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Assinatura de Gilberto Freyre
Opúsculos  



UM NOVO TIPO DE SEMINÁRIO (T A N N E N B A U M) EM DESENVOLVIMENTO NA UNIVERSIDADE DE COLUMBIA:
Conveniência da Introdução da sua Sistemática na Universidade Federal de Pernambuco


Quando convoquei, o ano passado, um grupo de ilustres professôres da Universidade Federal de Pernambuco para um debate amplo sôbre os problemas fundamentais da nossa instituição, pretendi recolher críticas e sugestões que inspirassem a minha ação na Reitoria. Sem dúvida, êsses professôres tinha nítida consciência das nossas carências; concebiam projetos do mais alto interêsse universitário, muitos dêles perdidos por falta de apoio; expunham as suas idéias em conversas íntimas, que ali ficavam confinadas, sem benefício para tôda a comunidade universitária. Era indispensável que muitos dêsses planos se cristalizassem em programas definidos, que se aperfeiçoassem pelo debate, que perdessem aquêles contôrnos indecisos e se afirmassem como instrumento de trabalho. O Simpósio sôbre a Problemática Universitária realizou essa tarefa nos primeiros meses do ano de 1965, consagrando muitas idéias preciosas, esclarecendo dúvidas, despertando novas energias, criando novos entusiasmos.

Gilberto Freyre não poderia estar ausente dêsse Simpósio. A sua invulgar cultura, a sua notável experiência adquirida no contato com as mais altas expressões intelectuais de todo o mundo, o seu profundo conhecimento dos meios universitários dos países mais adiantados, impunham a sua presença naquela série de conferências e debates. Convocando para a tarefa, logo se prontificou a participar do Simpósio, tomando a seu cargo proferir uma das conferências, com aquêle interêsse que permanentemente tem demonstrado de colaborar com todos os movimentos culturais processados nesta região.

Trouxe o Mestre de Apipucos, para o debate universitário, a experiência por êle vivida na Universidade de Colúmbia, de um novo tipo de seminário, ideado pelo professor Frank Tannenbaum, que tanta projeção tem alcançado nas mais avançadas universidades e tantos triunfos tem recolhido, na opinião de mestres ilustres. O tema era fascinante pata uma reunião em que se buscava renovar a nossa Universidade, integrá-la na sua superior missão cultural. A autoridade do expositor, o encanto das suas palavras, acrescentaram ao tema os ingredientes que despertariam o entusiasmo dos participantes do Simpósio. Ali mesmo foi decidido, por proposta do professor Newton Sucupira, uma experiência dêsse tipo de seminário como iniciativa da Universidade Federal de Pernambuco, sob a orientação e direção de Gilberto Freyre, a quem caberia igualmente a escolha do assunto que marcaria a introdução dessa experiência no nosso meio universitário.

Os seminários são considerados no ensino universitário, como poderosos instrumentos de trabalho, como processos dinâmicos da investigação ou do aprofundamento de determinados temas, e o seu uso se vai generalizando como meio superior da busca do Saber. A variedade das suas formas e da sua organização dificulta a segurança do seu conceito. O próprio conferencista, no final do seu trabalho, rebela-se contra a definição de seminário, divulgada em enciclopédia idônea, entendendo-a incapaz de abranger a imensa riqueza do seu objeto.

O Seminário do tipo Tannenbaum, ao que me parece, caracteriza-se essencialmente pela sua composição heterogênea. Dêle participam professôres de diferentes especialidades, ao lado de elementos extra-universitários, que podem ser técnicos, empresários, redatores de jornais, todos capazes, no seu campo de ação, de oferecer contribuição efetiva para estudo e esclarecimento de determinado assunto. Dessa composição aberta a uma representação menos uniforme, surgem ricas e variadas sugestões, de um sentido mais humano, mais cheio de vida, do que as resultantes de seminários estritamente científicos, necessàriamente mais herméticos. Não se deve inferir dêsse traço que o seminário Tannenbaum dê um tratamento menos rigoroso ou mais superficial aos temas de sua escolha; êle é acentuadamente elitista, no sentido de que os seus participantes são cuidadosamente selecionados. Apenas o recrutamento não se processa dentro do círculo fechado de uma instituição e sim reúne elementos capazes de outras instituições de grupos sociais diversos, vinculados pela especialidade do seu estudo ou da sua atividade, ao assunto eleito para apreciação, rigorosamente escolhido pela direção do Seminário.

Outra particularidade que Gilberto Freyre destaca nesse tipo de seminário é o da combinação de trabalho criador e atividade recreativa, quase lúdica, livre da burocracia acadêmica ou da rotina rìgidamente pedagogica. Observou êle, em um dos vários semináros do tipo Tannenbaum de que participou, na Universidade de Columbia, que a atitude dos participantes, entre os quais se incluíam sábios de renome mundial, "era um tanto a de escolares, não pròpriamente, festiva e irresponsávelmente em férias, mas desprendidos de quaisquer deveres de rotina; e dedicando-se de modo lúcido, a uma atividade intensamente do seu gôsto e do seu desejo; felizes do seu convívio com indivíduos de saberes diferentes dos seus, mas, em vários pontos, correlacionados com êles; e necessitados uns e outros, êsses saberes todos, de se completarem e de se tornarem, em alguns casos, sínteses, por meio da interpretação viva, dinâmica, que os seminários do tipo Tannenbaum tornou possível."

Em certo trecho da sua conferência, lembra Gilberto Freyre que eu havia tido a intuição, quando Diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco, da organização de um seminário com êsse caráter interrelacionista, em tôrno de assunto de Direito, o que me impunha responsabilidade especial de introduzir o seminário do tipo Tannenbaum na nossa Universidade, como o Reitor. Realmente, em palestra com aquêle eminente sociólogo, referi o meu projeto de organizar seminários em que um mesmo tema jurídico fôsse examinado e debatido sob diversos ângulos, por especialistas diferentes. Cogitava eu de assim promover uma maior integração das cátedras da Faculdade e das de outras unidades da Universidade, em tôrno do estudo de um tema encarado sob vários e múltiplos aspectos. A semelhança dêsse projeto com a sistemática do seminário do tipo Tannenbaum era ainda remota, apezar de certa afinidade na sua idéia inspiradora. Eleito Reitor da Universidade, quando não chegara ao meio do meu mandato como Diretor da Faculdade, não pude realizar o projeto. Tive a oportunidade de cumprir tarefa incomparàvelmente superior : a de introduzir na Universidade Federal de Pernambuco, o seminário do tipo Tannenbaum, por sugestão de Gilberto Freyre e proposta entusiàsticamente acolhida no Simpósio sôbre Problemática Universitária.

Indicado, com inteira justiça, para dirigir o primeiro seminário dêsse novo tipo, Gilberto Freyre escolheu como tema, a Tropicologia, assunto em que êle é, incontestávelmente, a maior autoridade no Brasil e uma das grandes expressões no cenário mundial. Diversos aspectos dêsse tema serão debatidos em reuniões mensais durante todo o decurso dêste ano, dêle participando professôres de muitas Universidades brasileiras e personalidades ilustres do país e do estrangeiro.

Quando, na Universidade de Coimbra, Gilberto Freyre discorreu sôbre "Um nôvo conceito de tropicalismo", (Um Brasileiro em Terras Portuguêsas, edição José Olímpio,1953), exortou os portuguêses a estudar, de modo mais intenso, os trópicos lusitanos. Cabe-lhe agora a responsabilidade de dirigir, na civilização tropical mais adiantada da nossa era, um seminário sôbre Tropicologia, a que tem dedicado tantos dos seus profundos estudos.

No início da sua conferência, afirmou o Mestre do Tropicalismo que "ao sugerir que se introduza o tipo Tannenbaum de seminário em sua universidadecomo a do Recife, que, além de universalista nos seus objetivos gerais, junta ao fato de ser nacionalmente brasileira, a circunstância de situar-se em região do Brasil com características próprias de vida e de cultura, faço-o desejando que de início se subentenda que essa introdução importaria em adaptação; que se processaria experimentalmente; que o experimento e a possível adaptação daquêle anglo-americanismo à nossa sistemática universitária, interessando às demais universidades e a outras instituições não só de ensino e de pesquisa, como políticas, religiosas, intelectuais, industriais, agrárias, da região e do país, deveria se realizar dentro dêsses dois contextos; e sob o aspecto de experimento dos hoje chamados pilotos."

Estou convidando de que a experiência, conduzida por Gilberto Freyre, se constituirá em marco importante nos domínios da Tropicologia, consagrando, entre nós, o seminário do tipo Tannenbaum, contribuindo para a renovação dos nossos métodos universitários, afirmando a missão cultural da nossa Universidade no Nordeste e a sua projeção em nosso país.

Murilo Humberto de Barros Guimarães
Reitor


UM NOVO TIPO DE SEMINÁRIO (T A N N E N B A U M) EM DESENVOLVIMENTO NA UNIVERSIDADE DE COLUMBIA:
Conveniência da Introdução da sua Sistemática na Universidade Federal de Pernambuco

PROF. GILBERTO FREYRE

Em 1912, um então jovem brasileiro do Recife, desde muito nôvo preocupado com problemas nacionais e regionais de educação, em conferência proferida no Teatro Santa Isabel, mostrava-se entusiasta da introdução, entre nós, de uns tantos métodos de ensino anglo-americanos, alemães e suecos; mas advertindo que tais métodos, para serem desenvolvidos no Brasil, deveriam " sofrer umas tantas modificações ". Mais : recomendava que a sua adaptação ao meio brasileiro se processasse " sómente depois da necessária experiência".

