outro lado, no Sul - inclusive no Rio Grande do Sul - tudo nos leva a crer que a arte da vidraça em madeira ornamentada ou do caixilho teve a sua expressão artística mais rica, merecendo por si só um estudo paciente. Estudo que, acompanhado de minuciosa documentação fotográfica, colocaria sob os nossos olhos uma variedade de rendilhados de madeira utilizados como caixilhos de vidraças de janelas e de portas. A gentileza do sr. Deusino Varela me permite prestar a estas notas algumas fotografias de vidraças de sobrados antigos do Rio Grande do Sul, alguns já desaparecidos. .
Dada a predominância do elemento açoriano na colonização portuguêsa desta parte do Brasil, é evidente que o estudo histórico-social da casa rio-grandense do Sul terá que se estender aos antecedentes açorianos dos tipos de construção doméstica. E êsse estudo, quanto mais de perto fôr feito, melhor. Não deve estar longe para o Rio Grande do Sul o dia de enviar aos Açôres uma comissão de pesquisadores das origens açorianas da população rio-grandense do sul, da sua cultura, do seu folclore, da sua arquitetura tradicional. Uma comissão cuja pesquisas completem e ampliem, com material não só histórico como etnográfico e sociológico, colhido nas ilhas, os estudos de arquivos de ilustres estudiosos da formação desta parte do Brasil, dos quais me limitarei a recordar os do general Borges Forte, os de Aurélio Pôrto, Alfredo Varela, Souza Docca, Alfredo F. Rodrigues, Graciano Azambuja e o velho Coruja. E um dos pontos de história social e, se possível, de sociologia genética, que necessitam daquelas pesquisas de campo, nas próprias ilhas, para o seu amplo esclarecimento e a sua exata interpretação, é precisamente o estudo da casa. Dentro do estudo da casa, o estudo do sobrado.
Ainda que pelo depoimento de um mestre de pesquisa de campo que todos respeitamos, portuguêses e brasileiros - Leite de Vasconcelos - os Açôres não se apresentem ao estudioso de arquitetura com edifícios grandiosos, não lhe faltam sobrados antigos, e com êstes é que seria interessante estabelecer as semelhanças com o tipo mais nobre de habitação urbana que se desenvolveu no Rio Grande do Sul colonial e do tempo de Império, por influência, a princípio direta, da colonização açoriana.
Além das notas - aliás escassas - divulgadas sôbre o assunto pelo diretor do Museu de Lisboa e das ilustrações de casas que as acompanham, no meio da valiosa documentação reunida nas ilhas por aquêle incansável pesquisador português e publicada, em parte, no seu "conspecto de etnografia açoriana" sob o título de Mês de Sonho ( ilustrações que incluem uma casa assombradada de escada exterior e porta de postigo envidraçado e outras, também assombradada, de sacada de rótula e porta de entrada com bandeira) existe o trabalho sôbre a arquitetura regional das ilhas que o próprio Leite de Vasconcelos salienta como meritório; o de Leite de Ataíde, publicado em 1820. Por êste trabalho e por aquelas notas, poderia orientar-se o investigador que se dedicasse, nas próprias ilhas, ao estudo daquele tipo de arquitetura mais urbana que rural - o sobrado - do ponto de vista rio-grandense do Sul. Isto é, procurando na região materna os traços de semelhança com o sobrado rio-grandense do Sul, para daí se estabelecer com segurança a diferenciação sofrida por aquêle tipo açoriano de casa nobre, nesta parte do Brasil.
Em trabalho recente - "O português de Açores na consolidação moral do domínio lusitano no extremo sul do Brasil"(Pôrto Alegre, 1940), um dos mais esclarecidos pesquisadores do passado sul-rio-grandense, o sr. Dante de Laytano, salienta que no Rio Grande do Sul "a construção das casas está cheia de influência açoriana" (pág.13;: mas sem precisar essa influência. Justamente êsse é o trabalho que se impõe aos modernos estudiosos da formação social brasileira: o de precisar a intensidade e a extensão, quanto às regiões brasileiras consideradas no seu aspecto literalmente ecológico, de influências portuguêsas diversas pela sua procedência regional. No caso do Rio Grande do Sul, a influência portuguêsa dos dias decisivos de colonização e de fixação da paisagem cultural se apresenta quase massiçamente açoriana; e tudo nos leva a crer que no estudo do sobrado, o particular confirmará o geral. Mas é um estudo que precisa de ser feito cuidadosamente, aqui como noutras regiões brasileiras, para se estabelecer definitivamente a diferenciação regional de elemento tão importante de caracterização da fisionomia da nossa cultura ou, como dizem alguns estudiosos alemães do assunto, do "ritimo da paisagem", como a casa ou o sobrado. Isto é, da paisagem em que a cultura modifica a natureza, harmonizando-se com ela ou sacrificando-a aos artifícios dos valôres transplantados.