O jovem que assim se pronunciava em 1912 veio à ser catedrática de Economia Política da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Recife; e nesta como noutras das posições de responsabilidade didática que ocupou foi sempre fiel àquelas suas palavras de educador por assim dizer nato. é pena que não lhe tivessem sido dadas oportunidades de uma maior mesquinho com relação às vocações e às competências entre aquêles seus jovens destituídos do talento de adular políticos ou poderosos. Dentro dos seus limites, sempre provincianos, nuca deixou aquêle pioneiro de se empenhar pelo que chamava, com o máximo de retórica de que era capaz, "revificação do ensino no Brasil" que, pelo seu gôsto, deveria verificar-se por uma adaptação tal de certos métodos estrangeiros às nossas tradições e circunstâncias nacionais e regionais que essa adaptação importasse num esfôrço criador ou, pelo menos, recriador.

Lembro o exemplo dêsse já falecido brasileiro do Recife porque foi sob êle que se desenvolveu em mim o empenho de, em meus muitos contactos, desde adolescente, com o estrangeiro, procurar recolher de gentes mais adiantadas, sob vários aspectos, que a brasileira, exemplos de métodos, quer de ensino, em particular, quer de articulação, em geral, de artes e de ciências com outras expressões nacionais e regionais de cultura e de vida, que fôssem métodos susceptíveis de ser benéficos ao Brasil; mas sempre atento àquela necessidade de serem êsses métodos adaptados à tradição e à circunstância do nosso país; recriados; depurados do que nêles fôsse peculiaridade dos seus meios de origem. Continúo a pensar que países em desenvolvimento é do que necessitam: de recorrer à experiência dos países mais desenvolvidos; de assimilar dêles, métodos, técnicas, sistemáticas. Contanto que essa assimilação de faça ativamente, criadoramente, experimentalmente, crìticamente; e não de modo passivo ou parasitário. Pois aí é que se revela a capacidade de um povo em desenvolvimento para ser de fato nação; e não simples colônia dêste ou daquele povo, no momento, imperial.

São vários os casos em que imitações assim parasitárias têm resultado senão em fracassos, em vantagens apenas de superfície para o imitador; e, por vezês, em excrescências ridículas. Pois tal pode ser a falta de adaptação da técnica ou êsse valor não se torne nunca, no exato sentido do têrmo, funcional. Que sirvam de exemplo recentes imitações de técnicas parlamentares de govêrno imitadas da nação britânica por algumas das novas nações africanas cujos dirigentes, não tendo o cuidado de adaptar tais práticas às circunstâncias e tradições de sociedades ainda em estado, várias delas – consideradas nos seus conjuntos – de destribalização, têm sido superadas por outras práticas, mais realistas. Reagindo contra êsses extremos de imitação alguns líderes têm ido, em alguns casos, ao extremo de reviverem formas não só autoritárias como despóticas de govêrno, base de suas afinidades com tradições tribais de "quero, posso e mando". é claro que o saudável seria um meio têrmo entre assimilação de formas britânicas ou francêsas de govêrno e a modernização de tradições nativas de relações de governados com governantes. E não aquelas aventuras de imitação de excelências – dado que sejam excelências – inglêsas e francêsas de arte política, cuja eficácia não resiste à transplantação, senão por meio de adaptações mais ou menos profundas.

Não é diferente o problema se do plano da arte política passamos ao da arte do ensino, quer primário ou secundário, quer, mesmo, superior; ou outros aspectos de cultura universitária, sempre que a consideremos uma cultura em que aos aspectos universalistas, que a tornam supranacional, se juntam os aspectos nacionais e regionais. Pois é ponto tranquilo que tôda universidade precisa, para ser universidade completa, de atender a estas duas solicitações : as de caráter universalista e as de caráter nacional e regional. Aos seus objetivos de caráter universalista é essencial que correspondam os de caráter nacional ou regional; e nesta área é preciso que a objetivos assim específicos correspondam métodos adaptados de tal modo a circunstâncias nacionais e regionais de vida e de cultura que essa adaptação seja uma garantia de validade e de funcionalidade do elemento acrescentado ao complexo universitário.

Ao sugerir que se introduza o tipo Tannenbaum de seminário em uma universidade como a do Recife, que, além de universalista nos seus objetivos gerais, junta ao fato de ser nacionalmente brasileira a circunstância de situar-se em região do Brasil com característicos próprios de vida e de cultura, faço-o desejando que de início se subentenda que essa introdução importaria em adaptação; que se processaria experimentalmente; que o experimento e a possível adaptação daquele anglo-americanismo à nossa sistemática universitária, interessando às demais universidades e a outras instituições não só de ensino e de pesquisa, como políticas, religiosas, intelectuais, industriais, agrárias, da região e do país, deveria se realizar dentro dêsses dois contextos; e sob o aspecto de experimento dos hoje chamados pilotos. Pois o que parece ser exato ou característico do tipo Tannenbaum de seminário é que, na sua forma, - falemos sociològicamente, à maneira de Simmel – é de conveniência para qualquer universidade brasileira, dentre as mais desenvolvidas. As variantes na operação de sua sistemática geral seriam principalmente as que teriam que ser condicionadas pela diversidade de substância de alguns dos temas ou problemas ou objetos de análise e de discussão: temas inspirados ou sugeridos por necessidades ou por aspirações, de ordem sócio-cultural, ou de substância mais prementes numa região do país do que noutras; e que exigissem, para a composição de agrupamentos de especialistas, necessários ao funcionamento culturalmente idôneo de certos seminários do tipo Tannenbaum, corajosa convocação de elementos estranhos à universidade promotora de um seminário dêsse porte, em número maior do que o de ordinário necessário, numa universidade complexa como a de Columbia, a tais composições.

Mas não nos antecipamos . Consideramos o Tipo Tannenbaum de seminário tal como êle vem se desenvolvendo há anos – anos experimentais – na Universidade de Columbia : um desenvolvimento que já se apresenta aos olhos de observadores, tanto anglo-americanos como estrangeiros, que o vêm estudando ou observando o seu funcionamento, alguns dêsses observadores – o meu caso – como participantes, sob o aspecto de uma das expressões atuais mais vigorosas de revitalização de estudos universitários de alto nível, dentro, quer das melhores tradições universitárias – as de unidade essencial do saber – quer das mais arrojadas concepções modernas de intensificação e de ampliação de generalismo universitário combinado com especialismo. Combinado e não à revelia de especialismo; nem tão pouco em oposição a êle.

Outra combinação que o tipo Tannenbaum de seminário evidentemente representa – característico dêsse experimento que suponho ser aqui destacado pela primeira vez – é que, como invenção muito da nossa época e muito de país já tecnológica e econômicamente supradesenvolvido, êle combina trabalho criado e atividade recreativa, quase lúdica. Combinação que talvez só resulte efetiva e produtiva à sombra do maior tempo livre – livre da burocracia acadêmica ou da rotina rìgidamente pedagógica – que estão tendo, em certas universidades, professôres e outros homens de estudo nos Estados Unidos. Aqui é que a introdução do tipo Tannenbaum de seminário a universidades brasileiras seria provàvelmente um tanto dificultada pelo regímem de ensino, característico das mesmas instituições. Entretanto, poderiamos contar para a composição efetiva de seminários dêsse tipo, em nossas universidades, com professôres jubilados, plenamente capazes, pela sua saúde e pelo seu vigor, de atividade intelectualmente criadora, como é o caso do próprio Professor emérito da Universidade de Columbia; e como seria o caso, entre nós, de um Fróes da Fonseca : sábio admirável de quem a Universidade do Recife não soube aproveitar, no momento justo, a decisão, por êle tomada, de fixar-se, após sua aposentadoria como catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, no Recife, e aqui dedicar-se, dentro da sua especialidade, tão sòmente à pesquisa científica e à meditação filosófica. Pois Fróes da Fonseca é também filósofo da ciência, autor de excelente ensaio crítico sôbre Sartre – a Antropologia, como se sabe, vai de ciência física a filosofia, passando pela ciência social.

Referi-me ao seminário de tipo Tannenbaum como seduzindo os homens de estudo pelo que pode ser considerado o aspecto lúdico, recreativo, hedônico, até, da sua atividade intelectual, seja ela principalmente humanística ou principalmente científica. é um aspecto, êste, da cultura universitária, que a burocracia do ensino vinha, senão matando, reduzindo ao mínimo, em várias universidades. E quando falo em burocracia do ensino inclúo nela a própria rotina de pretender-se estandardizar, para efeitos burocràticamente estatísticos, as diferentes expressões de inteligência e de personalidade creadora entre os homens de estudo, condicionadas algumas por diferenças de temperamento, que várias vêzes podem se manifestar na combinação paradoxal "boêmio-criador", da classificação de Thomas. é esta uma combinação repelida por aquela ortodoxia pedagógica impregnada daquele calvinismo, segundo o qual só é válido o trabalho além de regular e rotineiro, penoso; e diante da qual é suspeito de ser apenas desprezìvelmente boêmio ou diletante todo trabalho intelectual que implique em prazer para seus participantes; e que se realize à base tanto de espontaneidade de expressão como de disciplina voluntária, na execução de obrigações contraídas, sem o excesso de disciplina ou de rotina abafar, em tais casos, a espontaneidade criadora ou especuladora. é um tipo de trabalho criador que se desenvolve despreocupado – ou o mais possível despreocupado – de afãs burocráticos de promoção universitária, em tôrno de gráus, de títulos, de busca, através dêsses títulos, de nomeações para chefias, dentro de rígida sistemática, por vêzes de caráter, repita-se, calvinista, pois representa a negação quase absoluta daquela gaya scienza a que tanto deve a cultura em suas formas mais altas. A caracterização de tal burocratismo universitário como calvinista devo dizer que é do Professor Hudson, do Laboratório Psicológico da Universidade de Cambridge, em recentíssimo ensaio em que adverte os responsáveis pela organização de complexos universitários no seu país, contra excessos de uniformização nas exigências, por parte de universidades, de trabalhos, além de regulares, penosos, por professôres e estudantes, para a obtenção de gráus, promoções, chefias, fechando-se as mesmas autoridades à tolerância de atividades, quer individuais, quer coletivas, dentro dos muros universitários, que impliquem em prazer desinteressado de tais vantagens, para os participantes; ou que se realizem um tanto fora daquelas convenções que tendem a fazer da vida acadêmica atividade de todo igual a outras carreiras burocráticas. Que tendem a fazer de intelectuais o que já uma vez chamei intelectuários. Que tendem, no Brasil, susceptíveis de ser dirigidas por técnicos do DASP.

O Professor Hudson lembra dois grandes exemplos de criadores intelectuais que passaram por universidades, como estudantes irregulares, medrosos de exames e revelando-se hostis àquela rotina e desdenhosos daquelas convenções; inimigos do que aqui denominamos burocracia pedagógica; desatentos a promoções nessa burocracia; indiferentes à conquistas de gráus e de vantagens convencionais dentro ou à margem da mesma burocracia. êsses dois criadores um tanto boêmios em sua formação ou em sua vida universitária mas, à margem delas, grandemente criadores, foram: primeiro Darwin, que na Universidade de Cambridge contentou-se, para agradar o pai, com o simples bacharelado sem honras; e do curso regular, profissional, de Medicina não suportou senão os dois primeiros anos, em Edimburgo. Isto, não por incapacidade para o estudo profissionalmente médico, mas por aversão a qualquer estudo, para êle rotineiro, pelos seus objetivos estritamente profissionais; e coragem para dedicar-se à pesquisa científica do seu gôsto – a biológica – que lhe custando sempre intenso esfôrço lhe deu de início, e sempre lhe daria, intenso prazer, sendo, portanto, trabalho do que venho denominando lúdico.

O segundo exemplo do mesmo tipo de boemia criadora é o de Einstein, que tendo começado seus estudos superiores, fracassando, por aversão não ao estudo mas à rotina pedagógica que fazia dêle menos um estudante que um examinando constante, nos exames na Politécinica de Zurich, terminou êsses estudos, em sua forma regular, tão sem brilho, que o catedrático de Física daquela Politécnica recomendou-lhe experimentar, em lugar de estudos pós-graduados de Física, os de Biologia. (Certos físicos parecem considerar a Biologia ciência fácil e para medíocres em comparação com a Física, que só seria plenamente acessível a inteligências superiores; assim parece ter pensado aquêle mestre do futuro grande físico). Einstein, entretanto, do mesmo modo que Dawin, nunca se interessou em ir além de estudos regulares de bacharelado: os estudos pós-graduados de Física viria a realizá-los a seu gôsto, isto é, lùdicamente, juntando a intenso estudo, intenso prazer derivado dêsse estudo.

Ao participar recentemente na Universidade de Columbia, de seminários do tipo Tannenbaum, verifiquei dêles participarem espontâneamente, livremente, lùdicamente, homens de estudos ainda jovens, ou já provetos – êstes em maior número – embora todos intelectualmente modernos e de status além do de estudantes, isto é, professôres e pesquisadores, cientistas e intelectuais já idôneos de vários tipos; e, como espectadores, estudantes ou convidados. Todos êles, participantes e espectadores, indiferentes a qualquer vantagem em suas carreiras burocràticamente ou convencionalmente universitárias ou em suas atividades rotineiramente intelectuais. No que êles se mostram preocupados é em sínteses que venham a resultar do encontro de especialismo analítico de cada um e até da verdade particular de cada um com os especialismos e com as verdades particulares de outros professôres, de outros pesquisadores, de outros cientistas, de outros scholars. Para tanto é que cada um consagra a êsses encontros o melhor da sua inteligência livre de obrigações de rotina e do seu saber despreocupado de compromissos pedagógicos ou pragmáticamente profissionais. Provàvelmente, um Darwin e um Einstein encontrariam, depois de cientistas consagrados, em seminários dêsse tipo, ambiente ideal para seus afãs de indivíduos hostis, desde sua mocidade, àquelas formas de convívio universitário caracterizadas pela rigidez nas relações de estudantes, sempre examinados, com professôres sempre examinadores; sem a igualdade, característica dos seminários do tipo Tannenbaum. Igualdade de atitudes da parte dos participantes, todos êles, examinados, e todos êles ao mesmo tempo examinadores, através de vivo intercâmbio de saberes especializados e de interrogações, divergências, convergências, transações em tôrno de assunto aparentemente único, considerado em suas várias e até contraditórias implicações.

O que notei dos participantes dos seminários do tipo Tannenbaum dos quais mais participei em seu recente trimestre na Universidade de Columbia e dos quais dirigi, a pedido do próprio Professor Tannenbaum, foi que a atitude dêsses participantes – alguns dêles, sábios de renome mundial – era um tanto a de escolares, não digo, festiva e irresponsàvelmente, em férias, mas desprendidos – repita-se – de quaisquer deveres de rotina; e dedicando-se de modo lúdico, a uma atividade intensamente do seu gôsto e do seu desejo; felizes do convívio com indivíduos de saberes diferentes dos seus, mas, em vários pontos, correlacionados com êles; e necessitados uns e outros, êsses saberes todos, de se completarem e de se tornarem, em alguns casos, sínteses, por meio da interpenetração viva, dinâmica, que os seminários do tipo Tannenbaum tornam possível.

Para êsses seminários devo recordar que têm sido convocados e continuam a ser convocados, professôres e pesquisadores de outras universidades, além da de Columbia; intelectuais, cientistas, pesquisadores sem ligação universitária; e mesmo homens de ação capazes, pela sua inteligência ou pelo seu saber de formação universitária – pois o seminário do tipo Tannenbaum é elitista – de versarem aspectos dos assuntos considerados em sua complexidade por êste ou por aquêle seminário. é assim que do Seminário de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia participaram já, depois de terem concordado em ser interrogados, pelos membros do mesmo Seminário, após os depoimentos que trouxessem, homens públicos da América Latina da importância do Premier Fidel Castro, de Cuba, e do atual Presidente Eduardo Frei, do Chile, quando Senador. No Seminário de Problemas Internacionais de Paz tive por companheiro o jovem Mikoyan Júnior, filho do famoso dirigente da União Soviética e observador inteligente de novas tendências na vida dos Estados Unidos; e com quem muito conversei. E no Seminário de Mudança Social e Tecnologia ouvi interessantíssimas discussões de problemas ligados ao futuro próximo da alimentação humana – uma alimentação provàvelmente muito mais sintética que a atual. êsses problemas vêm sendo versados, naquele Seminário, por químicos de alto saber ligados a emprêsas industriais empenhadas no fabrico, em dias de modo algum remotos, de alimentos extremamente concentrados. Vêm sendo êles comentados tanto por especialistas em nutrição e em saúde pública como por economistas, sociólogos e psicólogos. Consideram êstes especialistas naquele importantíssimo seminário, quanto seja aspecto econômico, sociológico e psicológico de qualquer arrôjo tecnológico, já em comêço ou ainda em projeto, ligado a alimentos sintéticos ou concentrados. São arrojos cujo sucesso se sabe depender, em grande parte, destas suas correlações : as de ordem econômica, sociológica e psicológica. Daí o grande interêsse das próprias indústrias, quer de alimentação, quer de tecidos, quer de móvel, quer de calçado, quer de automóvel, quer de aviação, em participarem de seminários dêsse tipo, por intermédio de cientistas de alta inteligência ou saber a elas ligados. Uma ligação que, sendo crescente, nos Estados Unidos, explica o fato de estar se operando esta outra revolução na sistemática universitária daquele país: a de se permitirem agora desvios de até há pouco absoluta ortodoxia do "full time", ou do "tempo integral", para professôres e pesquisadores universitários. êstes desvios se verificam sempre que alguma universidade considere de proveito para esta ou aquela ciência, em que se especialize algum dos seus professôres ou pesquisadores ou um grupo inteiro de seus pesquisadores, a orientação que possa ser dada, por elemento assim universitário, à aplicação da mesma ciência a atividade ou a operação extra-universitária: governamental, artística, internacional – em organismos como a Organização as Nações Unidas, a Unesco, a Organização dos Estados Americanos – industrial, agrária. Daí a presença, em seminários do tipo Tannenbaum, de mestres universitários que são também, atualmente, consultores ou orientadores sociológicos ou econômicos ou psicológicos, em várias outras especialidades, dessas organizações extra-universitárias, em crescente contacto com universidades: um contacto em que o papel de leão é quase sempre desempenhado pelas universidades, cujos grandes homens de saber e de ciência nos Estados Unidos como, aliás, na própria União Soviética em certos setores, estão sendo ates cortejados do que sumàriamente utilizados por govêrnos e por organismos extra-universitários.