No caso do sobrado português parece ter sido geral, na transplantação dêsse tipo de casa nobre para o Rio Grande do Sul, o desaparecimento da chaminé grande. O que nem sempre terá correspondido às exigências da adaptação ao clima e de confôrto doméstico. Mas a verdade é que tal simplificação vinha já se processando nas ilhas e no próprio Portugal da Europa, onde a chaminé de origem francesa e de introdução relativamente recente na paisagem portuguêsa - segundo Leite de Vasconcelos - nunca se integra de todo na mesma paisagem, permanecendo uma espécie de intruso em país de alguns dias frios, é certo, mas poucos em relação aos de sol quase africano e principalmente aos de temperatura doce. Aqui entra o elemento psicológico para nos sugerir que já se ia fazendo sentir no próprio Portugal aquela tendência simplificadora da casa, no sentido da eliminação da chaminé, não era de esperar seu aparecimento entre os casais de povoadores do Rio Grande do Sul, nem entre seus descendentes imediatos que primeiro puderam dar-se ao luxo de levantar casas assobradadas, com expressão de sedentariedade urbana, de proliferação patriarcal e de prosperidade. Pois as evidências parecem tôdas indicar que eram casais com hábitos de poupança e sobriedade - traços destacados por vários estudiosos da história social desta parte do Brasil e última e notadamente pelo sr. Dante Laytano. Também que eram pioneiros intrépidos, e um tanto desdenhoso do confôrto amolecedor. Gente a quem o frio do Rio Grande, impondo resguardos na habitação e no vestir, não parece, entretanto, ter imposto os cuidados extremos e dispendiosos que a construção de chaminés nos sobrados tería significado.
Pelas notas de viagem do etnógrafo Leite de Vasconcelos aos Açôres - viagem rápida mas na qual o experimentado pesquisador recolheu, em poucos dias dados tão interessantes sôbre o arquipélago - pelos desenhos que acompanham seus trabalhos e os de Leite de Ataíde sôbre a casa açoriana, verifica-se a predominância, nos ângulos de telhado, da chamada pombinha encontrada também em certas áreas do Portugal europeu. Predominância que seria um dos característicos de telhado de casa antiga, assombradada, ou não, do Rio Grande do Sul, isto é, das suas áreas da colonização açoriana. A propósito dêsse característico de casa açoriana, generalizado, talvez, nas casas antigas desta parte do Brasil com o próprio nome de pombinha, Leite de Vasconcelos lembra, no seu citado Mês de Sonho, os ante-fixos dos romanos, "destinados na origem a afastar das casas a ação maléfica de sêres sobrenaturais" e os monstros "postos em ângulos de casas, na Índia e na China, para evitar fascinação".
Aqui tocamos no que se pode denominar a profilaxia da casa, não só contra inimigos considerados naturais, do homem e da sua sedentariedade doméstica, mas tidos por sobrenaturais. É um aspecto de considerável interêsse - e não de simples curiosidade artística ou de puro sabor pitoresco - para a história social do sobrado sul-rio-grandense, dentro do método por que já se tentou esboçar essa história com relação à casa-grande dos engenhos do açúcar e da chácara e do sobrado das cidades e sítios, característicos das áreas mais sedentárias do Brasil nos dias de patriarcalismo escravocrata. Método empregado recentemente pelo sr. Miran de Barros Latif e pelo sr. Augusto de Lima Júnior nos interessantes estudos sôbre a casa colonial mineira.
Como noutras áreas brasileiras, na rio-grandense do Sul, de colonização açoriana, deve-se ter conservado ou se desenvolvido, em volta da casa, em geral, e do sobrado, em particular, muita superstição portuguêsa e até mourisca e oriental, de caráter profilático, no sentido do resguardo da casa e da felicidade doméstica representada pela casa. Não só a casa assobradada como a casa térrea. Será interessantíssimo anotar quanto exista a êsse respeito para confronto com o material açoriano e com o de outras áreas brasileiras e portuguêsas. As sobrevivências e especializações profiláticas em tôrno da casa e, particularmente, do sobrado, e da vida estável da família, das suas relações com a água, os ventos, a vegetação, os animais peculiares à área rio-grandense do Sul, as epidemias e doenças aqui predominantes no período colonial e nos tempos do Império, terão sua importância, e grande, para esclarecer pontos interessantes da história e da economia do patriarcalismo nesta parte do Brasil; de sua sociologia e de sua psicologia. Não é em vão que um vento forte destas paragens de chama irônicamente " carpinteiro"; um vento que enche as areias de vigas e tábuas arrancadas às cas as.