O Seminário do tipo Tannenbaum corresponde a esta nova e atualíddima fase de relações das universidades com organismos extra-universitários, que, nos Estados Unidos, são relações, quando muito, de interdependência; e não de dependência das universidades em relação a organismos extra-universitários: inclusive as fundações do tipo da Ford e da Kellogg, da Rockefeller e da Guggenheim. Organismo cuja atitude para com as universidades é de crescente aprêço e de crescente respeito, devendo-se notar que as estatísticas acusam esta tendência muito significativa naquele país : o número cada vez maior de líderes de atividades governamentais e de dirigentes de emprêsas industriais e de fundações, que são indivíduos de formação universitária: indivíduos que se conservam em contacto com suas e com outras universidades.

Típico é o caso de David Rockefeller, formado pela Universidade de Chicargo e muito em contacto com essa universidade e com a de Columbia, pela qual fomos, aliás, êle e eu, doutorados, por consagração, no mesmo dia. Muito em contacto se conserva êle com essas e com outras universidades, não para orientá-las, à sombra do prestígio do seu muito dinheiro, mas, principalmente, para continuar a ser orientado por elas – pelos seus saberes, pelas suas pesquisas, pelos seus experimentos – no comando das vastas emprêsas, que vão já perdendo de todo, nos Estados Unidos como na Europa Ocidental, o caráter de emprêsas estreitamente familiais ou estreitamente privadas. Da família Rockefeller inteira se pode dizer que vale hoje, não como família que vem concorrendo com líderes de formação universitária e associados, depois de formados, a universidades, par aquelas novas orientações que, não sendo socialistas, não são, tão pouco, capitalistas do antigo feitio, que animam atualmente indústrias e govêrnos tanto nos Estados Unidos como na Grã-Bretanha e na Alemanha Ocidental. Um dos Rockefeller é hoje, como se sabe, um dos governadores de Estado no seu país que mais têm se orientado na administração da coisa pública por cientistas e técnicos universitários.

E aqui cabe dizer-se que é a Fundação Ford – hoje orientada por scholars visão nada burocrática de um Joseph Slater – que têm tornado possível ao Professor Frank Tannenbaum convidar, para permanências de trimestres, semestres ou anos universitários inteiros, na Universidade de Columbia, scholars, isto é, intelectuais ou savants, - e não scholars na acepção de bolsistas ou de estudantes – como participantes de seminários e de atividades de institutos. Quase sem quaisquer obrigações ou compromissos de ordem didática, intelectuais e cientistas de diferentes países vêm participando de seminários do tipo Tannenbaum, como scholars, especialmente convocados para tal função. Ao Deão Barnes, da Universidade de Harvard, vem igualmente permitindo a Fundação Fordr realizar coisa semelhante naquela universidade, ao mesmo tempo tão tradicional e tão moderna. Também são fundações como a Ford e a Guggenheim que vêm permitindo a pesquisadores sem vocação para o ensino universitário dedicarem-se às suas pesquisas, quer dentro, quer à margem de universidades, numa liberdade ou num desprendimento de preocupações burocráticas que é uma liberdade hoje característica não só dos seminários do tipo Tannenbaum como de outras atividades universitárias e para-universitárias nos Estados Unidos. São atividades criadoras agora tornadas possíveis pelos chamados "grants", da parte dessas fundações, quando mais esclarecidos, de fundações dos Estados Unidos, seu excessivo burocratismo. Tanto que um meu amigo anglo-americano pensa na necessidade de um livro que analise, critique e até sarcàsticamente ponha em foco tais excessos da parte do que êle considera certo tipo não só burocrático como supra-burocrático de "Foundation Man". Nós, brasileiros, conhecemos tais excessos, através de certos representantes não só de fundações como de organismos anglo-americanos, em atuação no nosso meio: a benemérita Aliança Para O Progresso, entre êles. E, por vêzes, a própria Fundação Ford no Brasil.

O fato, porém, de haver relações entre alguns dos seminários do tipo Tannenbaum, ora em desenvolvimento na Universidade de Columbia, e organismos extra-universitários – estatais, industriais, religiosos, de caráter prático – não nos deve fazer supor dêsses seminários que sejam dominados pelo afã de sua ciência conjugada, ou da interrelação dinâmica de saberes que cada um dêles promove, ser imediatamente útil ou proveitosa à comunidade, considerando-se fracasso qualquer inaptidão, da parte de qualquer dêles, para se impor aos homens chamados práticos pela validade das conclusões concretas antigas, a curto prazo ou a prazo fixo, pelos seus especialistas reunidos. De modo algum. De alguns se pode até dizer predominantemente platônicos. Que seus componentes antes se regozijam do que se agastam comas dificuldades que encontram na análise de um assunto complexo. Mais : parecem êles regozijar-se com a sua própria inaptidão, para, mesmo reunidos, como representantes de diferentes especialidades, vencerem sem demora, por essa análise conjugada, o assunto em discussão, que, em vários casos, tem continuado turvo, obscuro, polêmico, provocando mais divergências do que convergências de pensar entre os estudiosos reunidos em seminários do tipo Tannenbaum. é que aí se afirma um dos traços mais característicos do contraste entre uma universidade – entre a Universidade, pode-se dizer, fazendo dela, com U maiúsculo, um "tipo ideal" weberiano – centro de estudo, de saber, de pesquisa, de crítica, de meditação, e não apenas de ensino, prático ou profissional, e os organismos extra-universitários com que possa e até, em vários casos, deva, entrar em contacto, para cooperar com êles. Atrás de Seminários do tipo Tannenbaum, a Universidade se afirma, ao mesmo tempo, uma organização extrovertida para a ação e introvertida para a contemplação. Dionisíaca e apolínea. A máxima sabedoria dos dirigentes de uma universidade assim complexa estaria na combinação, no equilíbrio, na conciliação dêsses extremos, nenhum dos dois devendo ser sacrificado ao outro. Os seminários do tipo Tannenbaum parecem corresponder de modo ideal a essa necessidade de equilíbrio: atendem às duas solicitações, sendo uns mais, outros menos, platônicos, conforme os assuntos em tôrno dos quais se reunem. Porém todos se mantendo fiéis à idéia de que o que é universitário – saber, ciência, pesquisa – podendo ser imediatamente útil à comunidade, pode ser, de fato, aparentemente inútil, dêsse ponto de vista: o da utilidade imediata ou evidente dos seus trabalhos.

É impressionante o número de seminários do tipo Tannenbaum que já funcionam na Universidade de Columbia, reunindo-se uns, uma vez por mês, outros, uma vez por semana, vários – repita-se – com a participação de professôres de outras universidades, além de líderes de indústrias, de sindicatos, do govêrno, convidados a ser membros dêste ou daquele seminário. Não há outro meio de participação efetiva nos seminários senão a eleição de um indivíduo se torne um dêles. Quando um seminário convoca indivíduo ilustre, ou em foco nesta ou naquela atividade extra-universitária, para lhe dirigir a palavra, é com a condição de que o convidado concorde em submeter-se a todo um interrogatório da parte dos membros do seminário que o convoca. A essas reuniões de seminário – várias à noite, algumas à tarde – podem comparecer estudantes de nível graduado e outros interessados na matéria que seja objeto de discussão pelo seminário; mas sem o direito – êsses estudantes, mesmo graduados, e êsses interessados – de participação efetiva nas discussões . Apenas podem, terminada a discussão, dirigir ao moderador do seminário perguntas de esclarecimento, que o mesmo moderador transmite ao conferencista do dia, ou a qualquer dos debatedores a quem se dirija o pedido de esclarecimento. O critério que orienta o diálogo ou a discussão nos seminários do tipo Tannenbaum é um critério de certo modo exclusivo. Procura-se assegurar a igualdade de aptidões e de maturidade intelectual, entre os participantes, resistindo-se ao argumento da chamada " democratização dos diálogos ".

Várias publicações, isto é, livros, têm resultado dos seminários do tipo Tannenbaum em funcionamento na Universidade de Columbia, quase todos saídos da Imprensa Universitária. Entre êles, dois, valiosíssimos : Technology and Social Change, que apareceu em 1964, editado, segundo se declara, pelo seminário respectivo e organizado, em função do mesmo seminário, por um dos participantes, o Professor Eli Ginzsberg; e Basic Values of Western Civilization, organizado, de modo semelhante, pelo Professor Shepard B. Clough, e publicado em 1960, contendo, entre os seus capítulos, os seguintes : culturas e valores; instituições societais como valores básicos; valores materiais; conhecimento, religião e estética; a glorificação do progresso; variações de valores básicos conforme regiões, grupos e situações; o futuro dos valores ocidentais. Pela matéria publicada, verifica-se terem já preocupado de modo particularmente intenso os participantes dêste seminário os seguintes problemas : de que princípios se derivam os valores ocidentais ? Que valor o Ocidente atribui ao saber ou ao conhecimento, à religião, à estética? De que modo se relaciona o progresso tecnológico com valores básicos da civilização ocidental? Qual o provável futuro dos valores tìpicamente ocidentais ?

Quanto ao seminário dedicado ao estudo de problemas de Tecnologia e Mudança Social, do qual tive o gôsto de participar na minha recente permanência na Universidade de Columbia, os assuntos que mais preocupavam seus participantes, da fase que resultou, o ano passado, no livro referido, foram: os prováveis rumos da sociedade pós-industrial que começa a ser, em várias áreas, a sociedade ocidental; indústrias e aero-espaço; produtividade e crescimento econômico em relação com outros aspectos de mudança social, como a própria explosão demográfica; é interessante nota-se a composição do mesmo seminário : o Professor de Educação Harold F. Clark, da Universidade de Columbia; o Professor de Economia, Neit Chamberlain, da Universidade de Yale; William O. Baker, dos Laboratórios da Companhia Bell, de Telefones; o Professor de Sociologia Daniel Bell, da Universidade de Columbia, Thomas E. Conney, da Divisão de Ciência e Engenharia da Fundação Ford; o Professor Eli Ginzsberg, da Escola Superior de Administração Comercial, da Universidade de Columbia; o Professor Lawrence H. O’Neil, da Escola de Engenharia da Universidade de Columbia; o Professor de Sola Pool, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts; o Professor emérito de História Frank Tannenbaum, da Universidade de Columbia; o Professor Lawrence williams, da Escola de Relações Industriais da Universidade de Cornell; o Dr. Seymour Wolfbein, da Seção de Recursos Humanos e Automoção do Ministério do Trabalho dos Estados Unidos; o Professor Christopher wright, do Conselho de Estudos sôbre a Era Atômica, da Universidade de Columbia; o Professor de Filosofia David Sidorsky, da Universidade de Columbia; o Sr. Emanoel R. Proce, da Corporação Internacional de Máquinas Comerciais; o Sr. A . H. Raskin, redator de The New York Times; o Sr. Edwin A. Gee, da Companhia du Pont de Nemours; o Sr. Arnold Buhman, da União Mundial Elétrica; o Sr. Earl D. Johnson, da Companhia Delta de Transporte Aéreo. Como se vê, um grupo representativo, em nível universitário, de tendências, de especializações e de interêsses diversos.

Os assuntos que continuam sendo discutidos neste importantíssimo seminário vão desde o impacto da tecnologia na vida política de sociedades já pós-industriais à consideração de problemas econômico-sociais de desemprêgo, de aumento de tempo livre, de obsolescência de certas perícias tradicionais com a crescente automoção. Mas sem vir faltando ao trato de tais problemas, nem a abordagem de uma sociologia capaz de situar recentes inovações tecnológicas, por um lado, em perspectiva de tempo passado e, por outro, de tempo futuro; nem a consideração de responsabilidades, quer de govêrnos, quer de líderes industriais, em relação com os processos tecnológicos, ao lado dos sociais, de transformação social, implicado essa consideração de aspectos práticos dos problemas e aquela abordagem, além de histórica, sociológica, dos mesmos problemas, na consideração filosófica da situação do indivíduo como indivíduo – ou como pessoa – ao torna-se parte de um ambiente crescentemente tecnológico e, como tal, crescentemente impessoal, com obstáculos também crescentes à auto-realização, por meios pessoais, do mesmo indivíduo: auto-realização tida por essencial por vários dos participantes do referido seminário.

"Um dos melhores serviços que a Universidade de Colúmbia poderia prestar às demais universidades seria o de conseguir que êste proveitoso tipo de seminário fôsse por elas adotado," declarou recentemente o Reitor daquela Universidade, ao comemorar-se o 20ª . aniversário do primeiro seminário do tipo Tannenbaum ali estabelecido. O 20ª . aniversário de tão significativo acontecimento será, aliás, assinalado pela próxima publicação do livro The Uniersity Seminars: A Community of Scholars, com introdução do próprio Frank Tannenbaum. Aí escreve o Professor Tannenbaum, do nôvo tipo de seminário, de sua iniciativa, que acrescenta uma Quarta dimensão à atividade universitária; pois focaliza conhecimentos múltiplos sôbre assunto específico. Nas suas palavras: saberes acumulados por diferentes especialistas e na posse, cada saber mais especializado, de um grupo apenas de especialistas, podem ser agora congregados e focalizados sôbre um problema, um complexo, uma política . E explica dêsse tipo de seminário que, provàvelmente, só poderia ter se iniciado numa universidade como a de Colúmbia : " grande universidade com uma administração tradicionalmente descentralizada e situada numa metrópole a que têm fácil acesso muitas outras instituições de ensino superior. "

Nos primeiros seminários do tipo Tannenbaum, seus organizadores – o principal dêles, o Professor Tannenbaum – entenderam que deveriam reunir-se em tôrno de problemas de "Estado," isto é, de Jurisprudência e Direito Comparado, ou de "Religião", também comparada, ou de "Família " ou de "Crime" ou de "Guerra". Curioso que da conveniência de um seminário já assim interrelacionista, em tôrno de assunto de Direito, tenha tido a intuição, entre nós, o atual Reitor da Universidade Federal de Pernambuco, ao torna-se diretor da Faculdade de Direito. Donde lhe caber agora responsabilidade tôda especial na possível introdução, sob critério experimental e admitindo-se de início a necessidade da adaptação no sentido do abrasileiramento e até da nordestização – no bom sentido – da iniciativa novaiorquina, na Universidade Federal de Pernambuco. Em tôrno de que assunto, de que problema, de que complexo? Pontos a serem discutidos. Assunto a que voltarei.

Não é sem significação que nos Estados Unidos, país de gente tida por excessivamente pragmática, o primeiro seminário do tipo Tannenbaum, a tornar-se triunfante, foi o sugerido e convocado pelo então diretor do Departamento de Literatura Inglêsa da Universidade de Columbia para a discussão de assunto essencialmente platônico: o Renascimento. O próprio Professor Tannenbaum espantou-se. Mas o então diretor do departamento de Literatura Inglêsa – o Professor Oscar J. Campbell – insistiu. Seu argumento era que, havendo na Universidade de Columbia o ensino do Renascimento sob os mais diferentes pontos de vista – Literatura Inglêsa, Literatura Francesa, Literatura Alemã, Cultura Italiana, História, Arte, Música, Arquitetura, Filosofia, êsses ensinos se processavam de modo desconexo, um à parte do outro; professôres e estudiosos do Renascimento, nessas diferentes especialidades, nunca se encontravam; nunca trocavam seus saberes, suas dúvidas, suas preocupações, suas idéias, em tôrno de um complexo que jamais era considerado, numa vasta, cosmopolita, universidade como a de Columbia, nas suas interrelações; nem na sua unidade; nem no seu todo. Hoje é o que existe naquela U0niversidade através de um seminário do tipo Tannenbaum: intercâmbio de saberes e troca de idéias em tôrno do complexo "Renascimento".

O mesmo vem acontecendo com outros seminários do tipo Tannenbaum: o sôbre tecnologia e mudança social; o sôbre assuntos chineses; o sôbre assuntos africanos; o sôbre religião comparada; o sôbre população; o sôbre os diferentes papéis das profissões ligadas a problemas médico-sociais de saúde; o sôbre o emprêgo de métodos matemáticos em ciências sociais; o sôbre a Comunidade Atlântica; o sôbre genética e a evolução humana.

Para o Professor Robert Theobald, mais do que qualquer outra nova instituição dentro de qualquer moderno complexo universitário, o seminário do tipo Tannenbaum corresponde a exigências de um futuro já tão presente que, diante dêle, em vários pontos, os sistemas atuais de ensino superior se mostram inadequados e até arcaicos pela sua falta de contacto com as alterações que sofrem ràpidamente, dia a dia, nosss formas de sociedade, de cultura, de economia, de tecnologia. De modo que a seu ver o seminário do tipo Tannenbaum vem se antecipando em corrigir várias deficiências dêsses sistemas de ensino superior por corresponder, como uma sistemática capaz de suprir os homens de estudo, membros da comunidade universitária, do meio de se inteirarem de saberes em desenvolvimento além das fronteiras do seu próprio saber também em desenvolvimento, ao mundo orientado cibernètivamente ("cybernated world") que começa a emergir.

Outra voz de aplauso à idéia genial que o seminário do tipo Tannenbaum – espécie de ovo de Colombo – representa é a de Margaret Mead, a hoje famosa antropóloga, discípula, quase minha contemporânea, como modestamente eu próprio, de Franz Boas, na Universidade . Destaca ela, em números, o triunfo já obtido pelo tipo Tannenbaum de seminário: 36 seminários congregando cêrca de 1.000 "scholars", isto é, superiores homens de estudo – e não scholars no sentido de bolsistas – cientistas, líderes de indústrias e atividades governamentais orientadas cientìficamente ou ligados a desenvolvimentos técnicos cientìficamente ou ligados a desenvolvimentos técnicos cientìficamente orientados. Para Mead, tais seminários são já parte indispensável do complexo universitário representado, no caso, pilotamente, pela Universidade de Columbia: de tal forma que, segundo ela, exigem edifícios que sejam levantados para êsse fim específico: talvez um centro de seminários do tipo Tannenbaum que se afirmem no que Mead denomina " espaço organizado". Espaço organizado para a diversidade na unidade.