A importância psicológica dos estudos brasileiros sôbre a casa-grande e o sobrado, que foram as duas grandes expressões arquitetônicas do patriarcalismo escravocrata no nosso país, como sugeri em trabalhos publicados em 1933 e 1936, foi posta em relêvo, em trabalho recente, por um especialista em questões de psicologia, interessado principalmente em salientar a influência daqueles tipos de casa sôbre a criança brasileira. Escreveu êsse ilustre especialista que nas habitações de tipo patriarcal do Brasil, as impressões da casa sôbre a criança devem ter se convertido em "fatôres de extraordinária importância". O que já se tentara esboçar naqueles ensaios de sociologia genética. Que fale, porém, o especialista em assuntos de psicologia, cujas palavras autorizadas interessam a quem se proponha estudar com minúcia a história social do sobrado antigo no Rio Grande do Sul. Diz êle referindo-se à criança: "Salas e quartos e corredores, a cozinha, a despensa, o alpendre, a puxada, o sótão, a saleta, tudo, tudo ficará para sempre ligado à sua vida. O quarto escuro! O mêdo angustioso do quarto escuro, povoado de duendes e almas do outro mundo..." Povoado às vêzes - acrescente-se - de móveis-fantasmas: de guarda-roupas, arcas, camas ou cômodas pretas e enormes: verdadeiras coisas de outro mundo para as crianças.
Pela leitura de anúncios nos jornais mais antigos do Rio Grande do Sul, já consegui verificar que os móveis dos sobradões daqui, nos meados do século passado, se assemelhavam aos do Norte do país; e que à louça dos sobrados não faltavam entre porcelanas finas e objetos de ouro e prata, açucareiros e bules para chá. Traço êste, muito significativo, pois indica que também na área do mate, tomava-se com freqüência, nos sobrados, do outro chá: o da Índia.
Ao historiador social da casa que se dedicar ao estudo especializado do sobrado antigo do Rio Grande do Sul, interessará o traçado - ou o plano - dêsse tipo de casa, não só do ponto de vista da adaptação da arquitetura doméstica mais nobre das cidades de Portugal às condições brasileiras do meio físico - tantas delas temidas quase tanto quanto os fantasmas ou confundidas com êles: vento, chuva, sol, sereno, vegetações, fauna - como do ponto de vista de correspondência da mesma arquitetura ao ritmo, às dimensões econômicas e psicológicas, às necessidades d'água, de alimentação e de higiene doméstica da família patriarcal, aos tabus, às ostentações e aos pudores do patriarcalismo escravocrata nas cidades desta parte do Brasil. Do ponto de vista, também, de sua correspondência à situação da mulher, do menino, do parente pobre, do escravo, do cavalo, da vaca, do gato, de outros animais e de plantas, madeiras da terra e valôres e ornamentos exóticos na economia, na sociologia e até na mística do sistema patriarcal tal como êsse sistema se exprimiu no sobrado grande de habitação. E, ainda, do ponto de vista de sua correspondência com a casa vizinha, com a casa menor, com a igreja, com o padre, com a botica, com a rua, com o mercado, com a escola, com o espaço, extra-doméstico, tanto considerado geomètricamente como psicológica, sociológica e econômicamente.
Porque o sobra patriarcal marcou, no desenvolvimento da paisagem brasileira - da paisagem cultural em relação com a natural - o início do prestígio da rua, da cidade, do exterior. Sôbre a rua, primeiro pela rótula, depois pela varanda, o patriarcalismo principiou a olhar e até a debruçar-se, a comprar fruta, peixe, carne, doce, pano, remédio, renda, começando assim, entre nós, povo de formação intensamente patriarcalista, a tendência de socialização e de democratização ampla do sobrado: sua integração no sistema cívico. Tendência que um arquiteto moderno e arguto escritor, o sr. Flávio de Carvalho, já caracterizou como sendo no sentido de ser a cidade "tôda ela, a casa do homem". ("A máquina e a casa do homem do século XX", tese para o V Congresso Panamericano de Arquitetos, reunido em Montevidéu, em março de 1940.)