Já se cogita, com efeito, de acrescentar, na Universidade de Columbia, aos edifícios atuais – que formam, como se sabe, o mais monumental conjunto universitário moderno situado em área urbana – um edifício que se destina tão sòmente a dirigir seminários do tipo Tannenbaum, isto é, interrelacionados, em território por assim dizer neutro, isto é, que não pertença a nenhum dos saberes ou a nenhuma das ciências representados em qualquer seminário dêsse tipo.

A próposito da posição que venha ocupar num conjunto universitário assim constítuido por edifícios, o edifício que se destine a reunir seminários do tipo Tannenbaum, pode-se dizer que tal edifícil talvez venha a definir-se, pela sua significação naquele conjunto, numa espécie de catedral da Idade Média em relação equivalente com as sedes das então corporações de ofício ou confrarias religiosas, cada uma dedicada a um santo. Isto é, num ponto não só de encontro como de convivência para os membros de várias confrarias. Seria, dentro do espaço universitário geral, ocupado por atividades diversificadas e vivido diversamente por especialistas de várias especialidades, numa área de convergência, com objetivos comuns aos de cada ofício ou arte universitária particular.

Quando Heidegger escreve que o grande primeiro problema para o homem é habitar parece esquecer-se de que tão importante, para o homem moderno, como habitar, é cohabitar. E essa importância atinge em cheio a vivência universitária que só se realiza plenamente como vivência, sendo necessários nos espaços ocupados por conjuntos universitários, aquêles em que os universitários – professôres, pesquisadores, estudiosos e não apenas estudantes a prazo fixo – não só vivam, em função de estudos especializados e profissionais, como convivam, por necessidade de se completarem como estudiosos, além de especializados, gerais . Os seminários de tipo Tannenbaum parecem vir trazer aos modernos equivalentes, num complexo universitário, de confrarias de ofícios e artes particulares, um ponto de convergência e de convivência – espécie de equivalente da catedral em relação, repita-se, aos ofícios e artes particulares da Idade Média – que vem fazendo falta à maioria dos modernos espaços universitários.

Ao nos referimos a espaços universitários, admitimos uma ecologia universitária, com relações diversas entre as várias atividades que se distribuem por um espaço dêsse tipo: atividades administrativas e, principalmente, atividades didáticas, atividades especulativas, atividades recreativas, atividades de relações com atividades extra-universitárias: cívicas, industriais, religiosas, principalmente.

Idealmente essas atividades se interdependem . As relações de umas com as outras, porém, nem sempre são de caráter efetivamente interdependente, tal a tendência ora para umas dominarem as outras, criando-se, entre elas, ora relações de dominação e subordinação, ora tendências para algumas se isolarem das demais, tornando-se o espaço universitário uma série de ilhas, umas estranhas às outras. A função do seminário do tipo Tannenbaum tende a ser, no espaço universitário, integrativa o coordenadora, repetindo, dentro dos seus limites, a função clássica de agora e a medieval, da catedral; tende, mais do que isto, a servir de ponte entre o espaço universitário e os espaços extra-universitários . Mais e mais a comunidade universitária tende a ser, em sua composição, não só aquela comunidade formada pelos que ensinam e pelos que aprendem, da caracterização um tanto simplista do professor Jüfgen Habermas, como outra mais complexa, pela sua tendência para incluir pesquisadores, pensadores contemplativos e também orientadores de atividades extra-universitárias – sobretudo as que importam na aplicação de ciências e saberes universitários à administração pública, às indústrias, à defesa nacional, à economia ou à cultura regional, por um lado, e à cooperação internacional em vários sectores, por outro lado.

A propósito da crescente ligação da Universidade, como instituição, quer nos Estados Unidos, quer em alguns países europeus, com atividades extra-universitárias, - principalmente as de desenvolvimento tecnológico e industrial – é justo salientar-se que a essa tendência o Recife, por sua Universidade, não está alheio. Basta que se leia Sôbre um sistema de articulação universidade/indústria visando o treinamento de estudantes nas emprêsas, excelente trabalho do Professor Alberto Cavalcanti de Figueiredo, catedrático de Economia das Indústrias da Escola Superior de Química da Universidade Federal de Pernambuco. Trata-se de estudo pioneiro apresentado pelo autor ao Seminário Universidade/ indústria, promovido pelo Ministério da Educação e Cultura, Confederação Nacional da Indústria e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e realizado em Petrópolis em 1959.

O aspecto prático da relação da indústria com a Universidade, salienta-o o Professor Figueiredo nestas palavras :" A falta, sobretudo, de uma íntima ligação entre a Universidade e a Indústria constitui um sério obstáculo à formação de profissionais altamente capacitados e sòmente efetivando tal articulação poderá a Universidade desempenhar a sua missão na comunidade, missão que, segundo Poincaré, alémde intelectual, é também econômica e social". E não devemos nos esquecer de recente convênio, em tôrno da industrialização de Pernambuco – indústrias médias e pequenas – de que a Universidade Federal de Pernambuco participa.

É um trabalho, o do Professor Figueiredo, que me parece dos mais significativos, entre os publicados ùltimamente no Recife, do ponto de vista da modernização do complexo universitário brasileiro, em face, quer de tendências características do tempo social em que vivemos, quer de necessidades de adaptação do mesmo complexo a situações especìficamente brasileiras e, particularmente regionais, de desenvolvimento sócio-econômico. Tal desenvolvimento se apresenta com peculiaridades regionais, dentro das de desenvolvimento nacional; e afins, essas particuliaridades e de desenvolvimento de outras regiões do continente e de outras áreas do mundo moderno. A essas afinidades e tendências, a pesquisa universitária tende a se mostrar mais imediatamente sensível, em cada foco regional ou nacional em que se realize, que o ensino universitário, por natureza mais conservador e mais clássico. Da pesquisa universitária, sobretudo da representada, em seus afãs no sentido de coordenação e, quanto possível, de síntese, dos saberes especializados e diversificados que consiga reunir, pode-se afirmar que representa a vanguarda da atividade cultural universitária : inclusive com relação às conexões entre essa atividade universitária e as demais atividades humanas de vanguarda: tanto as da região em que esteja situada uma unidade universitária, quanto as de conjuntos de regiões afins – os trópicos, por exemplo – e as do mundo moderno, em geral, em suas várias fases de desenvolvimento.

Sob êsse critério, o primeiro seminário do tipo Tannenbaum, que me aventuraria a sugerir para Universidade do Recife, seria o que se reunisse em tôrno de uma sistemática tropicológica com implicações várias : filosófica, por certo, e humanística, mas também científica: médica, agronômica, industrial, urbanística, rurbanística, arquitetônica, etc. Implicações e aplicações . Estas aplicações teriam por seus principais objetos, num seminário para tais estudos que aqui se estabelecesse, o Brasil: seu espaço, em grande parte tropical e o brasileiro, gente decisivamente tropical ou tropicaloide em sua ecologia, em seu comportamento, em sua cultura; e, dentro do Brasil, particularmente, os dois Nordestes, o ùmidamente tropical e o àridamente tropical e, de modo todo especial a cidade do Recife como metrópole de região tropical e sede de uma universidade que, para ser ecológica ao mesmo tempo que universalista em seu modo de ser universidade, precisa de aperceber-se da tropicalidade da sua ecologia e do caráter especìficamente tropical de vários dos problemas da região e das formas mais características da expressão dessa mesma região em arte, em indústria e, de maneira geral, em cultura. Cultura no sentido sociológico ou antropológico.

O Professor Nelson Chaves vem insistindo comigo quanto à conveniência de fundar-se no Recife um centro ou instituto de Tropicologia Geral, dado o fato – que êsse eminente mestre universitário salienta – de virem partindo desta cidade estudos e iniciativas de vanguarda com relação à matéria : matéria complexa e até hoje dispersa. Parece-me que a fundação de um seminário para o estudo em conjunto, dentro da técnica Tannenbaum de seminário, de quanto de deva considerar matéria tropicológica de análise e de tentativa de síntese, seria melhor solução par aquela problemática, objeto das preocupações do Professor Nelson Chaves, que um seminário do tipo Tannenbaum; mais burocrático; menos dinâmico; menos flexível; menos capaz de lidar com problemas de sistematização de uma matéria dispersa, na fase heróica dêsse esfôrço de sistematização.