Até acentuar-se essa tendência - fenômeno recente no Brasil - o sobrado patriarcal teve, na nossa paisagem, alguma coisa de fortaleza sociológica e psicológica, que resguardasse uma raça e principalmente uma classe - a raça autêntica ou oficialmente branca e a gente proprietária quando não de terra, de escravos, de jóias e moedas e, em particular, a mulher, a criança aristocrática de contatos com o mundo exterior: não só com a gente de rua, de campo e de outras casas, como com os elementos - o vento, o sol, as chuvas - com os animais - indistintamente chamados bichos - e também com as árvores e as plantas no seu estado bruto e indistintamente chamados mato. Essa função, o sobrado patriarcal desempenhou-a magnificamente nos seus dias de plena fôrça. Até que chegou o período de sua desintegração, quando de suas próprias varandas, homens criados nos seus quartos, nas suas salas, nos seus pátios, dentro de suas janelas ou de suas rótulas, entre suas mucamas, seus gatos, seus papagaios, seus passarinhos de gaiola e seus cachorros, principiaram a discursar ao povo das ruas dizendo-lhe que era preciso abolir a escravidão. A abolição da escravidão seria a morte do sobrado como fortaleza sociológica e psicológica na paisagem brasileira. Realizada, exigiria, como exigiu, uma readaptação completa do sobrado ao espaço social e geométrico e à paisagem, alterada no sentido de maior prestígio da cidade e da maior socialização e democratização da vida brasileira.
Essa readaptação é que, no Rio de Janeiro, no Norte e creio que também aqui, não se vem verificando com bons resultados higiênicos e estéticos; pois a um tipo de arquitetura que já se harmonizara, em mais de um traço essencial, com a paisagem regional, vão substituindo tipos da arquitetura intrusa e cosmopolita. A grande obra da arquitetura brasileira de mil novecentos para cá deveria ter sido no sentido de sua readaptação, difícil mas possível, da arquitetura doméstica, oficial e de igreja às novas condições de espaço social e espaço geométrico. Readaptação dentro da qual o sobrado, em Pôrto Alegre como no Rio de Janeiro e no Recife, passasse do privatismo ao civismo, conservando, quanto possível, seus valôres já estabelecidos; e não desaparecendo sob estilos de confeitaria que invadiram desde então nossas cidades, hoje dominadas pelo arranha-céu de tipo americano ou de feitio alemão.
Uma região ou área sem o seu tipo de casa tradicional, que se altere, é claro, segundo necessidades de espaço e de vida impostas por novas técnicas de produção e de transporte, e por aperfeiçoamentos de higiene, mas nunca em oposição violenta à natureza regional e à acomodação já conseguida com ela pela arquitetura experimentada pelo tempo; uma região ou área sem o seu tipo bem estabelecido de casa tradicional, é um pedaço de terra sujeito a tôda espécie de aventuras arquitetônicas.
Foi entre populações animadas do sentimento de identificação com a casa regional que A. Meitzen, pioneiro do estudo moderno da casa em relação com a paisagem, pôde estabelecer seu critério de diferenciação de áreas de cultura européia, documentado abundantemente nas páginas dêsse luxo de cartografia que é Siedlung und Agraresen (1895), seguindo por um trabalho francês que é outro primor de geografia histórica e cultural: os dois volumes de Les Maisons-Types (1894-1899), de Foville.
Um trabalho muito mais modesto, visando igualmente um esbôço - é claro que o mais simples dos esboços - é o que planejo realizar: um esbôço de caracterização do Brasil patriarcal, pelas suas predominâncias regionais de casa de tipo mais nobre, tanto rural como urbano. Trabalho que não tentaria se não fôsse a colaboração, já prometida, de um amigo arquiteto. Para semelhante trabalho, é indispensável a tentativa de fixação das particularidades do sobrado do Rio Grande do Sul; e também de suas casas de estância e fazenda.
Trabalho objetivo ou com pretensões a objetivo: mas até certo ponto. De certo ponto em diante, também objetivo: preocupado com aspectos de harmonização da casa com a natureza regional, que envolvem interêsses estéticos. São estudos, os de estética relacionada com o geografia cultural, principalmente a urbana, e que encontram já, para sua orientação geral, obras quase clássicas em língua alemã: a de P. Schultez-Naumburg (Gestaltung der Landschaft durch den Menschen, 2a ed., 1923), as de Banse e Ponten. No Brasil, muito pouco se tem feito sob aquêle critério que, no caso brasileiro, teria que atender a condições especialíssimas de contato dos valôres estéticos europeus com os indígenas e os africanos; e com a natureza americana quase virgem das construções monumentais encontradas pelos descobridores noutras áreas do continente.
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(*)Êste trabalho foi escrito especialmente para o III Congresso Sul-rio-grandense de História e Geografia, em cujos anais (1940) foi publicado pela primeira vez.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Sugestões para o estudo histórico-social do sobrado no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: [s.n.], 1940. p.[3]-10.
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