O interêsse por uma sistemática dessa espécie começa a manifestar-se em vários países, quer tropicais, quer não- tropicais, voltando-se vários dos interessados no assunto para o Recife, onde de fato já existe, na Universidade federal, no seu Instituto de Ciências do Homem, uma Divisão de Antropologia Tropical, por algum tempo instituto autônomo, ligado à Faculdade de Medicina; e pioneiro na matéria . Ainda há pouco, um de nós recebeu cartas do Canadá, do Professor Roland Lamontagne, da Universidade de Montreal, desejoso de ser versado pelo Professor Gonsalves de Mello; de Malaca, de Antilhas Francesas no século XVIII – assunto que poderia ser versado pelo Professor Gonsalves de Mello; de Malaca, de um oriental interessado no confronto entre sobrevivências de caráter lusotropical na Ásia e o desenvolvimento dos mesmos valores no Brasil, de onde lhe parece que poderiam ser irradiados, com modernizações aqui já adquiridas, para outros espaços tropicais; da Bélgica, de um estudante do Instituto Superior de Ciências Econômicas Teóricas e Aplicadas, de Anvers, que deseja realizar seus estudos de doutorado entre nós, sendo sua especialização, nas suas próprias palavras "l’ economie rurale tropicale et en particulier ce que sera d’ailleurs l’object de mon étude, l’economie rurale lusotropicale". Trata-se de Mlle. Nicolle Suetens. No mesmo sentido é outra carta, recebida por um de nós, do Professor Vasco da Fonseca, de Portugal, enquanto também de Portugal nos escreve outro Professor, Howarth, anunciando ser provável, em futuro próximo, o estudo do passado lusitano, nos liceus portuguêses, com expressão, em grande parte, de uma experiência simbiòticamente lusotropical. Assunto que vem interessando senegalêses como Leopold Senghor e motivou o convite recebido há pouco por um brasileiro do Recife para professar a matéria – Tropicologia, Lusotropicologia, Civilizações Modernas nos Trópicos - na mais antiga Universidade da Nigéria. Explica-se assim o interêsse despertado entre gentes universitárias britânicas, fracesas, belgas e holandêsas pelo anúnco de um curso para estrangeiro, projetado – mas fracassado, ano após ano – na Universidade Federal de Pernambuco, para estrangeiros. Teria sido uma espécie de curso de férias, dos que se vêm realizando com sucesso em Madrid, em Coimbra e na cidade do México – e que teria por objetivo a iniciação de tais estrangeiros no estudo da civilização brasileira como uma civilização moderna em desenvolvimento num espaço tropical. O que recordo para dar ênfase à conveniência de organizar-se sem demora, nesta mesma universidade, um seminário do tipo Tannenbaum, sôbre Tropicologia. Seminário que, consolidado, faria as vêzes, de modo menos dispendioso, do fracassado curso a que acabo de referir-me e do centro ou instituto da concepção do Professor Nelson Chaves. Pois um Seminário de Tropicologia, do tipo Tannenbaum, poderia ser organizado, na Universidade Federal de Pernambuco, com o mínimo de institucionalização: apenas o essencial. A Instituição é, no caso, a Universidade no seu conjunto.

A Universidade é, com efeito, como já acentuou o Professor Newton Sucupira em suas lúcidas considerações sôbre a universidade brasileira, uma instituição. Quem diz instituição diz institucionalização de interrelações . No caso, interrelações não só de mestres com aprendizes como de mestres e aprendizes com administradores e de indivíduos e grupos empenhados principalmente em tarefas de pesquisas. Essa institucionalização de interrelações pode chegar, e tem chegado, a uma tal ordenação, hierarquização arregimentação, burocratização, que nela, a dinâmica seja dominada pela estática, com o perigo de anquilosar-se o conjunto ou deteriorar-se grande parte dêle.

É a êsse perigo que o seminário do Tipo Tannenbaum, sem se tornar um órgão pròpriamente institucionalizador ou institucionalizado, como é a cátedra, como é a faculdade, como é o departamento, como é o próprio instituto, vem servindo, e tende a servir, com o seu mínimo de configuração burocrática, de corretivo. Pois dentro de um moderno complexo universitário, tal tipo de seminário vem sendo menos um órgão de sistemática institucionalizante que expressão viva de um processo de interrelacionamento de saberes intra-universitários; e de saberes universitários, assim interrelacionados, com os extra-universitários. Com atividades extra-universitárias.

Há até quem se oponha à idéia da antropóloga Margareth Mead de passar a Universidade de Columbia a suprir não só de espaço especial, como de edifício também especial, na área universitária, os vários seminários do tipo Tannenbaum que ali já florescem, pelo temor de que daí venha a resultar a burocratização de uma fôrça até agora tão livremente criadora, dentro de um complexo composto de órgãos necessàriamente mais conservadores do que criadores. Mais conservadores que ampliadores ou modificadores de saberes universitários.

Impossível, a propósito dos temas ou dos problemas que devam ser os da preferência de outros seminários do tipo Tannenbaum, além do de Tropicologia, que, porventura, venham a ser organizados na Universidade Federal de Pernambuco, deixarmos de considerar aquele já referido aspecto regional da missão ou da atividade da mesma Universidade. é um aspecto – repita-se – que não prejudica o quanto deva haver de nacional, de continental, de universal, na mesma atividade, mas, ao contrario completa-o . Especializando-se, em pesquisa e em ensino, em estudos, quer arqueológicos quer sociológicos, regionais – entre êstes, o de sociologia da migração – a Universidade do Estado de Israel – um exemplo – não deixa de ser uma das mais animadas por preocupações universalistas dentre as modernas universidades. O mesmo é certo de outras universidades da Europa, do Oriente, das Américas: não se despreocupam do que entendem ser seus compromissos com solicitações de caráter concretamente regional, seduzidas por um excessivo abstracionismo.

Daí, neste ponto, concordar com o Professor Gláucio Veiga, em seus perspicazes comentários à conferência sôbre " Universidade Brasileira" do Professor Newton Sucupira. Isto é, entendo que se deva dar ênfase ao aspecto regional da atividade universitária – no caso, a da Universidade Federal de Pernambuco – quer se trate de ensino quer, principalmente, de pesquisa. De modo que os seminários de tipo Tannenbaum que aqui se estabelecessem, deveriam, por sua vez, dar preferência ao estudo interrelacionista de problemas de caráter concretamente regional sem que isto impedisse tal estudo, pelo próprio fato de se desenvolver por métodos de dinâmica interrelação de saberes, de atingir o abstrato nesses mesmos saberes. Porém partindo de realidades próximas, concretas, permanentes.

O próprio conceito de "trópico" – dada a sugestão já feita para, na Universidade Federal de Pernambuco, se realizar um seminário de tipo Tannenbaum sôbre tropicologia- é um conceito regional. Ecológico. E sabemos todos que nas ciências das chamadas da natureza, do tipo da botânica – não se faz pesquisa ou estudo em profundidade, quando falta à pesquisa, ou o estudo, critério ou orientação ecológica, servida por métodos de análise e até de interpretação correspondentes a situações especìficamente regionais. Tôdas as universidades, sobretudo as de maior porte – e dentro de uma universidade, qualquer seminário do tipo Tannenbaum – estão como que obrigadas a atender às suas situações : a serem situacionais e, por conseguinte, até certo ponto, regionais.

Referí-me já à predominância de indivíduos de idade proveta nos seminários de tipo Tannenbaum . Isto sem exclusão, de modo algum, de indivíduos ainda jovens, quando tidos por excepcionalmente notáveis pela originalidade ou pela criatividade já demonstrada em qualquer saber.

A maturidade intelectual sendo uma das condições para a participação efetiva nos mesmos seminários, compreende-se a predominância nêles dos "senior scholars", inclusive dos professôres eméritos. O fenômeno se prende ao aumento, que vem sendo crescente, nos Estados Unidos, da média de vida, com repercussões nos meios universitários e intelectuais que vêm importando numa revalorização dos "senior scholars" e numa presença dêles, em atividades universitárias, sob o aspecto menos de conservadores do que de elementos independentes nas suas críticas, arrojados nas suas idéias, experimentais nas suas atividades, livres, como se encontram, de compromissos com aquela rotina que parece fazer, nos próprios meios universitários, de vários dos indivíduos de meia-idade biológica, isto é, de idade entre os 35 ou 40 e os 60 ou os 65 anos, uma espécie de alta classe média ou de alta burguesia no tempo, com atividades caracterizadas mais pela prudência, pela medida, pela defesa, até certo ponto, útil a qualquer instituição, dos interêsses estabelecidos e dos padrões consagrados nessa e por essa instituição, do que por aquela independência na crítica e por aquêle arrôjo inovador. Estas características, em vários "senior scholars", vem-se verificando, com o aumento da média de vida em certos países e o aumento, em consequência dêsse fato biológico ao mesmo tempo que sociológico, de professôres eméritos nas universidades em plena posse de sua lucidez e de sua vivacidade de inteligência; e cuja tendência é para coincidências, em vários pontos de pensar e de agir, com os muitos jovens, sem compromissos, por esta sua condição, com interêsses estabelecidos.

Vê-se, por êstes informes, que o seminário de tipo Tannenbaum se distingue por um ânimo inovador, por uma liberdade de expressão, por uma franqueza crítica, que lhe dão característicos de organização antes jovem que senatorial, a despeito, da predominância, em vários dos seminários de que participei recentemente na Universidade de Columbia, de elementos provetos pela idade e pelo saber. Mas elementos provetos, de ânimo e de atitudes jovens, destaque-se mais uma vez, para fixarmos o que há de renovado e de renovador no tipo Tannenbaum de seminário; e que faz dêle antes expressão de um processo livremente crítico e, por vêzes, criador, que uma institucionalização a mais num complexo universitário.

Não faz muito tempo, em conclave interuniversitário britânico, reunido em Londres, o Professor Edmond Wright, da Universidade de Glasgow, levantando-se contra a idéia de existirem universidades tão sòmente para formarem profissionais ou especialistas, em cursos a prazo fixo e só para jovens, definiu a autêntica universidade como sendo " a collection of scholars of all ages from 17 to 70 learning from each other all the time". Conhecesse êle seminários do tipo Tannenbaum, de que professôres eméritos de mais de 70 são participantes valiosos, e estenderia a projeção no tempo dessa constante interrelação de scholars de diferentes idades, que, a seu ver, constitui o essencial da comunidade universitária.

Entre nós, pensemos no que a Universidade Federal de Pernambuco poderia ter ganho se, já funcionando nela seminários do tipo Tannebaum, tivesse continuado a recolher, com evidente proveito para a sua cultura, contribuições de eméritos da alta inteligência de um Odilon Nestor, de um Gondim Filho, de um Barreto Campelo, de um Barros Lima, de um Newton Maia, de um Arsenio Tavares, aos setenta anos postos de lado por esta universidade enquanto em Paris, depois dos 70, continuaram ativos um Rivet, no Museu do Homem, da Universidade de Paris e um Lefebvre, no colégio de França, na Universidade de Colônia, continua ativo um Von wiese e na de Munster, um Freyer, e na de Columbia, continuaram ativos um Boas, até os 80 e até quase 90, um Dewey.

O Seminário tipo Tannenbaum começa a ser funcional pelo modo por que, senão institucionaliza, torna possível, normal e efetiva, a participação do senior, do próprio emérito, na comunidade universitária. E a comunidade comunidade universitária, repita-se que, segundo o Professor Wright, faz que os mais jovens aprendam dos mais velhos e os mais velhos aprendam dos mais jovens, completando-se, corrigindo-se, aperfeiçoando-se em proveito de uma comum cultura universitária.

Assim, não é só em relação com o moderno aumento de média de vida, inclusive entre mestres universitários, que os seminários de tio Tannenbaum se impõem à nossa atenção como um acréscimo essencial a um conjunto universitário de agora, pela oportunidade de expressão e de atividade que dá aos cada dia mais numerosos indivíduos de idade proveta dentro dêsse conjunto: também êsse tipo de seminário corresponde a uma nova situação nos países desenvolvidos e em desenvolvimento pelo fato de tornar possível a uma universidade moderna obter o máximo, por assim dizer até a última gota, dos seus indivíduos supradotados, aproveitando-lhes a inteligência, o saber, a independência crítica, em sua fase já de velhice mais ainda de lucidez: lucidez crítica, sábia e por vêzes criadora. As universidades de hoje, mesmo em países igualitários, estão dispensando cuidados especiais aos indivíduos supradotados, tanto quando jovens, e ainda em formação, como depois de atingida por êles a idade convencional de jubilação, para que a Universidade e a Comunidade obtenham dos dons superiores ou excepcionais desses supradotados o máximo, sem perda alguma do que um Bertrand Russell possa ainda produzir de genial aos noventa anos ou um Freyer aos oitenta ou um Heidegger ou um Gurvitch ou um Sorokin depois dos setenta. Trata-se de uma orientação que talvez possa ser acusada de élitista, isto é, de um tanto aristocràticamente valorizada de elites, dentro dos sistemas universitários. Mas se vem sendo esta a orientação, com relação aos supradotados em ciências físicas e naturais, da teòricamente igualitária União Soviética, seria excesso de ortodoxia igualitária da parte das nações intituladas democráticas, não seguirem critério igual, tornando-se, em vez de democracias simplesmente igualitárias, meritocráticas: neologismo já hoje corrente.

De interêsse para nós é a pergunta de Mead acêrca do seminário do tipo Tannenbaum : " Is such an institution possible in any university setting"? Segundo ela, "surely it is". Isto é, o seminário de tipo Tannenbaum não exige condições idênticas às que lhe oferece uma universidade da grandeza metropolitana e do caráter cosmopolita da Universidade de Columbia. Pode adaptar-se a outras universidades.

É claro que seria um tanto ridículo numa Universidade de região em parte subdesenvolvida e de província, como a Universidade Federal de Pernambuco, organizar-se um seminário para o estudo do Renascimento . Mas nada nos impediria de organizar aqui seminários do tipo Tannenbaum com objetivos não só pragmáticos, tendo em vista o estudo, por diferentes especialistas, de problemas especìficamente regionais ou brasileiros, como de inspiração platônica: para o estudo de assuntos que, interessando à cultura universitária, não se relacionem de modo direto nem com necessidades concretas nem com problemas específicos da região.

Também parece estar se impondo ao Recife, isto é, à sua principal Universidade e às suas demais instituições de altos estudos e, ainda às universidades do Nordeste e até do Brasil inteiro, uma perspectiva não só brasileira como atlântica, não só nordestina ou mineira ou centro-meridional ou gaúcha, como tropical, hispanatropical, lusotropical, e por conseguinte, transregional, para o estudo, quer por meios convencionais, quer pelo meio arrojadamente experimental que o seminário tipo Tannenbaum representa, de problemas que, não de todo práticos ou úteis nas suas repercussões imediatas, ou sejam, a prazo menos curto, do ponto de vista não só pan-brasileiro como pan-humano, sendo antes, intermediàriamente pan-tropical.

De uma autêntica universidade nunca deve estar ausente o sentido universalista, ecumênico, da cultura e do saber que nela deve ser desenvolvido, visando não apenas objetivos de interêsse imediato como de importância projetada sôbre o futuro: sôbre o futuro pan-humano, em geral, e, no nosso caso, sôbre um futuro mais que nacional, porém situado ou condicionado por um complexo transregional, em particular. êste futuro, do ponto de vista brasileiro, é o de uma comunidade em desenvolvimento nos trópicos, o de uma cultura em processo de consolidação, em áreas tropicais, o de nôvo tipo de homem através de crescente interpenetração eurotropical de raças e de culturas regionais ou nacionais. Culturas, é claro, no seu amplo sentido antropológico ou sociológico: incluindo indústrias, técnicas disto ou daquilo, aspectos dos chamados materiais de vivência e de convivência, como aqueles com que lidam engenheiros, arquitetos, urbanistas, sanitaristas, pedologistas.

Lembremo-nos – em conclusão – da origem da palavra seminário . Considerada nas suas bases, a palavra significa parte do viveiro de plantas em que se fazem as sementeiras. Significa centro de criação ou produção. é a palavra parenta de seminal, de semente, de sêmem. De modo que tem que ver com comêço de vida. Uma enciclopédia idônea informa significar a palavra seminário, "em sentido amplo, círculo de estudos em que universitários ou especialistas realizam investigações sôbre determinados problemas científicos"; enquanto, em sua "acepção restrita, o têrmo se refere a estabelecimentos de ensino onde são preparados jovens que se destinam à vida eclesiástica".

A verdade, porém, é que, contra esta definição de seminário no seu sentido restrito, há institutos de ensino, cujos educandos não se destinam à vida eclesiàstica. E contra a definição de seminário no seu sentido amplo, oferecida pela mesma ilustre enciclopédia, deve-se notar que o círculo de estudos chamados, em moderna sistemática universitária, seminário, não se destina exclusivamente à investigação de problemas, mas também à de temas que não sejam rigorosamente problemas; e temas não apenas científicos, ou, no sentido corrente da expressão, científicos, porém humanísticos, isto é, filosoficos, históricos, literários, artísticos; e também mistos, interrelacionados anfíbios ou tríbios em seu modo de lidarem com expressões de vida.

Dou ênfase ao fato de tais temas serem expressões diversas de vida porque o seminário, quer pela própria origem da palavra, quer pelos desenvolvimentos mais altos dessa quase instituição, dentro de modernos complexos universitários, cada dia significa mais a capacidade de homens de estudo para, reunidos em grupos constituídos por indivíduos intelectualmente maduros e, tanto quanto possível, iguais em suas aptidões para o intercâmbio intelectual, especializado ou interrelacionado, realizarem obras em que se alarguem ou se intensifiquem, por êsse meio, conhecimentos associados ao maior ou crescente domínio do Homem sôbre a vida, a natureza, a tecnologia: conhecimentos que se disseminem de cada seminário a outros centros, menos intensos, porém mais amplo, de estudo e de ensino, universitário: e atividades.

O fato de ser hoje a palavra seminário, para designar atividade universitária ou para-universitária de investigação e não, diretamente, de ensino, muito usada e abusada, não nos deve afastar do que ela significa de mais nobre e de mais genuíno. Considerada no que ela tem de mais nobre e de mais genuíno, a sistemática do seminário não é superada por nenhuma outra, nem em nobreza nem em autenticidade, dentre as que formam um moderno complexo ou uma moderna constelação universitária. O seminário do tipo Tannenbaum parece representar atualmente a expressão mais alta dessa sistemática.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Um Novo Tipo de Seminário (Tannenbaum) Em Desenvolvimento na Universidade de Columbia: Conveniência da Introdução da sua Sistemática na Universidade Federal de Pernambuco. Recife: Imprensa Universitária, 1966.

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